Capítulo Especial: Sagrado
Sagrado
Estes
escritos foram encontrados no interior profundo da Granite Cave, próximo da
Cidade de Dewford, na região de Hoenn. Os cientistas não conseguem compreender
ainda como tais pergaminhos, datados de cerca de dois mil e quinhentos anos atrás, conseguiram sobreviver por tanto
tempo, praticamente intactos, quase como se algo mágicoos tivesse selado. Apesar da linguagem antiga, foi possível
traduzi-lo e hoje se pode ter uma noção de como a sociedade daquela época viveu,
como era o seu relacionamento com os Pokémon e parece contar sobre como era o
mundo naquela era longínqua.
◒◒◒
Alfa
I.
Os
rios continuavam indo atrás do mar. Eu estava lá quando tudo sucumbiu. E então,
em um piscar de olhos, tudo desapareceu.
Na verdade, eu nunca soube muito bem onde dera errado. Nós tínhamos os
melhores engenheiros, os melhores materiais, as melhores equipes de homens e
Pokémon noite e dia, dia e noite, debaixo de chuva e sol, levantando cada
centímetro quadrado daquela torre e, no fim das contas, tudo deu errado. E deu
errado, não porque não sabíamos por que
fazíamos, mas esquecemos para quem
fazíamos.
Os rios continuaram indo atrás do mar. E foi
aí que tudo se perdeu.
II.
Houve
um tempo em que a terra era inteira. Uma única massa que era contornada pelo
infinito oceano. Ao menos, éramos o que nós acreditávamos e não havia nada no
mundo que nos fizesse duvidar disto. Vivíamos em harmonia com as águas, pois
das águas nós tirávamos nosso sustento. E graças às bênçãos do nosso deus
Kyogre, o leviatã, nós do Povo da Água nos orgulhávamos de nunca deixar nada
faltar para os nossos irmãos que da terra também faziam morada. O que o mar nos
trazia, dividíamos e compartilhávamos com povos de outras aldeias, muitas delas
distantes, que vinham apenas para conseguir um pouco de comida e água. Alguns até
ficavam e passavam a ajudar nos trabalhos com a pescaria e navegação. E, quando
nos demos conta, havíamos nos tornando um único, uma unidade, como o mar. Como
uma família, um por todos, todos por um. E os rios continuavam indo atrás do
mar.
III.
Conforme
os rios continuavam indo atrás do mar, houve a necessidade de devolver ao nosso
deus Kyogre todas as bênçãos que Ele nos dera. Ao nos reunirmos para discutir
com os demais aldeões sobre esta necessidade, logo alguém sugeriu que
poderíamos construir um lar, em terra, para que Ele pudesse estar mais próximo
de nós, o Povo da Água. Seria algo majestoso, tal qual nosso deus Kyogre, que
em tudo nos abençoa e em tudo nos provê.Logo, eu fui incumbido de registrar
nestes pergaminhos todo o progresso do projeto, desde suas concepções iniciais
até o local onde seria construído. E, posso dizer sem sombra de dúvidas que
escolhemos o lugar mais bonito que nosso deus Kyogre poderia ter moldado. As
areias brancas delineavam o beijo entre a terra e o mar. As ondas tocavam-nas de
forma tão suave que pareciam saber que acariciavam algo sagrado. Quando o sol
alcançava o ponto mais alto do céu, era como se nós pisássemos em diamantes.
Diamantes brilhantes, cujo brilho nos ofuscava. Às vezes, parecia até que
aquele lugar não podia existir de verdade.Era como se estivéssemos dentro de um
sonho maravilhoso do nosso deus Kyogre. Como se Ele próprio mostrasse para nós,
necessitados de Sua benevolência, que era exatamente ali que Ele queria que
construíssemos o monumento que honrasse Vossa Magnificência. Os rios
continuaram a seguir atrás do mar e logo passamos a erguer o monumento, que
planejávamos que fosse tão grandioso quanto a graça do nosso deus Kyogre, o
leviatã.
IV.
Dias
se passavam enquanto os rios seguiam atrás do mar. Necessitávamos de ajuda,
portanto homens de diversas partes da terra, que era inteira, vieram nos
auxiliar. Outros Pokémon também vieram com eles. Todas as noites nos reuníamos
para compartilhar os milagres e as bênçãos do nosso deus Kyogre para os homens
para que todos entendessem o motivo de estarmos fazendo aquele monumento. Ele
já tinha muitos metros. Pelo menos três andares da estrutura já estavam bem
sólidos, fincados no solo como as montanhas que cercavam nossa terra sagrada.
Nós também permitimos que as mulheres viessem e contribuíssem com os louvores
ao nosso deus Kyogre. Elas ajudavam com música e cânticos, dando-nos força a
cada amanhecer para continuarmos os trabalhos. Das mãos delas, começaram a
surgir as esculturas que colocaríamos no interior da torre para que nosso deus
Kyogre se alegrasse quando viesse dos mares para nos conceder sua bênção.
V.
Até
que um dia, como um rio turvoque buscava o mar revoltoso, houve os primeiros
indícios de que as coisas não estavam bem. Nuvens negras de tempestade
aproximavam-se com velocidade e grande temor sobre nós. Não sabíamos o que
tínhamos feito para que nosso deus Kyogre ficasse com raiva. Imaginamos que talvez
as mulheres tivessem feito algo. Nunca havíamos visto tamanha chuva. Os raios
rasgavam o céue os trovões nos ensurdeciam. Nossos pés sentiam o chão tremer e
as ondas do mar estavam tão altas quanto nossa torre. Nos escondemos durante
três dias e três noites, pois toda a fúria daquela tempestade não cessou tão
cedo. No amanhecer do quarto dia, nós vimos a torre de pé. E aí, nós entendemos
que nosso deus Kyogre todo poderoso havia Ele mesmo se certificado que o
monumento que nós estávamos construindo era digno de sua grandeza. É claro, só
podia ser. Então cantamos cânticos e louvamos pela Sua graça.
VI.
Eu
escrevo nestes pergaminhos o que testemunho com meus próprios olhos. Mas, mesmo
quando não posso ver, permito-me transcrever o que me confidenciam. Desta vez, porém,
não sou capaz deconfirmar com certezaa respeitoda veracidade destes relatos. Os
homens de longe que vieram nos auxiliar diziam que O viram por entre as nuvens.
Que havia sido Ele quem havia trazido a tempestade para testar a nossa
construção e que havia sido Ele próprio quem cessou a tempestade. Hereges! Não
há, nem poderia haver outro deus senão o nossomagnífico e benevolente deus
Kyogre, o leviatã.Foi nosso poderoso e onipresente Senhor quem nos testou e nos
aprovou em sua infinita misericórdia e sabedoria.Os rios continuavam indo atrás
do mar. A torre que serviria de aliança entre nós e nosso deus Kyogre começou a
sofrer interferência dos homens que habitavam a terra, que era inteira, assim
como de suas mulheres, e assim passaram a cultuar este novo Ser que diziam ser
o Senhor dos mares e dos céus. Imagens eram moldadas e construídas para este
novo Senhor dos mares e em nada se assemelhavam ao nosso deus Kyogre, o
leviatã. Louvavam nova criatura.
VII.
Os
anciães do Povo da Água não aceitaram tamanho desrespeito e heresia, e logo
iniciou-se um conflito entre o nosso povo e os homens que habitavam a terra,
que era inteira como o mar. E, assim como o mar vinha beijar as areias que,
outrora eram brancas e brilhavam como diamantes, o mesmo mar levava os corpos e
limpava o vermelho do sangue que agora tingia as areias,tornando-as opacas.Em
nossa torre, as coisas também se dividiam. E assim como o rio continuavam indo
atrás do mar, a cada novo dia uma nova escultura surgia. As que representavam
nosso único, verdadeiro e glorioso deus Kyogre, o leviatã, nos entalhes de
barbatanas titânicas que enfeitavam a parede ao leste. Enquanto do lado oposto,
grandes esculturas de asas abertas que representavam o falso deus da água
erguiam-se como a provocar a ira não só do Povo da Água, mas também a do nosso deus
Kyogre.
VIII.
Eu,
como escriba, acreditei verdadeiramente que estes pergaminhos falariam sobre
união, um único, a unidade que a torre que construímos para o nosso deus Kyogre
representaria para nós, o Povo da Água, e os homens que habitavam a terra, que
era inteira. O rio buscava o mar e eu via que cada vez mais os meus olhos me
faziam registrar ruínas. E isto ficou ainda mais claro quando em meio ao
conflito, uma nova tempestade se formou no horizonte, vindo em direção à nossa
terra sagrada. Prestamos cânticos e louvores ao nosso deus Kyogre.
Oferecemos-lhe sacrifícios para que, em sua infinita misericórdia, nos poupasse
de pagar pelos pecados que os homens que habitavam a terra, que ainda era
inteira, cometeram. Foram eles os hipócritas, não nós. Foram eles os hereges, não
nós. Foram eles que blasfemaram nossa terra sagrada e o nome de nosso deus
Kyogre, não nós. Subiram no topo da torre que construímos e que havia se
tornado tão alta quanto as montanhas fincadas no solo de nossa terra sagrada. Os
fortes ventos que sopravam do oceano em nossa direção eram um indicativo de que
as nossas preces seriam atendidas, mas não do jeito que imaginamos.
IX.
Eu
estava lá quando tudo sucumbiu. E então, em um piscar de olhos, tudo
desapareceu. Do meio das nuvens negras de tempestade, surgiu um ser cujos
braços eram asas. Eu mal pude acreditar no que os meus olhos viam. Os homens
que habitavam a terra, que era inteira, levavam as mãos para o céu agradecendo
pela graça que era olhar para aquele deus. A criatura deu um grito que rasgou o
ar e de suas poderosas asas, ventos poderosos foram lançados em nossa direção. A
torre que nós construíamos enquanto o rio continuava indo atrás do mar logo
veio abaixo. Não havia mais sentido em mantê-la erguida já que nós, como homens
que habitavam aquela terra, que era inteira, não estávamos mais unidos.
X.
Esquecemos
para quem fazíamos. O nosso todo
poderoso deus Kyogre, o leviatã. Duvidamos de sua existência por um breve
período de tempo. Nos deixamos cegar pela imagem magnífica daquele ser alado do
meio das nuvens de tempestade. E Vossa Benevolência, nosso deus Kyogre, não
admitiu esse pecado entre nós, o Povo da Água. Ergueu-se majestoso por entre as
ondas e nos permitiu um breve vislumbre de sua magnífica imagem antes de
contribuir com a destruição de nossa bela terra, que deixara de ser inteira. Eu
não pude ficar para testemunhar o duelo entre nosso deus Kyogre contra aquele
falso deus, Lugia.Me escondi por entre as colunas do que restara da torre
enquanto tentava me afastar o mais longe que podia, ouvindo o céu rachar e a
terra, que antes era inteira e que agora estava dividida, gemer. Quem conseguiu
sobreviver à fúria dos deuses, me contou depois que ambos racharam a terra e
separaram-na em dois pedaços. Parece que resolveram punir toda a nossa heresia
em conjunto, para que nunca mais nos esqueçamos de que nossas preces são
ouvidas... Mesmo que às vezes não saibamos por
quem.
◒◒◒
Ômega
Nove pergaminhos agora jaziam em cima da
luxuosa mesa de carvalho, iluminada por velas acesas em candelabros espalhados
pela sala ampla. A janela panorâmica dava vista para o mar, apesar de, naquela
altura da noite, só poder ser visto o reflexo distorcido da lua minguante em um
prateado bruxulear nas águas que ondulavam lá embaixo, na costa.Não que aquilo
fosse um casebre, estava muito longe de parecer com um, apesar das paredes
aparentemente construídas com madeira. Carvalho, claro. A casa que permanecia
firme no topo do morro chamava a atenção de qualquer visitante que turistava
pelas praias e esquinas da Cidade de Lilycove.
Sentados no centro da espaçosa sala de estar,
um grupo de pessoas que prestavam atenção em uma mulher morena que se mantinha
de pé, com cabelos negros volumosos que destacavam algumas mechas de cor azul
em suas madeixas. O silêncio só era cortado pela voz austera que ela impostava
como forma de adquirir respeito de grande parte dos colegas, homens, com quem
ela dividia funções.
As atenções se voltavam entre ela, que
terminava de ler o último pergaminho, com um homem sentado atrás da luxuosa
mesa de carvalho, em sua cadeira de couro legítimo, que acarinhava a sua barba,
perfeitamente alinhada, com os dois polegares enquanto repousava a cabeça sob
as costas das mãos, numa atenção hipnotizante na mulher à sua frente.
— “A
terra não era mais uma só. Agora era dividido em um enorme abismo azul que se
misturava entre o céu e o mar” — ela lia. — “Separando os sonhos dos homens que moravam na terra, que agora era
separada, dos irmãos que louvaram ao único Senhor dos mares, nosso deus Kyogre.
Nós, o Povo da Água. Os homens seguiram a correnteza do rio que buscou o mar
rumo ao norte e lá fizeram morada. Nós, o Povo da Água, como a água, nos
adaptamos e nos moldamos, cavando na terra, que não era mais inteira, uma nova
unidade. Eu, talvez o único escriba que tenha visto meu deus Kyogre
todo-poderoso a olhos nus e sobrevivi para contar a história, cruzei a terra e
nesta caverna enterro estes pergaminhos na esperança de um dia alguém do amanhã
ler estes registros e passar a louvar a quem é digno do verdadeiro culto,
pedindo que a minha alma seja perdoada e salva pelo nosso deus, Kyogre, antes
de Ele acordar de seu sono profundo e afogar os pecadores em suas águas
turbulentas mais uma vez.”.
O silêncio voltou a tomar conta da sala por
alguns instantes antes de um homem parrudo, com um porte físico tão grande que
seus músculos pareciam que iriam rasgar a camisa azul que vestia a qualquer
momento, abordar diretamente o homem sentado atrás da mesa de carvalho.
— O que o senhor acha, chefe? Será que podemos
realmente acreditar nisso?
Houve um instante de hesitação entre todos os
presentes. As atenções se voltaram ao homem de barba que era o líder, que
mantinha seu semblante inelegível.
— Matt. Você é bom em geografia?
Matt, o homem parrudo, pareceu não entender a
pergunta. A morena que se mantinha de pé, próximo ao grupo, fechou o
pergaminho, se dirigiu à mesa de carvalho e o colocou delicadamente junto aos
outros. Sem fazer muito alarde, pegou algo ali próximo. Parecia um outro
pergaminho, só que bem maior, enrolado de uma maneira um pouco mais grosseira.
Estendeu-o no centro da sala de estar, onde os olhos dos outros repousaram e o
abriu.
Não era um pergaminho, era um mapa-múndi. Matt
agachou-se para segurar a outra ponta do mapa, auxiliando a mulher.
— Obrigado, Shelly — agradeceu o homem de
barba com um sorriso.
— A região de Hoenn. Bem aqui onde nós estamos
— a morena apontou com o indicador. — Entre nós e a região de Johto, há um
oceano que nos separa. Posso confirmar que a terra indicada nos textos antigos,
que era uma só, são hoje duas cidades que curiosamente estão separadas do
continente ao qual pertencem: Dewford, a leste, e Cianwood, a oeste.
— Como uma cicatriz... — balbuciou Matt.
— Exatamente — confirmou o líder. — O que
comprova não apenas que a história é real, como nosso deus também é.
— Kyogre — assentiu Shelly, quase num
sussurro, como se fizesse uma prece.
— Mas o senhor não acha perigoso mantermos em
nossa posse esses pergaminhos? Afinal de contas, eles vão para o Museu de
Lilycove. Não podemos ter a polícia em nossa cola.
— Não se preocupe, Matt. Meu colega no museu
foi muito gentil em me ceder estes pergaminhos para averiguar sua veracidade.
Eles estarão expostos amanhã, conforme anunciado. Na verdade,a minha
preocupação é outra.
Houve um novo momento de silêncio. O homem de
barba não precisava fazer esforço algum para ter a atenção dos presentes.
— Naquela época, as pessoas passaram a duvidar
da existência de Kyogre por causa de falsos profetas que anunciaram a vinda de
um outro deus. Temo que isso esteja prestes a acontecer novamente e nós não podemos
deixar. Vamos devolver ao nosso deus um mundo perfeito,em ele possa voltar a
governar soberano, como nossos antepassados do Povo da Água assim desejavam.
Os membros presentes se encararam com olhares
de confiança.
— Em nome da Equipe Aqua! — bradaram em
conjunto.
— Pela glória do nosso deus, Kyogre — reforçou
Archie com um sorriso maligno.
Notas do Autor - Capítulo 40

Capítulo 40
Por trás da máscara
![]() |
| Art by: Auko |
Mauville estava tão movimentada
quanto da primeira vez que o trio passou por lá. Até porque não se esperava
menos de uma cidade situada no coração de Hoenn, com saídas em direção aos
quatro cantos da região. Sapphire era quem estava na frente, parando logo na
entrada e respirando fundo para sentir de novo o ar da cidade após algumas
horas caminhando debaixo do sol quente. Ruby e Vivi estavam atrás, ambos
conversando sobre contests e técnicas usadas em apresentações. Zinnia vinha no
meio, em silêncio, apenas observando as características da cidade.
Quando pararam perto do ginásio
Ruby puxou um mapa, procurando entender melhor a posição em que estavam, e
quanto tempo poderiam levar até chegar ao próximo objetivo.
— Vivi, daqui até o rancho da sua
família deve levar quanto tempo?
— Olha... — a garota iniciou a
resposta, mas ficou um tempo pensando, provavelmente calculando o a média de
tempo que levara em suas experiências. — Geralmente de seis a oito horas.
— Ainda é bastante chão. Melhor
passarmos a noite aqui na cidade, e amanhã vamos embora bem cedo — sugeriu o
garoto.
— Por mim tudo bem — disse
Sapphire. — Tem alguns lugares na cidade que não deu tempo de conhecer da outra
vez.
— Contanto que você não torre as
nossas economias no cassino, pode fazer o que quiser — Ruby comentou baixo,
enquanto ainda olhava o mapa.
— Mesmo se eu quisesse, eles iam me
impedir de entrar — a menina respondeu emburrada. — Mas eu tô ofendida por você
achar que eu sou o tipo de pessoa que ia perder a linha em um cassino.
— Que seja. Bom, todo mundo de
acordo?
Zinnia e Vivi assentiram, dando uma
resposta positiva à sugestão de Ruby. Tão logo a decisão foi firmada, os quatro
se dirigiram ao Centro Pokémon para fazer as suas reservas. Após se acomodarem
nos dormitórios, todos resolveram sair para agir suas próprias coisas.
Sapphire foi até uma das praças
procurar por treinadores para praticar um pouco. Zinnia queria experimentar
tudo que pudesse nas famosas sorveterias da cidade. Vivi, por sua vez, foi até
uma galeria comercial focada em treinadores, pois ouvira falar que lá havia
sido inaugurada uma lojinha com artigos para coordenadores.
Ruby foi o único a fazer algo que
não era apenas para ele. Com Sapphire e Zinnia sendo duas distraídas por
natureza, sobrava para ele a tarefa de sempre abastecer os suprimentos básicos
no PokéMart de cada cidade.
Assim foi feito. Após pegar todos
os itens necessários para continuar a viagem e pagar a conta no caixa com as
economias do grupo, o garoto estava de volta às ruas da cidade, podendo enfim
pensar em algum lugar aonde pudesse ir para fazer algo para si próprio.
Depois de pensar um pouco, Ruby
decidiu ir até um pequeno café de esquina situado perto do Centro Pokémon,
inspirado nos que se espalhavam por toda a parte em Kalos. Porém, apesar do
ambiente aconchegante, o café era pequeno, o que o fazia lotar mais fácil.
Quando o garoto atravessou a porta,
notou que o lugar estava abarrotado de gente, quase não dava para andar perto
do balcão de atendimento. Depois de disputar lugar com várias pessoas, quase
sempre sendo empurrado para trás, Ruby conseguiu fazer seu pedido. Assim que
caminhou com seu capuccino para fora daquele espaço apertado, o garoto sentiu a
sorte sorrir para ele pela primeira vez desde que tinha adentrado o
estabelecimento. Uma das mesas havia acabado de ficar livre.
Sem perder tempo, o menino avançou
em direção ao local, mas assim que se sentou percebeu que outra pessoa havia
feito o mesmo, mas na outra cadeira. Ele arqueou uma das sobrancelhas e dirigiu
o olhar em direção à figura que dividia a mesa com ele, já pensando numa forma
de dar um fora naquela pessoa inconveniente. Mas as palavras não saíram.
Ruby não sabia dizer o que naquela
garota o intrigava tanto. Por alguma razão, ele sabia que não eram os cabelos
tingidos de rosa em um corte chanel, por mais que tivesse que admitir que eram
chamativos. Talvez fosse o mesmo olhar intrigado que ela lhe dirigia.
— Ah, me desculpe. Eu não vi que
você também vinha na direção dessa mesa — a garota tinha uma voz suave, mas sem
parecer submissa. Era quase como se ela estivesse testando até onde seu charme
colocaria o garoto contra a parede. — Bem, o café está lotado. Se importaria se
dividíssemos?
— Ahn... — Ruby não conseguia
esconder que se sentiria desconfortável na presença de alguém que não conhecia,
mas também não a deixaria sem lugar para se sentar. — Claro que não. Pode ficar
à vontade.
A moça então relaxou em sua
cadeira, a afastando da mesa para dar espaço suficiente para que ela cruzasse
as pernas. E justo esse espaço maior possibilitou que Ruby reparasse em como a
maneira que ela se vestia poderia dizer pelo menos um pouco sobre a sua
personalidade.
Suas roupas eram leves, condizentes
com aquele dia quente. Apenas uma calça jeans e uma blusa branca de mangas
curtas. Mas ao mesmo tempo, alguns traços provocativos, além dos cabelos
coloridos, como um brinco posto em apenas uma das orelhas, usando a assimetria
como um toque de irreverência, e um decote que Ruby se esforçava ao extremo
para não olhar, por achar muito exagerado.
Percebendo a situação, a garota
pigarreou, despertando o garoto do transe em que se encontrava. Continuar a
conversa talvez o tiraria daquele estado de desconforto.
— Você não é aquele menino que
venceu o contest de Verdanturf no último fim de semana?
— S-sim, eu mesmo — aquela era a
primeira vez que Ruby era reconhecido como coordenador, e por isso não sabia
muito bem como reagir ao fato de que estava começando a se tornar um rosto
conhecido do público.
— Impressionante — a garota disse
com um tom mais devagar na sua voz, ao mesmo tempo em que digitava algo em seu
PokéNav, o que fez Ruby se questionar se aquele interesse era forçado. — Qual é
o seu nome mesmo?
— Ruby...
— Ok, Ruby. Eu me chamo Courtney. Quantos
anos você tem?
— Hã, dezesseis. Eu tenho dezesseis
— Ruby mal conseguia conter o nervosismo, dada a presença forte daquela garota,
de modo que seus impulsos eram mais rápidos que seu raciocínio. — E você? Ah,
desculpa! Eu não devia ter perguntado!
Courtney riu com o jeito
atrapalhado de Ruby. O menino não sabia dizer se ela se divertia com aquilo por
achá-lo um idiota ou de uma forma mais inocente.
— Relaxa, meu bem! Eu não me
importo com essas coisas. Eu tenho dezessete.
— Dezessete? — o garoto exclamou em
surpresa. — Você é mais nova do que eu pensava.
— Como é? — a garota arqueou a
sobrancelha, mas ao mesmo com um tom descontraído em sua face. — Tá dizendo que
eu pareço velha?
— NÃO! Pelo amor de Arceus, não é
isso. É só que...
Ruby começou a corar assim que
percebeu o que estava prestes a dizer. Courtney ficou curiosa com o que ele ia
acabar dizendo, e começou a tentar forçar a explicação.
— É só que...
— Eu não sei como dizer isso de uma
maneira não constrangedora — o garoto entrelaçava os dedos das mãos rapidamente
enquanto desviava o olhar para o teto ou qualquer outro lugar que não fosse a
cara de Courtney. — Seu corpo já é bem mais desenvolvido do que a maioria das
pessoas da sua idade.
Courtney ficou surpresa com o
comentário do garoto. Ruby paralisou em frente à garota com uma cara de
paisagem como se a alma tivesse deixado o corpo há muito tempo. Quando a mais
velha assimilou a situação, ela apenas deu um gole no chá, e após colocar a
xícara de volta à mesa, entrelaçou as mãos as usando de apoio para o rosto, que
ficou mais próximo do menino.
— Olha só, então você também repara
nessas coisas — ela disse com um sorriso travesso. — No fim das contas você não
é tão inocente quanto parece, garotinho.
— Eu não falei com essa intenção...
— Então por que ficou tão nervoso?
— o mesmo sorriso continuava estampado no rosto de Courtney. — Você não tem
muita experiência com garotas, não é?
— Podemos mudar de assunto?
— Como queira — disse a moça,
colocando uma pequena quantidade de adoçante no seu café e mexendo com uma
colher, mas sem deixar sumir seu sorriso descontraído. — Bem, está de passagem
aqui em Mauville? Onde vai ser seu próximo contest?
— Em Fallarbor. Mas antes vou para
Lavaridge porque uma amiga que está viajando comigo vai enfrentar o ginásio de
lá. Nós paramos aqui para estocar os suprimentos e passar a noite.
Ao ouvir um suspiro vindo de
Courtney, Ruby notou de relance que a garota tinha um sorriso diferente de
antes. O tom descontraído, quase debochado, dela agora dava lugar a uma
sensação estranha. Era como se aquele sorriso fosse uma máscara.
Ela que, por sua vez, encarava a
xícara de café enquanto tinha aquela expressão vaga, subiu seu olhar para a
janela do estabelecimento, encarando na direção da rua, mas era claro que o
lugar para onde ela olhava era mais distante, bem além das paredes das
construções do outro lado da rua.
— Entendo. É bom poder correr atrás
de algo. Ter esse tempo é um privilégio.
Sem saber como lidar com aquela
mudança repentina de clima, Ruby recorreu à sua melhor estratégia, que era se
fazer de desentendido.
— Do que você está falando? — o
garoto indagou. — Você tem só um ano a mais que eu. Você também tem esse tempo.
Quer ser uma treinadora ou coordenadora também? Por que não vai atrás?
Courtney ficou surpresa ao receber
aquela contestação. Pela primeira vez foi Ruby que a deixou sem resposta. Ela
agora não olhava para lugar algum, parecia tentar desembaralhar seus
pensamentos, enquanto o garoto apenas aguardava a conclusão daquele
questionamento.
Poucos segundos se passaram até que
Courtney concluísse que tentar achar uma resposta seria um esforço em vão. Ela
deu mais um sorriso discreto e voltou a mexer a colher na xícara, sem sequer
perceber que não havia colocado nada dessa vez que pudesse misturar ao café.
— Você é uma pessoa boa, sabia?
Ruby virou o olhar para o outro
lado quase que de imediato. Receber elogios não era seu ponto forte.
— Também não é pra tanto — disse o
menino, tentando disfarçar seu desconforto. — Eu só não vejo razão pra alguém
não seguir os próprios objetivos.
— É complicado. Muito complicado,
pra dizer a verdade.
Ruby sentia certa curiosidade ao
ver a mudança repentina de humor de Courtney. Aquela máscara de garota
provocativa parecia ter caído. Mesmo assim, não conseguia ler o interior dela
por completo. Ainda havia algo que ele não conseguia decifrar, mas não sabia o
que era. Só sabia que aquilo lhe causava uma sensação estranha, quase como um
alerta dizendo que ele deveria se afastar. Mesmo assim ele não poderia ser
indelicado com alguém que acabara de conhecer e nunca fizera mal algum a ele.
Percebendo que terminou seu capuccino,
Ruby se levantou da mesa, se dirigindo à garota que o acompanhou naquele breve
momento.
— Eu tenho que ir. Mas foi um
prazer, Courtney.
— Ah, claro. O prazer foi todo meu.
— Espero que pense no que eu disse.
Quem decide o rumo da sua vida é você, e mais ninguém. E você parece ser uma
pessoa bem decidida e firme. Eu acho que você consegue alcançar o que quiser se
tiver essa postura.
E assim ele caminhou para fora do
café, tomando seu rumo naquelas ruas movimentadas e deixando Courtney ainda na
mesa, reflexiva com aquela lição que não esperava receber de um garoto mais
novo que ela.
Sem mais reações, ela apenas
retomou o gesto habitual de mexer seu café, ainda que, mais uma vez, não tenha
colocado nada para misturar.
• • •
Enquanto caminhava de volta para o
Centro Pokémon, Ruby passou por uma praça e percebeu que Sapphire estava no
local. Mesmo depois de todo aquele tempo, a menina ainda batalhava com outros
treinadores que ali estavam. Ela tinha uma expressão visível de cansaço, mas ao
mesmo tempo parecia estar aproveitando ao máximo aquele momento.
Ruby se sentou em um banco próximo
para acompanhar a batalha, que a partir dali não durou muito até seu desfecho
com uma vitória para a menina. Após retornar Shroomish, ela viu que seu amigo
estava logo ao lado e caminhou até ele com um largo sorriso no rosto.
— Acho que fiz umas seis ou sete
batalhas. Acredita que eu ganhei todas? — disse ela enquanto abria uma garrafa
d’água dada por Ruby. — Fechei o dia a cem por cento!
— Nesse ritmo que você está eu
ficaria preocupado no lugar da líder do ginásio de Lavaridge — Ruby respondeu.
— Mas acho que você foi além do necessário. Seis batalhas é muito. Talvez você
aguente, mas seus Pokémons com certeza se desgastam mais do que você, porque
são eles que estão ali no confronto. Tente não puxar muito o limite deles, por
segurança.
— Eu sei, eu sei. É que a gente
acabou se empolgando. Mas saber que eles aguentaram tanto me deixa até
aliviada. Sinto que a gente consegue intensificar um pouco mais os treinos pra
que eles se desenvolvam mais rápido.
— Sim, mas um passo de cada vez,
como você e a Zinnia disseram pra mim — o garoto então pega as sacolas de
compras e se levanta do banco. — Enfim, vamos voltar? A essa altura, a Zinnia e
a Vivi já devem ter chegado também.
Sapphire sorriu para o menino,
mantendo suas mãos atrás. Os dois logo começaram a caminhar de volta para o
Centro Pokémon, onde poderiam dar aquele dia por encerrado.
— Vamos — disse a menina. — Mas
deixa eu tomar banho primeiro hoje? Acho que eu tô precisando mais do que você.
— Você com certeza está precisando
mais do que eu — Ruby então sentiu um soco leve no seu ombro, acompanhado de
uma risada de Sapphire.
— Idiota!
• • •
Courtney se encarava no espelho do vestiário
em que se encontrava. As roupas leves que usava mais cedo agora davam lugar ao
uniforme carregado de peças da organização onde trabalhava.
A garota se encarava no espelho com
expressão de dúvida. Aquela conversa com Ruby ainda estava rodando em sua
cabeça. Especialmente o que ele havia dito ao final daquele encontro.
— Por que eu não vou atrás? — ela
parafraseou o garoto. — Honestamente... Eu não sei.
Ela então colocou uma das mãos
sobre o peito, e abriu um sorriso discreto, mas pela primeira vez naquele dia
um sorriso um pouco mais autêntico do que os que ela estava acostumada a
mostrar.
— Mas descobri algo do qual eu
quero ir atrás. Agora com certeza.
Ao sair do vestiário, ela caminhou
pelos corredores da sede da organização. Qualquer membro que passasse pelo seu
caminho a cumprimentava assim que a via. Muitos deles com um semblante até
ansioso ou preocupado, para não dizer com medo.
Após uma caminhada breve, Courtney
parou em frente a uma porta automática. Quando ela se abriu, ela adentrou a
sala onde se encontravam duas figuras. Uma delas, um dos homens ali presentes
se dirigiu a ela com um tom de desprezo.
— Você está atrasada. Por onde
andou?
— Cuidando da minha vida, Tabitha.
Às vezes você deveria tentar cuidar da sua também.
Ela então se virou para a outra
figura, esta aparentando mais paciente. Ou talvez fosse apenas uma serenidade
de fachada. Sua expressão séria por trás daqueles óculos era ilegível.
— Peço desculpas por fazê-lo
esperar, mestre Maxie. Quais são os próximos passos?
FIM DO CAPÍTULO 40
Notas do Autor - Capítulo 39

Até a próxima! õ/
Capítulo 39
Missão de busca

Wattson estava terminando de
arrumar as coisas para abrir o ginásio. Após preparar as prateleiras com as
equipes determinadas para cada nível de desafiante, o líder pegou uma vassoura
e foi até a parte externa varrer a fachada. Os funcionários ainda não haviam
chegado, mas o veterano já estava adiantando as tarefas para que estivesse tudo
em ordem assim que desse o horário.
— Olha só pra você, varrendo a
calçada igual um velho — o líder foi pego de surpresa ao ouvir a voz grave e
rouca que vinha de trás.
Ao se virar, Wattson notou que era
Drake quem estava atrás dele. O Elite mantinha sua postura firme, fumando um
cachimbo como de costume, enquanto encarava o velho amigo com uma expressão
debochada. O líder de ginásio abriu um sorriso de canto, continuando a varrer o
local, mas sem ignorar a visita.
— Você é a última pessoa que pode
me chamar de velho por aqui, sua caveira idiota — disse o mais baixo, seguido
de sua risada estridente característica. — Foi você que mandaram pra fazer a
supervisão dessa vez?
Drake deu mais uma puxada no
cachimbo, prendendo o fumo por um breve momento, até que soltou a fumaça.
Wattson percebeu os ombros do mais alto relaxando levemente, mas preferiu
esperar antes de fazer mais algum comentário.
— Hoje não. Na verdade, eu vim
conversar com você a respeito daquela situação que ocorreu em Nova Mauville.
— Descobriram mais alguma coisa
sobre o ataque?
— Anabel ainda está investigando.
Mas estou aqui por conta de um outro detalhe daquele dia que chegou ao meu
conhecimento. Esse está mais pra um assunto pessoal que eu devo resolver.
— Tudo bem, me deixe terminar de varrer aqui e a gente entra pra conversar. Falta pouco.
— Você é lerdo demais. Me dá outra vassoura que eu te ajudo.
Tendo saído de Verdanturf poucas
horas antes, Sapphire aproveitava a pausa pedida por Ruby para fazer uma nova
tentativa de treinamento com o Psyduck. Mas não parecia que haveria muito
progresso naquele dia. O pequeno pato continuava com a mesma expressão vaga e
indecifrável de sempre, e a menina sentia que tentar se comunicar com ele seria
bem difícil.
Zinnia aproveitou o momento para
colher algumas frutas na beira da estrada, bem como deixar seus Pokémons livres
para pegar um pouco de ar fresco, assim como também fizeram Sapphire e Ruby.
O garoto estava sentado em um
tronco de árvore caído, e ali aproveitava para alongar os braços, pernas e a
coluna. Ele então notara a dificuldade que a amiga estava tendo com a
criaturinha aquática.
— Tudo bem aí, Sapphire?
— Eu não consigo entender qual é a
desse Psyduck, ele não expressa nada! E eu tô começando a ficar realmente
preocupada, porque eu não sei dizer se ele tem algum problema, ou se ele é
assim mesmo. E se de repente ele tiver alguma necessidade de saúde ou fome e eu
não souber?
— Eu acho que você não deveria
ficar tão preocupada assim. Lá em Johto tem muitos lugares com Psyducks. Eu já
vi vários, e eles são bem assim mesmo — Ruby tentava acalmar a amiga. — Desde
que você não deixe ele sentir dor de cabeça, deve ficar tudo bem. Aliás, eles
são bem mais expressivos quando algo está errado, então eu tenho certeza que
você vai saber se for o caso.
— Paciência é a chave, Sapphire —
disse Zinnia, se aproximando com algumas frutas apoiadas na barra da blusa. —
Tentar entender os Pokémons nunca é fácil, mas se você ficar ansiosa desse
jeito não vai conseguir pensar e notar as peculiaridades dele. Se adapte e faça
as coisas no ritmo do Psyduck que as respostas vão começar a aparecer aos
poucos.
Sapphire não parecia muito contente
com as explicações dos seus amigos, que para ela pareciam mais como os sermões
que seu pai lhe dava na infância sobre o porquê ela não deveria ser tão
impulsiva, mas tentou acatar os conselhos, ainda que a contragosto. Lavaridge
se aproximava, e um Pokémon aquático seria um trunfo importante para a equipe
dela ao enfrentar um ginásio especializado no tipo fogo.
Zinnia se sentou no troco, logo ao
lado de Ruby, e ofereceu as frutas. O garoto pegou uma, a esfregou na sua
bermuda para tirar a sujeira, e começou a descascá-las com uma pequena faca que
tinha guardada em sua mochila. Oran berries pareciam cair muito bem em dias
quentes como aquele.
Enquanto Sapphire encarava a face
desconectada do Psyduck, Ruby notou alguém se aproximando pela estrada. A
menina interrompeu sua caminhada assim que notou o grupo a sua frente, e foi
quando reconheceu o garoto que seu sorriso se abriu. Numa breve corrida, ela
tratou de se aproximar do trio.
— Ruby! — exclamou a menina,
enquanto segurava uma mecha de cabelo que havia se soltado de seu
rabo-de-cavalo para que o vento não a jogasse contra seu rosto. — Quem diria
que eu ia te encontrar aqui?
— Vivi? — Ruby indagou em tom de
surpresa. — Você ainda estava em Verdanturf esse tempo todo?
— Sabe como é, eu quis tirar um
descanso extra depois do contest. Mas cedo ou tarde temos que voltar ao
trabalho, né?
Sapphire e Zinnia por um momento se
mantiveram atentas à conversa, mas logo relaxaram ao ver que o clima estava
amistoso. A experiência com Emily fazia as duas pensar que o Ruby tinha certo
talento para criar rivalidades e entrar em jogos de provocações, mas aquele não
parecia ser o caso. O menino, por sua vez, logo notou que suas companheiras
estavam observando.
— Ah, que indelicado da minha
parte! Estas são Sapphire e Zinnia. As duas estão viajando comigo — ele então
se virou para a dupla. — Meninas, esta é a Vivi. Acredito que vocês se lembrem
dela por ter se apresentado no contest.
— Prazer! — Vivi logo tomou a
iniciativa, e as meninas responderam com um breve aceno. — Então, Ruby... Agora
que você tem duas fitas, vai precisar competir em um contest R2. Pra onde você
está indo agora?
— Bem, estamos indo para Mauville.
De lá vamos pegar a saída norte, pois a Sapphire vai enfrentar o ginásio em
Lavaridge, e eu vou tentar o contest R2 em Fallarbor. Ele não é o que tem a
data mais próxima, mas como estou um pouco adiantado no número de fitas
acredito que posso tirar esse tempo para pensar na próxima apresentação e
praticar.
— Entendo, é uma boa estratégia —
Vivi assentiu, e logo em seguida se dirigiu à Sapphire. — Então você é uma
pretendente à Liga Pokémon, não é?
— Hã? Ah, sim, eu sou. Ainda tenho
três insígnias, Lavaridge seria a minha quarta.
— Legal, parece que você vai ser
rival do meu irmão, Vito. Mas vou avisando, ele é forte. Ele é o atual
vice-campeão da Liga Pokémon, só perdeu a final para o Steven que é o atual
chefe da Elite 4. E mesmo assim, ele competiu de igual pra igual.
— Sério? Então é exatamente o tipo
de rival que eu procuro — Sapphire pareceu se animar com o aviso. — Já estou
ansiosa pra conhecer ele.
Antes que as duas pudessem dizer
mais alguma coisa, foi a vez de Ruby tomar de volta a atenção da coordenadora a
chamando.
— Vivi, você já competiu nos
contests na temporada do ano passado, certo?
— Sim, isso mesmo. Por quê?
— Eu vi que cada sede tem uma
especialidade. Eles não mudam o tipo de contest de uma temporada pra outra.
Pode me dizer qual é a modalidade de disputa em Fallarbor?
— Querendo informações
privilegiadas, né? Isso é trapaça — Vivi então notou que o menino fazia uma
expressão confusa, mas ao mesmo tempo levemente constrangida, o que a fez rir.
— Ei, ei! Eu tava brincando! Não é como se essas informações já não fossem públicas,
até porque senão os coordenadores estreantes estariam com uma desvantagem
injusta. O contest em Fallarbor é igual ao de Slateport. Ele é focado em
batalhas.
— Ah, batalhas de novo? — o garoto
engoliu seco.
— Sim. Acho que é mais pelo apelo,
né? Fallarbor é uma cidade de cultura meio country, então o pessoal lá
gosta de assistir uma boa briga. Apresentações artísticas não são o evento
favorito deles.
— Country? — Sapphire
perguntou. — Tipo, viver no campo, em fazendas?
— É, o povo de Fallarbor foca muito
em agropecuária, porque a proximidade da cidade com o vulcão do Monte Chimney
torna o solo de lá muito fértil pra produção — Zinnia completou a explicação de
Vivi.
— Parece que eu vou ter que treinar
mais firme ainda. Eu não sou bom em batalhas.
— Ruby, do que você está falando?
Você venceu o contest de Slateport — disse Sapphire, com as mãos na cintura. —
E até lá temos tempo de sobra, vamos te ajudar a treinar.
— Eu sei de um bom lugar pra você
treinar, Ruby — disse Vivi, com um sorriso travesso no rosto. — E eu posso
levar vocês, porque estou indo exatamente pra lá. É o mesmo caminho que vocês
vão fazer.
Ruby pareceu se animar com a
sugestão de Vivi, além do apoio de Sapphire. A incerteza que rodeava a mente do
garoto o havia deixado em paz, pelo menos naquele momento.
— Eu topo! Onde fica?
— É assim que se fala! — a
coordenadora comemorou. — Minha família tem um pequeno rancho um pouco depois
da saída norte de Mauville. Todos eles são fanáticos por batalhas. Até por isso
eu costumo me dar bem nesse tipo de contest. Vocês podem enfrentá-los. É um
desafio interessante pra você, Sapphire. E quanto a você, Ruby, quem sabe você
não tira umas dicas boas pros seus próximos treinos?
Sem nenhuma objeção, Vivi se juntou temporariamente ao grupo. Ter mais alguém por perto tornaria a viagem mais fácil e agradável, especialmente para Ruby que agora teria uma coordenadora mais experiente para orientá-lo em alguns pontos importantes.
E assim eles terminaram aquele momento de descanso e seguiram em direção a Mauville, já ansiosos para pegar a próxima rota.
Já dentro do ginásio, Wattson e
Drake tomavam seus lugares na sala de administração para conversar. O líder
trancou a porta, a pedido do Elite, que preferia manter o sigilo do assunto.
— Então... — Wattson quis apressar
o assunto, pois não tinha muito tempo sobrando antes da abertura do ginásio. —
O que você quer saber sobre aquele dia?
— Vou ser bem direto. Aquelas
crianças que acabaram se envolvendo no conflito... Tinha uma outra pessoa
junto?
— Eram três jovens ao todo. Um
deles era um garoto meio problemático, esteve junto comigo e me ajudou no
confronto. Os outros dois eram Sapphire, uma desafiante que estava aqui na
cidade para me enfrentar, e o Ruby que é um companheiro de viagem dela. Esses
dois aí são boas crianças, apesar de terem sido imprudentes se intrometendo
nesse assunto.
— Bem, Steven viu que havia outra
pessoa que chegou logo em seguida, e que esses dois aí pareciam conhecer. Ele
ouviu Roxanne afirmar que essa pessoa era uma draconid, alguns anos mais velha
que os dois.
Wattson bebeu um gole do café que
havia servido para ambos, mas ao mesmo tempo acenou positivamente.
— Sim, era uma garota. Eu a vi
também, mas só no final, quando já tinha acabado a confusão. Ela tinha mesmo
uma roupa bem diferente. Deixa eu adivinhar. Ela é uma pessoa que devia estar
lá com seu povo, mas por alguma razão não está. É isso?
— Antes fosse só isso — disse o
Elite dando um suspiro. — Ela tem um papel fundamental para o povo draconid, é
a atual Guardiã da Tradição.
Wattson pôs a xícara de volta na
mesa e se recostou no sofá com as mãos atrás da cabeça.
— Isso é um problema. Por que ela
saiu do povoado?
— Apesar de ter sido escolhida como
a nova guardiã, Zinnia ainda é imatura. Ela não tem muita noção da
responsabilidade que carrega, e ainda questiona as histórias de nosso povo.
Para ela, tudo isso não passa de uma pseudo-religião criada sem nenhum contexto
histórico.
— Entendo — o líder mexia uma
colher de açúcar que havia colocado no café. — Assim, eu realmente a vi no dia.
Mas não sei em que mais posso te ajudar.
— A menina te desafiou aqui no
ginásio, não foi?
— Sim, desafiou e venceu. E eu te
digo uma coisa. Ela é boa. Ainda tem que cobrir alguns pontos fracos, mas tem
potencial pra evoluir muito. Talvez ela faça um barulho na Liga. Você ia gostar
de vê-la batalhando.
— Tomara que ela fique forte, mas
não é em treinadores iniciantes que estou interessado no momento. É na Zinnia.
Se a Sapphire te desafiou, você não teria alguma ideia de onde ela pode ter ido
após deixar a cidade?
Wattson ficou um momento em
silêncio, tentando se recordar de algo. Drake permanecia em seu lugar,
paciente. Para o Elite, todo o tempo seria necessário para juntar as
informações que ele precisava para descobrir o paradeiro da guardiã. O líder
então estalou os dedos, parecendo lembrar-se de algo.
— Eles foram pra Verdanturf. O
garoto é coordenador, então foi competir lá. Eu não me lembro bem se fui eu
quem recomendou, ou se foi ideia deles mesmo, mas em seguida eles devem ir pra
Lavaridge enfrentar a Flannery.
Drake balançou a cabeça em negativa
ao ouvir aquilo. Com uma expressão de descontentamento, e com certo tom de
cansaço em sua voz, ele se levantou e se preparou para sair.
— Bom... Se ela é tão boa quanto
você diz, então vai ser praticamente uma insígnia de graça pra ela.
— Ei, não fale assim da Flannery —
Wattson tentou intervir em favor da garota. — Ela está dando tudo de si, tenho
certeza que ela vai superar essas dificuldades.
— Dificuldades teremos nós se a
Liga Pokémon desse ano acabar ficando inflada de competidores. Isso vai alterar
as datas do nosso calendário de competições, além de afetar os contratos com os
patrocinadores. Ela está colocando toda a operação em risco.
O líder mais velho apenas se calou,
não conseguindo encontrar mais argumentos. A líder de Lavaridge estava sob
forte pressão da supervisão da Liga devido ao desempenho questionável que vinha
apresentando, e Wattson temia que a solução final dada pela Elite fosse a
remoção dela do cargo antes de mostrar seu potencial.
— Eu também não gosto de prejudicar
o futuro de uma pessoa jovem e cheia de sonhos, Wattson. Isso se aplica tanto à
Flannery como à própria Zinnia. Mas eu tenho responsabilidades das quais não
posso fugir, mesmo que isso conflite com algumas convicções que eu tenho.
Enfim, preciso voltar pra Ever Grande.
— Já vai embora? O contest de
Verdanturf foi anteontem. Se você ficar aqui pode acabar pegando a volta deles.
— Preciso estar lá pra agir algumas
coisas da Liga. Eu acabei interrompendo uma reunião importante do Steven com a
equipe, então temos que dar continuidade. Mas se o contest foi anteontem, creio
que em até três semanas eles tenham feito o trajeto completo até Lavaridge. É
mais ou menos o período que o Sidney estará na cidade para supervisionar a
Flannery. Vou pedir pra ele estender um pouco a estadia e ficar de olho.
O Elite caminhou até a porta da
sala. Wattson a destrancou e permitiu a passagem do velho amigo. Mas, antes de
Drake ir embora, o líder fez uma última pergunta.
— E quanto à supervisão do meu
ginásio?
— Não se preocupe. Glacia estará aqui na semana que vem para te acompanhar.
— Puta merda! Logo ela?

























