Notas do Autor - Capítulo 42
Capítulo 42
Terreno íngreme
A cidade de Lavaridge já estava no
campo de visão do trio. Até mesmo Sapphire sentiu alívio ao ver as construções
aparecendo ao longe, dado o longo caminho percorrido. E para Ruby a sensação
era a de ter nascido de novo.
— Check-in, banho, comida, cama.
Nessa ordem — o garoto tentou ser o mais direto possível, antes que Sapphire ou
Zinnia tivessem alguma ideia brilhante para tirá-lo do caminho do seu merecido
descanso.
Entretanto, o pedido de Ruby fora
em vão. As garotas, assim que o grupo começou a subir o terreno que levava à
entrada da cidade, notaram uma entrada que dava para o norte.
— Que trilha é essa? — Sapphire já
cedia à sua curiosidade.
— Jagged Pass? — disse Ruby ao ler
a placa na entrada. — “Passagem Acidentada”, “Passagem Irregular”... Por que
isso está escrito no idioma de Galar?
— Essa rota dá direto no topo do
Monte Chimney — Zinnia começou a explicar. — Eu sei que pode soar estranho, mas
vulcões são atrações turísticas.
— Espera aí um minuto — o garoto
sentiu uma fagulha de pânico percorrer seu corpo. — Está me dizendo que essa
montanha gigante aqui é um vulcão?
— Ih, lá vem... — Sapphire já sabia
o que estava por vir, mas pra sua sorte Zinnia foi mais rápida.
— Se acalma, tonto! Aqui é um lugar
supertranquilo. O vulcão até tem um poço de lava visível na cratera, mas as
condições ao redor não favorecem uma erupção ou explosões. Estamos seguros.
Inclusive, é justamente o vulcão que move a economia de Lavaridge. Já ouviu
falar nas fontes termais daqui? Eu não sei vocês, mas eu vou dar uma passada lá
na primeira noite que a gente passar na cidade. Além disso, quem cuida do
turismo nas trilhas e no cume do vulcão é a cidade de Lavaridge também. Eles
vivem disso há décadas, e nunca houve nenhum perigo pra cidade e pros
arredores.
Ruby ainda não parecia convencido,
mas aceitou aquela explicação por ora. Sapphire continuava observando a trilha,
que parecia despertar a sua curiosidade a ponto de ela sequer esquecer que a
cidade de seu próximo desafio de ginásio estava logo ali, na frente deles.
— Tem vegetação farta nessa trilha
— a menina observou. — Se tem flora, tem fauna. Eu quero ir ali. Talvez a gente
encontre uma espécie Pokémon que só exista aqui.
— Podemos voltar aqui depois de nos
instalarmos na cidade — disse Ruby. — Sério, não estou mais aguentando esse
peso. Vamos reservar logo um quarto no Centro Pokémon e deixar nossas coisas
lá.
— Ruby, vamos aqui logo. Aí depois
a gente não precisa voltar, a gente fica descansando na cidade. Aliás, você
fica descansando. Eu tenho que ir no ginásio agendar minha batalha.
Convencido, Ruby resolveu seguir a
dupla. Passando pela entrada da trilha eles perceberam o quão alta era a
montanha. Afinal, era justo o ponto mais alto de toda Hoenn. O caminho de terra
vermelha se estendia até o pico, cercado por um terreno acidentado, de
composição rochosa e alguns pontos de vegetação que iam desde árvores até um
gramado alto.
O ar parecia mais frio naquela
região, ironicamente. A cada passo que davam, sentiam como se o chão estivesse
vivo, mesmo que nenhum tremor tenha sido percebido.
— É um lugar bem bonito — Ruby
observava os arredores com certo encanto nos olhos. — Eu não lembro de ter
visto uma vegetação tão viva.
— Solo vulcânico é muito fértil —
Zinnia explicava. — É irônico que algo capaz de causar tanta destruição também
possa trazer tanta vida. A natureza tem suas contradições, mas é isso que torna
ela tão interessante.
Na medida em que avançavam trilha
acima, o grupo notava a presença de outras pessoas no local. Alguns pareciam
treinadores, outros apenas exploradores se aventurando pela trilha. Um pequeno
grupo de pessoas também seguia junto, acompanhadas de um guia turístico. Esse
movimento fez com que Ruby se sentisse um pouco mais seguro. A trilha até
poderia ser perigosa, mas não a ponto de ninguém ser louco de se arriscar nela.
O avanço era feito com cautela,
pois o terreno tinha uma inclinação que dificultava a estabilidade da
caminhada. Mesmo ficar parado era difícil, pois cada movimento mínimo parecia
jogar todo o peso para trás, e nenhum dos três queria saber o resultado de sair
rolando trilha abaixo.
Zinnia foi a primeira a identificar
uma área mais plana. Rapidamente o trio foi até o local e aproveitou para fazer
uma pausa. Ruby jogou a sua mochila no chão e logo em seguida procurou alguma
pedra ou tronco de madeira onde pudesse se sentar. Sapphire, sem se importar
com mais nada, só verificou o lugar onde parecia ter menos poeira e se sentou
no chão mesmo. A draconid permanecia de pé, analisando os arredores.
— Parece um lugar tranquilo. Acho
que dá pra gente ficar aqui por um tempo.
— Eu quero comer alguma coisa —
reclamou o garoto. — Eu estou aceitando comer até essas berries que a Sapphire
sai pegando em qualquer lugar.
— Eu não pego em qualquer lugar, eu
pego nas árvores mesmo — Sapphire retrucou. — Se cair no chão eu já não pego.
— É, acho que até você tem limite —
Ruby devolveu, deixando a menina mais emburrada ainda. — Mas você nem para pra
ver o que você pega, vai acabar comendo alguma podre ou com algum bicho
qualquer hora.
— Ruby, tem várias maneiras de
saber se as berries estão ruins antes de comer, mas sinceramente eu nem sei por
que eu perco meu tempo argumentando com você sobre isso.
Sapphire apenas andou até suas
coisas, e de lá tirou um saco onde guardava várias berries. Havia uma variedade
de frutas ali, para todos os gostos. Ela estendeu uma toalha ao lado e colocou
as berries em cima.
— Estão todas boas. Pega aí a que
você achar melhor e pronto!
Ruby deu um resmungo contrariado,
mas foi até as berries. Sapphire deu um riso discreto, pensando em como no
início da jornada o garoto apenas se recusaria a comer frutas que, segundo ele,
não teriam sido adequadamente limpas. Ele podia não notar, mas estava fazendo
progresso também.
Quando o garoto chegou perto das
frutas e se curvou para pegar uma ele notou que algo se mexia atrás dos
arbustos próximos do barranco. Em um primeiro momento ele recuou e ficou
esperando para ver o que estava ali, mas não demorou muito para que a figura se
revelasse.
Uma criaturinha de aspecto suíno
apareceu diante do garoto. Sua pelagem era preta e seu corpo redondo como a
pérola rosa que ele equilibrava em sua cabeça. Não tinha patas traseiras, se
locomovendo em saltos impulsionados por sua cauda espiralada como uma mola.
— É um Spoink! — Sapphire disse em
tom de surpresa. — É a primeira vez que eu vejo um pessoalmente.
— Spoink, é? — Ruby confirmava a
espécie na sua Pokédex enquanto analisava outras características da criatura. —
Psíquico. E bonitinho também. Acho que vai ser ótimo pra usar nos contests.
O garoto levou a mão à sua cintura
com rapidez, de onde sacou uma Pokéball, indicando que estava falando sério
quanto a capturar o Spoink. Ele arremessou o dispositivo um pouco a frente,
revelando seu Treecko. O lagarto olhou em volta, não demorando a assimilar a
situação.
— Tarefa pra você, colega — disse o
garoto, eufórico. — Vamos trazer esse aí pra nossa equipe!
O Treecko de imediato se colocou em
posição de batalha, alertando o Spoink sobre suas intenções. O Pokémon psíquico
também subiu sua guarda, já sabendo que seria difícil de fugir dali sem
batalhar, visto que tinha uma desvantagem de velocidade.
— Olha só, o Treecko respondeu
rápido dessa vez — observou Sapphire. — Será que eles estão fazendo progresso?
— Progresso eles estão fazendo sim,
mas o Treecko sempre teve um pouco mais de boa vontade pra batalhas — Zinnia
respondeu, também observando com atenção a batalha que estava para começar. —
Mas fazendo um pouco mais as vontades dele vai fazer com que o Ruby consiga se
aproximar um pouco mais. Vamos ver.
— Ok Treecko, ele é um Pokémon
psíquico, então tome cuidado com possíveis truques para te enganar.
Concentração máxima! Vamos ver os resultados do nosso treino com a Vivi. Comece
com o Giga Drain!
Jeff avançou contra o Spoink,
usando seu impulso para acelerar o alcance de seu ataque. Seus olhos começaram
a brilhar em um tom cada vez mais vibrante de verde, ao passo que uma aura da
mesma cor era vista ao redor do Spoink, que sentia sua energia ser sugada,
enquanto a vitalidade do oponente aumentava na mesma proporção.
Spoink agiu rápido para não
permitir que aquele dano corrente continuasse por mais tempo. Ele se virou na
direção de onde vinha o ataque, focando sua visão em Jeff, e disparou contra o
lagarto um raio de energia de cor rosa. O Treecko, que focava na execução do
ataque, não teve tempo de trocar para a defesa, sendo acertado diretamente pelo
contra-ataque.
— O que foi isso? — Sapphire
exclamou ao se assustar com a potência do ataque.
— Isso foi um Psybeam. —
Ruby respondeu, sentindo a dificuldade daquele confronto. — Eu conheço bem esse
ataque, ele é muito popular em contests com apresentações de beleza. Treecko,
tome cuidado! Receber um ataque desse diretamente pode causar confusão!
Jeff conseguiu se levantar com
facilidade, apesar de ter sido pego com a guarda baixa. Ele espanou a poeira de
seu corpo com as mãos, usando aquilo até como um gesto provocativo para o
Spoink, mostrando que o ataque não havia funcionado tão bem.
— Essa foi quase — disse o Treecko.
— Muito bem, carinha. Continua assim e quem sabe você não me dá um susto.
— Ah, ainda bem que não se machucou
— disse o Spoink, parecendo estranhamente simpático. — Do jeito que você saiu
rolando eu não tinha certeza se você ia se levantar. Acho que dá pra bater mais
forte a partir de agora.
Jeff deu um sorriso de canto. Ele
conhecia bem aquele tipo de provocação, afinal, ele mesmo era especialista
naquilo.
— Boa resposta. Eu acho que vou
gostar de te atormentar.
Ruby tentava analisar o
comportamento de Spoink, mas tinha dificuldades em prever o que ele poderia
fazer. Ele não estava acostumado a fazer aquele tipo de reflexão enquanto se
preocupava em comandar uma batalha, mas era algo que Vivi havia dito pra ele tentar
fazer dali em diante. O garoto sentia sua cabeça começar a doer com aquele
esforço.
— Como eu faço o Treecko se
aproximar dele sem correr risco de ser pego em um ataque direto? Posso fazer
uso da velocidade dele pra isso, mas sempre tem o risco de algum outro
movimento bagunçar o status dele. Segundo a Pokédex, no nível em que esse
Spoink está agora, a chance de ele saber usar Confuse Ray é razoável... Pensa,
Ruby! O que dá pra fazer agora?
Os pensamentos do garoto foram
interrompidos quando Spoink efetuou um disparo de ondas psíquicas na direção de
Jeff. O Treecko conseguiu se esquivar com facilidade, mas o prejuízo ficou por
conta de Ruby, que teve seu raciocínio interrompido.
— Droga, isso é difícil demais! —
Ruby resmungou enquanto apertava os punhos. — Se eu tentar pensar demais o
Treecko vai acabar pagando a conta. Treecko, use o Pursuit!
Jeff avançou com rapidez em direção
ao Spoink, que tentou prever de onde viria o ataque e se esquivou. Entendendo
como ficaria o posicionamento do oponente, o lagarto do tipo planta mudou a
trajetória da sua corrida e foi parar atrás do adversário, acertando-o com um
golpe forte que o lançou alguns metros para o lado oposto.
Ruby respirou fundo, se permitindo
sentir um pouco de alívio. Apesar de não poder se distrair, os ataques estavam
funcionando, mesmo que improvisados. Se ele conseguisse tempo para pensar em
uma estratégia, ele poderia vencer.
O Spoink se levantou e ficou
aguardando o próximo movimento da dupla adversária. Ruby entendeu que aquilo
poderia ser um sinal de que ele estava com dificuldades de encontrar um caminho
para tomar a dianteira da batalha. O garoto sentiu sua confiança voltar,
tentando mais uma vez pensar em um plano para finalizar aquela batalha.
— Olha, faz tempo que eu não tenho
esse trabalho todo numa batalha — o Spoink arfava ao tentar falar. — Você é bom
de briga, bicho.
— Tu não viu nada ainda — Jeff se
colocava em posição de batalha mais uma vez. — Tô só começando.
— Vamos, Treecko — Ruby chamou a
atenção do seu parceiro, parecendo já ter um plano em mente. — Use o Leer
para fazê-lo baixar a guarda!
Por mais simples que aquele comando
parecesse, o fato de Spoink estar começando a sentir o desgaste, tanto físico
quanto mental, o tornava mais suscetível a efeitos daquele tipo de movimento.
Jeff lançou um olhar direto para o suíno, fazendo com que ele hesitasse.
Spoink, no entanto, se recuperou
depressa sabendo o risco de ficar naquele estado de vulnerabilidade por muito
tempo. Numa tentativa de atrasar os planos de Ruby, o Pokémon selvagem disparou
outro Psybeam na direção de Jeff.
— Desvie do ataque e use o Quick
Attack para se aproximar dele! — Ruby comandou, estendendo a mão em um
gesto que dizia para Jeff seguir em frente sem hesitar.
— Ele tá cada vez mais à
vontade, já consegue dominar as ações da batalha e controlar a situação a seu
favor — pensava Sapphire enquanto assistia à batalha.
Jeff correu em direção ao Spoink
após desviar do disparo psíquico. Ele fazia uso de sua velocidade formidável
para reduzir a distância antes que seu oponente fizesse mais algum ataque.
— Complete com Pursuit!
O Spoink já conhecia o ataque
depois de ter sido acertado da primeira vez, e naquele momento ele havia lido a
movimentação de Jeff, induzindo-o a fazer o mesmo trajeto para tentar ir parar
em suas costas. Ele então se virou para o Treecko assim que ele chegou no local
previsto.
Com o susto, Jeff atrasou na
execução do ataque, o que abriu uma janela de tempo para que o Spoink fizesse
sua resposta. A pérola em sua cabeça começou a emitir um forte brilho em tom
púrpura, disparando em seguida um raio da mesma cor.
Jeff foi atingido em cheio e
começou a se debater enquanto cambaleava desorientado, até que chegou próximo a
uma pedra e bateu sua cabeça com força nela, parecendo ter sido de propósito.
— Treecko! — Ruby tentou chamá-lo
alto para tentar fazer com que o lagarto despertasse. — Ele tinha mesmo o Confuse
Ray, que droga!
— Ih, babou — disse Zinnia,
observando o desfecho da batalha.
Ruby sabia que aquela situação era
capaz de virar o jogo a favor do Spoink. Naquele estado de confusão, Jeff só
causaria danos a si mesmo se tentasse atacar de forma impensada. Para piorar, o
ótimo poder de ataque do Treecko agora se voltava contra ele, já que isso
também impactava o dano dos ataques autoinfligidos.
— Você foi muito inocente de achar
que eu estava sem saída — disse o Spoink. — Eu lido com treinadores há muito
tempo por aqui. Meu passatempo favorito é fazer vocês se sentirem confiantes e
pegar todos desprevenidos. Por isso os outros Pokémons dessa rota me chamam de
“enganador”. Mas você pode me chamar de Oswin mesmo, já que você não tem
intimidade pra me chamar por apelidos.
O Spoink se divertia com o Treecko
desorientado. Ruby começava a ficar nervoso novamente, tentando encontrar algum
jeito de sair daquela situação. Sapphire e Zinnia observavam com atenção como
aquela batalha seguia. Ambas sabiam o que fazer para contornar aquele problema,
e sabiam que havia uma solução imediata ao alcance de Ruby, mas as duas
decidiram não falar. Elas sabiam que Ruby estava tentando evoluir sozinho, e
decidiram deixá-lo descobrir a solução por conta própria.
— Ok, não posso ficar nervoso
— Ruby fechou os olhos por um instante para começar a refletir. — A Vivi, a
Sapphire, a Zinnia e a Miriam sempre disseram a mesma coisa, que o importante é
manter a calma nesses momentos. Pensando bem, meu pai já dizia isso quando eu
era criança. Manter a calma é uma parte fundamental da batalha. Ficar nervoso
não vai ajudar o Treecko em nada, preciso observar os arredores pra ver o que
dá pra fazer em um momento como esse.
O garoto abriu os olhos devagar,
depois de respirar fundo. Teve a sensação de enxergar o ambiente com mais
clareza, como se antes o nervosismo fosse um véu enevoado. Começou a escanear o
local, lado a lado, na tentativa de encontrar qualquer coisa. E então seus
olhos estacionaram na toalha onde Sapphire havia colocado as berries alguns
minutos antes. Ruby ficou encarando as frutas por um tempo, como se as peças do
quebra-cabeça começassem a se encaixar em sua mente.
— Boa, Ruby. É isso mesmo — Zinnia
sussurrou satisfeita. Sapphire também deu um sorriso.
Ele se agachou e pegou uma das
frutas, pequena e rosada. Ela não era volumosa, apenas um pouco comprida, com a
extremidade mais pontuda. Uma Persim Berry, ideal para livrar Pokémons do
estado de confusão.
Ruby rapidamente pegou a fruta e
foi até o Treecko. O garoto agarrou o braço do seu parceiro e deu a fruta na
mão dele. Jeff olhou para o menino, ainda desnorteado, mas se esforçava para
ouvir o que ele estava dizendo.
— EsTa bErRy VaI tE aJuDaR! VoCê PrEcIsA
cOmEr IsSo! CoMA isSO! Treecko, coma isso!
Jeff comeu a fruta assim que
identificou a mensagem. Aos poucos sua dor de cabeça se dissipou, sua visão
ficou mais clara e seus pensamentos agora pareciam seus novamente. Ele olhou
para as próprias mãos, como quem havia acabado de tomar consciência de onde estava.
— Eita, brisa ruim da desgraça — o
Treecko então olhou para Oswin. — Foi você que fez isso?
— Isso mesmo. E agora toma cuidado,
essa era a última Persim que tinha aí no meio. Se eu te colocar em confusão de
novo, acabou pra você.
Jeff fez menção de ir até o Spoink
tentar resolver por conta própria, mas parou e esperou por Ruby. Ele era o
treinador, afinal. Então o lagarto ia seguir a batalha como ela deveria ser
seguida.
— Treecko, foi a última Persim
Berry. Não podemos cair nessa de novo — disse o garoto. — Mas não se preocupe,
agora a gente sabe que ele tem o Confuse Ray. Eu não vou deixar você ser
acertado por ele de novo.
Jeff assentiu com a cabeça e virou
seu foco de volta para a batalha. Ele estalou os dedos e o pescoço, indicando
que levaria aquele confronto a sério a partir dali.
— Droga, eu não tava querendo fazer
isso ainda. Não quero esse pirralho se achando como se isso aqui fosse coisa
dele, mas eu não tenho muita escolha. Pra não ser pego nessa confusão de novo
eu tenho que acabar com isso rápido.
O Treecko foi envolto por uma luz
branca ofuscante que tomou seu corpo por completo. Ruby cerrou os olhos para
tentar ver melhor o que estava acontecendo, mas o máximo que conseguia
identificar era a silhueta de Jeff se alongando, tanto seu tronco como seus
membros.
Quando o brilho cessou, uma figura bem
diferente estava em campo. Ruby sabia que aquele era seu parceiro, já tinha
presenciado outras evoluções, mas não deixou de se surpreender com a forma nova
que ainda não tinha visto. O pequeno Treecko agora tinha um corpo mais alto e
esguio, pernas mais fortes que lhe permitiam pegar mais impulso em seus
movimentos, além de uma crista formada por uma folha comprida que percorria do
topo de sua cabeça até a altura da cauda que imitava duas folhas. Três folhas
saíam de cada um de seus pulsos.
O garoto estava sem comentários.
Zinnia sorria de satisfação, enquanto Sapphire vibrava com a evolução que tinha
acabado de acontecer.
— Ruby, você conseguiu fazer seu
inicial evoluir! Ele agora é um Grovyle!
O réptil olhava fixamente para Oswin,
que agora tinha um semblante preocupado. O Spoink não sabia se seus ataques com
potencial de confusão conseguiriam atingir aquele lagarto a tempo, já que todo
o corpo dele parecia ser desenhado para garantir a ele impulso e velocidade.
— Agora você vai ver só — Jeff
olhava para as folhas afiadas em seus braços, balançando-as para testar o fio
de corte. — Uma pergunta. Você é religioso? Se for, já começa a rezar. Se não
for, então corre porquinho, que o negócio vai ficar feio pro teu lado.
O Grovyle então se virou pra Ruby.
— E você vê se trata de chamar a
garota pra uma revanche! Eu tenho contas a acertar com aquele frango frito
miserável!
Ruby apenas levantou os braços e
encolheu os ombros, mostrando que não tinha entendido nada do que seu parceiro
havia falado. Para ele, eram apenas grunhidos.
— Ô, moleque burro...
— Não vai pensando que vai tomar a
vantagem só porque evoluiu! — disse Oswin. — Eu vou acabar com essa palhaçada
agora!
O psíquico preparou um novo Psybeam
para tentar resolver a batalha logo, mas Jeff estava preparado para aquilo. Com
sua nova velocidade e percepção melhorada, ele conseguia ver o adversário
planejando o ataque com muito mais clareza.
— Foi mal, garoto, mas eu vou tomar
as decisões dessa vez — disse o Grovyle. — Tem uma coisa que eu quero testar.
Quando o ataque foi disparado, Jeff
apenas aguardou o momento exato em que o Spoink estaria distraído tentando
alinhar a trajetória do raio e se impulsionou para o lado e depois se atirou
para a frente com um Quick Attack, como ele e Ruby haviam tentado
anteriormente.
Oswin, acreditando ser a mesma
estratégia de antes, se virou para trás para tentar bloquear o Pursuit
com seu Confuse Ray, já que da outra vez tinha se provado um contra-ataque
muito eficaz. Mas ele se assustou ao ouvir a voz do Grovyle no lugar exato de
onde ele tinha desviado o olhar.
— Errou, garoto.
Jeff ergueu seus braços, e as
folhas em seus pulsos começaram a brilhar em um tom vívido de verde. Ele
desferiu dois golpes em sequência, alternando os braços em movimentos de corte
transversais. A força do ataque foi suficiente para derrubar o Spoink
desacordado. Era uma técnica recém aprendida, Leaf Blade.
Percebendo que a batalha estava
terminada, Ruby se apressou em pegar uma Pokéball de sua mochila e a atirou
contra o Pokémon nocauteado. Após um breve momento de apreensão, a Pokéball
parou de sacudir e se estabilizou. A captura estava concluída.
Ruby foi até o aparelho, o pegou e
ficou olhando pra ele.
— Caramba, esse aqui deu trabalho!
— disse o menino, rindo. — Ele vai ser bom demais de usar em contests de
batalha também.
O garoto então percebeu que o
Grovyle o encarava com uma expressão não muito agradável. Ele parecia saber do
que se tratava.
— Calma, você sempre vai ser a
primeira opção pra esses contests, mas é bom sempre ter algumas cartas a mais
na manga. Nunca se sabe. Aliás, se eu estiver cero, o contest de Fallarbor é de
batalhas em dupla, então...
— Muito bem, acho que já tivemos o
bastante por aqui. Já deu pra conhecer bem a trilha — Zinnia chamou a atenção dos
mais jovens. — Vamos pra Lavaridge? Eu quero descansar um pouco.
Com uma adição na equipe, Ruby sentia suas habilidades em batalha melhorarem aos poucos. Mas talvez o grande ganho naquele dia era a confiança do garoto, que crescia na medida em que ele apresentava melhoras. Agora ele poderia descansar um pouco em Lavaridge antes de começar a se planejar para o próximo contest.
O trio começou a descer a trilha de volta para a entrada da cidade. Dessa vez, o foco maior estava por conta de Sapphire, que tinha um importante desafio se aproximando. E ela sabia que não seria tão fácil quanto os boatos faziam parecer.
FIM DO CAPÍTULO
Notas do Autor - Capítulo 41

Capítulo 41
Os conflitos de cada um

Mauville
já tinha ficado para trás. O destino do trio então era a cidade de Lavaridge,
onde Sapphire disputaria o desafio do ginásio local na tentativa de conquistar
sua quarta insígnia. Vez ou outra, a garota era desperta de seus momentos de
distração por uma pontada no peito, assim que se lembrava que uma vitória a
colocaria na metade do caminho para a Liga Pokémon daquele ano. Zinnia tentava
mantê-la calma, e Ruby só conseguia observar sem ter muito a contribuir.
Vivi
já havia ficado para trás. Após pararem para descansar no rancho da família da
menina, Sapphire participou do desafio de tentar vencer todos os membros dos
Winstrates em sequência. Ela conseguiu vencer Vivi e sua mãe, mas logo em
seguida perdeu para o pai da garota, sequer tendo a chance de enfrentar a avó
dela, considerada a mais forte entre os presentes. Vito, irmão mais velho de
Vivi, não estava presente, possivelmente dando continuidade à sua própria
jornada, já que pensava em disputar a Liga daquele ano também para tentar o
título após o vice-campeonato do ano anterior, onde havia perdido a final para
Steven.
Vivi
também deu algumas dicas para Ruby sobre batalhas em contests, e passou uma
série de exercícios práticos para melhorar a mobilidade dos Pokémons do menino,
para que eles pudessem executar os seus ataques ao mesmo tempo em que
reproduziam movimentos mais elegantes para somar pontos na apresentação.
Fallarbor estava às portas também, e por isso o garoto tinha que acelerar seu
passo se quisesse ficar pronto a tempo. Vivi, por sua vez, ficou com a família
no rancho, já que ela ia para Slateport tentar o contest de lá, mas com a
promessa de que venceria e alcançaria Ruby em Fallarbor, para que os dois
pudessem rivalizar de novo, desta vez na modalidade que a menina afirmava ser
sua especialidade.
A
trilha ao redor trazia um ar leve aos viajantes. Mesmo com poucas árvores ao
redor o tempo estava fresco. O sol era ameno e uma brisa corria pelas encostas
das montanhas que rodeavam a rota, surpreendendo o grupo que esperava um calor
mais forte pela proximidade com o deserto que se localizava ali perto. Era um
ótimo dia para fazer algo ao ar livre.
—
A gente precisava sair tão cedo da casa da Vivi? — Sapphire parecia
contrariada, com as mãos atrás da cabeça enquanto caminhava com seus amigos. —
A mãe dela cozinha mó bem, eu queria ter almoçado lá de novo.
—
Sapphire, eles já foram muito gentis de deixar a gente passar a noite — disse
Ruby. — Não vamos ficar abusando. Além do mais, se ficássemos para o almoço
acabaríamos nos atrasando ainda mais. O Contest de Fallarbor é daqui a duas
semanas, e ainda temos que passar em Lavaridge por causa do ginásio. Não temos
tempo a perder.
—
Tá bom, tá bom, não precisa ficar me dando sermão — a garota bufou, até que
reparou que o terreno por onde caminhavam estava mudando. — Ué, de onde veio
essa areia toda de repente?
Quando
a menina se deu conta, Zinnia e Ruby haviam parado um pouco antes, e só então
ela olhou para a frente e percebeu que eles estavam diante de uma faixa de
areia tão longa que se estendia por uma distância que eles nem se atreviam a
calcular. A única referência que tinham do quão grande aquela área era de
verdade, era um paredão rochoso que percorria os limites daquele solo arenoso.
A muralha de pedra era notadamente alta, mas de onde eles estavam ela era vista
bem pequena.
—
A gente não vai tentar atravessar isso aí, né? — Ruby questionou, preocupado. —
Não temos água pra isso, o pouco que temos vai ser usado num instante, porque a
gente vai desidratar rápido.
—
Esse é o Deserto de Hoenn — disse Zinnia, tentando esclarecer a situação. — Eu
nunca estive dentro dele, mas as pessoas da minha comunidade dizem que é
realmente um caminho que testa até mesmo os treinadores mais fortes. Com
certeza não vamos passar por aí.
—
E como a gente chega em Lavaridge? — perguntou Sapphire.
—
Não se preocupe, nós estamos no limite da área do deserto. Lavaridge fica
exatamente a leste daqui, então só temos que virar à esquerda agora e seguir
adiante. E Ruby, antes que pergunte, pode ficar tranquilo também. Perto de
Lavaridge existe um outro caminho por onde podemos ir. Não vamos passar pelo
deserto e é até mais rápido para chegarmos a Fallarbor.
—
Graças à Arceus — o garoto pôs uma mão sobre o peito e suspirou.
—
Se ele testa até os melhores treinadores, então eu deveria tentar passar —
disse Sapphire. — Mas infelizmente Lavaridge é pro outro lado, então vai ter
que ficar pra depois.
—
Ah, claro — Ruby desdenhou. — Tudo que a gente precisa agora é você cozinhar os
poucos neurônios que ainda te restam.
E
nisso o grupo se deslocou na direção indicada por Zinnia. Após mais um período
de caminhada, eles decidiram montar o acampamento para poder descansar. Como já
haviam se afastado da entrada do deserto, o solo voltou ao padrão de antes e a
temperatura que ameaçava um calor bem mais forte voltava à amenidade.
Sapphire
tinha trazido sua equipe para mais uma sessão de treinamento. Ela queria
aproveitar todo o tempo que pudesse antes de chegar a Lavaridge. O que quer que
acontecesse no ginásio, ela pelo menos teria a certeza de que se esforçou o
máximo que podia. Naquele momento ela tentava, mais uma vez, fazer o Psyduck
responder aos seus comandos. Uma tarefa que até então vinha se mostrando árdua,
mas ela não queria desistir.
—
Vamos Psyduck, pelo menos um Water Pulse pra gente poder ver algum
progresso — a treinadora tinha as mãos juntas, como quem implorava pela
colaboração da criaturinha aquática. — Por favor!
O
Psyduck inclinou a cabeça enquanto olhava para a menina. Se a cara dele não
dizia nada que fizesse sentido naquele momento, a de Sapphire era de profunda
desilusão como alguém que não esperava mais nada.
Mas,
para a surpresa da garota, o pequeno pato se virou para o outro lado, mirou no
tronco de uma árvore e disparou o exato golpe que havia sido pedido. Não foi um
Water Pulse com toda a força, mas pelo menos teve impacto suficiente
para tirar uma lasca do tronco.
Sapphire
soltou uma exclamação, chamando a atenção de Ruby e Zinnia, que apenas
descansavam aproveitando a brisa fresca que passava por ali.
—
Zinnia! Ele me obedeceu! — Sapphire gritava e gesticulava eufórica. — O Psyduck
me obedeceu!
—
Será que não foi por acaso? — até mesmo a draconid estava desacreditada. —
Tenta de novo. Vamos ver se ele obedece mais uma vez.
Sapphire
concordou com a cabeça e se posicionou mais uma vez junta de seu parceiro. Ela
se agachou próxima a ele e passou a orientação com calma.
—
Tá vendo aquelas berries caídas no pé da árvore? Tente levantar algumas com o Confusion.
Ainda
um pouco devagar, Psyduck fez o que foi pedido. Com um breve momento de foco, o
pato usou sua energia telecinética para fazer com que as frutas levitassem.
—
Estamos fazendo progresso, realmente — Zinnia constatou. — Acho que dá pra
começar a puxar um pouco o treino dele. De repente dá tempo de colocar o
Psyduck pra batalhar contra a líder de Lavaridge.
—
A ideia é essa — Sapphire concordou. — Vou ver até onde consigo esticar a
corda. Forçar demais também pode fazer a gente voltar à estaca zero.
—
Caramba, o Psyduck realmente começou a atender os seus comandos — Ruby parecia
tão surpreso quanto as meninas. — Eu não esperava que fosse acontecer tão cedo.
Na verdade, eu até tinha dúvida se ia acontecer em algum momento.
—
Foi graças aos conselhos da Zinnia — Sapphire então se virou para a mais velha.
— Se não fosse por você eu nem sei como eu faria pra treinar o Psyduck.
Zinnia
foi surpreendida pelo comentário de Sapphire. Não estava acostumada com aquele
tipo de elogio repentino. Durante toda a sua infância, seus acertos eram sempre
tratados como se fosse apenas mais uma obrigação de alguém que ocuparia a
função a qual ela foi designada dentro das tradições dos draconids. Ela não
sabia se era a primeira vez, mas não lembrava de nenhum outro momento em que
havia recebido um comentário positivo.
—
Ahn... Relaxa, isso não foi nada demais. São só algumas coisas que eu acabei
pegando das pessoas do meu povo depois de anos convivendo com Pokémons e
treinadores. Com o tempo essas coisas ficam bem fáceis de decorar.
—
Não ficam não, Zinnia — disse Ruby. — Esse tipo de conhecimento é pouca gente
que consegue reter. Meu pai é líder de ginásio, dos bons, e nem mesmo ele
consegue se lembrar de tudo que aprendeu sobre criação Pokémon. Você consegue
adaptar métodos de treinamento pra qualquer Pokémon usando as próprias
individualidades deles. É realmente impressionante.
—
Acho que nesse quesito ela supera até mesmo a Miriam — logo após sua fala, foi
possível notar Sapphire tentando forçar para que seu sorriso não se dissipasse.
Zinnia
não pôde deixar de notar o desconforto da menina ao falar aquele nome, e notou
que até mesmo Ruby havia se encolhido entre os ombros. Era como se o silêncio
repentino cortasse aquele momento de euforia.
—
Eu já ouvi vocês comentarem sobre essa Miriam uma ou duas vezes — disse a mais
velha. — É alguma amiga de vocês?
—
Ela viajava com a gente até pouco tempo atrás, mas algumas coisas aconteceram e
tivemos que nos separar — Sapphire respondeu com um tom pesaroso em sua voz.
—
Eu lembro que quando vi vocês na Caverna de Granito lá em Dewford tinha mais
uma pessoa junto. Era ela?
—
Sim — Ruby respondeu, sem se estender muito. — Logo depois de irmos embora de
Dewford a gente acabou descobrindo que ela não era quem dizia ser. Ela mentiu
pra gente.
—
Ruby! — Sapphire tentou repreender o garoto.
—
Mas é verdade! — Ruby gesticulava com as mãos defendendo seu ponto. — Sapphire,
não foram mentirinhas que uma criança conta pra outra! As coisas que ela
escondeu de nós poderiam nos colocar em um perigo sério!
Sapphire
deu um longo suspiro, sabendo que não poderia refutar Ruby. Por mais que o
garoto estivesse certo, ela sabia que Miriam provavelmente havia feito o que
fez tentando protegê-los, mas também se sentia incomodada pela garota nunca ter
cogitado confiar neles dois para ajudá-la, assim como eles confiavam nela.
—
Ela era estagiária da Polícia Internacional, e estava coletando informações
sobre as atividades da Team Aqua e da Team Magma. Ela esteve em jornada com a
gente durante todo esse tempo, e nunca nos contou. Em Slateport descobrimos
tudo porque fomos encontrados pela chefe dela.
—
Realmente, uma situação complicada. Mas se eu puder dar minha opinião, eu acho
que ela ter tentado manter vocês fora disso foi a decisão mais sábia — Zinnia
se encostou em uma árvore próxima. — Tipo, se alguma coisa acontecesse vocês
teriam mais chances de escapar simplesmente por não saberem de nada. Os Magmas
e os Aquas não são vilões de desenho ou de videogame. São duas seitas loucas.
Vai saber o que eles podem fazer com quem apresenta alguma ameaça pra eles.
—
Por que você tá defendendo a Miriam? Você nem a conhece — Ruby indagou de forma
ríspida.
—
Eu não estou defendendo ninguém, Ruby. Eu só disse que consigo entender o
raciocínio dela nessa situação toda.
—
Eu não consigo aceitar o que ela fez! Eu sei que a Sapphire ainda gosta dela, e
realmente nós tivemos bons momentos juntos. Mas isso só torna as coisas piores!
É como se ela fosse outra pessoa! E se ela é outra pessoa, e não a que a gente
conheceu, então esses momentos bons foram todos uma mentira também? Até isso
ela teve que tirar de nós sendo tão egoísta? Que droga!
Mais
um breve momento de silêncio se fez ali. Sapphire pela primeira vez não se
sentiu à vontade para retrucar Ruby, enquanto Zinnia o observava deixando que
ele tivesse seu momento de desabafo. O garoto martelou a mesa com os dois
punhos, enquanto se podia ouvir sua respiração acelerada como poucas vezes se
viu. Zinnia deixou passar mais alguns segundos, tentando medir o momento certo
para administrar a tensão dos dois jovens.
—
Ok, parece que você já descontou a sua raiva. E aí? Adiantou alguma coisa? — a
draconid perguntou com a voz calma.
—
Ela podia ter colocado a gente em perigo.
—
É realmente isso que você pensa? Ou é o que você quer pensar?
Ruby
permanecia de costas, sem dizer mais nada. Sapphire olhava assustada, pois
nunca viu o amigo daquele jeito. Zinnia continuava serena, pois sabia o que
estava fazendo. Ela sabia pra onde estava direcionando a frustração do menino,
que finalmente cedeu.
—
Ela podia ter se colocado em perigo. E sozinha... Talvez ela não
devesse, mas ela podia ter confiado na gente...
Sapphire
então se aproximou de Ruby. Não houve nenhuma bronca, nenhuma troca de olhar.
Ela apenas parou do lado dele, cada um olhando pra frente. Foi ela quem falou
primeiro.
—
Se a gente fosse mais forte ela poderia ter nos pedido ajuda. Acho que parte da
culpa é nossa.
Ruby
só apertou ainda mais os dedos na mesa, enquanto mordia os lábios. Sapphire
suspirou fundo.
—
Ei, vocês dois — Zinnia chamou a atenção da dupla. — Não é pra ficarem se
culpando. Vocês não tinham nada a ver com isso. Ela protegeu vocês, e agora
vocês ficam fazendo pouco caso disso? E pelo amor, que clima pesado é esse? Não
é como se ela tivesse morrido ou coisa do tipo.
—
Desculpa, é que a gente guardou isso por um bom tempo. Segurar essas coisas
acaba distorcendo as ideias — Sapphire concordou, dando um sorriso sem graça.
Ruby
finalmente se virou para as duas, mas logo respirou fundo e se sentou
recostando-se na própria mesa.
—
Eu não estou habituado a falar tanto desse tipo de coisa mais profunda. Deu até
dor de cabeça.
—
Uau, parabéns! — Zinnia então começou a rir. — Você conseguiu ficar com dor de
cabeça antes do Psyduck. Isso é um baita de um feito!
Sapphire
começou a rir junto com a draconid. Ruby em um primeiro momento olhou de
relance com uma cara não muito amigável, mas logo cedeu e começou a rir também.
—
Não enche, Zinnia! Não vão se acostumando com isso. Foi só um momento de
fraqueza.
Zinnia
se sentou ao lado de Ruby. O garoto ficou em dúvida sobre o que viria em
seguida, mas a draconid não se importou com a desconfiança dele.
—
Vocês se resolveram com vocês mesmos, isso é o mais difícil. Agora vocês estão
prontos para se resolverem com ela quando seus caminhos se cruzarem de novo.
Essas idas e vindas da vida acontecem a todo momento, mas o que vale são os
laços que vão sendo construídos. Nunca deixem algo assim ir embora por causa de
um ressentimento tão banal.
—
Acho que no fim das contas a gente guardou mais ressentimento de nós mesmos do
que dela — Sapphire comentou. — Agora que tá tudo mais claro eu penso se de
repente não havia algum sinal que ela tava dando e a gente podia ter entendido.
—
Provavelmente não — Ruby respondeu. — Ela devia ser treinada pra não deixar
essas coisas escaparem. Mesmo a Miriam sendo uma pessoa emotiva, acho que ela
tinha um limite próprio do que ela se permitia mostrar.
—
Bom, seja como for eu vou voltar ao treinamento. A sessão de terapia da Zinnia
foi boa, mas ainda estamos com o tempo curto até a minha batalha em Lavaridge.
Quando
Sapphire se virou para o Psyduck para continuar a testar seus golpes foi que
ela percebeu que ele continuava usando o Confusion, mas agora ele erguia
pelo menos seis frutas de uma só vez. E parecia brincar com elas.
—
Já? Ele tá indo muito rápido!
—
Agora que destravamos o cérebro desse pequeno ele vai se desenvolver muito mais
rápido — disse Zinnia com um sorriso de satisfação.
—
Caramba, de repente eu não vou mais precisar subir nas árvores pra colher
berries.
—
Sapphire, você não vai transformar o coitado no seu empregado — disse Ruby em
tom de desaprovação, tirando um riso da garota. — Mas nas árvores mais altas e
com as quedas mais perigosas você até que pode fazer isso. Até porque eu sempre
achei loucura sua subir em qualquer árvore que aparece na sua frente.
—
Tá reclamando? Se não fosse por isso a gente não tinha se conhecido!
O
garoto apenas deu de ombros. Ele não queria admitir, mas Sapphire tinha um bom
argumento. No fundo, Ruby nem queria tentar contrariá-la. Ele concordava com a
menina. E dessa forma o treinamento com o Psyduck se estendeu até o almoço. A
partir dali uma nova caminhada em direção ao terreno acidentado na encosta do
vulcão, que para a surpresa deles não seria o lugar mais quente de Lavaridge
nos próximos dias.
O
movimento em Lavaridge naquele dia era o habitual. Turistas de um lado a outro
da rua principal, lotando as fachadas das lojinhas e formando uma fila extensa
para entrar nas fontes termais. A pequena cidade conseguia se sustentar por
conta própria devido às atividades turísticas em torno das fontes e da
proximidade com o vulcão adormecido nas entranhas do Monte Chimney.
A
única coisa que parecia fora do lugar naquele cenário era a placa de “fechado”
pendurada na porta da frente do ginásio local. Dentro dele a líder Flannery
recebia uma visita não muito agradável.
—
Duas vitórias em dez batalhas. Oitenta por cento das batalhas perdidas,
entregando facilmente a insígnia para termos uma Liga Pokémon lotada esse ano —
Sidney analisava as estatísticas anotadas em um tablet. — Nesse ritmo vamos ser
obrigados a fazer preliminares...
A
supervisão da Elite era comum nos ginásios de Hoenn. Isso era feito de forma a
procurar meios de dificultar o desafio de modo a evitar a superlotação de
participantes, o que faria a Liga Pokémon ficar muito inchada e acabaria por
prejudicar o calendário de competições previamente estabelecido.
—
Também temos recebido reclamações a respeito do seu comportamento. Muitos
desafiantes têm se queixado sobre você ser uma pessoa grosseira, mal-educada e
até agressiva na forma de falar.
—
Olha só quem fala... — pensou a líder.
Flannery
fazia força para não transformar seus pensamentos em palavras. Sabia que estava
prestes a tomar uma bela bronca, e de todas as pessoas que podiam ter sido
enviadas pela Liga para lhe dar sermão tinha que ser justamente o Sidney.
—
Flannery, deixa eu te dizer uma coisa — o homem largou o tablet em uma mesa
próxima e voltou o seu olhar para a garota. — Vocês, líderes de ginásio,
existem para filtrar os competidores que vão disputar a Liga Pokémon. A Liga de
Hoenn recebe centenas de candidatos por ano, mas nem todos têm habilidade
suficiente para ingressar no torneio. Queremos apenas os melhores treinadores
competindo para proporcionar ao público as batalhas do mais alto nível.
—
Sim, eu estou me esforçando para garantir isso.
—
ENTÃO POR QUE VOCÊ SÓ PERDE? — o Elite deu um soco na porta da sala, causando
um barulho alto que assustou a garota. — Essa merda de ginásio parece que é
feito de papel! Qualquer um entra aqui e vai embora com a insígnia como se
estivesse numa colônia de férias!
Flannery
permaneceu quieta. Não tinha como argumentar com Sidney naquele momento.
Primeiro porque os dados não mentiam, pois sua taxa de sucesso era mesmo muito
abaixo da média. E segundo porque isso só irritaria ainda mais o homem.
—
Se qualquer treinador medíocre passa pra Liga temos que abrir mais vagas, fazer
uma competição mais longa, com batalhas de baixo nível técnico. Isso faz os
espectadores ficarem desinteressados, e se os espectadores perdem o interesse o
que acontece? Os patrocinadores começam a pagar menos. Isso quando não vão
embora! E com a queda nas receitas a gente não consegue manter a estrutura pros
anos seguintes. Manter a Liga Pokémon funcionando é uma operação muito complexa
e delicada. Se uma engrenagem sai do lugar, tudo desmorona! Não podemos deixar
isso acontecer. Você me entendeu?
—
Sim, senhor.
—
Então procure melhorar como treinadora. Faça jus ao talento que seu avô e seu
pai possuem. Você tem um mês para mostrar resultados melhores, ou seremos
obrigados a tomar o ginásio de você e colocar um líder que tenha a capacidade
de defendê-lo.
—
Vocês não podem tirar o ginásio da gente! Ele está com a nossa família há
décadas! — aquele foi o primeiro momento em que Flannery se alterou. Sidney
havia tocado em um ponto muito caro para ela. Nada a ver com sua competência
como treinadora ou sua atitude como pessoa, mas desta vez no legado de sua
família.
—
Se o ginásio é tão importante assim pra você e sua família, então faça o que
for necessário para provar que você é digna de se chamar de líder. UM MÊS! É
tempo suficiente para identificar e cobrir suas fraquezas como treinadora. E
melhore essa sua atitude!
O
Elite bateu a porta ao sair do ginásio, deixando Flannery para trás. A garota
era tomada por uma expressão de desesperança. O medo de perder o ginásio a
desconsertava. Sentia que cada segundo era uma eternidade a mais sendo julgada
sob a sombra de seu avô, o antigo líder, e seu pai, outro renomado especialista
no tipo fogo.
Flannery
não conseguia se concentrar nos seus treinamentos. Tudo era motivo de dúvida,
ela já não sabia se estava fazendo o certo mesmo quando praticava fundamentos
básicos com sua equipe. Sentia o desdém da opinião pública e torcia para que
fosse apenas coisa da sua cabeça. Isso tornava a sua evolução como treinadora
ainda mais difícil, e a falta de confiança era cada vez mais determinante para
suas derrotas, já que a cada batalha a pressão por resultados melhores
aumentava.
Tudo
que ela conseguiu fazer naquele momento foi pegar o telefone e fazer uma
ligação. Um rapaz atendeu do outro lado da linha, já animado esperando por
alguma nova besteira dita por sua velha amiga.
—
Ei, faz tempo que você não liga! Como estão as coisas? Quando que a gente vai
se ver pra colocar a conversa em dia?
A
animação dele, no entanto, foi interrompida de surpresa pela voz embargada de
Flannery, algo muito raro de se ouvir.
—
Por favor, vem pra cá agora. Eu preciso da sua ajuda.
























