Notas do Autor - Capítulo 42

 

E agora estamos completos nas evoluções dos iniciais! Nosso rei da porrada não podia ficar tão atrasado assim, né? kkkkkkkk

Depois do trampo que foi pensar no que fazer no último capítulo, esse aqui foi relativamente fácil de construir. Deu pra fazer em poucos dias. Eu já tinha a pretensão de fazer o Ruby capturar um Spoink, isso estava nos planos. A única mudança é que eu pensava em fazer isso após eles saírem de Lavaridge, mas aí eu resolvi adiantar pra quem sabe não ter uma oportunidade a mais de entrosar os dois personagens? Tem um contest de batalhas chegando e eles vão precisar estar afiados.

O Spoink vai encaixar legal com o que eu penso pro time do Ruby no futuro. Eu não posso dar detalhes agora, porque vai ser uma mudança bem grande, mas eu imagino que vocês vão querer matar alguém quando acontecer. Ou vão querer matar o Ruby, ou me matar. Mas eu vou pagar pra ver kkkkkkkk

Por hoje é isso. Espero que tenham gostado do capítulo. Aguardo vocês no próximo!

Até lá! õ/

Ah, e antes que eu me esqueça, FELIZ POKÉMON DAY pra todos vocês! 30 anos, cara! Que doideira! kkkkkkkkk

Capítulo 42

 Terreno íngreme


A cidade de Lavaridge já estava no campo de visão do trio. Até mesmo Sapphire sentiu alívio ao ver as construções aparecendo ao longe, dado o longo caminho percorrido. E para Ruby a sensação era a de ter nascido de novo.


— Check-in, banho, comida, cama. Nessa ordem — o garoto tentou ser o mais direto possível, antes que Sapphire ou Zinnia tivessem alguma ideia brilhante para tirá-lo do caminho do seu merecido descanso.


Entretanto, o pedido de Ruby fora em vão. As garotas, assim que o grupo começou a subir o terreno que levava à entrada da cidade, notaram uma entrada que dava para o norte.


— Que trilha é essa? — Sapphire já cedia à sua curiosidade.


— Jagged Pass? — disse Ruby ao ler a placa na entrada. — “Passagem Acidentada”, “Passagem Irregular”... Por que isso está escrito no idioma de Galar?


— Essa rota dá direto no topo do Monte Chimney — Zinnia começou a explicar. — Eu sei que pode soar estranho, mas vulcões são atrações turísticas.


— Espera aí um minuto — o garoto sentiu uma fagulha de pânico percorrer seu corpo. — Está me dizendo que essa montanha gigante aqui é um vulcão?


— Ih, lá vem... — Sapphire já sabia o que estava por vir, mas pra sua sorte Zinnia foi mais rápida.


— Se acalma, tonto! Aqui é um lugar supertranquilo. O vulcão até tem um poço de lava visível na cratera, mas as condições ao redor não favorecem uma erupção ou explosões. Estamos seguros. Inclusive, é justamente o vulcão que move a economia de Lavaridge. Já ouviu falar nas fontes termais daqui? Eu não sei vocês, mas eu vou dar uma passada lá na primeira noite que a gente passar na cidade. Além disso, quem cuida do turismo nas trilhas e no cume do vulcão é a cidade de Lavaridge também. Eles vivem disso há décadas, e nunca houve nenhum perigo pra cidade e pros arredores.


Ruby ainda não parecia convencido, mas aceitou aquela explicação por ora. Sapphire continuava observando a trilha, que parecia despertar a sua curiosidade a ponto de ela sequer esquecer que a cidade de seu próximo desafio de ginásio estava logo ali, na frente deles.


— Tem vegetação farta nessa trilha — a menina observou. — Se tem flora, tem fauna. Eu quero ir ali. Talvez a gente encontre uma espécie Pokémon que só exista aqui.


— Podemos voltar aqui depois de nos instalarmos na cidade — disse Ruby. — Sério, não estou mais aguentando esse peso. Vamos reservar logo um quarto no Centro Pokémon e deixar nossas coisas lá.


— Ruby, vamos aqui logo. Aí depois a gente não precisa voltar, a gente fica descansando na cidade. Aliás, você fica descansando. Eu tenho que ir no ginásio agendar minha batalha.


Convencido, Ruby resolveu seguir a dupla. Passando pela entrada da trilha eles perceberam o quão alta era a montanha. Afinal, era justo o ponto mais alto de toda Hoenn. O caminho de terra vermelha se estendia até o pico, cercado por um terreno acidentado, de composição rochosa e alguns pontos de vegetação que iam desde árvores até um gramado alto.


O ar parecia mais frio naquela região, ironicamente. A cada passo que davam, sentiam como se o chão estivesse vivo, mesmo que nenhum tremor tenha sido percebido.


— É um lugar bem bonito — Ruby observava os arredores com certo encanto nos olhos. — Eu não lembro de ter visto uma vegetação tão viva.


— Solo vulcânico é muito fértil — Zinnia explicava. — É irônico que algo capaz de causar tanta destruição também possa trazer tanta vida. A natureza tem suas contradições, mas é isso que torna ela tão interessante.


Na medida em que avançavam trilha acima, o grupo notava a presença de outras pessoas no local. Alguns pareciam treinadores, outros apenas exploradores se aventurando pela trilha. Um pequeno grupo de pessoas também seguia junto, acompanhadas de um guia turístico. Esse movimento fez com que Ruby se sentisse um pouco mais seguro. A trilha até poderia ser perigosa, mas não a ponto de ninguém ser louco de se arriscar nela.


O avanço era feito com cautela, pois o terreno tinha uma inclinação que dificultava a estabilidade da caminhada. Mesmo ficar parado era difícil, pois cada movimento mínimo parecia jogar todo o peso para trás, e nenhum dos três queria saber o resultado de sair rolando trilha abaixo.


Zinnia foi a primeira a identificar uma área mais plana. Rapidamente o trio foi até o local e aproveitou para fazer uma pausa. Ruby jogou a sua mochila no chão e logo em seguida procurou alguma pedra ou tronco de madeira onde pudesse se sentar. Sapphire, sem se importar com mais nada, só verificou o lugar onde parecia ter menos poeira e se sentou no chão mesmo. A draconid permanecia de pé, analisando os arredores.


— Parece um lugar tranquilo. Acho que dá pra gente ficar aqui por um tempo.


— Eu quero comer alguma coisa — reclamou o garoto. — Eu estou aceitando comer até essas berries que a Sapphire sai pegando em qualquer lugar.


— Eu não pego em qualquer lugar, eu pego nas árvores mesmo — Sapphire retrucou. — Se cair no chão eu já não pego.


— É, acho que até você tem limite — Ruby devolveu, deixando a menina mais emburrada ainda. — Mas você nem para pra ver o que você pega, vai acabar comendo alguma podre ou com algum bicho qualquer hora.


— Ruby, tem várias maneiras de saber se as berries estão ruins antes de comer, mas sinceramente eu nem sei por que eu perco meu tempo argumentando com você sobre isso.


Sapphire apenas andou até suas coisas, e de lá tirou um saco onde guardava várias berries. Havia uma variedade de frutas ali, para todos os gostos. Ela estendeu uma toalha ao lado e colocou as berries em cima.


— Estão todas boas. Pega aí a que você achar melhor e pronto!


Ruby deu um resmungo contrariado, mas foi até as berries. Sapphire deu um riso discreto, pensando em como no início da jornada o garoto apenas se recusaria a comer frutas que, segundo ele, não teriam sido adequadamente limpas. Ele podia não notar, mas estava fazendo progresso também.


Quando o garoto chegou perto das frutas e se curvou para pegar uma ele notou que algo se mexia atrás dos arbustos próximos do barranco. Em um primeiro momento ele recuou e ficou esperando para ver o que estava ali, mas não demorou muito para que a figura se revelasse.


Uma criaturinha de aspecto suíno apareceu diante do garoto. Sua pelagem era preta e seu corpo redondo como a pérola rosa que ele equilibrava em sua cabeça. Não tinha patas traseiras, se locomovendo em saltos impulsionados por sua cauda espiralada como uma mola.


— É um Spoink! — Sapphire disse em tom de surpresa. — É a primeira vez que eu vejo um pessoalmente.


— Spoink, é? — Ruby confirmava a espécie na sua Pokédex enquanto analisava outras características da criatura. — Psíquico. E bonitinho também. Acho que vai ser ótimo pra usar nos contests.


O garoto levou a mão à sua cintura com rapidez, de onde sacou uma Pokéball, indicando que estava falando sério quanto a capturar o Spoink. Ele arremessou o dispositivo um pouco a frente, revelando seu Treecko. O lagarto olhou em volta, não demorando a assimilar a situação.


— Tarefa pra você, colega — disse o garoto, eufórico. — Vamos trazer esse aí pra nossa equipe!


O Treecko de imediato se colocou em posição de batalha, alertando o Spoink sobre suas intenções. O Pokémon psíquico também subiu sua guarda, já sabendo que seria difícil de fugir dali sem batalhar, visto que tinha uma desvantagem de velocidade.


— Olha só, o Treecko respondeu rápido dessa vez — observou Sapphire. — Será que eles estão fazendo progresso?


— Progresso eles estão fazendo sim, mas o Treecko sempre teve um pouco mais de boa vontade pra batalhas — Zinnia respondeu, também observando com atenção a batalha que estava para começar. — Mas fazendo um pouco mais as vontades dele vai fazer com que o Ruby consiga se aproximar um pouco mais. Vamos ver.


— Ok Treecko, ele é um Pokémon psíquico, então tome cuidado com possíveis truques para te enganar. Concentração máxima! Vamos ver os resultados do nosso treino com a Vivi. Comece com o Giga Drain!


Jeff avançou contra o Spoink, usando seu impulso para acelerar o alcance de seu ataque. Seus olhos começaram a brilhar em um tom cada vez mais vibrante de verde, ao passo que uma aura da mesma cor era vista ao redor do Spoink, que sentia sua energia ser sugada, enquanto a vitalidade do oponente aumentava na mesma proporção.


Spoink agiu rápido para não permitir que aquele dano corrente continuasse por mais tempo. Ele se virou na direção de onde vinha o ataque, focando sua visão em Jeff, e disparou contra o lagarto um raio de energia de cor rosa. O Treecko, que focava na execução do ataque, não teve tempo de trocar para a defesa, sendo acertado diretamente pelo contra-ataque.


— O que foi isso? — Sapphire exclamou ao se assustar com a potência do ataque.


— Isso foi um Psybeam. — Ruby respondeu, sentindo a dificuldade daquele confronto. — Eu conheço bem esse ataque, ele é muito popular em contests com apresentações de beleza. Treecko, tome cuidado! Receber um ataque desse diretamente pode causar confusão!


Jeff conseguiu se levantar com facilidade, apesar de ter sido pego com a guarda baixa. Ele espanou a poeira de seu corpo com as mãos, usando aquilo até como um gesto provocativo para o Spoink, mostrando que o ataque não havia funcionado tão bem.


— Essa foi quase — disse o Treecko. — Muito bem, carinha. Continua assim e quem sabe você não me dá um susto.


— Ah, ainda bem que não se machucou — disse o Spoink, parecendo estranhamente simpático. — Do jeito que você saiu rolando eu não tinha certeza se você ia se levantar. Acho que dá pra bater mais forte a partir de agora.


Jeff deu um sorriso de canto. Ele conhecia bem aquele tipo de provocação, afinal, ele mesmo era especialista naquilo.


— Boa resposta. Eu acho que vou gostar de te atormentar.


Ruby tentava analisar o comportamento de Spoink, mas tinha dificuldades em prever o que ele poderia fazer. Ele não estava acostumado a fazer aquele tipo de reflexão enquanto se preocupava em comandar uma batalha, mas era algo que Vivi havia dito pra ele tentar fazer dali em diante. O garoto sentia sua cabeça começar a doer com aquele esforço.


Como eu faço o Treecko se aproximar dele sem correr risco de ser pego em um ataque direto? Posso fazer uso da velocidade dele pra isso, mas sempre tem o risco de algum outro movimento bagunçar o status dele. Segundo a Pokédex, no nível em que esse Spoink está agora, a chance de ele saber usar Confuse Ray é razoável... Pensa, Ruby! O que dá pra fazer agora?


Os pensamentos do garoto foram interrompidos quando Spoink efetuou um disparo de ondas psíquicas na direção de Jeff. O Treecko conseguiu se esquivar com facilidade, mas o prejuízo ficou por conta de Ruby, que teve seu raciocínio interrompido.


— Droga, isso é difícil demais! — Ruby resmungou enquanto apertava os punhos. — Se eu tentar pensar demais o Treecko vai acabar pagando a conta. Treecko, use o Pursuit!


Jeff avançou com rapidez em direção ao Spoink, que tentou prever de onde viria o ataque e se esquivou. Entendendo como ficaria o posicionamento do oponente, o lagarto do tipo planta mudou a trajetória da sua corrida e foi parar atrás do adversário, acertando-o com um golpe forte que o lançou alguns metros para o lado oposto.


Ruby respirou fundo, se permitindo sentir um pouco de alívio. Apesar de não poder se distrair, os ataques estavam funcionando, mesmo que improvisados. Se ele conseguisse tempo para pensar em uma estratégia, ele poderia vencer.


O Spoink se levantou e ficou aguardando o próximo movimento da dupla adversária. Ruby entendeu que aquilo poderia ser um sinal de que ele estava com dificuldades de encontrar um caminho para tomar a dianteira da batalha. O garoto sentiu sua confiança voltar, tentando mais uma vez pensar em um plano para finalizar aquela batalha.


— Olha, faz tempo que eu não tenho esse trabalho todo numa batalha — o Spoink arfava ao tentar falar. — Você é bom de briga, bicho.


— Tu não viu nada ainda — Jeff se colocava em posição de batalha mais uma vez. — Tô só começando.


— Vamos, Treecko — Ruby chamou a atenção do seu parceiro, parecendo já ter um plano em mente. — Use o Leer para fazê-lo baixar a guarda!


Por mais simples que aquele comando parecesse, o fato de Spoink estar começando a sentir o desgaste, tanto físico quanto mental, o tornava mais suscetível a efeitos daquele tipo de movimento. Jeff lançou um olhar direto para o suíno, fazendo com que ele hesitasse.


Spoink, no entanto, se recuperou depressa sabendo o risco de ficar naquele estado de vulnerabilidade por muito tempo. Numa tentativa de atrasar os planos de Ruby, o Pokémon selvagem disparou outro Psybeam na direção de Jeff.


— Desvie do ataque e use o Quick Attack para se aproximar dele! — Ruby comandou, estendendo a mão em um gesto que dizia para Jeff seguir em frente sem hesitar.


Ele tá cada vez mais à vontade, já consegue dominar as ações da batalha e controlar a situação a seu favor — pensava Sapphire enquanto assistia à batalha.


Jeff correu em direção ao Spoink após desviar do disparo psíquico. Ele fazia uso de sua velocidade formidável para reduzir a distância antes que seu oponente fizesse mais algum ataque.


— Complete com Pursuit!


O Spoink já conhecia o ataque depois de ter sido acertado da primeira vez, e naquele momento ele havia lido a movimentação de Jeff, induzindo-o a fazer o mesmo trajeto para tentar ir parar em suas costas. Ele então se virou para o Treecko assim que ele chegou no local previsto.


Com o susto, Jeff atrasou na execução do ataque, o que abriu uma janela de tempo para que o Spoink fizesse sua resposta. A pérola em sua cabeça começou a emitir um forte brilho em tom púrpura, disparando em seguida um raio da mesma cor.


Jeff foi atingido em cheio e começou a se debater enquanto cambaleava desorientado, até que chegou próximo a uma pedra e bateu sua cabeça com força nela, parecendo ter sido de propósito.


— Treecko! — Ruby tentou chamá-lo alto para tentar fazer com que o lagarto despertasse. — Ele tinha mesmo o Confuse Ray, que droga!


— Ih, babou — disse Zinnia, observando o desfecho da batalha.


Ruby sabia que aquela situação era capaz de virar o jogo a favor do Spoink. Naquele estado de confusão, Jeff só causaria danos a si mesmo se tentasse atacar de forma impensada. Para piorar, o ótimo poder de ataque do Treecko agora se voltava contra ele, já que isso também impactava o dano dos ataques autoinfligidos.


— Você foi muito inocente de achar que eu estava sem saída — disse o Spoink. — Eu lido com treinadores há muito tempo por aqui. Meu passatempo favorito é fazer vocês se sentirem confiantes e pegar todos desprevenidos. Por isso os outros Pokémons dessa rota me chamam de “enganador”. Mas você pode me chamar de Oswin mesmo, já que você não tem intimidade pra me chamar por apelidos.


O Spoink se divertia com o Treecko desorientado. Ruby começava a ficar nervoso novamente, tentando encontrar algum jeito de sair daquela situação. Sapphire e Zinnia observavam com atenção como aquela batalha seguia. Ambas sabiam o que fazer para contornar aquele problema, e sabiam que havia uma solução imediata ao alcance de Ruby, mas as duas decidiram não falar. Elas sabiam que Ruby estava tentando evoluir sozinho, e decidiram deixá-lo descobrir a solução por conta própria.


Ok, não posso ficar nervoso — Ruby fechou os olhos por um instante para começar a refletir. — A Vivi, a Sapphire, a Zinnia e a Miriam sempre disseram a mesma coisa, que o importante é manter a calma nesses momentos. Pensando bem, meu pai já dizia isso quando eu era criança. Manter a calma é uma parte fundamental da batalha. Ficar nervoso não vai ajudar o Treecko em nada, preciso observar os arredores pra ver o que dá pra fazer em um momento como esse.


O garoto abriu os olhos devagar, depois de respirar fundo. Teve a sensação de enxergar o ambiente com mais clareza, como se antes o nervosismo fosse um véu enevoado. Começou a escanear o local, lado a lado, na tentativa de encontrar qualquer coisa. E então seus olhos estacionaram na toalha onde Sapphire havia colocado as berries alguns minutos antes. Ruby ficou encarando as frutas por um tempo, como se as peças do quebra-cabeça começassem a se encaixar em sua mente.


— Boa, Ruby. É isso mesmo — Zinnia sussurrou satisfeita. Sapphire também deu um sorriso.


Ele se agachou e pegou uma das frutas, pequena e rosada. Ela não era volumosa, apenas um pouco comprida, com a extremidade mais pontuda. Uma Persim Berry, ideal para livrar Pokémons do estado de confusão.


Ruby rapidamente pegou a fruta e foi até o Treecko. O garoto agarrou o braço do seu parceiro e deu a fruta na mão dele. Jeff olhou para o menino, ainda desnorteado, mas se esforçava para ouvir o que ele estava dizendo.


— EsTa bErRy VaI tE aJuDaR! VoCê PrEcIsA cOmEr IsSo! CoMA isSO! Treecko, coma isso!


Jeff comeu a fruta assim que identificou a mensagem. Aos poucos sua dor de cabeça se dissipou, sua visão ficou mais clara e seus pensamentos agora pareciam seus novamente. Ele olhou para as próprias mãos, como quem havia acabado de tomar consciência de onde estava.


— Eita, brisa ruim da desgraça — o Treecko então olhou para Oswin. — Foi você que fez isso?


— Isso mesmo. E agora toma cuidado, essa era a última Persim que tinha aí no meio. Se eu te colocar em confusão de novo, acabou pra você.


Jeff fez menção de ir até o Spoink tentar resolver por conta própria, mas parou e esperou por Ruby. Ele era o treinador, afinal. Então o lagarto ia seguir a batalha como ela deveria ser seguida.


— Treecko, foi a última Persim Berry. Não podemos cair nessa de novo — disse o garoto. — Mas não se preocupe, agora a gente sabe que ele tem o Confuse Ray. Eu não vou deixar você ser acertado por ele de novo.


Jeff assentiu com a cabeça e virou seu foco de volta para a batalha. Ele estalou os dedos e o pescoço, indicando que levaria aquele confronto a sério a partir dali.


— Droga, eu não tava querendo fazer isso ainda. Não quero esse pirralho se achando como se isso aqui fosse coisa dele, mas eu não tenho muita escolha. Pra não ser pego nessa confusão de novo eu tenho que acabar com isso rápido.


O Treecko foi envolto por uma luz branca ofuscante que tomou seu corpo por completo. Ruby cerrou os olhos para tentar ver melhor o que estava acontecendo, mas o máximo que conseguia identificar era a silhueta de Jeff se alongando, tanto seu tronco como seus membros.


Quando o brilho cessou, uma figura bem diferente estava em campo. Ruby sabia que aquele era seu parceiro, já tinha presenciado outras evoluções, mas não deixou de se surpreender com a forma nova que ainda não tinha visto. O pequeno Treecko agora tinha um corpo mais alto e esguio, pernas mais fortes que lhe permitiam pegar mais impulso em seus movimentos, além de uma crista formada por uma folha comprida que percorria do topo de sua cabeça até a altura da cauda que imitava duas folhas. Três folhas saíam de cada um de seus pulsos.


O garoto estava sem comentários. Zinnia sorria de satisfação, enquanto Sapphire vibrava com a evolução que tinha acabado de acontecer.


— Ruby, você conseguiu fazer seu inicial evoluir! Ele agora é um Grovyle!


O réptil olhava fixamente para Oswin, que agora tinha um semblante preocupado. O Spoink não sabia se seus ataques com potencial de confusão conseguiriam atingir aquele lagarto a tempo, já que todo o corpo dele parecia ser desenhado para garantir a ele impulso e velocidade.


— Agora você vai ver só — Jeff olhava para as folhas afiadas em seus braços, balançando-as para testar o fio de corte. — Uma pergunta. Você é religioso? Se for, já começa a rezar. Se não for, então corre porquinho, que o negócio vai ficar feio pro teu lado.


O Grovyle então se virou pra Ruby.


— E você vê se trata de chamar a garota pra uma revanche! Eu tenho contas a acertar com aquele frango frito miserável!


Ruby apenas levantou os braços e encolheu os ombros, mostrando que não tinha entendido nada do que seu parceiro havia falado. Para ele, eram apenas grunhidos.


— Ô, moleque burro...


— Não vai pensando que vai tomar a vantagem só porque evoluiu! — disse Oswin. — Eu vou acabar com essa palhaçada agora!


O psíquico preparou um novo Psybeam para tentar resolver a batalha logo, mas Jeff estava preparado para aquilo. Com sua nova velocidade e percepção melhorada, ele conseguia ver o adversário planejando o ataque com muito mais clareza.


— Foi mal, garoto, mas eu vou tomar as decisões dessa vez — disse o Grovyle. — Tem uma coisa que eu quero testar.


Quando o ataque foi disparado, Jeff apenas aguardou o momento exato em que o Spoink estaria distraído tentando alinhar a trajetória do raio e se impulsionou para o lado e depois se atirou para a frente com um Quick Attack, como ele e Ruby haviam tentado anteriormente.


Oswin, acreditando ser a mesma estratégia de antes, se virou para trás para tentar bloquear o Pursuit com seu Confuse Ray, já que da outra vez tinha se provado um contra-ataque muito eficaz. Mas ele se assustou ao ouvir a voz do Grovyle no lugar exato de onde ele tinha desviado o olhar.


— Errou, garoto.


Jeff ergueu seus braços, e as folhas em seus pulsos começaram a brilhar em um tom vívido de verde. Ele desferiu dois golpes em sequência, alternando os braços em movimentos de corte transversais. A força do ataque foi suficiente para derrubar o Spoink desacordado. Era uma técnica recém aprendida, Leaf Blade.


Percebendo que a batalha estava terminada, Ruby se apressou em pegar uma Pokéball de sua mochila e a atirou contra o Pokémon nocauteado. Após um breve momento de apreensão, a Pokéball parou de sacudir e se estabilizou. A captura estava concluída.


Ruby foi até o aparelho, o pegou e ficou olhando pra ele.


— Caramba, esse aqui deu trabalho! — disse o menino, rindo. — Ele vai ser bom demais de usar em contests de batalha também.


O garoto então percebeu que o Grovyle o encarava com uma expressão não muito agradável. Ele parecia saber do que se tratava.


— Calma, você sempre vai ser a primeira opção pra esses contests, mas é bom sempre ter algumas cartas a mais na manga. Nunca se sabe. Aliás, se eu estiver cero, o contest de Fallarbor é de batalhas em dupla, então...


— Muito bem, acho que já tivemos o bastante por aqui. Já deu pra conhecer bem a trilha — Zinnia chamou a atenção dos mais jovens. — Vamos pra Lavaridge? Eu quero descansar um pouco.


Com uma adição na equipe, Ruby sentia suas habilidades em batalha melhorarem aos poucos. Mas talvez o grande ganho naquele dia era a confiança do garoto, que crescia na medida em que ele apresentava melhoras. Agora ele poderia descansar um pouco em Lavaridge antes de começar a se planejar para o próximo contest.


O trio começou a descer a trilha de volta para a entrada da cidade. Dessa vez, o foco maior estava por conta de Sapphire, que tinha um importante desafio se aproximando. E ela sabia que não seria tão fácil quanto os boatos faziam parecer.


FIM DO CAPÍTULO

  


Notas do Autor - Capítulo 41


Esse capítulo teve uma história bem engraçada. Talvez vocês me xinguem (o Dento com certeza deve ter me xingado dentro da cabeça dele, apesar de negar isso), mas eu tinha uma ideia totalmente diferente pra esse capítulo aqui.

Como vinha sendo indicado anteriormente na história, esse capítulo era pra ser deles passando o dia no rancho da família da Vivi, batalhando e tal. Mas simplesmente não tava saindo nem por um decreto kkkkkkkkk Daí resolvi deletar as quase 1000 palavras escritas naquele capítulo e comecei a pensar no que eu poderia fazer de interessante.

Foi então que eu lembrei de uma conversa que tive com o Canas lá em setembro, onde ele abriu minha mente com alguns pontos sobre toda essa questão da Zinnia sequer saber quem é a Miriam, porque o Ruby e a Sapphire nunca falam sobre ela, e isso era quase que um tabu entre eles. Mas vamos lá, a Miriam está lá no canto dela se esforçando pra tentar consertar as coisas. Cedo ou tarde o Ruby e a Sapphire iam ter que tocar nessa ferida também. E essas rotas mais longas que estão vindo agora são perfeitas para tocarmos nessas questões que ainda ficaram sem resolução na Omega Saga.

Pra finalizar, esse trecho da Flannery era a princípio a ideia que eu estava desenvolvendo para o Gym Leader's Life dela, mas achei que encaixaria melhor aqui pra dar logo o tom do que vai ser esse próximo ginásio. Mas não se preocupem, o especial dela não foi cancelado. Eu tenho uma outra ideia kkkkkkk

Eu sei que já estou quase 1 mês atrasado, mas feliz 2026 pra todo mundo! Começamos o ano trabalhando!

Até a próxima! õ/




Capítulo 41

 Os conflitos de cada um



Mauville já tinha ficado para trás. O destino do trio então era a cidade de Lavaridge, onde Sapphire disputaria o desafio do ginásio local na tentativa de conquistar sua quarta insígnia. Vez ou outra, a garota era desperta de seus momentos de distração por uma pontada no peito, assim que se lembrava que uma vitória a colocaria na metade do caminho para a Liga Pokémon daquele ano. Zinnia tentava mantê-la calma, e Ruby só conseguia observar sem ter muito a contribuir.


Vivi já havia ficado para trás. Após pararem para descansar no rancho da família da menina, Sapphire participou do desafio de tentar vencer todos os membros dos Winstrates em sequência. Ela conseguiu vencer Vivi e sua mãe, mas logo em seguida perdeu para o pai da garota, sequer tendo a chance de enfrentar a avó dela, considerada a mais forte entre os presentes. Vito, irmão mais velho de Vivi, não estava presente, possivelmente dando continuidade à sua própria jornada, já que pensava em disputar a Liga daquele ano também para tentar o título após o vice-campeonato do ano anterior, onde havia perdido a final para Steven.


Vivi também deu algumas dicas para Ruby sobre batalhas em contests, e passou uma série de exercícios práticos para melhorar a mobilidade dos Pokémons do menino, para que eles pudessem executar os seus ataques ao mesmo tempo em que reproduziam movimentos mais elegantes para somar pontos na apresentação. Fallarbor estava às portas também, e por isso o garoto tinha que acelerar seu passo se quisesse ficar pronto a tempo. Vivi, por sua vez, ficou com a família no rancho, já que ela ia para Slateport tentar o contest de lá, mas com a promessa de que venceria e alcançaria Ruby em Fallarbor, para que os dois pudessem rivalizar de novo, desta vez na modalidade que a menina afirmava ser sua especialidade.


A trilha ao redor trazia um ar leve aos viajantes. Mesmo com poucas árvores ao redor o tempo estava fresco. O sol era ameno e uma brisa corria pelas encostas das montanhas que rodeavam a rota, surpreendendo o grupo que esperava um calor mais forte pela proximidade com o deserto que se localizava ali perto. Era um ótimo dia para fazer algo ao ar livre.


— A gente precisava sair tão cedo da casa da Vivi? — Sapphire parecia contrariada, com as mãos atrás da cabeça enquanto caminhava com seus amigos. — A mãe dela cozinha mó bem, eu queria ter almoçado lá de novo.


— Sapphire, eles já foram muito gentis de deixar a gente passar a noite — disse Ruby. — Não vamos ficar abusando. Além do mais, se ficássemos para o almoço acabaríamos nos atrasando ainda mais. O Contest de Fallarbor é daqui a duas semanas, e ainda temos que passar em Lavaridge por causa do ginásio. Não temos tempo a perder.


— Tá bom, tá bom, não precisa ficar me dando sermão — a garota bufou, até que reparou que o terreno por onde caminhavam estava mudando. — Ué, de onde veio essa areia toda de repente?


Quando a menina se deu conta, Zinnia e Ruby haviam parado um pouco antes, e só então ela olhou para a frente e percebeu que eles estavam diante de uma faixa de areia tão longa que se estendia por uma distância que eles nem se atreviam a calcular. A única referência que tinham do quão grande aquela área era de verdade, era um paredão rochoso que percorria os limites daquele solo arenoso. A muralha de pedra era notadamente alta, mas de onde eles estavam ela era vista bem pequena.


— A gente não vai tentar atravessar isso aí, né? — Ruby questionou, preocupado. — Não temos água pra isso, o pouco que temos vai ser usado num instante, porque a gente vai desidratar rápido.


— Esse é o Deserto de Hoenn — disse Zinnia, tentando esclarecer a situação. — Eu nunca estive dentro dele, mas as pessoas da minha comunidade dizem que é realmente um caminho que testa até mesmo os treinadores mais fortes. Com certeza não vamos passar por aí.


— E como a gente chega em Lavaridge? — perguntou Sapphire.


— Não se preocupe, nós estamos no limite da área do deserto. Lavaridge fica exatamente a leste daqui, então só temos que virar à esquerda agora e seguir adiante. E Ruby, antes que pergunte, pode ficar tranquilo também. Perto de Lavaridge existe um outro caminho por onde podemos ir. Não vamos passar pelo deserto e é até mais rápido para chegarmos a Fallarbor.


— Graças à Arceus — o garoto pôs uma mão sobre o peito e suspirou.


— Se ele testa até os melhores treinadores, então eu deveria tentar passar — disse Sapphire. — Mas infelizmente Lavaridge é pro outro lado, então vai ter que ficar pra depois.


— Ah, claro — Ruby desdenhou. — Tudo que a gente precisa agora é você cozinhar os poucos neurônios que ainda te restam.


E nisso o grupo se deslocou na direção indicada por Zinnia. Após mais um período de caminhada, eles decidiram montar o acampamento para poder descansar. Como já haviam se afastado da entrada do deserto, o solo voltou ao padrão de antes e a temperatura que ameaçava um calor bem mais forte voltava à amenidade.


Sapphire tinha trazido sua equipe para mais uma sessão de treinamento. Ela queria aproveitar todo o tempo que pudesse antes de chegar a Lavaridge. O que quer que acontecesse no ginásio, ela pelo menos teria a certeza de que se esforçou o máximo que podia. Naquele momento ela tentava, mais uma vez, fazer o Psyduck responder aos seus comandos. Uma tarefa que até então vinha se mostrando árdua, mas ela não queria desistir.


— Vamos Psyduck, pelo menos um Water Pulse pra gente poder ver algum progresso — a treinadora tinha as mãos juntas, como quem implorava pela colaboração da criaturinha aquática. — Por favor!


O Psyduck inclinou a cabeça enquanto olhava para a menina. Se a cara dele não dizia nada que fizesse sentido naquele momento, a de Sapphire era de profunda desilusão como alguém que não esperava mais nada.


Mas, para a surpresa da garota, o pequeno pato se virou para o outro lado, mirou no tronco de uma árvore e disparou o exato golpe que havia sido pedido. Não foi um Water Pulse com toda a força, mas pelo menos teve impacto suficiente para tirar uma lasca do tronco.


Sapphire soltou uma exclamação, chamando a atenção de Ruby e Zinnia, que apenas descansavam aproveitando a brisa fresca que passava por ali.


— Zinnia! Ele me obedeceu! — Sapphire gritava e gesticulava eufórica. — O Psyduck me obedeceu!


— Será que não foi por acaso? — até mesmo a draconid estava desacreditada. — Tenta de novo. Vamos ver se ele obedece mais uma vez.


Sapphire concordou com a cabeça e se posicionou mais uma vez junta de seu parceiro. Ela se agachou próxima a ele e passou a orientação com calma.


— Tá vendo aquelas berries caídas no pé da árvore? Tente levantar algumas com o Confusion.


Ainda um pouco devagar, Psyduck fez o que foi pedido. Com um breve momento de foco, o pato usou sua energia telecinética para fazer com que as frutas levitassem.


— Estamos fazendo progresso, realmente — Zinnia constatou. — Acho que dá pra começar a puxar um pouco o treino dele. De repente dá tempo de colocar o Psyduck pra batalhar contra a líder de Lavaridge.


— A ideia é essa — Sapphire concordou. — Vou ver até onde consigo esticar a corda. Forçar demais também pode fazer a gente voltar à estaca zero.


— Caramba, o Psyduck realmente começou a atender os seus comandos — Ruby parecia tão surpreso quanto as meninas. — Eu não esperava que fosse acontecer tão cedo. Na verdade, eu até tinha dúvida se ia acontecer em algum momento.


— Foi graças aos conselhos da Zinnia — Sapphire então se virou para a mais velha. — Se não fosse por você eu nem sei como eu faria pra treinar o Psyduck.


Zinnia foi surpreendida pelo comentário de Sapphire. Não estava acostumada com aquele tipo de elogio repentino. Durante toda a sua infância, seus acertos eram sempre tratados como se fosse apenas mais uma obrigação de alguém que ocuparia a função a qual ela foi designada dentro das tradições dos draconids. Ela não sabia se era a primeira vez, mas não lembrava de nenhum outro momento em que havia recebido um comentário positivo.


— Ahn... Relaxa, isso não foi nada demais. São só algumas coisas que eu acabei pegando das pessoas do meu povo depois de anos convivendo com Pokémons e treinadores. Com o tempo essas coisas ficam bem fáceis de decorar.


— Não ficam não, Zinnia — disse Ruby. — Esse tipo de conhecimento é pouca gente que consegue reter. Meu pai é líder de ginásio, dos bons, e nem mesmo ele consegue se lembrar de tudo que aprendeu sobre criação Pokémon. Você consegue adaptar métodos de treinamento pra qualquer Pokémon usando as próprias individualidades deles. É realmente impressionante.


— Acho que nesse quesito ela supera até mesmo a Miriam — logo após sua fala, foi possível notar Sapphire tentando forçar para que seu sorriso não se dissipasse.


Zinnia não pôde deixar de notar o desconforto da menina ao falar aquele nome, e notou que até mesmo Ruby havia se encolhido entre os ombros. Era como se o silêncio repentino cortasse aquele momento de euforia.


— Eu já ouvi vocês comentarem sobre essa Miriam uma ou duas vezes — disse a mais velha. — É alguma amiga de vocês?


— Ela viajava com a gente até pouco tempo atrás, mas algumas coisas aconteceram e tivemos que nos separar — Sapphire respondeu com um tom pesaroso em sua voz.


— Eu lembro que quando vi vocês na Caverna de Granito lá em Dewford tinha mais uma pessoa junto. Era ela?


— Sim — Ruby respondeu, sem se estender muito. — Logo depois de irmos embora de Dewford a gente acabou descobrindo que ela não era quem dizia ser. Ela mentiu pra gente.


— Ruby! — Sapphire tentou repreender o garoto.


— Mas é verdade! — Ruby gesticulava com as mãos defendendo seu ponto. — Sapphire, não foram mentirinhas que uma criança conta pra outra! As coisas que ela escondeu de nós poderiam nos colocar em um perigo sério!


Sapphire deu um longo suspiro, sabendo que não poderia refutar Ruby. Por mais que o garoto estivesse certo, ela sabia que Miriam provavelmente havia feito o que fez tentando protegê-los, mas também se sentia incomodada pela garota nunca ter cogitado confiar neles dois para ajudá-la, assim como eles confiavam nela.


— Ela era estagiária da Polícia Internacional, e estava coletando informações sobre as atividades da Team Aqua e da Team Magma. Ela esteve em jornada com a gente durante todo esse tempo, e nunca nos contou. Em Slateport descobrimos tudo porque fomos encontrados pela chefe dela.


— Realmente, uma situação complicada. Mas se eu puder dar minha opinião, eu acho que ela ter tentado manter vocês fora disso foi a decisão mais sábia — Zinnia se encostou em uma árvore próxima. — Tipo, se alguma coisa acontecesse vocês teriam mais chances de escapar simplesmente por não saberem de nada. Os Magmas e os Aquas não são vilões de desenho ou de videogame. São duas seitas loucas. Vai saber o que eles podem fazer com quem apresenta alguma ameaça pra eles.


— Por que você tá defendendo a Miriam? Você nem a conhece — Ruby indagou de forma ríspida.


— Eu não estou defendendo ninguém, Ruby. Eu só disse que consigo entender o raciocínio dela nessa situação toda.


— Eu não consigo aceitar o que ela fez! Eu sei que a Sapphire ainda gosta dela, e realmente nós tivemos bons momentos juntos. Mas isso só torna as coisas piores! É como se ela fosse outra pessoa! E se ela é outra pessoa, e não a que a gente conheceu, então esses momentos bons foram todos uma mentira também? Até isso ela teve que tirar de nós sendo tão egoísta? Que droga!


Mais um breve momento de silêncio se fez ali. Sapphire pela primeira vez não se sentiu à vontade para retrucar Ruby, enquanto Zinnia o observava deixando que ele tivesse seu momento de desabafo. O garoto martelou a mesa com os dois punhos, enquanto se podia ouvir sua respiração acelerada como poucas vezes se viu. Zinnia deixou passar mais alguns segundos, tentando medir o momento certo para administrar a tensão dos dois jovens.


— Ok, parece que você já descontou a sua raiva. E aí? Adiantou alguma coisa? — a draconid perguntou com a voz calma.


— Ela podia ter colocado a gente em perigo.


— É realmente isso que você pensa? Ou é o que você quer pensar?


Ruby permanecia de costas, sem dizer mais nada. Sapphire olhava assustada, pois nunca viu o amigo daquele jeito. Zinnia continuava serena, pois sabia o que estava fazendo. Ela sabia pra onde estava direcionando a frustração do menino, que finalmente cedeu.


— Ela podia ter se colocado em perigo. E sozinha... Talvez ela não devesse, mas ela podia ter confiado na gente...


Sapphire então se aproximou de Ruby. Não houve nenhuma bronca, nenhuma troca de olhar. Ela apenas parou do lado dele, cada um olhando pra frente. Foi ela quem falou primeiro.


— Se a gente fosse mais forte ela poderia ter nos pedido ajuda. Acho que parte da culpa é nossa.


Ruby só apertou ainda mais os dedos na mesa, enquanto mordia os lábios. Sapphire suspirou fundo.


— Ei, vocês dois — Zinnia chamou a atenção da dupla. — Não é pra ficarem se culpando. Vocês não tinham nada a ver com isso. Ela protegeu vocês, e agora vocês ficam fazendo pouco caso disso? E pelo amor, que clima pesado é esse? Não é como se ela tivesse morrido ou coisa do tipo.


— Desculpa, é que a gente guardou isso por um bom tempo. Segurar essas coisas acaba distorcendo as ideias — Sapphire concordou, dando um sorriso sem graça.


Ruby finalmente se virou para as duas, mas logo respirou fundo e se sentou recostando-se na própria mesa.


— Eu não estou habituado a falar tanto desse tipo de coisa mais profunda. Deu até dor de cabeça.


— Uau, parabéns! — Zinnia então começou a rir. — Você conseguiu ficar com dor de cabeça antes do Psyduck. Isso é um baita de um feito!


Sapphire começou a rir junto com a draconid. Ruby em um primeiro momento olhou de relance com uma cara não muito amigável, mas logo cedeu e começou a rir também.


— Não enche, Zinnia! Não vão se acostumando com isso. Foi só um momento de fraqueza.


Zinnia se sentou ao lado de Ruby. O garoto ficou em dúvida sobre o que viria em seguida, mas a draconid não se importou com a desconfiança dele.


— Vocês se resolveram com vocês mesmos, isso é o mais difícil. Agora vocês estão prontos para se resolverem com ela quando seus caminhos se cruzarem de novo. Essas idas e vindas da vida acontecem a todo momento, mas o que vale são os laços que vão sendo construídos. Nunca deixem algo assim ir embora por causa de um ressentimento tão banal.


— Acho que no fim das contas a gente guardou mais ressentimento de nós mesmos do que dela — Sapphire comentou. — Agora que tá tudo mais claro eu penso se de repente não havia algum sinal que ela tava dando e a gente podia ter entendido.


— Provavelmente não — Ruby respondeu. — Ela devia ser treinada pra não deixar essas coisas escaparem. Mesmo a Miriam sendo uma pessoa emotiva, acho que ela tinha um limite próprio do que ela se permitia mostrar.


— Bom, seja como for eu vou voltar ao treinamento. A sessão de terapia da Zinnia foi boa, mas ainda estamos com o tempo curto até a minha batalha em Lavaridge.


Quando Sapphire se virou para o Psyduck para continuar a testar seus golpes foi que ela percebeu que ele continuava usando o Confusion, mas agora ele erguia pelo menos seis frutas de uma só vez. E parecia brincar com elas.


— Já? Ele tá indo muito rápido!


— Agora que destravamos o cérebro desse pequeno ele vai se desenvolver muito mais rápido — disse Zinnia com um sorriso de satisfação.


— Caramba, de repente eu não vou mais precisar subir nas árvores pra colher berries.


— Sapphire, você não vai transformar o coitado no seu empregado — disse Ruby em tom de desaprovação, tirando um riso da garota. — Mas nas árvores mais altas e com as quedas mais perigosas você até que pode fazer isso. Até porque eu sempre achei loucura sua subir em qualquer árvore que aparece na sua frente.


— Tá reclamando? Se não fosse por isso a gente não tinha se conhecido!


O garoto apenas deu de ombros. Ele não queria admitir, mas Sapphire tinha um bom argumento. No fundo, Ruby nem queria tentar contrariá-la. Ele concordava com a menina. E dessa forma o treinamento com o Psyduck se estendeu até o almoço. A partir dali uma nova caminhada em direção ao terreno acidentado na encosta do vulcão, que para a surpresa deles não seria o lugar mais quente de Lavaridge nos próximos dias.


• • •

O movimento em Lavaridge naquele dia era o habitual. Turistas de um lado a outro da rua principal, lotando as fachadas das lojinhas e formando uma fila extensa para entrar nas fontes termais. A pequena cidade conseguia se sustentar por conta própria devido às atividades turísticas em torno das fontes e da proximidade com o vulcão adormecido nas entranhas do Monte Chimney.


A única coisa que parecia fora do lugar naquele cenário era a placa de “fechado” pendurada na porta da frente do ginásio local. Dentro dele a líder Flannery recebia uma visita não muito agradável.


— Duas vitórias em dez batalhas. Oitenta por cento das batalhas perdidas, entregando facilmente a insígnia para termos uma Liga Pokémon lotada esse ano — Sidney analisava as estatísticas anotadas em um tablet. — Nesse ritmo vamos ser obrigados a fazer preliminares...


A supervisão da Elite era comum nos ginásios de Hoenn. Isso era feito de forma a procurar meios de dificultar o desafio de modo a evitar a superlotação de participantes, o que faria a Liga Pokémon ficar muito inchada e acabaria por prejudicar o calendário de competições previamente estabelecido.


— Também temos recebido reclamações a respeito do seu comportamento. Muitos desafiantes têm se queixado sobre você ser uma pessoa grosseira, mal-educada e até agressiva na forma de falar.


Olha só quem fala... — pensou a líder.


Flannery fazia força para não transformar seus pensamentos em palavras. Sabia que estava prestes a tomar uma bela bronca, e de todas as pessoas que podiam ter sido enviadas pela Liga para lhe dar sermão tinha que ser justamente o Sidney.


— Flannery, deixa eu te dizer uma coisa — o homem largou o tablet em uma mesa próxima e voltou o seu olhar para a garota. — Vocês, líderes de ginásio, existem para filtrar os competidores que vão disputar a Liga Pokémon. A Liga de Hoenn recebe centenas de candidatos por ano, mas nem todos têm habilidade suficiente para ingressar no torneio. Queremos apenas os melhores treinadores competindo para proporcionar ao público as batalhas do mais alto nível.


— Sim, eu estou me esforçando para garantir isso.


— ENTÃO POR QUE VOCÊ SÓ PERDE? — o Elite deu um soco na porta da sala, causando um barulho alto que assustou a garota. — Essa merda de ginásio parece que é feito de papel! Qualquer um entra aqui e vai embora com a insígnia como se estivesse numa colônia de férias!


Flannery permaneceu quieta. Não tinha como argumentar com Sidney naquele momento. Primeiro porque os dados não mentiam, pois sua taxa de sucesso era mesmo muito abaixo da média. E segundo porque isso só irritaria ainda mais o homem.


— Se qualquer treinador medíocre passa pra Liga temos que abrir mais vagas, fazer uma competição mais longa, com batalhas de baixo nível técnico. Isso faz os espectadores ficarem desinteressados, e se os espectadores perdem o interesse o que acontece? Os patrocinadores começam a pagar menos. Isso quando não vão embora! E com a queda nas receitas a gente não consegue manter a estrutura pros anos seguintes. Manter a Liga Pokémon funcionando é uma operação muito complexa e delicada. Se uma engrenagem sai do lugar, tudo desmorona! Não podemos deixar isso acontecer. Você me entendeu?


— Sim, senhor.


— Então procure melhorar como treinadora. Faça jus ao talento que seu avô e seu pai possuem. Você tem um mês para mostrar resultados melhores, ou seremos obrigados a tomar o ginásio de você e colocar um líder que tenha a capacidade de defendê-lo.


— Vocês não podem tirar o ginásio da gente! Ele está com a nossa família há décadas! — aquele foi o primeiro momento em que Flannery se alterou. Sidney havia tocado em um ponto muito caro para ela. Nada a ver com sua competência como treinadora ou sua atitude como pessoa, mas desta vez no legado de sua família.


— Se o ginásio é tão importante assim pra você e sua família, então faça o que for necessário para provar que você é digna de se chamar de líder. UM MÊS! É tempo suficiente para identificar e cobrir suas fraquezas como treinadora. E melhore essa sua atitude!


O Elite bateu a porta ao sair do ginásio, deixando Flannery para trás. A garota era tomada por uma expressão de desesperança. O medo de perder o ginásio a desconsertava. Sentia que cada segundo era uma eternidade a mais sendo julgada sob a sombra de seu avô, o antigo líder, e seu pai, outro renomado especialista no tipo fogo.


Flannery não conseguia se concentrar nos seus treinamentos. Tudo era motivo de dúvida, ela já não sabia se estava fazendo o certo mesmo quando praticava fundamentos básicos com sua equipe. Sentia o desdém da opinião pública e torcia para que fosse apenas coisa da sua cabeça. Isso tornava a sua evolução como treinadora ainda mais difícil, e a falta de confiança era cada vez mais determinante para suas derrotas, já que a cada batalha a pressão por resultados melhores aumentava.


Tudo que ela conseguiu fazer naquele momento foi pegar o telefone e fazer uma ligação. Um rapaz atendeu do outro lado da linha, já animado esperando por alguma nova besteira dita por sua velha amiga.


— Ei, faz tempo que você não liga! Como estão as coisas? Quando que a gente vai se ver pra colocar a conversa em dia?


A animação dele, no entanto, foi interrompida de surpresa pela voz embargada de Flannery, algo muito raro de se ouvir.


— Por favor, vem pra cá agora. Eu preciso da sua ajuda.


FIM DO CAPÍTULO 41

  


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