Wattson

Art by: LimeCatMastr

Wattson é o líder encarregado pelo ginásio da cidade de Mauville. É especializado no tipo elétrico. Já trabalhou na usina de Nova Mauville, mas nos dias atuais não cumpre nenhuma outra função paralela à do ginásio. Mesmo assim é visto pelas pessoas da cidade como quase sendo um "guardião", já que é uma figura importante que faz sempre questão de ajudar a manter a ordem por lá.

Ainda assim sua personalidade é bem mais aberta, muito diferente da seriedade que se espera de alguém com essas características Wattson está sempre sorrindo e fazendo piadas. Esse jeito de "tiozão" é um dos fatores pelos quais ele é admirado em Mauville, pois mesmo tendo uma função de importância ele sabe manter o bom humor e tratar bem as pessoas da cidade.

Seu método de avaliação prévio não foi mostrado na história. Se solidarizando com Sapphire após a dura derrota da menina para Vince, Wattson ofereceu a ela a oportunidade de desafiar o ginásio diretamente. A menina venceu a batalha, conquistando sua terceira insígnia.

Primeira aparição:

Capítulo 24 - Fraqueza exposta

Especiais:

A Gym Leader's Life

Equipe:

  


Notas do Autor - Capítulo 25


TRÊS INSÍGNIAS! E pensar que na AEH antiga a fic se encerrou com quatro. Estamos quase lá! Levou um bom tempo, mas finalmente conseguimos fechar o último ginásio da Omega Saga. Daqui em diante só a treta em Mauville com os Aquas e Magmas pra dar aquele clima de bagunça mesmo kkkkkkkkkkk

Sapphire e Dan começaram a se entender melhor. Acho que dessa vez foi pra valer. A evolução pra Combusken mostrou claramente que suas ideias de não entregarem o jogo de jeito nenhum estavam alinhadas. Tudo bem que já tinha passado da hora dele evoluir, se a gente for pegar o moveset do Torchic nessa batalha, com o Fire Spin, era um indicativo de que ele já estava no nível 19 ou 20 (lembrando que eu uso sempre a movepool de ORAS), mas eu não quero ficar muito preso aos jogos. Na AEH passada ele já tinha evoluído na batalha contra o Brawly, após ter tido os problemas em Rustboro. Então o fator superação foi possibilitado bem mais cedo. Aqui essas relações vão se desenvolvendo mais devagar, o que eu acho que fica mais natural. Então eu não faria ele evoluir em Dewford de novo, sendo o Dan ainda um Torchic arrogante e que não estava feliz com a Sapphire. Precisou ele tomar aquela surra do Vince e perceber o quanto sua treinadora se importa com ele para isso acontecer.

Por fim, mas não menos importante, as duas organizações criminosas de Hoenn invadiram Mauville para fazer alguma coisa. A queda de energia é um indicativo claro disso. Mas Wattson tem um reforço muito significativo de Roxanne e Steven. Será que vai ser o suficiente? Talvez eles precisem de reforços... ( ͡° ͜ʖ ͡°)

Que venha o fim da temporada! Faltam só 3 capítulos, meu povo!


Capítulo 25

Iniciativa


A cidade de Mauville amanheceu com um sol intenso. Logo cedo, as pessoas começaram a lotar as ruas do centro comercial da cidade. A rua principal em específico, que ligava as saídas leste e oeste, era a mais movimentada, pois lá estavam as principais atrações da cidade como o cassino, sorveterias, lojas famosas em toda a Hoenn e também o ginásio.

Três dias haviam se passado após a derrota de Sapphire conta o misterioso Vince. O golpe foi forte no ego da treinadora, mas ela decidiu que ficar se lamentando por sua incompetência não traria nada de positivo. Sua resposta para si própria foi procurar as rotas nos arredores da cidade para treinar forte com sua equipe. Não sabia se algum dia encontraria o garoto para ter sua vingança, mas de qualquer forma o foco agora deveria ser Wattson para que a ela conquistasse sua terceira insígnia.

A menina desceu as escadas do Centro Pokémon, já se encaminhando ao refeitório onde esperava encontrar Ruby. Como havia deduzido, lá estava o seu companheiro de viagem, tomando o café da manhã e assistindo o noticiário que ainda falava sobre o atentado da Team Aqua ao Museu Oceânico de Slateport. Por sorte eles conseguiram sair de lá sem serem notados, já que Anabel e a Polícia Internacional deram um jeito de atrair a atenção da imprensa que se amontoava na entrada do edifício no dia do ataque. Ter seus rostos conhecidos por impedir uma organização criminosa de executar seus planos poderia acarretar em um grande risco aos jovens.

Terminada a refeição os dois saíram para ir até o ginásio. Assim que conseguiu reorganizar os pensamentos Sapphire comunicou Wattson que estava pronta para desafiá-lo, e os dois marcaram a batalha para a tarde daquele dia. Os dois não se viram, no entanto. O agendamento do desafio foi intermediado pelo recepcionista que os recebeu no dia. Ao atravessarem as portas de entrada da arena os dois foram recebidos pela equipe que lá trabalhava.

— Ele parece ser um pouco sério, não é? — indagou a menina.

— Bem, pela impressão que ele deixou daquele dia, acho que sim — Ruby respondeu ainda admirado com o tamanho daquele ginásio.

Quando ambos foram levados até a arena lá estava o velho homem, acompanhado de um garoto que aparentava ser seu neto. Wattson percebeu a chegada da dupla, e tratou de não prolongar mais aquele momento antes de irem às vias de fato.

— Ian, vai lá pra arquibancada que depois a gente conversa mais.

O líder esperou que o menino fosse para o local que havia pedido e então começou a caminhar até Sapphire. Cada passo que ele dava ecoava por toda a arena, mas a garota não se deixava intimidar. Era a terceira vez que passava por aquela situação, já sentia que estava aprendendo a lidar com aquele nervosismo. Não só isso, mas a vontade de vencer e se superar após a última derrota apagava de sua mente qualquer vestígio de insegurança. Sapphire estava centrada, já parecia uma treinadora bem mais experiente do que da última vez que enfrentou um líder de ginásio, ainda em Dewford.

Wattson, no entanto, a recebeu com um leve tapa no ombro e uma gargalhada alta, quebrando todo o clima de tensão que havia se estabelecido.

— Finalmente você veio, Sapphire! — o velho abriu um largo sorriso. — Bem vinda ao ginásio de Mauville! Não precisamos perder tempo com apresentações formais, não é? Vamos ao que interessa!

Sapphire não sabia mais como reagir. Wattson em circunstâncias normais era bem diferente do que ela imaginava. Bem diferente daquilo que pensava ser esperado de um líder de ginásio, na verdade. Sabia que nem todos eram sérios como a Roxanne, mas também não esperava alguém tão agitado. Brawly era mais alegre, mas ainda mantinha uma postura profissional. Ou talvez fosse assim a sua personalidade.

O líder de Mauville já havia começado a caminhar de volta para o seu lado da arena, mas parou de repente e se virou para a menina mais uma vez.

— Eu fico feliz que você tenha superado o que aconteceu aquele dia. Seguir em frente e continuar aprendendo é o que faz os treinadores evoluírem junto com seus Pokémons. Então me mostra tudo que você tem de talento, garota! Eu quero uma boa batalha hoje!

Sapphire já retirava a primeira Pokéball de seu bolso quando ouviu as palavras de Wattson. A menina sorriu confiante.

— Não foi fácil superar aquela derrota, mas eu tive apoio — a menina olhou para as arquibancadas onde Ruby estava sentado, e o menino acenou sorrindo de volta. — Eu percebi que tinha que mudar muita coisa a respeito de como eu lido com meus parceiros de equipe. Quero que esse seja o primeiro teste dessa minha nova versão.

O líder assentiu. Sacou sua primeira Pokéball para que finalmente o confronto entre os dois tivesse início. Olhou para o juiz de batalha que estava na lateral do campo de batalha, e o mesmo gesticulou com as bandeiras sinalizando o início da batalha.

Em poucos segundos Dan e um Voltorb estavam em campo prontos para a batalha. Ambos mantinham uma feição séria, eram dois Pokémons de personalidade forte. O Torchic, porém, desta vez parecia estar mais focado na batalha, ao contrário de sua habitual má vontade e prepotência.

Ele está diferente hoje — pensou Sapphire. — Talvez depois daquela nossa conversa ele realmente esteja querendo levar a batalha a sério...

— O olhar do seu Torchic é interessante, Sapphire — Wattson comentou. — Ele parece estar com sangue nos olhos.

— Ele não é o único, eu também estou — a garota então fez seu primeiro comando. — Torchic, use o Fire Spin!

Torchic disparou uma sequência de brasas flamejantes na direção de Voltorb assim que o comando de Sapphire foi dado. As chamas se organizaram em um vórtice ao redor do Pokémon elétrico restringindo seu espaço de ação. Dan permanecia do lado de fora da parede de chamas, aguardando a próxima ordem.

— Não vamos deixar essas chamas ditarem o ritmo da batalha. Use o Light Screen! — ordenou Wattson.

A criatura esférica ergueu uma barreira luminosa em seu entorno, reduzindo de forma drástica o efeito das chamas, que apesar de pequeno era contínuo.

— Aproxime-se para usar o Scratch!

Dan correu em direção ao Voltorb. Atravessou o vórtice de fogo surpreendendo seu adversário e ultrapassou a barreira que não interceptava golpes físicos. Com as presas de suas patas desferiu arranhões na superfície do Pokémon elétrico, que mesmo sendo resistente ainda lhe causou dor.

Ruby observava a batalha com atenção. Seus olhos vidrados no campo de batalha quase não piscavam. O nervosismo o consumia, pois ele sabia que Sapphire dependia muito dessa vitória para sua própria afirmação. Depois da dolorosa derrota que teve ao chegar em Mauville, a menina precisava provar pra si própria que ainda era capaz de comandar um time de Pokémons rumo à vitória, mesmo contra um adversário muito mais experiente como o Wattson.

• • •

Torchic e Shroomish atacavam repetidas vezes dois troncos velhos que apesar de não pertencerem mais a árvores vivas ainda estavam fixados no chão pelas suas raízes. Sapphire orientava os dois com tranquilidade, tentando analisar cada detalhe que pudesse lhe dar uma luz a respeito de como usar melhor os atributos principais de seus parceiros.

Ruby estava sentado em uma pedra por perto, com Skitty em seu colo e lendo um livro sobre conceitos básicos de criação Pokémon. Mesmo assim vez ou outra interrompia sua leitura para espiar o progresso de sua amiga.

— Ok, vamos dar uma pausa! — disse a menina batendo palmas para chamar a atenção dos Pokémons. — Quinze minutos de descanso e depois vamos simular uma batalha entre vocês dois, tudo bem?

Com Torchic e Shroomish indo descansar, Sapphire caminhou até onde Ruby estava. A menina mexeu na sua bolsa e de lá tirou uma garrafa de água, que começou a beber para se livrar do calor intenso que fazia ali nos limites da cidade de Mauville.

— Eu fico feliz em ver que você parece estar melhor — disse Ruby.

— Aquele dia ainda me chateia, Ruby — ela bebeu um pouco da água. — Mas não posso ficar me remoendo pra sempre. A culpa foi minha, tenho que seguir em frente e tentar me corrigir para que não aconteça de novo. Torchic me deu um voto de confiança, não posso desapontar ele.

— Vocês estão pegando pesado com os treinamentos — o garoto riu. — Vai dar tudo certo.

Sapphire olhou para Ruby por um breve instante, dando uma risada logo em seguida.

— Você tem estado mais atencioso desde aquele dia. O que aconteceu com o menino rabugento que vivia de sarcasmo com todo mundo? “Oh, olha pra mim eu sou o super intelectual fechado, hurr durr razão acima da emoção”.

O garoto logo fez uma expressão aborrecida, tapando o rosto corado com uma revista.

— Eu estava preocupado com você, não ia ficar te perturbando se você não se sentia bem

— Ah, que fofo! Eu não esperava isso de um nerd como você.

— Você devia treinar junto com seus Pokémons, pra ver se deixa de ser gorda.

— Como é?

— Como é uma ova! Você pelo visto já se recuperou, está muito bem! Vai analisar umas estratégias pra vencer o Wattson e ganhar sua terceira insígnia.

— Eu já estou fazendo isso, pra sua informação! — Sapphire colocou as mãos na cintura enquanto olhava Ruby com um olhar de desaprovação. — Fiquei até de madrugada pensando em como derrotar os Pokémons dele! Recolhi informações e sei que equipe ele costuma usar quando o desafiante tem duas insígnias!

Sapphire se virou de costas para voltar para onde estavam seus companheiros de equipe. Ela espremeu a garrafa com força, causando surpresa em Ruby que esperava que ela fosse entender que aquela era mais uma das brincadeiras grosseiras entre ambos. Mas o que a menina disse aliviou o garoto, já que não tinha a ver com sua mudança de atitude e sim com a batalha que estava por vir.

— Eu vou vencer, Ruby — ela dizia em tom de seriedade. — Eu não vou perder essa batalha de jeito nenhum. Eu não vou perder a chance de fazer o Torchic perceber que estava certo ao confiar em mim. Revanche contra o Wattson eu posso ter várias, mas pra alcançar a confiança do Torchic eu só tenho essa chance. Eu não posso errar dessa vez.

•••

Os Pokémons trocavam golpes com ferocidade. Dan e o Voltorb eram ágeis e o choque entre os dois era tão grande que quando seus ataques colidiam uma nuvem de poeira era levantada do chão da arena. Ruby observava a batalha até que seus olhos correram para a extremidade do campo onde com preocupação ele tentava analisar como estava Sapphire. Mas para sua surpresa ela estava totalmente compenetrada na batalha. Seu olhar era decidido, e as mãos trêmulas que viu nos outros dois ginásios já não existiam mais. O garoto sorriu e sussurrou sozinho:

— Essa batalha é sua, Sapphire. Você vai vencer mais essa — disse cerrando os punhos com força.

Sonic Boom, agora! — o comando de Wattson foi atendido por Voltorb que liberou ondas sônicas na direção de Dan, que não teve tempo de se esquivar.

— Evasiva e Ember!

Dan deu um salto para desviar do golpe, mas ao mesmo tempo ser projetado para um ponto cego do Voltorb. Como a poeira ainda não havia se dissipado por completo, o Pokémon elétrico teve seu tempo de reação atrasado para perceber que o Torchic agora estava em suas costas, disparando uma rajada de brasas que o atingiram em cheio.

O Pokémon rolou alguns metros até chegar próximo a Wattson, mas logo retomou sua posição para continuar a batalha. O líder do ginásio não parecia preocupado com o ataque recebido. Era como se testasse a força de Sapphire e seu Torchic a cada turno.

— Voltorb, use o Rollout!

Rotacionando seu corpo em alta velocidade o Pokémon elétrico disparou em direção a Dan, que mal teve tempo de pensar em uma evasiva e foi arremessado quase aos pés de Sapphire. Ainda que tivesse feito um dano mínimo, o ataque por ser do tipo pedra era bem perigoso de se lidar por parte do Torchic. Percebendo isso, Sapphire tratou de recuar seu companheiro e lançou Shroomish em campo.

— Inteligente de sua parte recuar o Torchic para não tomar um dano maior por causa da tipagem — disse Wattson. — Mas você sabe que não vai adiantar muita coisa, já que o Rollout é um ataque sequencial que fica mais poderoso a cada turno.

— É verdade, mas você está olhando apenas pelo lado de eu ter tirado o Torchic — Sapphire comentou com um sorriso confiante, atraindo a atenção do líder. — Você já vai entender o que eu quero dizer com isso. Shroomish, Leech Seed!

As ervas daninhas se espalharam pelo corpo de Voltorb, drenando sua energia e a realocando para a própria Shroomish. Olivia tinha a vantagem de ter essa recuperação a seu favor, o que reduziu o dano do segundo Rollout, mesmo este tendo sido mais poderoso. Sapphire de pouco em pouco preparava um beco sem saída para lidar com o inconveniente Pokémon elétrico.

Stun Spore agora!

A nuvem de esporos tomou uma área ampla dentro do campo de batalha, forçando Voltorb a se mover para a extremidade da arena para não ser pego e paralisado. Dentro da barreira do ataque a visibilidade era comprometida, mas a Shroomish conseguia se locomover com facilidade lá dentro, e devido às ervas plantadas no seu adversário ela conseguia localizá-lo, pois conseguia sentir de onde vinha a energia que estava drenando dele.

Ruby começava a sorrir de forma confiante com o rumo que a batalha tomava. Sapphire havia amadurecido bastante. Suas estratégias sempre se basearam em dano e confronto direto, mas agora a menina começava a pensar mais fora da caixa e inovar seu estilo de batalha. Ela estava com uma postura menos agressiva, porém mais focada e inteligente. O Stun Spore espalhado daquela forma pelo campo, de forma a forçar a mudança de posição do adversário e ampliar o espaço onde Shroomish podia se mover em segurança era a prova de que ela agora começava a pensar com mais cuidado nos movimentos, de forma a preparar o terreno a seu favor para que pudesse ter sempre à disposição recursos de onde tirar vantagem. Naquele momento, a diferença de espaço era seu grande trunfo.

Olivia avançou com velocidade na direção do Pokémon elétrico, golpeando-o com força ao usar um Headbutt bem encaixado, já que o Voltorb não conseguia identificar de onde ela vinha. O elétrico foi lançado direto para fora do campo de batalha, batendo com força no muro da arquibancada e caindo já desacordado. A primeira rodada era da desafiante.

— Nada mal, garota — Wattson sorriu para Sapphire enquanto retornava Voltorb. — To vendo que você é talentosa. Vou precisar forçar a barra pra não te entregar essa insígnia de bandeja.

O líder sacou outra Pokéball de seu bolso. Ao arremessá-la revelou um Magneton surpreendendo Sapphire e Ruby.

— Droga, o que é isso? — a menina rangeu os dentes, sentindo a ameaça quase que de imediato.

— Pode ficar tranquila, ele está dentro do nível que combinamos. Esse Magneton era selvagem, eu o capturei recentemente — explicava Wattson. — Em certas ocasiões Pokémons selvagens podem evoluir antes do nível normal, talvez por alguma necessidade de garantir a sobrevivência.

— Mesmo assim é uma forma evoluída, os atributos são maiores — Ruby começou a sussurrar sozinho. — Se a Sapphire não tomar cuidado as coisas podem ficar complicadas.

 O Magneton ainda se manteve próximo à linha que limitava o fim do campo de batalha enquanto esperava o Stun Spore se dissipar. Ainda que não fosse uma criatura de composição orgânica, os esporos podiam danificar os circuitos internos do Pokémon metálico.

Olivia ainda se mantinha focada em garantir sua vantagem de terreno, se locomovendo dentro da cortina de esporos. Dessa vez, porém, seu adversário tinha total noção de onde ela estava. Magneton conseguia identificar a Pokémon de planta através do calor gerado pela sua locomoção.

— Vamos ver como você também lida com a paralisia. Magneton, use o Thunder Wave!

Sapphire e Olivia foram surpreendidas com a onda de choque que atravessou o campo e acertou a pequena Pokémon. Magneton não tinha dificuldade em identificar onde sua oponente estava, e seus ataques eram certeiros. Talvez seus três olhos o permitissem focar com muito mais precisão em seus alvos.

A descarga elétrica não causou danos diretos na Shroomish, mas percorreu todo o seu sistema nervoso, fazendo sua musculatura contrair e travar, comprometendo a fluidez de seus movimentos e, portanto, sua agilidade.

Sapphire sabia que aquilo era um problema. Precisava pensar em alguma forma de prejudicar a integridade daquele Pokémon, ou estaria em apuros.

— Shroomish, ataque com o Mega Drain!

Nenhuma resposta veio dela. Sapphire a princípio achou que o comando não havia sido ouvido, mas Wattson não deu à menina tempo para procurar respostas sobre o que estava acontecendo. Ordenou um Tackle perfeitamente executado por Magneton, apesar de ter tido a ajuda do status comprometido da Shroomish.

Sapphire não perdeu tempo e aproveitou a proximidade entre os dois para tentar uma cartada crucial.

Leech Seed!

O comando enfim foi atendido. A curta distância entre os dois Pokémons compensou a perda da mobilidade de Olivia, que disparou as ervas daninhas em Magneton. O Pokémon ímã tentou recuar com rapidez, mas não foi o suficiente para escapar das plantas que se fixaram com força por todo o seu corpo de metal.

Era um movimento que a permitiria resistir por mais tempo, enquanto o Magneton sofreria dano contínuo por algum tempo. Dessa forma elas conseguiriam diminuir a energia do Pokémon elétrico mesmo quando Olivia não conseguisse atacar por causa de sua paralisia.

— Essa garota tem uma visão estratégica boa — Wattson sussurrou. — Ela pode mesmo ser uma treinadora acima da média se for lapidada. Se eu não der um jeito nessa Shroomish logo a coisa vai complicar. Magneton, ataque com o Sonic Boom!

A onda sônica causou um forte impacto que arremessou a Shroomish para trás, quase saindo da arena. Sapphire torcia para que sua parceira pudesse aguentar mais um pouco, mas após a estratégia com o Leech Seed era provável que Wattson dali em diante atacaria à distância. Não havia muita escolha, a situação era difícil. A menina teria que tentar um tiro certeiro para facilitar o caminho para a próxima rodada.

— Use o Stun Spore!

Mas não foi o que aconteceu. Olivia sentiu novamente os efeitos da paralisia e não conseguiu disparar o ataque. Wattson e Magneton não perderam tempo, se aproveitando da brecha que haviam conseguido para terminar aquela rodada e empatar o jogo.

Sonic Boom de novo!

A Shroomish foi derrubada de vez. Sapphire havia perdido um membro do seu time, deixando aquela batalha para ser decidida no confronto derradeiro. Torchic logo estava de volta ao campo de batalha, um pouco mais descansado, mas para enfrentar um Pokémon que mesmo estando nivelado era uma forma evoluída.

— Vai fazer o seu movimento primeiro? — indagou o Magneton.

— Já que insiste...

Dan lançou outro Fire Spin criando mais uma vez uma espiral de fogo em torno de seu adversário, da mesma forma que havia feito contra o Voltorb. O tiro saiu pela culatra, no entanto, já que as chamas pulverizaram as ervas daninhas previamente postas por Olivia para prover suporte.

— Droga, esqueci das ervas! — Sapphire deu um tapa na própria testa se culpando pela falha.

— Você destruiu aquilo que trabalhava a seu favor no impulso de querer aumentar o dano, foi um erro inocente — alertou Wattson. — Tenha mais paciência, não se deixe levar pela ansiedade de querer acabar com a batalha logo. Isso vai te atrapalhar muito! Magneton, use o Shock Wave!

Um forte disparo de carga elétrica foi direcionado a Dan, que conseguiu se esquivar por muito pouco. Ataques elétricos eram conhecidos pela velocidade de execução, o que forçava o Torchic a tentar prever quando os ataques viriam. Sua velocidade era o que o salvava de ser eletrocutado.

— Vamos Torchic, use o Ember!

— Magneton, Sonic Boom para dissipar as brasas!

A colisão entre os ataques criou uma pequena explosão no centro do campo de batalha. Não foi o suficiente para ameaçar a estrutura do prédio, mas o bastante para criar um tremor e arrastar Torchic e Magneton um pouco para trás, enquanto Sapphire e Wattson tentavam se manter firmes de pé em seus postos.

A poeira levantada bloqueou a visão do campo, de forma semelhante ao que havia acontecido com Olivia e seu Stun Spore. Sapphire e Dan se aproveitaram da situação para tentar surpreender o oponente. Magneton estava parado em sua posição enquanto Wattson aguardava a redução da poeira para retomar a visão da área de confronto, mas o Torchic já estava dentro da nuvem de poeira.

— Dispare o Ember para todas as direções a sua frente!

Mesmo ouvindo o comando de Sapphire, Wattson e Magneton não tiveram tempo para se prepararem para o ataque. As brasas apareceram de forma repentina de trás da cortina de poeira, atingindo a carcaça metálica do Pokémon elétrico, causando um forte dano. A pequena ave surgiu logo em seguida, fazendo a poeira dissipar ao atravessá-la.

Apesar do ataque efetivo contra sua tipagem, Magneton resistiu bem e logo retomou sua posição esperando pelas ordens de Wattson. Comandado pelo líder, a criatura metálica tentou aplicar um Thunder Wave em Dan, esperando poder repetir a estratégia que prejudicou a condição de lutar da Shroomish. O Torchic mais uma vez se esquivou com rapidez, pois sabia que não poderia ser pego por aquele ataque, ou a probabilidade de perder aquela batalha seria grande.

As trocas de ataques não cessaram em nenhum instante, levando ambos à exaustão em poucos minutos. Até mesmo Magneton sentia seus níveis de energia baixando.

— Você batalhou muito bem até aqui, Sapphire — Wattson admitiu com um sorriso no rosto. — Mas não é o suficiente ainda para resolver essa batalha. Você vai ter que ir além! Magneton, use o Tri Attack!

Torchic foi atingido em cheio pelo forte ataque triplo de Magneton, que combinava os elementos fogo e gelo com sua própria eletricidade. Era um ataque famoso por causar um estrago em quem o recebia, além de sujeitar o alvo a três tipos distintos de alteração de status. Por sorte Dan escapou de sofrer algum efeito colateral, mas isso de forma alguma amenizou o dano que havia recebido.

As dores ainda pulsavam em sua pele enquanto ele tentava se levantar. Ele não estava ali para entregar aquela batalha de bandeja. Não depois de todo o esforço para se manter em pé de igualdade com um adversário mais forte. E de alguma forma sentia que não estava fazendo aquilo apenas para si. Pela primeira vez em sua vida Dan tinha a impressão de que estava fazendo aquilo por alguém mais. Foi quando ouviu o chamado que apenas confirmou suas suspeitas.

— Vamos, Dante! Eu acredito em você! — Sapphire bradou com toda a força que podia, tentando esconder o nervosismo em sua voz por uma postura confiante.

Dan olhou para sua treinadora assustado. Não sabia como ela tinha descoberto seu nome, mas não teve tempo de procurar respostas para isso. Quando se deu conta, estava tomado por uma sensação indescritível. Um forte sentimento de determinação, quase como se tivesse a certeza de que venceria aquela batalha.

O Torchic abriu um sorriso triunfante enquanto voltava seu olhar mais uma vez para o Magneton a sua frente. Ficou em prontidão para pegar impulso assim que ordenado.

— Vamos lá, vou deixar que você me guie dessa vez.

A atenção de todos foi desviada quando Dan começou a emitir uma luz ofuscante no meio da arena. Sapphire, que era quem estava mais próxima ao Torchic, teve que tapar os olhos com o braço para não prejudicar sua vista. Wattson procurou olhar para outro lado, mas sua feição preocupada já indicava que ele sabia o que estava acontecendo. Mesmo Ruby, distante na arquibancada, precisou se proteger daquela luz branca intensa.

Quando o brilho cessou, o que se via ali era uma criatura diferente do pequeno Torchic que antes estava em batalha. Era agora uma ave bípede de porte médio, de cerca de noventa centímetros de altura. Sua penugem era predominantemente amarelada, com exceção do abdômen para baixo e a crista, alaranjados como brasa.

O que havia sido presenciado ali era a prova de que Sapphire e Dan estavam começando a se conectar. O Torchic havia enfim evoluído, se tornando um forte Combusken pronto para mudar o rumo daquela batalha.

Dan olhou para trás, onde sua treinadora estava com uma expressão surpresa. Uma breve troca de olhares entre os dois foi o suficiente para que se entendessem como se tivessem conversado por horas. O Combusken deu um sorriso de canto para Sapphire, que se encheu de euforia.

A menina pegou sua PokéDex para verificar os dados da nova espécie. Após uma leitura rápida a garota abriu um sorriso triunfante ao ver que seu parceiro havia trazido outro presentinho junto com a sua evolução.

— Ei — a menina chamou pelo Combusken e ele olhou em resposta. — Você deve estar doido pra testar “aquilo”, não é?

Dan assentiu de imediato, fazendo Sapphire lançar seu olhar confiante na direção de Wattson, que recuou apreensivo.

— Então vamos dar uma bica nesse robô e pegar essa insígnia que é nossa! Use o Double Kick!

O Combusken era muito mais veloz, tendo conseguido se aproximar de Magneton antes que o mesmo pudesse fazer qualquer coisa em resposta. Dois fortes chutes foram desferidos, chegando a amassar o revestimento de aço do Pokémon elétrico. O parceiro de Wattson foi ao chão, incapacitado pelas fortes dores do ataque que havia sofrido. Ele não tinha mais condições de batalhar.

— A vencedora da batalha é a desafiante Sapphire! — o juiz de batalha anunciou.

Ruby logo saiu correndo em direção ao campo de batalha para cumprimentar a amiga, que já estava frente a frente com Wattson. O líder segurava um estojo em mãos, onde jazia a insígnia que seria entregue.

— Quando eu te ajudei uns dias atrás após sua batalha contra aquele garoto eu percebi que você estava sem confiança. Mas você tem o que é necessário para seguir em frente como uma treinadora. Eu nem precisei te ensinar o que tento passar para os treinadores que me desafiam, porque é uma característica que você já desenvolveu naturalmente — disse o velho. — Se chama iniciativa. É sua capacidade de deixar os problemas do passado para trás e focar no agora. Por isso eu te entrego agora a Insígnia do Dínamo, porque é o dínamo que representa a iniciativa. Temos que estar sempre nos movendo em diante, sempre indo para além do que somos agora. Sapphire, nunca pare de evoluir, assim como fez o seu amigo na batalha de hoje. Tenho certeza que dessa maneira você vai ser uma grande treinadora.


Sapphire aceitou a insígnia com um grande sorriso no rosto. Era a sua terceira conquista em um ginásio. Mais uma e já estaria na metade do caminho para a Liga Pokémon. Era como se nada pudesse tirar a alegria e a confiança que sentia naquele momento. Pelo menos não até a entrada de duas pessoas às pressas dentro do ginásio, que se dirigiram a Wattson assim que o viram.

Uma das pessoas Sapphire e Ruby reconheceram imediatamente. Roxanne, líder de ginásio em Rustboro e primeira líder enfrentada por Sapphire na sua trajetória, estava acompanhada de um rapaz jovem e alto de cabelos azulados. Os dois estavam ofegantes, mas demonstravam urgência.

— Roxanne? Steven? O que estão fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? — indagou Wattson preocupado.

— Ainda não, mas estamos aqui porque vai acontecer — disse o rapaz.

— Sapphire, Ruby, muito bom ver vocês de novo — disse a mulher. — Uma pena que não seja em boa hora.

— Me contem logo o que está havendo! — Wattson repetiu com mais firmeza, em um raro momento onde começava a perder a paciência.

Steven e Roxanne trocaram olhares apreensivos. Sabiam que o que estavam para contar era algo grande.

— Temos monitorado há algum tempo os rastros das organizações Team Aqua e Team Magma — ao pronunciar o nome dos Aquas Roxanne causou calafrios nos dois jovens e uma tensão ainda maior em Wattson. — E os últimos atos dos dois grupos indicam que ambos estavam a caminho de Mauville.

— A essa altura do campeonato eles provavelmente já estão instalados nos arredores da cidade. Acreditamos que seria possível nos antecipar e chegar antes deles, por isso não tivemos tempo de te avisar, mas erramos feio nos cálculos.

Já no fim da tarde, foi possível sentir a escuridão que abocanhou toda a cidade em poucos segundos após aquela conversa. Tudo agora eram sombras das imagens que os olhos daqueles ali presentes conseguiram memorizar.

A queda de energia parecia generalizada, e foi isso que os cinco treinadores confirmaram ao sair para a rua. Todos os postes, que naquele horário já deveriam estar começando a se acender, estavam apagados, bem como os comércios e casas. Ninguém sabia o que havia acontecido. Apenas uma coisa era certa.

As luzes se foram.

FIM DO CAPÍTULO 25

  


Notas do Autor - A Gym Leader's Life 3


Vocês não têm ideia do sofrimento que foi pra trazer esse especial pronto! kkkkkkkkkkkkkkkk

Fala aí, pessoal! Tudo certo? Cá estamos na nossa quarta semana seguida de postagem, e dessa vez com mais um capítulo da série A Gym Leader's Life. Dessa vez trazendo um pouco do Wattson, o que já os faz perceber que o próximo capítulo vai ser trocação franca de porrada no ginásio de Mauville, né? Acho que a essa altura do campeonato vocês já sabem como é o esquema aqui em AEH.

Este era talvez o especial que mais me preocupava, pelo simples fato de que eu tinha certeza de que não saberia como lidar com o Wattson. A personalidade dele não era algo que eu via encaixar no cargo de líder de ginásio, e eu não sabia como trabalhar um especial legal com esse jeito tiozão dele. Até que o Canas e o Dento me deram a ideia de usar esse jeitão todo palhaço (nesse caso literalmente) para poder quebrar o clima pesado do capítulo e virar o jogo. E como deu certo! Eu curti bastante o resultado final.

Bem, este foi o último especial da Omega Saga. Agora vamos em direção ao encerramento da temporada! Que venha a batalha de ginásio e o final do arco de Mauville!

Até a próxima! õ/


A Gym Leader's Life - Capítulo 3

Wattson


Mauville era envolta por um incomum clima chuvoso naquela tarde. Wattson caminhava pela rua principal com um guarda-chuva aberto, com passos apressados. Nas costas, levava uma grande bolsa que parecia lotada. A expressão no rosto do velho homem era de desconforto devido ao peso que carregava, mas era o que tinha que fazer naquela hora.

O líder de ginásio era uma pessoa respeitada na cidade inteira. E ele se sentia responsável por fazer tudo por lá funcionar da forma correta. Wattson foi um dos engenheiros que idealizaram o projeto da Usina de New Mauville, que gerava eletricidade para toda a região de Hoenn. No entanto, não só à usina e ao ginásio se restringiam as atividades dele.

Dobrando algumas esquinas para as ruas mais afastadas do centro da cidade, o homem chegou a um casarão de arquitetura bem antiga. O aspecto melancólico do lugar o freou por um momento, mas ele respirou fundo e passou pelo portão da frente em direção à recepção.

A sala da entrada do casarão era muito bela, de aspecto muito antigo, mas bem conservado. A iluminação que vinha de fora era pouca, dando à sala um tom amarelado que realçava o papel de parede e o carpete. Atrás do balcão, uma senhora que trabalhava como recepcionista o recebeu.

— Sr. Wattson, que prazer vê-lo novamente! — a senhorinha sorria de orelha a orelha. — Já estávamos sentindo a sua falta.

— Boa tarde, Sra. Brunswick. Faz mesmo um bom tempo que não venho aqui. Andei ocupado agora que o ginásio reabriu por causa da nova temporada da Liga. Tive mais desafiantes essa semana do que no início das temporadas passadas.

— Então quer dizer que a Liga desse ano vai ser bem movimentada.

— Nem me diga! Mas tomara que esse movimento caia logo ou eu vou acabar ficando doido. Mas então, cadê elas?

— Já vou te levar lá, só um segundo.

A recepcionista fez algumas anotações rápidas em um caderno e seguiu para a porta que dava para a parte de dentro da casa, com Wattson a seguindo de perto. O interior do local era bem diferente do belo exterior e a recepção bem decorada. As paredes dos corredores eram bem antigas, com a tinta de tom frio de azul descascando em várias partes. As partes que ainda tinham a tinta intacta ou apresentavam o aspecto encardido de bolor, ou já tinham marcas de infiltração. Uma única lâmpada incandescente velha iluminava o local de forma precária.

O estômago do velho começou a revirar só de imaginar o que viria em seguida. E ele sabia. Ao terminar de atravessar aquele corredor, que sempre parecia bem mais longo do que realmente era, os dois chegaram a um refeitório onde quatro mesas longas comportavam inúmeras crianças, todas elas magras e pálidas. Wattson não sabia se havia perdido a capacidade de distinguir as cores, ou se aquele cinza mórbido que dominava o local era de verdade.

— Crianças, adivinhem quem está aqui hoje — a Sra. Brunswick anunciou a chegada da visita, atraindo os olhares daquele salão para ela e Wattson.

Ao perceberem a presença do líder de ginásio, todos correram até o homem, que por pouco não se desequilibrou com tantas crianças o cercando. Elas já começavam a demonstrar animação por causa da enorme sacola que ele carregava.

Era sempre daquele jeito. Transtornado com o abandono daquelas crianças, Wattson pensava em compensar a situação trazendo alguns brinquedos de tempos em tempos, mesmo que isso significasse tão pouco perto do que aqueles órfãos não tinham.

O velho, porém, não reagia muito bem àquela cena. Anos se passaram sem que ele se acostumasse com aquilo. Toda vez que via aquelas crianças sorrindo em meio àquela escuridão sua vontade era de ir embora o quanto antes. Mas tinha que ficar. Era o que precisava fazer.

Após distribuir os brinquedos e dar uma grande palestra para as crianças sobre nunca desistir dos seus sonhos e como elas poderiam algum dia se tornarem treinadores de grande sucesso, Wattson finalmente concluiu o seu trabalho lá. Não gostava de ir até o orfanato não por desgosto daquelas crianças, mas porque não sabia lidar com a tristeza e o desamparo daqueles que sabia que nunca haviam feito nada de errado para merecerem aquilo. Estavam jogadas às obras do acaso, e o líder era uma das poucas figuras de onde conseguiam tirar um mínimo de esperança.

Mas antes de passar pela porta que o levaria de volta à recepção ele foi interrompido por Brunswick, que lhe pedia mais uma vez para resolver um velho problema.

— Ele mais uma vez não saiu do quarto. Não come há dois dias e não se relaciona com as outras crianças. Está magérrimo, qualquer hora vai acabar adoecendo.

— Ok, me leva até ele.

Wattson foi levado por uma escadaria velha para o andar superior. A cada degrau pisado, as tábuas rangiam como se fossem ceder a qualquer momento, causando desconforto para ele. Alcançaram um corredor, este um pouco melhor em questão de aparência, que dava acesso aos quartos.

Uma das portas foi aberta por Brunswick, que se virou para o velho com um olhar de preocupação.

— Por favor, veja o que o senhor pode fazer para ajudar. Nós não sabemos mais o que fazer com esse garoto.

O líder entrou no quarto. Sentado na cama estava um garoto ruivo. Ele olhava fixo pela janela, quieto e solitário, sem sequer fazer um movimento mínimo ao notar a entrada de Wattson. O líder de ginásio logo estranhou as feições do garoto. Era um olhar vago, mas que escondia raiva e ressentimento. Lembrava muito o mesmo quando criança, sempre culpando o mundo e as outras pessoas pelas coisas ruins que havia passado. Mas o que mais o surpreendeu foi o porte físico do garoto. Estava muito magro, mais até do que as demais crianças do orfanato.

Wattson deu um leve pigarro, o que parece ter despertado o menino do transe. O ruivo fixou seus olhos cinza no homem, que por pouco não se arrependeu de ter lhe chamado a atenção. Era como se aquela criança fizesse uma avaliação de cima a baixo do homem naquele momento.

— O que você quer? Eles acharam que iam me deixar feliz ou impressionado trazendo um líder de ginásio pra vir falar comigo? Desde quando vocês se importam? Estão preocupados porque se eu morrer de fome eles é que vão ter que se explicar.

A fala e as atitudes do garoto eram agressivas. Wattson se sentia quase intimidado, pois aquela recepção hostil era bastante difícil de lidar. Ele não sabia como deveria tentar se aproximar do menino, pois era ele quem havia assumido o controle da situação.

— Olá, rapazinho! — o líder então resolveu iniciar a conversa da forma mais próxima do natural que podia. — Como se chama?

— Não é da sua conta! Por que não volta lá embaixo pra ser bajulado pelas outras crianças? Aposto que faria muito bem pro seu ego enorme!

Wattson se esforçava para não recuar. Não queria dar àquele garoto a certeza de que estava no comando da conversa. Ele conhecia aquele tipo de comportamento. Já viu vários casos assim. Ele mesmo já foi um caso assim. Resolveu ignorar a resposta atravessada e tentou ver até onde conseguia levar aquele diálogo.

— Eu já estive com elas, mas soube que você tem andado muito isolado nas últimas semanas e não tem se alimentado direito. Estou aqui pra conversar com você, caso queria me dizer o que está acontecendo.

Wattson caminhou até a cama e se sentou ao lado do garoto, apoiando uma mão no ombro dele.

— Você... — o homem tentava encontrar a melhor maneira de fazer aquela pergunta sem criar uma situação desagradável. — Chegou aqui recentemente?

O garoto encarou Wattson por um momento, notando a expressão de pesar do homem. O menino, porém, tinha uma expressão impaciente, se sentindo constrangido pela ação do homem.

— Sim, estou aqui há um tempo — disse estapeando a mão do velho para que não o tocasse. — Mas não é como se eu estivesse precisando de ajuda. E se eu precisasse eu jamais pediria a um treinador.

— Algum treinador já te causou algum mal?

— Não te interessa!

Wattson não sabia ao certo o que acontecia na mente daquela criança, mas pela primeira vez em muitas idas àquele orfanato ele se viu intrigado. Se todas as outras pessoas ali lhe traziam uma sensação de tristeza e impotência por não poder ajudar todos da maneira adequada, agora ele via alguém que despertava nele uma curiosidade que nunca havia sentido. Ele sentia que aquele garoto precisava de ajuda mais do que tentava fazer parecer.

— Eu não sou seu inimigo, e as pessoas daqui também não são — disse Wattson. — Por que não deixa a gente te ajudar?

O menino cruzou os braços e virou as costas para o velho, que nada pôde fazer a não ser encerrar aquela discussão por ora.

— Bom, eu não vou te forçar a nada. Mas não pense que vai conseguir ir a algum lugar estando sozinho o tempo todo. Fique bem, garoto.

Na noite daquele mesmo dia Wattson entrava pela porta de seu apartamento, cambaleando de embriaguez e com dificuldade de assimilar o que estava a sua volta. Não sabia nem como havia conseguido chegar a sua própria casa, mas tinha a certeza de que aquele garoto havia mexido com seus nervos.

Caminhou direto para seu quarto após trancar a porta da frente. Olhou para o relógio: duas e quarenta e três da madrugada, foi o horário que identificou com bastante dificuldade devido à sua vista que parecia multiplicar tudo que enxergava. Antes de deitar na cama, abriu seu guarda-roupa e pegou uma sacola do fundo do móvel e a jogou em uma poltrona que havia no canto do quarto.

— Amanhã vou usar isso pra dar uma lição naquele pivete — foi o último resmungo que ele conseguiu dar antes do álcool o fazer desmaiar na cama.

• • •

A noite passou, e na manhã seguinte lá estava o homem em frente ao orfanato de novo. Já entrou de vez na recepção, causando surpresa em Brunswick.

— Sr. Wattson, você de novo? E o que significa isso?

— Depois eu explico, cadê aquele garoto de ontem?

— O Ian? Deve estar no quarto, como tem se mantido há tanto tempo...

Wattson caminhou direto para a parte de trás da recepção, que dava no corredor de acesso aos quartos. Brunswick foi desesperada atrás dele, uma vez que as visitas deviam ser marcadas com antecedência, logo as regras da casa estavam sendo descumpridas.

O líder de ginásio foi subindo as escadas e dobrou o corredor em direção ao quarto do garoto. Parecia ter decorado o caminho no dia anterior. Quando abriu a porta, já estava preparado para lidar com a expressão rancorosa da criança, mas foi surpreendido ao ver o cômodo vazio.

— Ele finalmente saiu do quarto? — perguntou o homem.

— Não que eu saiba — comentou a recepcionista, igualmente surpresa. — As meninas teriam me avisado, estamos observando esse menino desde que ele chegou.

Após um bom tempo procurando quaisquer sinais de Ian, ninguém no orfanato conseguiu encontrá-lo. Os funcionários da instituição já começavam a ficar preocupados. Se algo acontecesse a um dos órfãos eles poderiam ser severamente responsabilizados, mas não tinham nem ideia de onde procurá-lo ou a situação que se encontrava.

— Não tem nenhuma pista que vocês podem me dar sobre o garoto que pode indicar onde ele teria ido?

— Não sabemos nada sobre ele, apenas que perdeu os pais recentemente. Pelo que parece os dois eram pesquisadores do Centro Espacial de Mossdeep, mas tentaram reagir a um roubo.

Wattson se manteve reflexivo. Havia ouvido falar daquele caso. Os pesquisadores trabalhavam para o Centro Espacial, mas moravam em Mauville. Tinham uma condição financeira boa e moravam em um bairro nobre da cidade. A casa tem estado vazia desde então.

— Vou verificar uma coisa, não saiam daqui e me liguem caso ele apareça.

O líder saiu apressado cruzando as ruas de Mauville. Os olhares das pessoas eram de surpresa e alguns até mesmo de estranheza devido a sua aparência naquele momento. Mas o homem ignorava. Não era fácil reconhecê-lo daquela forma, ainda mais com a rapidez com que ele ia correndo até seu destino.

Quando chegou a uma área residencial de alto padrão, o líder caminhou até uma bela casa que estava vazia. Parecia habitada uma vez que os pertences pessoais da família ainda estavam no local, mas não havia ninguém lá.


Wattson circulou em volta da residência, caminhando devagar pelo jardim e observando tudo com atenção, a fim de encontrar algum detalhe que pudesse servir de pista do paradeiro de Ian.

— Droga, nada aqui — o homem se sentou na escada da porta da frente e começou a murmurar suas deduções. — Ele poderia estar vindo para cá. Será que se perdeu no caminho?

O homem então começou a pensar no trajeto entre o orfanato e aquela rua, procurando mentalizar os lugares que separavam os dois pontos. Foi então que ele percebeu que havia uma rua que dava em um local que o colocou em estado de urgência.

— Mas que merda!

E assim ele saiu correndo de volta pelo caminho de onde veio.

• • •

— O que você tem pra nos dar, moleque? — a voz áspera de um homem de pouco menos de trinta anos podia ser ouvida de uma esquina a outra daquela viela suja.

Ian se mantinha quieto, recuando cada vez mais contra os muros daquele quarteirão enquanto o homem e alguns comparsas o cercavam, aparentando estarem sob efeito de drogas.

— Não te conheço, aqui só circula quem é da área. Se não tiver nada pra passar pra gente tá fodido!

O homem arremessou uma garrafa que estourou no muro, logo ao lado da cabeça do menino. Ian não sabia se o homem fez aquilo apenas para intimidá-lo, ou se realmente tentou acertar a sua cabeça e acabou errando o alvo devido ao seu estado entorpecido. Tudo que sabia era que da garrafa quebrada um cheiro forte de álcool exalou por todo o local.

O garoto havia entrado na rua errada enquanto caminhava até sua casa, entrando sem querer na área industrial da cidade que era temida por seu índice de criminalidade.

Os quatro tiraram Mightyenas de suas Pokéballs. Usando Pokémons iguais era possível perceber que se tratava de uma gangue que trabalhava em equipe para praticar seus atos. Os caninos encurralaram Ian, que já não tinha mais para onde correr. E nem conseguiria, pois sendo uma criança seu porte físico tornava impossível ele conseguir correr mais que aqueles Pokémons.

Quando os Mightyenas deram o bote para atacar o menino os quatro foram atingidos de uma vez só por uma densa descarga elétrica. Todos ali presentes tiveram sua atenção voltada para um Manectric acompanhado de um homem velho vestido de palhaço.

— Ninguém encosta nesse garoto! — o homem bradou apontando o dedo para o centro da confusão.

— Wattson! — Ian gritou por instinto, não conseguindo esconder a sua surpresa. — O que está fazendo aqui? E que roupa é essa?

— Longa história, moleque, agora corre aqui e fica atrás de mim.

— Eu não pedi sua proteção! Vai embora!

O líder de ginásio caminhou até o garoto e o puxou pela gola da camisa, o jogando atrás de si de modo que não pudesse ser alcançado pelos delinquentes sem que eles passassem pelo homem antes.

— Eu não perguntei o que você quer, seu pirralho revoltado! Não interessa se você pediu ou não por proteção, eu sou o líder de ginásio dessa cidade e pra mim isso é o que tem que ser feito. Agora fica quieto aí enquanto eu lido com esse problema em que você nos meteu!

Wattson ainda agarrou a mão de Ian, fazendo o menino abri-la para receber um balão em formato de coração.

— Segura isso aqui rapidinho, só pra eu poder batalhar melhor.

— Qual é a tua, otário? — o líder do grupo começou a encarar Wattson com um olhar ameaçador. — Não vai pensando que não vai arrumar problema com a gente só porque é velho! Mightyena, arrebenta esse Manectric com o Assurance!

Thunder Wave!

Ao comando de Wattson, seu Manectric envolveu o líder da matilha em um vórtice de energia elétrica, interceptando sua movimentação. Wattson sorriu triunfante.

— Certo amigo, os outros três vamos derrubar de uma vez só. Discharge!

Ian estava boquiaberto com o que via a sua frente. Não sabia se era com aquele show de luzes ou se a destreza de Wattson como treinador o havia tocado de alguma forma. Tudo que sabia era que naquele momento estava feliz de ver um grande treinador em ação. Agora entendia porque líderes de ginásio como aquele velho homem eram tão admirados.

Com três dos quatro Mightyenas derrotados em um único golpe, os arruaceiros logo perceberam a diferença de nível entre eles e o treinador daquele Manectric. Wattson virou seu olhar para o líder do bando para lhe dar um último aviso.

— Só sobrou você, e seu Pokémon está paralisado. Tem certeza que quer levar isso adiante?

Contrariado, o homem recuou seu Mightyena para a Pokéball, e assim fizeram os outros integrantes do grupo. Após eles dispersarem, Wattson caminhou de volta até Ian, com Manectric ao seu lado. Um breve silêncio rompeu entre os dois, até que o garoto começou a rir.

— O que houve? — indagou o treinador se animando com aquela reação.

— Eu só não digo que você foi incrível porque você tá ridículo com essa roupa!

O velho riu junto com o menino. Talvez aquela fosse a forma dele agradecer e ao mesmo tempo não demonstrar os sentimentos. Mas havia conseguido tirar um sorriso daquele rosto carregado de rancor e sofrimento. Havia cumprido sua missão, ainda que não da maneira que esperava fazer aquilo.

• • •

Wattson e Ian caminhavam de volta para o orfanato. O líder continuava chamando a atenção das pessoas na rua com sua roupa de palhaço, mas não se importava. Estaria realmente incomodado caso algo ruim tivesse acontecido ao menino.

— Então garoto... — o homem não sabia como encontrar as palavras certas para perguntar aquilo. — O que aconteceu com você foi por causa de treinadores? Por isso você não gosta de nós?

Ian ficou em silêncio por alguns segundos. Wattson por um momento pensou ter tocado naquele ponto delicado cedo demais, mas logo a resposta veio.

— Sim, foi por causa de treinadores estranhos. Eles eram encapuzados e usavam uniformes, eram um grupo de três. Queriam roubar documentos importantes e meus pais foram mortos tentando evitar. Eu sei que não são todos os treinadores que são ruins assim, mas me perguntava onde estavam os bons naquele momento? Não tinha um líder de ginásio ou membro da Elite para salvar os dois? Por isso eu comecei a culpar todos.

O menino percebeu que Wattson ficou em silêncio o observando. Ele se assustou e logo tratou de se explicar.

— M-mas isso já passou! Eu sei que era besteira minha! Depois da forma como você batalhou hoje eu sei que posso contar com vocês! Eu agradeço muito por você ter vindo me ajudar mesmo depois de tudo aquilo que eu te disse ontem.

— Não precisa se desculpar, garoto — o líder disse com um suspiro. — Você está coberto de razão. Nós não somos os heróis que a mídia tenta pintar pra população. Eu sou apenas um treinador profissional exercendo minha profissão que é decidir quem vai e quem não vai pra Liga. Da mesma forma é a Elite. Mas eu tenho um senso de responsabilidade com a cidade. E a minha preocupação não era ser nenhum tipo de salvador da sua vida. Era apenas evitar que algo ruim te acontecesse. Você ia se machucar, o orfanato ia responder judicialmente, eu ia ver a cidade que tanto amo ter seu nome manchado por conta de um crime contra um menor de idade. Ninguém ia sair ganhando com isso.

Quando retornaram ao orfanato, a Sra. Brunswick correu até Ian o abraçando forte. A mulher se segurava para não chorar, tamanha era a preocupação. Após ser solto pela recepcionista, Ian virou-se para Wattson e o encarou por alguns segundos. O garoto deu um sorriso.

— Bem, acho que vou subir para o quarto.

— Isso mesmo, vai logo — disse o velho. — Você tem que pegar suas coisas.

Tanto Ian como Brunswick olharam surpresos para Wattson, e em seguida trocaram olhares confusos. O líder percebeu a situação e deu uma gargalhada enquanto massageava a sua barriga avantajada.

— O que foi, moleque? Achou que ia ficar aqui pra sempre? Brunswick, traz a papelada! Nós vamos pra casa!


FIM DO CAPÍTULO

  


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