Notas do Autor - Capítulo 19


Vocês podem pensar que eu fiquei louco, mas a verdade é que eu fiquei mesmo kkkkkkkkkkk Eu estava tão ansioso pra chegar a esse capítulo logo que já não conseguia pensar em mais nada! Esse bendito capítulo 19 é a porta de entrada para uma grande mudança na história, em especial para a Camila, que agora a gente sabe que na verdade é Miriam. E a descoberta dessas informações, pelo que eu tenho planejado, vão continuar gerando consequências lá no começo da segunda temporada.

Começando pela revelação do que todo mundo já sabia. O carinha do final do capítulo 18 é mesmo o Ethan! E olha só! Ele está vivo! Antes que vocês chamem o Dento de mentiroso pelas 500 vezes que ele ficou berrando "Ethan morre" no Discord, ele só disse que o personagem morreria. Não disse que seria ainda em Johto. Mas isso também não quer dizer que vai ser em Hoenn. Talvez ele apareça em mais alguma região, vai saber...

Tivemos uma breve aparição da Lisia, criando uma cena que prepara o terreno para o próximo contest que o Ruby vai ter que encarar. Da última vez ele não conseguiu a vitória, apesar de um resultado bem melhor que o esperado. Agora ele vai vir mais preparado para fazer uma boa atuação. Será que agora vai?

E por fim uma cena especial que era um dos meus checkpoints. Checkpoint aqui em AEH são cenas que eu crio pro futuro e acabo ficando louco pra chegar logo nelas. Os últimos foram a captura do Jet e a batalha no ginásio de Dewford.

Essa cena final explica o motivo da Ca... Miriam não querer encontrar a Anabel tão cedo, como ela havia dito no capítulo 18, explica quem era a Miriam que foi citada duas vezes na batalha contra o Spiritomb no navio, enfim. Ainda tem muita coisa pra ser revelada. E como a própria Anabel disse, o que a Miriam acha que vai acontecer quando o Ruby e a Sapphire descobrirem a verdade? Porque mentiras não se sustentam por muito tempo...

Espero que tenham gostado do capítulo. Até a próxima! õ/

Capítulo 19

Faces da Fronteira



— Vamos atracar em cinco minutos!

As palavras de Briney soaram como música para os ouvidos do trio de viajantes, que enfim poderia desfrutar de terra firme após dias em alto-mar. A vasta faixa de areia da praia de Slateport já podia ser vista de onde estavam com a cidade crescendo ao fundo. O barco aproximava-se da costa, sendo recebido por revoadas de Wingulls rodeando-os. Peeko saiu de seu poleiro na cabine do piloto para interagir com os demais de sua espécie.

O cais tomou forma logo em seguida, e o tempo que levaram para atracar condizia com o que o velho ex-marinheiro havia dito. Ao pisarem nas tábuas do ponto de desembarque Ruby e Sapphire suspiraram aliviados, como se estivessem libertos de uma prisão que durara dias. Camila se mantinha em silêncio, mas seu humor parecia um pouco melhor do que quando deixaram o navio abandonado.

— O que vamos fazer primeiro? — Sapphire perguntou, sem conseguir esconder a animação. — Quero passar a tarde inteira na praia!

— Você vai ter tempo de sobra para se divertir depois que reservarmos os quartos no Centro Pokémon — disse Ruby, que observava as ruas da cidade na esperança de encontrar o local. — Eu quero visitar a feira da cidade, dizem que dá pra comprar suprimentos lá com preços bem menores que os do PokéMart.

— É verdade — Camila falou ao se aproximar. — Eu desembarquei em Hoenn por aqui e fiz algumas compras na feira. A gente vai conseguir economizar um bom dinheiro se comprarmos por lá.

— Também tenho que passar no Contest Hall da cidade e fazer a minha inscrição para a próxima competição — o menino então se virou para Briney, dando ao velho a quantia em dinheiro por ter realizado viagem. — Obrigado pelo serviço, sei que deu bastante trabalho para o senhor nos trazer até aqui.

— Não tem problema, garoto — disse o navegador. — Já fiz viagens bem mais longas durante a minha vida, e eu e Peeko estávamos precisando viajar um pouco depois de tanto tempo parados no mesmo lugar. Os anos passam, mas esse velho aqui não consegue perder o sangue de marinheiro.

Após se despedirem do homem os viajantes seguiram em direção à cidade. Slateport era uma típica cidade de veraneio. As casas simples eram típicas de uma cidade pequena, mas o porto recém-construído a fez crescer de tamanho com rapidez. Além disso, a grande concentração de pessoas na praia e nas ruas era um indicativo da alta-temporada, bem como do contest que se aproximava.

Os três não perderam tempo e se dirigiram ao Centro Pokémon para efetuar suas reservas. Ao chegar ao local já se dirigiram à porta de entrada quando a mesma se abriu, revelando um rapaz de cabelos negros que vinha na direção oposta. Sapphire olhou rápido para o rosto da pessoa, mas passou direto. Uma fração de segundo foi o tempo necessário para a garota parar e se virar bruscamente, apontando para o garoto com o dedo indicador.

— VOCÊ!

O rapaz se virou depressa ao notar que o grito foi disparado para ele. Seus olhos caminharam de cima a baixo analisando a menina, mas pela expressão que tinha em seu rosto ele parecia não reconhecê-la.

— Eu conheço você?

— Se me conhece? Tá de brincadeira comigo, Ethan?

Seus olhos se arregalaram com a surpresa de ver que a menina era uma conhecida. Depois de alguns segundos a encarando foi que a mente dele se iluminou, percebendo de quem se tratava.

— Sapphire? — seu tom de voz demonstrava surpresa e alegria, ao mesmo tempo em que ele já esfregava a mão na cabeça da garota. — Caramba, você cresceu pouco mesmo depois de todo esse tempo! E aí, pirralha? Tudo jóia?

— Por que você continua me chamando de pirralha, seu idiota!? — Sapphire tentava dar socos nos ombros de Ethan, mas a diferença de altura dificultava a tentativa.

— Hahaha, continua tentando, tampinha! O que vem de baixo não me atinge!

— QUEM É A TAMPINHA AQUI, CARA? EU VOU TE DAR UMA LIÇÃO AINDA!

Ruby e Camila observavam a cena sem entender nada do que acontecia. O garoto estava constrangido de ser notado pelos pedestres perto daquela gritaria, mas a menina assistia a cena com certa curiosidade.

— São seus companheiros de jornada? — Ethan perguntou, ainda empurrando Sapphire pela cabeça para não ser agredido. — Como vocês aguentam essa monstrenga todos os dias?

— Boa pergunta, sério mesmo — disse Ruby, que dava de ombros ignorando os gritos de “quer morrer?” de Sapphire.

Quando Ethan conseguiu se desvencilhar de Sapphire, o rapaz pôde ficar frente a frente com os dois companheiros de viagem da menina. Ele sorria, parecendo orgulhoso.

— Eu conheço a Sapphire desde que ela era uma garotinha. Vim pra Hoenn há uns sete anos, mais ou menos, e o Professor Birch me ajudou muito quando cheguei aqui. Tentei enfrentar a Elite na época, e até cheguei a batalhar com o Campeão. Só que na época o Campeão era o Drake, então vocês já devem imaginar o que aconteceu... — ele ria coçando a cabeça.

— Bem feito! — Sapphire mostrava a língua como uma criança fazendo birra.

— Relaxa aí, fedelha. Sua hora vai chegar também. Ouvi dizer que esse tal de Steven é bem forte. E agradeça que o Campeão não é mais o Drake e nem o Wallace. Você seria transformada em pó enfrentando qualquer um dos dois.

Sapphire cruzou os braços emburrada.

— Você não tinha ido pra outra região? O que tá fazendo aqui em Hoenn? Veio apanhar pra Elite de novo? Saiba que não vai nem passar da Liga, eu vou acabar com você lá.

— Pra sua sorte eu não vim competir na Liga. Esse ano eu tô desafiando a Batalha da Fronteira.

— Sério? — a menina ficou surpresa, e então apontou para sua companheira de viagem. — A Camila também tá desafiando a Batalha da Fronteira. Ela já tem um símbolo.

Ethan virou-se para a outra menina do trio com um sorriso entusiasmado.

— Legal! Parece que somos concorrentes, então! Que tal a gente treinar junto qualquer hora? Já tenho três símbolos, posso te dar algumas informações sobre outros Cérebros da Fronteira.

— Ah... — Camila não sabia o que dizer, pois ainda estava processando a informação de conhecer um outro desafiante da Batalha da Fronteira. — Claro, vai ser um prazer! Eu preciso treinar bastante mesmo, vou enfrentar a Greta em breve, assim que sairmos da cidade.

Ethan mudou sua expressão assim que a ouviu falar. Agora tinha uma expressão séria, porém curiosa. Nenhum dos três viajantes entendia aquela mudança repentina na maneira como o rapaz a encarava.

— Seu sotaque... — disse, enquanto coçava o queixo. — Ele é familiar. De onde você é?

— Ela é de Kanto — Sapphire respondeu. — Você viajou com pessoas de Kanto por um tempo, não foi?

— Ah, é verdade! — disse o rapaz. — Sim, realmente é o sotaque de Kanto. Me traz boas lembranças dos meus amigos. O que será que eles estão fazendo agora? Digo, o Forrest com certeza está cuidando do ginásio de Pewter, e a Amy... Bem, até alguns meses atrás ela estava em Sinnoh, mas ela é imprevisível. Talvez agora ela já esteja do outro lado do mundo e eu nem sei.

— Então o líder do ginásio de Pewter foi seu companheiro de viagem? — indagou Camila.

— Sim, ele mesmo. Você já batalhou com ele?

— Já sim.

Ethan então fez um sorriso malicioso.

— Quer dar mais detalhes sobre como foi a batalha?

— Nem ferrando — Camila sorria como se nada tivesse acontecido.

Ethan deu uma risada ao receber aquela resposta, mas não insistiu no assunto.

— Vão fazer a reserva no Centro Pokémon ainda?

— Sim, acabamos de desembarcar — respondeu Sapphire. — E depois vamos ao Contest Hall porque o Ruby tem que se inscrever para a etapa desse fim de semana.

— Eu posso esperar vocês. Também vou para o Contest Hall, combinei de me encontrar com uma velha amiga lá. E Camila, depois podemos ir a um evento da Batalha da Fronteira aqui perto que vai começar no final da tarde. É bom para reunirmos informações sobre o torneio. E ouvi dizer que dois Cérebros da Fronteira estão na cidade.

— Claro, vamos sim! — Camila tentava passar euforia, mas no fundo torcia para descobrir quem eram os Cérebros que estariam presentes no evento antes de precisar ir até lá.

O check-in no Centro Pokémon foi mais rápido do que imaginavam. Os três jovens tiveram a sorte de encontrar um quarto vago, onde poderiam se hospedar. Deixaram o excesso de pertences lá para então retornar às ruas da cidade para aproveitar um pouco melhor sua atmosfera.

Desta vez era Ruby quem estava com pressa. Parecia que o menino só ia sossegar quando tivesse a sua inscrição realizada para o próximo contest. Suas companheiras de viagem e Ethan acompanhavam o coordenador que seguia na frente de todos, caminhando de forma desajeitada, sem conseguir esconder o nervosismo.

Levou pouco tempo para que chegassem ao Contest Hall. A fachada estava lotada de gente, mal dava para ver a porta de entrada. Os quatro foram se espremendo entre as pessoas para poder passar e ver o motivo de tanta comoção.

Uma bela garota acenava para todos os presentes, ao mesmo tempo em que concedia uma entrevista para uma emissora de televisão. Seus olhos azuis tinham um tom claro que combinavam com os cabelos turquesa. Seu rosto era moldado por linhas finas e sua beleza reforçada por uma maquiagem que parecia ter levado horas para ser feita.

— Não acredito! — Ruby boquiabriu-se. — É a...

— Ei Lisia, aqui! — Ethan acenou para a garota, interrompendo o mais novo.

A menina olhou de imediato para a direção de onde vinha a voz familiar, e quando viu Ethan deu um breve aceno para ele, seguido de um gesto indicando que já iria lhe dar atenção. Ruby voltou seu olhar para o rapaz com expressão de total descrença.

— A sua velha amiga é a Lisia?

— Sim — ele respondeu.

— A top coordenadora mais popular de Hoenn.

— Aham.

— Sobrinha de Wallace, ex-Campeão da Elite de Hoenn e um dos mais incríveis coordenadores que o mundo já viu.

— Ela mesma.

Ruby apertou os dois ombros de Ethan, forçando-o a olhar diretamente em seus olhos.

— Nos apresente e eu terei uma dívida de gratidão eterna com você!

— Ei, calma! — o mais velho foi afastando as mãos do garoto de si. — Não é pra tanto, eu posso te apresentar a ela sim.

Com o fim da entrevista de Lisia a multidão foi se dissipando, uma vez que os seguranças dela a rodearam e se prepararam para voltar para dentro do Contest Hall. Ethan aproveitou a oportunidade para se aproximar, seguido pelo trio.

Os guarda-costas fizeram menção de bloquear a passagem do quarteto, mas a coordenadora gesticulou indicando que eram pessoas confiáveis.

— Há quanto tempo, Ethan! — a voz de Lisia era suave e graciosa, harmonizando perfeitamente com sua aparência angelical. A impressão que se tinha é que ela era talvez o mais próximo que um ser humano podia chegar da perfeição. — Eles estão com você?

— Estão sim — respondeu o rapaz. — Estes são Sapphire, uma velha amiga, e os companheiros de viagem dela, Camila e Ruby, que também é coordenador.

Lisia ficou intrigada ao ouvir o nome do garoto e olhou diretamente para ele. Ruby sentiu seu coração bater mais forte, não se imaginava prendendo a atenção de uma das inspirações para sua escolha de carreira.

— Você é um dos debutantes que conseguiu o pódio em Rustboro, não é? Adorei as apresentações de vocês três. Foram incríveis. Eu gostaria de ter assistido de perto, mas não pude comparecer pois não estava me sentindo muito bem no dia. Eu falhei com meu dever em meu primeiro contest como jurada, mas garanto que aqui em Slateport eu vou me redimir com vocês.

Ruby ficou vermelho como uma Tamato Berry. Aquele reconhecimento inesperado foi o suficiente para quase enfartar ali mesmo, naquela calçada. Não sabia onde esconder a cara.

— E-eu sou um... Um... Um grande fã seu! É um-ma honra saber que você gostou d-da minha apresentação!

Sapphire e Camila observavam a cena como se estivessem tendo o melhor dia de suas vidas. Ver Ruby lutar daquela forma para não externalizar seus sentimentos em público era um verdadeiro troféu por todas as vezes que foram vítimas da frieza do amigo. Seus rostos estavam tão vermelhos quanto o de Ruby, mas era devido ao esforço sobre-humano que faziam para não cair na risada.

— Por favor, me diz que você tem uma câmera — disse a morena.

— Infelizmente não, e eu me odeio muito por isso agora — Sapphire respondeu.

Lisia continuava sorridente. A alegria radiante da celebridade contagiava qualquer um que passasse por perto, exceto Ruby que não conseguia se manter calmo.

— Estou torcendo muito para que uma nova geração de coordenadores apareça e coloque um pouco de emoção nos contests — disse a moça. — Quero ver vocês três repetindo as atuações de Rustboro nesse fim de semana.

Depois de mais alguns minutos de conversa o trio saiu do Contest Hall e seguiu em direção à feira ao ar livre. Ethan havia ficado com Lisia para colocar a conversa em dia com sua velha amiga.

Ruby mal conseguia falar qualquer coisa devido à euforia que tomava conta de si naquele momento.

— Ela sabe quem eu sou — o menino praticamente babava olhando pra cima, sequer prestando atenção na rua. — A Lisia gostou da minha primeira apresentação.

— É uma boa ideia então você parar de sonhar acordado e já definir o seu cronograma de preparação para o contest — Sapphire alertou. — Escolha qual membro do seu time vai participar e comece os ensaios o quanto antes.

— Eu sei, eu sei. Já estou com algumas ideias em mente. Amanhã cedo eu vou começar a trabalhar nelas.

No momento em que chegaram à entrada da área da feira Sapphire e Ruby ainda conversavam distraídos, quando a menina esbarrou seu ombro em um garoto que vinha na direção oposta. Seu olhar cansado e enfurecido o fazia parecer mais intimidador, fazendo os três ficarem em estado defensivo.

— Presta atenção por onde anda! — disse com a voz áspera, saindo logo em seguida carregando as sacolas com as compras que havia feito.

— O que foi isso? — Camila indagou em descrença. — Aguentem aí, vocês dois. Eu vou trocar uma ideia com aquele idiota.

— Não precisa — Sapphire segurou firme o ombro da amiga, evitando que ela fosse tirar satisfação com o garoto. — Você tem andado muito tensa ultimamente. Extravasar dessa forma só vai te fazer mal. Vamos aproveitar o que tem de bom na cidade, ok?

— Ok, certo — disse a mais velha, enfim se acalmando. — Mas da próxima vez nem tente me impedir. Eu não gosto de gente que acha que pode fazer esse tipo de grosseria sem motivo.

Enquanto seus dois amigos se dirigiam para dentro da feira, Sapphire ficou observando o garoto se distanciando, até que desaparecesse atrás das outras pessoas que vinham para o mesmo local que ela visitaria naquele momento.

A menina não se prolongou muito. Deixou a sua insatisfação reprimida de lado e decidiu que seria mais proveitoso seguir o que ela mesma havia sugerido a Camila minutos atrás.

Em poucas horas o grupo estava abastecido com os itens necessários para seguir viagem. Os três, satisfeitos com o dinheiro economizado, rumaram de volta para o Centro Pokémon para guardar os itens adquiridos. Durante as horas que se passaram no período da tarde Sapphire e Ruby aproveitaram um pouco da praia da cidade, mas Camila permaneceu no Centro Pokémon relaxando.

Ao final da tarde a menina resolveu seguir para o evento da Batalha da Fronteira que Ethan havia lhe contado mais cedo. Pegou informações com a recepcionista do Centro Pokémon para saber o local e para lá seguiu.

Não queria estar indo até lá, mas preciso saber se as informações que tenho do torneio ainda estão atualizadas — pensou enquanto caminhava pelas ruas estreitas da cidade.

Quando chegou ao local a cidade já começava a ser tingida de tons alaranjados. Alguns postes começavam a se acender para a chegada da noite. O prédio onde aconteceria o encontro dos participantes era simples, algo que lembrava um salão de festas. A garota passou pela porta automática e se surpreendeu ao ver a quantidade de gente que estava lá, desde desafiantes até pessoas que trabalhavam na organização da competição.

Pessoas conversavam por todos os lados. A interação entre os treinadores desafiantes era constante uma vez que o modelo da Batalha da Fronteira não realizava batalhas entre eles, o que diminuía a ocorrência de rivalidades mais acaloradas.

Camila viu Ethan conversando com outra pessoa ao longe, mas preferiu caminhar para outro lado. Não estava com muita vontade de socializar com outras pessoas, só queria encontrar um lugar onde pudesse buscar informações sobre o torneio e voltar para o seu quarto reservado no Centro Pokémon.

A menina continuou caminhando pelos corredores até acessar uma área que não estava movimentada. Só havia duas pessoas conversando, e quando ela percebeu quem eram seu corpo paralisou.

— O que foi? Quer falar algo com a gente? — a primeira perguntou, uma menina loira com cabelos presos em dois coques e trajando vestes de luta.

— Greta, perdão por interromper nosso assunto dessa forma, mas ela é uma conhecida minha, e preciso falar com ela — disse a segunda, que tinha um ar mais sereno e se vestia com roupas muito mais elegantes. — Podemos continuar nossa conversa mais tarde?

— Ah, claro. Sem problemas.

Quando a garota loira se afastou das duas e o corredor ficou vazio, a mulher ajeitou seu cabelo lilás para trás da orelha, e falou em um tom cuidadoso para que ninguém mais ouvisse.

— Venha comigo.

Camila finalmente começou a se mover. Não porque havia se acalmado, mas sim porque era impossível recusar qualquer ordem daquela mulher. As duas entraram em uma sala particular, e assim que a porta foi fechada a mulher girou a chave na fechadura, deixando as duas trancadas.

— Pela sua cara de espanto você não veio até aqui para me encontrar — disse enquanto se servia de uma xícara de café.

— Senhorita Anabel, eu não imaginava que você estaria aqui hoje.

— Não recebo notícias de você tem um bom tempo. Você também não respondeu minhas mensagens e não enviou nenhum relatório sobre as investigações.

— Não foi possível.

— Porque você realmente estava incomunicável, ou porque você se deixou levar pela vida de aventureira?

Anabel se sentou no sofá de couro preto ao centro da sala, gesticulando logo em seguida para que Camila fizesse o mesmo. A menina se sentou com as mãos pressionando os próprios joelhos numa tentativa de esconder que suas pernas estavam trêmulas.

— Não precisa ficar tensa, eu não tenho a menor intenção de te aplicar uma punição ou algo do tipo — Anabel fez uma pausa e tomou um gole do seu café. — Entendo que uma jovem na sua idade tem ambições como treinadora, mas foi você quem escolheu ser minha estagiária. E nós precisamos da sua ajuda.

— Eu sei, eu cometi um erro ao te deixar sem informações por tanto tempo.

— Eu soube o que aconteceu com o barco do Briney na rota para Dewford. E eu soube que você estava lá pelas descrições que recebi dos passageiros. O importante é que você está bem, mas deveria ter me relatado esse incidente.

— Fiquei com medo de que você me tirasse dessa missão de campo se soubesse que eu tinha me envolvido em alguma situação de risco. Eu sei que foi irresponsabilidade minha não ter te contado o que aconteceu, mas eu queria muito seguir viajando.

— E manter o mundo arriscado para os amigos que você fez? Eu não vou tirar você da missão, mas preciso que você colabore melhor daqui em diante. Temos que ter o máximo de informação possível para rastrear os movimentos da Team Aqua e da Team Magma.

Anabel se levantou do sofá e caminhou em volta da sala por um breve instante. Parou de costas para a menina por alguns segundos, cruzou os braços e se virou de volta para sua subordinada.

— Você realmente se apegou aos seus dois companheiros de viagem?

— Sim.

— E por quanto tempo você pretende se esconder deles atrás desse nome falso?

A menina ficou em silêncio.

— Uma hora eles vão ter que saber a verdade — Anabel respirou fundo. — E cedo ou tarde você terá que escolher entre o seu dever e a sua vida pessoal, Miriam.

FIM DO CAPÍTULO 19


  

Notas do Autor - Capítulo 18


Oi pessoinhas do meu corasa1 :v

Estamos de volta com a AEH, finalmente! Eu queria ter voltado em Maio, mas vocês já sabem como funciona o velho Shadow. Dá um descanso pro infeliz e ele já acha que aposentou de novo...

Este foi o capítulo que preparou o terreno pra algumas coisas interessantes que vamos ver nesse arco de Slateport. Arco este que vai ter bastante coisa importante acontecendo, algumas talvez imperceptíveis, mas acredito que com a astúcia implacável de vocês eu nem vou conseguir esconder muita coisa. É o arco da Omega Saga que eu mais estava ansioso por alcançar. Aqui vai ter muita reviravolta, muitos conflitos e a apresentação de personagens novos também (alguns nem tão novos assim).

O capítulo do navio abandonado é mais um reaproveitado da AEH antiga (nessa versão ele era o capítulo 21, se não me falha a memória), e eu resolvi trazê-lo pra cá também. A diferença é que na AEH antiga era um capítulo que poderia facilmente ser descartado. O que o salvou de ser um filler foi um detalhezinho de nada que faria parte do plot principal, que é a mensagem do diário do Raizoh Cozmo sobre a tal fera marinha, que também foi readaptada. Aqui, nesta versão nova, adicionei algumas coisinhas a mais que serão esclarecidas no futuro, até pra dar um tempero a mais no capítulo.

"Mas Shadow, por que usar o navio abandonado de RSE em vez de usar a Sea Mauville, já que a AEH nova segue os padrões de ORAS?"

PORQUE EU AMO AQUELE FUCKING NAVIO! A vibe dele é muito única! É algo que é de Hoenn, não tinha como ignorá-lo. E eu ter colocado o Raizoh como funcionário do navio, sendo que ele não era em RSE (ele só foi funcionário da Sea Mauville) foi apenas uma liberdade de adaptação que eu resolvi tomar. Vocês vão ver outras coisas do tipo, que foram readaptadas de RSE pra substituir o que existe em ORAS. Até porque se eu fosse seguir ORAS à risca, sequer teríamos a Batalha da Fronteira pra Camila disputar (obrigado, Game Freak, pelo visto não é de hoje que vocês me deixam puto da vida).

E falando na nossa adorada protagonista, a partir daqui as coisas começam a mudar bastante pra ela. Que treta é essa dela com a Anabel? Quem é essa Miriam de quem ela e o Spiritomb falaram? Que raios aconteceu no passado pra ela ficar tão alterada depois dessa exploração que quase deu muito errado?

E isso que eu não vou nem comentar sobre o cara lá que apareceu no final...

Até a próxima, pessoal! õ/


Capítulo 18

O navio abandonado


O barco de pesca de Briney seguia o mais rápido que podia em direção ao leste. Com ele estava Sapphire, Ruby e Camila que aproveitavam a direção que o marinheiro tomava para pegarem uma carona até Slateport, próximo destino dos aventureiros.

Apesar da idade da embarcação, ela seguia a todo vapor saltando de onda para onda, parecendo voar raso na superfície da água. Briney estava calado durante o trajeto, focando em cada detalhe ao longo da rota para não perder a direção que devia seguir, já que o lugar onde queria chegar era bem escondido de vista até mesmo para os navegadores mais experientes.

Entre o trio de treinadores as expressões eram mais variadas, desde um Ruby emburrado por ter que aturar o cheiro de água de peixe impregnado no barco até Sapphire sorridente encarando suas duas insígnias da Liga Pokémon e Camila interagindo com sua Mudkip.

— Nesse ritmo a gente nem demora muito pra chegar — comentou Sapphire, lustrando a recém-conquistada insígnia de Dewford. — Slateport é um pouco mais afastada de Dewford do que Petalburg, mas do jeito que o Sr. Briney está navegando rápido eu acho que não vai ter muita diferença de tempo.

— Ele deve estar com muita pressa, seja lá o que ele pretende fazer — comentou Camila, tendo o cuidado de falar baixo para que não fossem ouvidos pelo velho. — Vocês acham que isso tem alguma relação com aquilo que aconteceu antes de chegarmos a Dewford?

Fez-se um silêncio breve. Os três se encaravam com seriedade. Se a resposta para a última pergunta de Camila fosse positiva, havia neles a preocupação de que talvez estivessem indo em direção a mais problemas. E mais uma vez em alto-mar, onde não havia fuga para um lugar seguro, um novo encontro com a Team Aqua era a última coisa que desejavam.

— Não sei, não acho que o Sr. Briney nos levaria para uma situação perigosa — questionou Sapphire.

— Da outra vez ele também não estava, mas o perigo veio até ele e nos pegou de brinde — Ruby retrucou. — Fala sério, gente! Aquele homem tem coisas a esconder de nós. Aqueles bandidos saberem quem ele é não foi coincidência.

— Não pude usar meus Pokémons naquela noite, porque estávamos isolados — disse Camila cerrando os punhos com força. — Em terra firme eu teria acabado com aqueles dois.

— É muito fácil fazer suposições de algo que já passou, mas nunca dá pra ter certeza do que poderia ter acontecido caso as condições fossem diferentes — Ruby dizia enquanto se levantava para andar até a grade do barco, onde se apoiou. — Se estivéssemos em terra firme você poderia ter batalhado sim, mas eu e Sapphire não somos treinadores experientes como você, o Sr. Briney parece ter apenas a Peeko, que não é um Pokémon preparado para batalhas e não sabemos o nível daqueles criminosos. Você talvez tivesse entrado em batalha, mas o resultado dessa afronta poderia ser pior.

A menina ajeitou seus óculos e bufou, demonstrando estar contrariada com as palavras frias de seu amigo, mas não tentou contra-argumentar. No fundo sabia que ele estava certo.

— Não consigo derrotar dois criminosos quaisquer, como eu vou encarar os outros Cérebros da Fronteira?

— Os Cérebros da Fronteira não vão ameaçar te matar se você mostrar resistência — afirmou Ruby.

— Pois é, inclusive tem uma que eu preferiria morrer logo a ter que encarar agora — Camila se debruçou na grade de segurança do barco.

Sapphire e Ruby trocaram olhares confusos, sem entender muito bem o que a companheira queria dizer com aquilo.

— Quem seria essa? A Greta?

— Não, a Greta é a próxima — Camila respondeu. — E parece ser uma pessoa divertida.

Sapphire não desistiu com a primeira negativa.

— Então a Lucy!

— Também não, a Lucy é uma das treinadoras que eu mais desejo conhecer.

— Você disse “uma”, e de mulheres na Batalha da Fronteira então só sobrou a Anabel.

Os ombros de Camila deram uma sacudida involuntária, fazendo Sapphire revelar um sorriso triunfante.

— Então é ela — disse a garota.

— Qual o problema com a Anabel? — questionou Ruby. — Ela é uma treinadora respeitadíssima no mundo inteiro! Fora o fato de que ela é um membro da Polícia Internacional, uma pessoa brilhante que ajudou a desenvolver o setor de inteligência deles.

— Podemos mudar de assunto, por favor? — a garota indagou com rispidez. — Eu já a encontrei antes, e não foi um dos melhores dias da minha vida...

Dado o ponto final no assunto os três ficaram em silêncio por quase duas horas, até o momento em que o barco fez uma manobra para a esquerda, mudando sua direção original.

Quando os jovens se deram conta um estranho borrão apareceu no horizonte. Seu tamanho aumentava na medida em que Briney ia avançando em direção a ele, fazendo-os se perguntarem o que era aquilo. Não demorou muito para descobrirem que se tratava de um enorme navio encalhado em um banco de areia no meio do oceano, cujos danos na lateral do casco indicavam um possível abalroamento.

O barco de pesca emparelhou com uma rampa de acesso na lateral do navio. Briney desligou o motor e finalmente saiu da cabine para observar a melhor maneira de ir de uma embarcação para a outra. Quando finalmente saltou por cima da grade lateral do seu barco, o velho voltou sua atenção para os treinadores.

— Eu já volto. Vocês ficam aqui, o local não é muito seguro.

O ex-marinheiro subiu a rampa e desapareceu da vista dos três quando chegou à parte de cima. Os treinadores resolveram se dirigir à parte de dentro do barco para fugir do sol escaldante, uma vez que com o barco parado eles não teriam a ajuda do vento para afastar o calor intenso que os castigava naquele dia.

Sentados à mesa da pequena cozinha improvisada, os viajantes começaram a ponderar sobre o que Briney pretendia ao se colocar em uma situação de tamanho risco.

— Ele fala para não irmos porque é perigoso, mas ele mesmo também não está seguro lá em cima. Idade avançada, se algo acontecer vai ser um problema pro Sr. Briney sair de lá — comentou Sapphire.

— Eu só quero entender o que ele veio fazer em um navio naufragado no meio do nada — questionou Ruby, não escondendo seu descontentamento. — Aquilo ali está caindo aos pedaços, está todo corroído! Sabe-se lá quanto tempo faz desde que foi parar ali. E se acontecer alguma coisa estaremos perdidos no meio do oceano, sem saber se algum dia alguém vai nos avistar, pois estamos fora da rota marítima.

— Quando fomos atacados pela Team Aqua eles não mencionaram um mapa que levava a um navio naufragado? — Camila perguntou, mantendo a voz baixa.

— Camila, pela última vez, esquece essa gente! — Ruby parecia nervoso, encarando a amiga nos olhos. — Isso é problema dele, uma vez que estivermos em Slateport vamos continuar seguindo nossas vidas e nunca mais nos envolver com esse cara de novo.

A menina, no entanto, não parecia estar dando ouvidos a Ruby. Pegou sua mochila, revirou o conteúdo dentro dela, e partiu em disparada para fora do barco. Ruby e Sapphire se entreolharam apreensivos.

— Ela não vai fazer o que eu acho que ela vai fazer, não é? — indagou a garota.

— Eu sei que eu vou me odiar por dizer isso, mas vamos atrás dela antes que aconteça alguma desgraça.

• • •

Quando finalmente alcançaram Camila, Ruby e Sapphire se depararam com um cenário não muito amigável. Os papéis de parede descascados, o chão de metal corroído pela maresia, a escassez de luz e uma corrente de ar fria que passava pelo corredor, parecendo atravessá-los causando a sensação de que estavam sendo perfurados por uma lâmina afiada, era o conjunto perfeito para alertá-los de que não deveriam estar ali.

— De onde vem esse vento frio? — Ruby protestou ao mesmo tempo em que se encolhia em seus próprios braços. — Estava um calor insuportável lá fora!

Camila tinha retirado da mochila uma lanterna, que usava para vasculhar cada canto daquele ambiente hostil. Vez ou outra perturbava um dos Zubats que descansavam pendurados nos encanamentos do teto, mas não se incomodava com a presença deles. Parecia estar atenta a qualquer outro detalhe que pudesse aparecer fora do lugar.

— Estranho... — sussurrou a menina. — Sem rastros do Briney. Será que ele entrou por algum outro lugar?

— Camila, vamos voltar — disse Sapphire. — Aqui é perigoso.

— Só um momento, eu preciso verificar uma coisa. Se quiserem voltar para o barco fiquem à vontade, eu desço logo depois.

— E se o Sr. Briney voltar antes de você? Como vamos dizer a ele que você veio para cá mesmo ele nos dizendo para não vir?

— Ele não tem controle sobre minha vida. Confiem em mim, não vou demorar, só quero confirmar uma teoria.

— Você por acaso não está tentando detectar algum rastro da Team Aqua, está? — Ruby já parecia estar perdendo a paciência de novo, nas últimas horas ele parecia ter se convencido de que Camila contraíra alguma obsessão em caçar os criminosos.

A menina se colocou de frente para o amigo, ajeitou o casaco e manteve o seu semblante sério.

— Não posso explorar um lugar abandonado? Não é isso que treinadores aventureiros fazem?

— Não quando o lugar pode desabar e matar a gente. Não está parecendo que você é uma treinadora experiente.

Camila pareceu ter sentido o impacto da última fala de Ruby. Ela semicerrou os olhos, com a lanterna já apontada para baixo, encarando o garoto de frente com uma expressão já beirando a irritação.

Ela, porém, ignorou por completo a resistência de seus companheiros e seguiu pelos corredores daquele andar. Não se sentia confortável com o assoalho de metal emitindo rangidos altos a cada passo que dava, a impressão que tinha era a de que a qualquer momento um buraco se abriria debaixo de seus pés, mas estava disposta a achar alguma pista que a colocasse no rastro da Team Aqua. Queria vingança pelo terror que a fizeram passar naquela noite.

Entrava de sala em sala, fazendo uma varredura minuciosa nos cantos mais escondidos de cada cômodo, tentando encontrar qualquer coisa que lhe desse alguma informação. Aproximou-se de uma cristaleira próxima à porta. O móvel estava com as prateleiras vazias e a madeira já demonstrava sinais de desgaste. Camila puxou as gavetas e encontrou uma pequena pasta em uma delas.

A menina se sentou à pequena mesa que havia no local e abriu a pasta para verificar o que havia dentro. Apenas algumas cartas, cujo tom amarelado do papel era um claro indicativo do tempo que levava desde que foram escritas. E em um ambiente tão hostil, com aquele nível de umidade, era curioso o fato de que não tinham se desmanchado depois de tantos anos.

— Takao Cozmo e Raizoh Cozmo... — Camila sussurrou enquanto lia os nomes escritos em todas as cartas e analisava seu conteúdo. — Pelo visto só uma troca de cartas entre um garotinho e o pai dele. Como será que esse menino está agora?

A garota guardou a pasta contendo as cartas na mochila e voltou a procurar por pistas no cômodo em que estava. Ao verificar outro móvel encontrou um livro de capa preta, sem nenhuma gravura ou escritos. Notou que o objeto possuía uma correia com fivela, tornando a sua abertura mais trabalhosa.

Um diário? — pensou, confirmando a resposta logo em seguida, quando desfez a trava da fivela e o abriu. — “Propriedade de Raizoh Cozmo, engenheiro elétrico do navio cargueiro RSE-0017 da Marinha de Hoenn”.

Ela folheava o diário a procura de alguma informação que pudesse dar uma pista do motivo pelo qual a Team Aqua queria ir àquele local. Não encontrava nada além de alguns registros de missões infestados de termos técnicos que ela sequer imaginava o que poderiam significar. Tantas outras páginas estavam corroídas, tornando-se ilegíveis.

Mas uma única folha contendo um texto breve chamou a atenção de Camila. Seus olhos travaram nos dizeres rabiscados por uma caligrafia trêmula.

“Nenhuma ação é perene. Como tal, o sono profundo da fera primordial, que há milhares de anos oculta de nós sua majestosa existência nas profundezas do vasto oceano. Temei, meros mortais! O imponente guardião está vindo! O Imperador dos Mares há de despertar em breve!”

— É cada uma que me aparece... — a garota sussurrou fazendo uma expressão de estranheza, mas acabou guardando o diário em sua bolsa, junto das cartas recém colhidas.

Quando saiu da sala em que se encontrava, Camila se deparou com Ruby e Sapphire acompanhados de Briney. Os amigos pareciam apreensivos, enquanto o velho a lançava um olhar nem um pouco satisfeito.

— Com isso está completo o trio de bisbilhoteiros — resmungou com sua voz rouca. — Este navio é pertencente à Marinha de Hoenn. Não mandei ficarem no barco só porque é um local perigoso. Ainda que ele estivesse novo em folha vocês não teriam permissão para estar aqui. Vamos indo!

Quando Briney virou-se para a direção que acreditava ser a saída do navio, não esperava encontrar uma parede sólida de aço indicando o fim daquele corredor. Devido à distração causada pela surpresa, os quatro não perceberam quando as demais rotas de fuga também desapareceram, fazendo com que eles estivessem agora em uma grande sala fechada, com chão, teto e paredes de aço, e muito mal iluminada.

Invasores, como ousam macular meu local de descanso? — uma voz mórbida ecoou pelas paredes da sala, deixando todos em estado de alerta. — Se fazem tanta questão de estar aqui, então ficarão para sempre!

— O que foi isso? — perguntou Sapphire, procurando a origem daquela voz enquanto caminhava para trás até que suas costas se encostassem às de Ruby, que tremia sem conseguir sair do lugar.

— O espírito do navio — disse Briney em voz baixa. — Então ele realmente existe.

— Explica melhor essa história de “espírito do navio”, não acho que estamos em uma situação confortável aqui!

As luzes da sala piscaram de forma agressiva, ao mesmo tempo em que os presentes tinham a sensação de que a sala estava balançando como se fosse um terremoto. Briney se segurou na haste de metal de uma das lâmpadas da parede, enquanto os três mais novos foram ao chão.

— É uma lenda contada desde poucos anos antes de eu me aposentar da Marinha. Diziam que um espírito havia se apropriado deste navio e não deixava mais ninguém entrar. Parece que somos reféns dele agora.

Aos poucos uma densa névoa púrpura tomou conta do ambiente. As luzes baixas deixavam a sala envolta pela penumbra. Por trás do nevoeiro uma figura estranha tomou forma, aparecendo de frente para os prisioneiros. Não tinha um corpo físico, apenas uma pedra de onde emanava um denso gás de cor roxa. Outra substância, de cor verde bem vibrante, também emergia da pedra e parecia desenhar um rosto perverso na concentração de gás.

— Um Spiritomb? — indagou Sapphire. — O que um Pokémon desse está fazendo aqui nesse navio?

— Reza a lenda que um Spiritomb é formado por cento e oito almas aprisionadas na pedra que é a base de seu “corpo” — disse Briney. — Todo o ódio e rancor acumulados de todas essas almas aprisionadas definem o nível de poder e maldade do Spiritomb que os aprisiona. Se formos pegos e aprisionados por ele, só vamos servir de alimento para deixá-lo ainda mais poderoso.

O Spiritomb dirigiu o olhar para Camila. Parecia escanear a garota até o fundo de sua alma.

Este navio agora é onde eu resido, se tornou minha posse. — disse o fantasma, usando algo que se acreditava ser telepatia. — Você roubou coisas daqui, eu consigo ver. Sua alma... Sinto vindo dela uma mistura de sentimentos. Insegurança, medo, rancor, muito rancor. Eu a quero mais do que qualquer outra presente nesta sala. Me entregue sua alma, e prometo guardá-la como um troféu inestimável.

Camila deu dois passos para trás, colocando a mão no bolso com sutileza a fim de não ser notada.

— Não pretendo entregar minha alma pra uma criatura que eu nem conheço — devagar ela tirava do bolso duas Pokéballs. — Ainda tenho algumas coisas pra resolver nesse mundo.

Como contar a verdade aos seus amigos? — rebateu o Spiritomb, em tom de voz malicioso.

— CALE-SE! — em estado de fúria ela lançou as duas Pokéballs em direção ao Spiritomb. — Venomoth, Mudkip, vamos!

Os dois Pokémons escolhidos para o confronto se puseram em posição de ataque frente ao Spiritomb, que se mantinha calmo até o momento. Ao avaliar a situação de desvantagem numérica sua reação, bem diferente do que Camila e os demais esperavam, foi dar uma gargalhada diabólica que ecoou pelas paredes da sala fechada causando uma sensação agoniante em quem a ouvia.

Muito inteligente de sua parte trazer dois membros de sua equipe para lutar comigo! Você sabe que não é forte o bastante para me derrotar do jeito que está agora.

— É o que veremos — com um semblante sério a menina ajeitou a armação de seus óculos e iniciou a batalha dando os primeiros comandos. — Venomoth, tente o Sleep Powder! Mudkip, eu quero que você inicie com o Foresight!

Shin, o Venomoth, disparou voando rasante em direção a Spiritomb.

— Concentre-se em fazer o que a mestra ordenou, novata! Eu vou mantê-lo ocupado.

Foresight... Que técnica é essa mesmo? — a pequena Mudkip se mantinha tentando lembrar como fazer aquele movimento, enquanto sua fala arrastada traduzia seus próprios pensamentos. — Ah... Acho que lembrei.

— Hoje vai ser difícil, pelo visto — o Venomoth lamentou-se. — Uma pena que a Maggie não pode batalhar nesse ambiente, ela demoliria tudo em um instante. Se bem que isso mataria todos nós.

Shin, no entanto, procurou recuperar o foco e lançou uma cortina de esporos de cor esverdeada na direção do Spiritomb, que recuou para não ser atingido. A Mudkip, por sua vez, conseguiu travar o foco no Pokémon fantasma para realizar uma tarefa de identificação de sua estrutura corpórea, ainda que com um pouco de dificuldade em função de seu raciocínio lento.

Após desviar do ataque de Shin, o fantasma desapareceu de vista ao penetrar uma sombra que se abriu no chão.

Shadow Sneak? — pensou Camila, mas antes que ela percebesse o Spiritomb reapareceu nas suas costas, parecendo emitir um sorriso maligno.

Não achou que eu fosse ficar parado para receber os seus ataques, não é?

A mochila de Camila emitiu um brilho de tom roxo, sendo removida de suas costas. Ela se abriu sozinha, e de seu interior vários objetos saíram flutuando, desde os documentos que a menina pegou no navio, provisões para as viagens e pertences pessoais.

Um deles chamou a atenção do fantasma. Era um surrado Raichu de pelúcia, que tinha preso em seu peito um bottom imitando a insígnia do ginásio de Vermilion, cidade onde a garota havia sido criada na infância.

Ah, sim... Um item de valor sentimental inestimável. — o Spiritomb sussurrou.

— O que você pensa que vai fazer com isso? — ainda que tentasse manter a calma, era perceptível um vestígio de desespero tomando forma na voz de Camila.

O fantasma aos poucos foi desaparecendo, ao mesmo tempo em que o Raichu de pelúcia pousou com leveza. Os olhos do brinquedo então começaram a brilhar em um tom intenso de azul, enquanto todo o seu corpo emanava uma aura roxa e nefasta.

Como se a pelúcia se manter em pé não fosse surpreendente o bastante, a mesma agora emitia ruídos estranhos e duplicados. Com o tempo, os quatro perceberam que o barulho indecifrável ia se tornando uma voz. Era como se duas vozes se pronunciassem ao mesmo tempo, uma grave e outra aguda, emitindo um som demoníaco que proferia palavras macabras em sussurros agoniantes. Tal qual um rádio fora de sintonia, a voz se assemelhava a uma mistura de frequências que a tornavam aterrorizante.

Vamos, faça como a pequena Miriam e brinque comigo! — ressoou a voz diabólica.

Ruby e Sapphire estavam assustados o bastante com aquele caos sobrenatural para perceberem o estado de desespero em que Camila havia se colocado. A treinadora cerrava os punhos com tanta força que parecia estar tentando perfurar as palmas das mãos.

— Devolva isso — a voz da garota disfarçava suas súplicas por trás de um tom grave e imperativo. — Ou vamos destruir você.

Acha que consegue? — o Spiritomb então gargalhou em deboche. — Tentem me atacar, e é o seu precioso brinquedinho que vai ser destruído!

O ser fantasmagórico, porém, era livre para atacar da forma como desejava. A criatura mirou um Dark Pulse na direção da Mudkip, mas Shin foi mais rápido em carregar a parceira para longe do alcance do ataque.

Camila percebeu que após disparar o ataque a costura de um dos braços da pelúcia começou a desfiar. Não conseguia pensar em como vencer aquela batalha sem danificar aquele brinquedo velho que a acompanhava desde criança, como um primeiro amigo que havia conquistado em uma época que não voltaria mais.

— Esse Raichu de pelúcia eu ganhei quando fui assistir uma batalha do Surge no ginásio de Vermilion — disse a garota com a voz falhando. — É a recordação mais antiga do que eu queria ser, de onde eu queria chegar.

Realmente tocante, mas sua alma precisa ser mais lapidada — respondeu o fantasma. — Vamos trabalhar um pouco mais do seu ódio.

Sem aviso prévio o Spiritomb surpreendeu a todos com uma rajada de vento que lançou Shin e a Mudkip para longe, bem como foi forte o bastante para desequilibrar as quatro pessoas que ali estavam. O vendaval, além de ser visível devido à corrente de ar ser tingida por uma aura púrpura, ainda trazia a sensação de levar aos ouvidos de todos ali presentes gritos de almas perdidas, implorando desesperadamente por salvação.

O ataque fez efeito em Camila, já psicologicamente fragilizada pela sequência de lembranças que vinham à tona em sua mente, e a pressão para não deixar que aquele Spiritomb revelasse o que quer que a menina quisesse esconder. Medo e remorso se apossaram da treinadora, que fazia força para continuar de pé.

— Muito bem, já chega — disse Sapphire, sacando uma de suas Pokéballs. — Não posso ficar mais assistindo isso, vou dar um jeito nessa... Nessa... “Coisa”!

— Não temos força para lidar com ele ainda — falou Ruby em tom de preocupação, também sacando uma Pokéball. — Vamos batalhar juntos e torcer para que ele dê alguma abertura.

— FIQUEM FORA DISSO! — Camila berrou, assustando os amigos e até mesmo Briney. — É comigo que ele quer brincar, é algo importante pra mim o objeto que ele possuiu, foram meus companheiros de equipe que ele lançou pra longe agora com esse último ataque! Essa briga ficou pessoal há muito tempo.

E então ela percebeu que o último ataque desferido pelo Spiritomb havia danificado severamente o pequeno Raichu. A costura lateral se desfez, e o enchimento de algodão começava a vazar por todos os lados. Além disso, alguns rombos começavam a aparecer, indicando que o tecido também não resistiu à energia do golpe.

Camila sabia, no fundo, que poderia costurar seu Raichu de pelúcia novamente, mas ele nunca mais seria o mesmo. Segurando o máximo que podia as lágrimas que teimavam em tentar se formar em seus olhos, a garota apenas permaneceu inerte de frente com o espírito que enfim saía do controle do brinquedo. A figura macabra estava de volta à sua forma original.

Talvez eu tenha exagerado um pouco nesse último ataque — disse, com um riso abafado. — Mas valeu a pena, consigo sentir o ápice de seu ódio aflorando. Sua alma está pronta, vou tomá-la agora.

— Hã? É comigo que você está falando? — indagou a garota, seu tom de voz expressava total desilusão.

Sim, com você mesma. Agora seja uma boa menina e me deixe consumir a sua alma.

— Eu não vou entregar merda nenhuma a você, sua criatura asquerosa — era possível perceber a raiva crescendo na voz da garota. — Você se gaba só por ser um fantasma, não é? Não acha que já passou mais tempo do que deveria no nosso plano?

A expressão debochada do Spiritomb desapareceu na mesma hora. O fantasma não tinha a intenção de lidar com a resistência de alguém cuja felicidade havia acabado de destruir.

Não seja teimosa. Venha, vou libertá-la desse sofrimento.

— Você ainda não sabe o que é sofrimento, mesmo depois de tanto tempo a mais que você ficou no nosso mundo. Mas eu vou te mostrar o que é sofrimento de verdade — a garota estalou os dedos e na mesma hora seu Venomoth e sua Mudkip reapareceram. — Vamos finalmente mandar você embora desse mundo... Direto para o inferno!

Ao ordenar o ataque com toda a força, seus Pokémons deram um fim à maldição daquele navio. Quebrando o protocolo de batalhas oficiais, Shin e a pequena anfíbia investiram em uma sequência de golpes que não deixaram o Spiritomb sequer respirar. Ao final, quando o fantasma estava quase todo recuado para dentro da sua pedra, Shin a destruiu com um Aerial Ace direto no centro da rachadura.

A treinadora por fim se aproximou dos restos da pedra, lançando um olhar de desprezo.

— Não estava ansioso para ver como a pequena Miriam brinca? — ela então cuspiu onde estava a pedra partida. — Agora tenha pesadelos com ela pela eternidade!

Por fim ela se pôs a recolher os pedaços de seu Raichu, em silêncio, sem ao menos olhar para qualquer outra pessoa que ali estivesse com ela. Ruby e Sapphire acharam melhor não fazer perguntas, apenas ficaram aguardando para poderem sair dali.

A sala sem saída em que Spiritomb os havia colocado se transformou de volta para o corredor que usariam para sair do navio. Ao voltarem para o lado de fora encontraram Peeko empoleirada no corrimão da rampa lateral. Por lá desceram até a embarcação de Briney e tomaram rumo em direção a Slateport. Nem mesmo o pôr-do-sol era capaz de lhes trazer algum bom sentimento naquela hora.

• • •

Do alto de uma colina na Rota 110 um rapaz avistou a famosa cidade portuária. Aparentava ter por volta de vinte anos de idade e exibia um sorriso confiante. Seus cabelos negros bagunçados davam o tom de irreverência a sua própria figura. Estava acompanhado de um Pokémon grande, de coloração azul e amarela, não muito comum de se ver naquela região.

— Finalmente chegamos! — de seu bolso o rapaz tirou um PokéNav. — Bem a tempo de reservar um quarto no Centro Pokémon. Hoje vou jantar como rei, depois de todo esse tempo indo atrás de comida no meio da mata. E aí, ansioso?

O Pokémon assentiu, sua expressão era de empolgação assim como a de seu dono. Finalmente teriam algum conforto para aproveitar.

— Então vamos logo, Tai. Quero saber que tipo de novidades Slateport guardou pra nós.

Art by: Diego Chinatsu

FIM DO CAPÍTULO 18

  

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