Notas do Autor - Capítulo 43

Sim, esse capítulo deveria ter sido publicado uma semana atrás, na última sexta-feira de Março. Mas como toda desgraça é pouca eu fiquei cinco dias sem internet, então pra manter as postagens no dia da semana de sempre, até porque desde que voltamos com essa nova Hoenn lá em 2016 (anteontem fez 10 ANOS da publicação do prólogo, olha só) já virou tradição os capítulos novos saírem nas sextas, né? Enfim, tá aí, isso que importa :D
E esse aqui abre um arco da história que eu queria muito chegar, desde o início. A Flannery é uma das líderes de ginásio que eu mais gosto em Hoenn, então eu queria fazer algo diferente com ela. Não vou contar ainda, porque isso está em andamento. Mas vou trabalhando isso ao longo do arco e depois a gente vê se deu certo kkkkkkkkkkkkk
E por fim, mas não menos importante, a volta do Brawly não tava prevista pra acontecer aqui. Simplesmente foi uma ideia de última hora que eu tive e achei que encaixaria. Sim, no último capítulo que a Flannery apareceu, foi pra ele que ela ligou pedindo ajuda no final. Agora vamos deixar nosso surfista favorito ter o tempo extra de tela que ele não teve lá na pancadaria em Mauville — eu sei que alguns de vocês sentiram falta dele ali kkkkkkkkkk
É isso, até a próxima! õ/
Capítulo 43
Sombras projetadas pelo fogo
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| Art by: redricewine |
A fachada do ginásio de Lavaridge
se apresentava bem em frente ao grupo. Ruby e Zinnia estavam logo atrás de
Sapphire, acompanhando a garota que chegava ali com o propósito de desafiar a
líder para uma batalha. Se vencesse, conquistaria sua quarta insígnia,
completando metade do seu caminho para a Liga Pokémon.
— Nervosa? — perguntou Ruby,
notando que a menina havia parado em frente ao prédio logo antes de cruzar a
entrada.
— Por incrível que pareça, não —
ela respondeu, parecendo surpresa ao notar que estava se sentindo tranquila. —
Claro que sempre tem um pouco de ansiedade, mas dessa vez é de uma forma boa.
— Todas aquelas coisas que
aconteceram em Mauville te deixaram mais preparada. Você já sabe o que tem que
fazer.
A menina nada disse. Apenas
respirou fundo e afirmou com a cabeça. Ruby sorriu, pois não conseguia deixar
de se admirar pelo amadurecimento de Sapphire, antes tão impulsiva e emotiva. A
treinadora que estava ali, agora, transmitia uma confiança muito grande, mas
ainda assim uma confiança pragmática. Não era um deslumbramento, mas um
conhecimento assertivo de sua própria capacidade.
— Pretende usar o Psyduck? — Zinnia
questionou.
— Sim, acho que vou arriscar. Ele
teve um progresso interessante, então eu acho que vale dar uma chance pra ele.
Wally me contou que ela usa três Pokémons, então vou completar o time com o
Dante e o Taillow.
— Uau, vai pra cima com artilharia
pesada — a draconid deu um riso descontraído. — Mantenha o foco e não subestime
a líder. Fazendo essas duas coisas, você não deve ter problemas.
— Pode deixar — Sapphire então
apertou o laço da fita que usava na cabeça. — Vamos!
O trio prosseguiu, atravessando a
porta de entrada do ginásio. Logo que chegaram à recepção, sentiram um aumento
na temperatura. Ruby notou vapor saindo das frestas da porta que levava à
arena. Ele até mesmo esfregou os olhos, pensando que estava imaginando aquela
cena, mas viu que era de verdade. Era como se fosse uma sauna.
Sapphire não perdeu tempo e se
dirigiu à recepção, querendo agendar sua batalha. Já acostumada com os
procedimentos de registro, a garota já apresentou os documentos que normalmente
eram pedidos para fazer o agendamento, mas não esperava uma resposta diferente
da recepcionista.
— Lamento, senhorita Sapphire, mas
no momento não estamos aceitando desafios. A líder não está em condições de
atuar hoje. Teria algum problema marcar para outro dia?
— Hã? Não, claro que não! Bem... —
ela se virou para Ruby. — Quando é o seu contest em Fallarbor mesmo?
— Daqui a doze dias — o garoto
respondeu.
— E quantos dias leva a pé daqui
até lá?
— Os desafiantes que vêm de Fallarbor
pra cá geralmente levam algo em torno de quatro a cinco dias — disse a
recepcionista. — Sendo assim, preciso encaixar você nos próximo sete dias,
correto?
— Bom, depende. Como estamos em
trio, isso pode deixar as viagens um pouco mais lentas — Ruby explicou. — Mas
não sabemos quanta diferença seria. Ir até o limite do prazo pode ser
arriscado.
— Teria como colocar até os
próximos quatro dias? — Zinnia perguntou.
— Lamento. Flannery está de licença
hoje e amanhã, e os três dias posteriores já estão lotados de agendamentos de
outros treinadores. Temos recebido desafiantes em excesso de umas semanas pra
cá.
— Parece que os boatos sobre ela
ser fraca já se espalharam — Ruby cochichou para Sapphire.
— Era só o que faltava — a menina
resmungou.
Todos tomaram um pequeno susto
quando a porta da arena se abriu. De lá veio um rapaz de cabelos bagunçados,
azuis e compridos. Sapphire e Ruby se surpreenderam ao ver o rosto conhecido
naquele lugar onde jamais esperariam encontrá-lo.
— Tá maluco! Eu nunca vou me
acostumar com o calor daqui — disse o rapaz, limpando o suor da testa com o
antebraço, se virando para a recepcionista logo em seguida. — Ou, eu tô saindo
pra comprar alguma coisa pra comer. Vai querer também?
— Não, Brawly. Obrigada. Eu já
almocei — a moça respondeu com seu mesmo tom sereno.
— Brawly, o que você tá fazendo
aqui? — Sapphire perguntou, chamando a atenção do líder.
— Aí, Sapphy, quanto tempo! Como tá
indo a jornada? Eu fiquei sabendo que você causou pra caramba lá em Mauville! É
verdade?
— É, bem... Não exatamente, mas
algumas coisas aconteceram. Longa história.
— Opa, eu gosto de histórias. Vamos
fazer o seguinte. Eu vou comprar alguma coisa pra comer, mas eu vou voltar pra
cá. A Flannery também tá com fome. Querem vir comigo? A gente vai botando a
conversa em dia no caminho.
Sabendo que não conseguiriam
antecipar a batalha no ginásio, a grupo resolveu aceitar a sugestão de Brawly.
Andando pelas ruas de Lavaridge, eles se dirigiam até um restaurante próximo.
No caminho, foram colocando a conversa em dia.
— O Wally disse que te enfrentou —
Ruby comentou.
— Wally? O de cabelo verde? Eu
lembro dele, ele tinha comentado que conhecia vocês — o líder respondeu, rindo.
— Ele manda bem batalhando, e ouvi falar que é um bom coordenador também.
— Ele disse que seu Makuhita não
teve pena dele também — Sapphire comentou, lembrando de como aquele tinha sido
um adversário complicado.
— Ih, nem fala! Aquele carinha
ainda tá dando trabalho de vez em quando. Mas uma coisa é verdade, depois que
seu time ganhou da gente ele deu uma acalmada. Agora parece mais centrado, pelo
menos quando as coisas estão sob controle. Mas falando nisso, como é que tá o
Taillow? A asa dele já melhorou?
— Já sim, inclusive voltou a
batalhar tem pouco tempo. Já tá participando dos treinamentos de novo, e eu vou
levar ele pra batalha contra a líder daqui.
— Entendo, ele realmente é brabo.
Imagina quando ele evoluir.
— Ei, Brawly — Ruby chamou o rapaz.
— A líder daqui está doente? A recepcionista do ginásio disse que ela está de
licença.
— Olha, não é que ela esteja
doente, mas ela realmente não tá legal, cara — o mais velho tentava encontrar
uma forma de explicar a situação com mais clareza. — Ela tá passando por uma
barra aí, e eu tô aqui pra dar uma moral pra ela. Complicado.
A volta para o ginásio foi bem
tranquila. Com a conversa continuando no mesmo ritmo, refazer o caminho foi bem
rápido. Após entrar, o grupo foi direto para a arena. Brawly comunicou a
recepcionista que estava levando as visitas para dentro.
— Eles estão comigo, pode deixar
que se a Flannery reclamar de algo eu tomo a responsabilidade.
O interior do ginásio era bem
diferente dos que Sapphire já havia visitado, até mesmo mais impensável que o
de Brawly, que tecnicamente funcionava acima de uma caverna, já que o prédio
oficial estava ocupado por uma academia.
A arena era um grande salão com seu
centro sendo formado por uma plataforma de pedra, com uma ponte ligando ao
posto do desafiante e à entrada, e a outra ligando ao posto onde a líder
geralmente ficava durante as batalhas. Separando a arena das arquibancadas
estava um canal que contornava o campo de batalha, estando ele cheio de água.
A princípio Sapphire estranhou
aquelas passagens de água estando em um ginásio especializado no tipo fogo, mas
notou que um vapor denso emergia da superfície. E o calor ali dentro era ainda
mais intenso que o que haviam sentido na entrada do ginásio.
— É como se fosse uma fonte termal
— disse Ruby.
— Na verdade é sim — respondeu
Brawly. — Bom, não oficialmente.
— Lembram que eu disse que a cidade
fica na encosta de um vulcão? — indagou Zinnia. — Lavaridge é famosa por suas
termas, e o ginásio é justamente onde fica uma delas. Não se deixem enganar, o
calor gerado por elas torna esse aqui um ambiente onde Pokémons do tipo fogo se
sentem muito mais à vontade, enquanto outros tipos ficam mais desconfortáveis.
Apesar de ser água, aqui a vantagem de terreno é toda da líder.
No final do salão, sentada nas
arquibancadas, uma mulher bem jovem observava com curiosidade a chegada do
grupo. Ela não parecia muito feliz em ver outras pessoas além de Brawly ali no
momento. Ela se levantou, puxando sua calça para ajustá-la à cintura e
arrumando as mexas que estavam bagunçadas de seu cabelo, chamativo pelo seu
vermelho tão vivo quanto dos seus olhos.
Ela pegou impulso da borda da
arquibancada e deu um salto longo, assustando os presentes até pousar de forma
certeira no posto do campo de batalha.
— Ei Brawly, eu disse pra não
trazer ninguém pra cá pra dentro — disse a mulher, sem nem tentar esconder o
descontentamento. — Eu não quero batalhar, eu não tô no clima.
— Calma, Flannery — disse o rapaz.
— Essa visita aqui eu sei que você vai ficar interessada em saber quem é.
Lembra que eu te falei sobre uma desafiante que conseguiu parar o Oka durante
um surto de raiva? É essa garota aqui.
— É verdade, o Brawly também
chama os Pokémons dele pelo nome. Será que ele tem a mesma capacidade que eu e
a Roxanne? — Sapphire pensou por um instante, até recobrar o foco e se
dirigir à Flannery. — Meu nome é Sapphire, eu vim aqui pra te desafiar. Mas a
pessoa da recepção disse que hoje vocês não estão aceitando desafiantes, então
eu vou esperar. Eu não vim forçar nenhuma batalha agora, o Brawly apenas trouxe
a gente aqui, mas não disse o motivo.
— Ei, calma — disse o mais velho,
coçando a nuca. — Desse jeito você faz parecer que eu tô sendo manipulador.
— Ah, então é você a garota de quem
o Brawly, a Roxanne e o Wattson falaram — a líder olhou para a garota de cima a
baixo, como se estivesse escaneando sua desafiante. — Eu sei que você foi
trazida aqui pra forçar uma batalha comigo, mas eu também acredito no que você
disse sobre não ter essa pretensão. Brawly — ela então se virou para o colega.
— Eu sei que isso é coisa sua. Essa é a sua intenção, não é?
— É, acho que não dá pra esconder —
o surfista suspirou fundo. — Flannery, você tem que mudar essa postura. Você é
uma líder de ginásio, tem que estar pronta pra os desafios na hora que eles
chegam.
A líder continuou olhando para
Brawly com uma expressão clara de descontentamento. Mas isso não foi suficiente
para constranger o rapaz, que continuou explicando.
— A Sapphire é uma ótima
treinadora. Eu tenho certeza de que se você enfrentar ela você vai ter uma
clareza maior sobre o que fazer.
— Você fala como se eu já não
tivesse minhas próprias ideias. Mas tudo bem, vamos logo com isso — Flannery
apontou diretamente para Sapphire, surpreendendo-a. — Sapphire, não é? Muito
bem, eu vou te dar esse desafio hoje! Me mostra o que você sabe fazer, porque
eu não vou te dar vida fácil!
— Espera, tem certeza disso? — a
desafiante agora estava desconfortável com a mudança repentina na situação. —
Se você não tá bem ainda a gente pode deixar pra depois. Eu já concordei.
— TÁ COM MEDO DE QUÊ? NÃO É VOCÊ
QUE É A MENINA PRODÍGIO? Pode cair pra dentro, eu não tenho medo de desafiante
nenhum! Eu já tô pegando fogo!
— E lá vamos nós de novo... Não era
isso que eu tinha em mente — Brawly balançava a cabeça em negação.
— Ei, calma aí! Por que você tá
falando comigo como se eu tivesse te desmerecendo? — Sapphire tentava evitar
conflito, mas não parecia ter muito sucesso.
— Três contra três! Brawly, você é
o juiz — Flannery já sacava uma Pokéball naquele momento. — Vamos logo com
isso. Saia, Slugma!
Uma criatura rastejante foi
revelada no campo de batalha. Seu corpo era amorfo, de cor vermelha
incandescente, quase alaranjada, com algumas bolhas surgindo em sua superfície
e estourando lentamente. Era como se fosse feito de magma. A única forma definida
era a de seus grandes olhos amarelos erguidos no topo de sua cabeça.
— Droga, não vai ter jeito mesmo,
né... — Sapphire sacou também a sua Pokéball, pronta para responder ao desafio
de Flannery. — Vamos, Taillow!
Com o pássaro em campo, os dois
lados já estavam posicionados para a batalha. Brawly ainda estava se arrumando
em sua posição de juiz, não tinha tido nem tempo para aceitar o pedido de
Flannery. Ruby e Zinnia estavam nas arquibancadas, observando com atenção como
a batalha se desenrolaria a partir daquele momento.
— Taillow, comece com o Double
Team! Vamos confundir aqueles dois!
Jet de imediato criou réplicas suas
ao redor do Slugma, que não demorou a demonstrar desconforto por não saber onde
estava o original. Flannery também pareceu se incomodar com aquilo, mas tentou
se manter firme para não deixar seu nervosismo transparecer.
— Slugma, use o Ember nos
dois mais à esquerda!
— Responda com Wing Attack!
As brasas de Slugma acertaram os
clones indicados por Flannery com precisão, mas nenhum deles era o original.
Jet estava na ponta oposta do grupo. E foi aproveitando a guarda baixa do
oponente enquanto atacava que o Taillow disparou em sua direção, acertando-o
com suas asas um golpe forte que o fez ser arremessado para trás.
Flannery se assustou ao ver seu
parceiro voar alguns metros para trás, pois não esperava um impacto daquele
vindo de um Pokémon tão pequeno quanto o Taillow que eles enfrentavam ali. A
líder demorou a reagir, tentando processar o que havia acabado de acontecer.
Sapphire, por sua vez, fez sinal para que Jet recuasse. Ela iria aguardar o
próximo passo de Flannery. Estava sentindo que tinha o controle daquela
batalha, e não colocaria tudo a perder atacando de forma imprudente.
— Use o Rock Throw! — comandou
a líder de ginásio.
Sapphire agiu rápido ao comandar a
evasiva de Jet, que não teve dificuldade para desviar das pedras graças à sua
velocidade. A menina então notou que nenhuma iniciativa vinha mais da líder.
Quando a menina olhou para o outro lado da arena, percebeu que Flannery estava
imóvel, olhando para o chão e com os punhos cerrados e trêmulos. Ela parecia
murmurar algo, mas daquela distância a garota não conseguia ouvir.
— Vamos, eu consigo...
— Brawly — Sapphire ergueu o braço,
chamando a atenção do outro líder. — Vamos encerrar por aqui.
— Espera! Eu consigo continuar! —
Flannery começou a se desesperar, tentando evitar aquela interrupção a todo
custo.
— Relaxa, eu não vou reivindicar a
vitória dessa vez.
Ruby se aproximou de Sapphire, com
uma expressão de dúvida. Zinnia o acompanhou, ambos estavam no parapeito das
arquibancadas.
— Sapphire, tem certeza? Ela é quem
te desafiou sem estar em condições. Você tem o direito de pedir pra declararem
vitória pra você. Vai mesmo abrir mão de uma insígnia fácil?
— Esse é o problema, Ruby. O
propósito de um ginásio é avaliar se o desafiante está pronto pra avançar pro
próximo nível. Não adianta nada eu conseguir uma insígnia de mão beijada e
chegar na Liga com minha preparação incompleta. Eu vou ser prejudicada. Eu
quero ter certeza de que estou pronta, quero ganhar cada insígnia com um
desafio sério.
Flannery sentiu aquelas palavras a
acertarem como um soco na boca do estômago. Ela sabia que era verdade, e sabia
também que as palavras de Sapphire não eram para desmerecê-la. Mas um
desafiante se recusar a batalhar contra uma líder por julgá-la despreparada
doía mais em seu ego do que os outros que simplesmente pegaram a insígnia e
foram embora rindo dela. Dessa vez ela se sentiu atingida de uma forma
diferente.
— Flannery — a garota chamou a
atenção da líder. — Eu não sei o que você está passando agora, mas também não
faz muito tempo que eu estive presa nessa sensação de impotência. É por isso
que eu não ficaria satisfeita me aproveitando dessa invulnerabilidade. Eu
sempre ouvi dizer que o ginásio de Lavaridge era um dos mais difíceis, e eu
tenho certeza de que você não assumiu esse cargo por acaso. Quando você estiver
com a cabeça no lugar a gente batalha. Eu vou te vencer na sua melhor forma.
A menina recolheu o Taillow para
sua Pokéball e se dirigiu para fora da arena. Ruby e Zinnia foram atrás dela
sem dizer nada. Apenas Flannery e Brawly ficaram no ginásio, ambos surpresos
com a cena que haviam acabado de testemunhar.
— Caraca, ela realmente amadureceu
— disse Brawly. — Viu? Eu disse que ela tá em outro nível.
— Vamos ser honestos, Brawly. Eu
sou uma fraude — Flannery já estava com a voz embargada. — Eu sempre tento
parecer forte e faço papel de idiota. Eu não tenho condição de manter o legado
da minha família.
— Você não tenta fazer papel de
forte. Você tá tentando é ser alguém que você não é. Escuta, Flannery, sua
força tá em outro lugar. Usa a sua cabeça, só assim você vai conseguir se
entender e se encontrar. Você não é seu avô e nem seu pai. Você tem seu próprio
jeito de fazer as coisas acontecerem.
Um silêncio breve se fez no local.
Flannery ainda parecia estar processando as palavras de Brawly, enquanto o
rapaz apenas aguardava uma reação da amiga, qualquer fosse. Mas um estalo se
fez na cabeça do líder de Dewford, que prontamente criou um plano.
— Flannery, espera aqui! Eu já
volto.
• • •
— Ei, Sapphy!
O grupo parou ao ouvir a voz de
Brawly. Ele vinha apressado atrás deles, acenando para que pudessem esperar por
ele. Sapphire não sabia o que ele queria, mas não podia ignorar seu amigo
chamando por ela. Ruby e Zinnia também aguardaram, cedendo à curiosidade de
descobrir por que o líder vinha atrás deles naquele momento.
— Olha Brawly, eu já tomei minha
decisão. Eu não fico à vontade batalhando naquelas condições. Quando a Flannery
tiver em condições a gente tenta de novo.
— Calma, não é isso — o rapaz
começou a explicar. — Eu tô tendo uma ideia aqui que a gente pode tentar pra
ver se ela se anima.
— Isso envolve batalhar com ela
outra vez? Eu acho que não vai funcionar.
— Calma, escuta. Vamos levar ela
pra fazer algumas coisas, deixar ela relaxar um pouco. Tem uma loja que aluga
umas bicicletas pra subir a trilha da Jagged Pass. Isso inclusive seria um
treino maneiro pra gente, não é não?
— Tá, mas como isso ajudaria a
Flannery?
— Bom, atividades físicas são uma
boa forma de aliviar a tensão. Ela tá nessa neura porque o cargo dela tá sendo
ameaçado, pra ser bem honesto. Eu nem devia estar dizendo isso pra alguém que
vai desafiar ela, mas eu sei que você pode ajudar com isso. O Sidney tá na
cidade avaliando a Flannery. A coisa tá feia pro lado dela.
— O Sidney da Elite? — Zinnia
indagou, com certo espanto.
— Ele mesmo — Brawly confirmou.
— Isso não é bom — a draconid
cobriu a boca com a mão enquanto começava a pensar.
— Pois é. Mas o negócio é o
seguinte. A Flannery não é uma treinadora ruim, eu conheço ela há um bom tempo.
Ela é boa, mas o problema tá na confiança. Se a gente recuperar a confiança
dela o resto destrava sozinho. É tudo que a gente precisa. Mesmo que você vença
a batalha, se você for com tudo e ela tiver um desempenho bom, só isso já dá
uma sobrevida pra ela no cargo.
Sapphire não aceitou de imediato, o
que surpreendeu até mesmo Ruby que sabia que pra menina não tinha tempo ruim em
aceitar qualquer convite daquele tipo. Mas ela permaneceu pensativa por um
tempo, pois não estava muito convencida se aquilo daria certo.
— Será que dá pra recuperar a
confiança dela com isso? Até porque seria estranho um desafiante da Liga ajudar
um líder de ginásio.
— Só confia em mim — Brawly tinha
um sorriso confiante.
— Você vai dizer que sabe o que tá
fazendo? — Sapphire arqueou a sobrancelha.
Alguns segundos se passaram com os
dois se encarando em silêncio, até que Brawly cedeu.
— Tá bom, eu não sei o que eu tô
fazendo. Mas eu vou fazer o melhor que eu posso. Mas eu preciso ajudar a
Flannery a colocar a cabeça dela no lugar depressa. Ela meio que não tem muito
tempo sobrando.
— Como assim? — Ruby perguntou.
— Vamo lá então, o negócio é o
seguinte — Brawly deu um suspiro longo antes de começar a explicação. — A Liga
Pokémon supervisiona constantemente os ginásios pra saber como as coisas tão
indo. A gente é avaliado por desempenho. E bem, eles não estão muito felizes
com o desempenho da Flannery. Eles tão dizendo que ela tá deixando muitos
desafiantes passarem pelo ginásio dela. Se continuar assim é bem provável que
ela seja removida do cargo.
— Realmente, eu lembro do meu pai
ter falado algo sobre essas supervisões.
— Ah, teu véio trabalha na Liga?
— Ele é líder de ginásio também. Em
Petalburg.
— Ih, tu que é o moleque do Norman?
Que mundo pequeno! — Brawly começou a rir. — Eu ainda não conheci ele
pessoalmente, mas dizem que ele batalha muito bem. Mas eu só vejo ele nas
reuniões por vídeo que a gente faz às vezes entre os líderes, mas nunca consegui
conversar com ele. O cara é meio caladão, né?
— É, mas ele é assim com todo
mundo. É o jeito dele. Depois que as pessoas começam a se aproximar ele vai
melhorando.
— Então a gente já sabe quem ele
puxou — Sapphire sussurrou pra Zinnia, que concordou acenando com a cabeça.
— Bem, continuando... — o garoto
aumentou o tom de voz para mostrar que tinha ouvido o comentário paralelo, mas
que iria ignorá-lo. — Ele disse que essas supervisões são feitas diretamente
pelos membros da Elite 4.
— São sim, nem fala! Eu dei sorte
de ficar com a Phoebe, ela é super tranquila. Mas quem fica com os outros se
ferra muito. Principalmente quem fica com a Glacia, tipo o Wattson. Aquela ali
bota medo até nos Sharpedos.
— E quem é o supervisor da
Flannery? — Sapphire perguntou.
— O Sidney — o mais velho coçou a
cabeça, com uma expressão preocupada. — E digamos que delicadeza não é bem o
ponto forte dele. Inclusive ele tá na cidade fazendo o acompanhamento
justamente pra levar uma avaliação final pro Campeão analisar. Se ela não tiver
uma performance convincente na próxima batalha, acho que babou.
— O Sidney tá aqui em Lavaridge? —
Zinnia indagou, sem esconder certo espanto.
— Sim — Brawly confirmou. — Você
conhece ele?
— Hã? Ah, não, claro que não — a
draconid se esforçava para não gaguejar. — É que eu já ouvi falar da Elite,
sabe? Não tava esperando que alguém famoso assim pudesse estar tão perto.
Enquanto Zinnia se virava para
olhar para qualquer outro lado enquanto parecia pensar alguma coisa, Brawly
voltou sua atenção para Sapphire.
— Esteja amanhã às oito na entrada
da Jagged Pass. Vai por mim, vai valer a pena. Se seus amigos quiserem ir
também vai ser até melhor. Ah, e mais uma coisa. O Centro Pokémon daqui tem
bicicletas que os hóspedes podem pegar emprestado. Muita gente gosta de fazer
trilhas aqui na região. Vai com uma.
Brawly ergueu o braço com o punho
fechado, esperando a resposta de Sapphire. A menina deu um suspiro, mas
respondeu ao cumprimento do outro, tocando seu próprio punho no dele.
— Tá certo. Eu queria tirar um
descanso, mas como é você que tá pedindo eu vou.
— Você não vai se arrepender!
FIM DO CAPÍTULO
Notas do Autor - Capítulo 42
Capítulo 42
Terreno íngreme
A cidade de Lavaridge já estava no
campo de visão do trio. Até mesmo Sapphire sentiu alívio ao ver as construções
aparecendo ao longe, dado o longo caminho percorrido. E para Ruby a sensação
era a de ter nascido de novo.
— Check-in, banho, comida, cama.
Nessa ordem — o garoto tentou ser o mais direto possível, antes que Sapphire ou
Zinnia tivessem alguma ideia brilhante para tirá-lo do caminho do seu merecido
descanso.
Entretanto, o pedido de Ruby fora
em vão. As garotas, assim que o grupo começou a subir o terreno que levava à
entrada da cidade, notaram uma entrada que dava para o norte.
— Que trilha é essa? — Sapphire já
cedia à sua curiosidade.
— Jagged Pass? — disse Ruby ao ler
a placa na entrada. — “Passagem Acidentada”, “Passagem Irregular”... Por que
isso está escrito no idioma de Galar?
— Essa rota dá direto no topo do
Monte Chimney — Zinnia começou a explicar. — Eu sei que pode soar estranho, mas
vulcões são atrações turísticas.
— Espera aí um minuto — o garoto
sentiu uma fagulha de pânico percorrer seu corpo. — Está me dizendo que essa
montanha gigante aqui é um vulcão?
— Ih, lá vem... — Sapphire já sabia
o que estava por vir, mas pra sua sorte Zinnia foi mais rápida.
— Se acalma, tonto! Aqui é um lugar
supertranquilo. O vulcão até tem um poço de lava visível na cratera, mas as
condições ao redor não favorecem uma erupção ou explosões. Estamos seguros.
Inclusive, é justamente o vulcão que move a economia de Lavaridge. Já ouviu
falar nas fontes termais daqui? Eu não sei vocês, mas eu vou dar uma passada lá
na primeira noite que a gente passar na cidade. Além disso, quem cuida do
turismo nas trilhas e no cume do vulcão é a cidade de Lavaridge também. Eles
vivem disso há décadas, e nunca houve nenhum perigo pra cidade e pros
arredores.
Ruby ainda não parecia convencido,
mas aceitou aquela explicação por ora. Sapphire continuava observando a trilha,
que parecia despertar a sua curiosidade a ponto de ela sequer esquecer que a
cidade de seu próximo desafio de ginásio estava logo ali, na frente deles.
— Tem vegetação farta nessa trilha
— a menina observou. — Se tem flora, tem fauna. Eu quero ir ali. Talvez a gente
encontre uma espécie Pokémon que só exista aqui.
— Podemos voltar aqui depois de nos
instalarmos na cidade — disse Ruby. — Sério, não estou mais aguentando esse
peso. Vamos reservar logo um quarto no Centro Pokémon e deixar nossas coisas
lá.
— Ruby, vamos aqui logo. Aí depois
a gente não precisa voltar, a gente fica descansando na cidade. Aliás, você
fica descansando. Eu tenho que ir no ginásio agendar minha batalha.
Convencido, Ruby resolveu seguir a
dupla. Passando pela entrada da trilha eles perceberam o quão alta era a
montanha. Afinal, era justo o ponto mais alto de toda Hoenn. O caminho de terra
vermelha se estendia até o pico, cercado por um terreno acidentado, de
composição rochosa e alguns pontos de vegetação que iam desde árvores até um
gramado alto.
O ar parecia mais frio naquela
região, ironicamente. A cada passo que davam, sentiam como se o chão estivesse
vivo, mesmo que nenhum tremor tenha sido percebido.
— É um lugar bem bonito — Ruby
observava os arredores com certo encanto nos olhos. — Eu não lembro de ter
visto uma vegetação tão viva.
— Solo vulcânico é muito fértil —
Zinnia explicava. — É irônico que algo capaz de causar tanta destruição também
possa trazer tanta vida. A natureza tem suas contradições, mas é isso que torna
ela tão interessante.
Na medida em que avançavam trilha
acima, o grupo notava a presença de outras pessoas no local. Alguns pareciam
treinadores, outros apenas exploradores se aventurando pela trilha. Um pequeno
grupo de pessoas também seguia junto, acompanhadas de um guia turístico. Esse
movimento fez com que Ruby se sentisse um pouco mais seguro. A trilha até
poderia ser perigosa, mas não a ponto de ninguém ser louco de se arriscar nela.
O avanço era feito com cautela,
pois o terreno tinha uma inclinação que dificultava a estabilidade da
caminhada. Mesmo ficar parado era difícil, pois cada movimento mínimo parecia
jogar todo o peso para trás, e nenhum dos três queria saber o resultado de sair
rolando trilha abaixo.
Zinnia foi a primeira a identificar
uma área mais plana. Rapidamente o trio foi até o local e aproveitou para fazer
uma pausa. Ruby jogou a sua mochila no chão e logo em seguida procurou alguma
pedra ou tronco de madeira onde pudesse se sentar. Sapphire, sem se importar
com mais nada, só verificou o lugar onde parecia ter menos poeira e se sentou
no chão mesmo. A draconid permanecia de pé, analisando os arredores.
— Parece um lugar tranquilo. Acho
que dá pra gente ficar aqui por um tempo.
— Eu quero comer alguma coisa —
reclamou o garoto. — Eu estou aceitando comer até essas berries que a Sapphire
sai pegando em qualquer lugar.
— Eu não pego em qualquer lugar, eu
pego nas árvores mesmo — Sapphire retrucou. — Se cair no chão eu já não pego.
— É, acho que até você tem limite —
Ruby devolveu, deixando a menina mais emburrada ainda. — Mas você nem para pra
ver o que você pega, vai acabar comendo alguma podre ou com algum bicho
qualquer hora.
— Ruby, tem várias maneiras de
saber se as berries estão ruins antes de comer, mas sinceramente eu nem sei por
que eu perco meu tempo argumentando com você sobre isso.
Sapphire apenas andou até suas
coisas, e de lá tirou um saco onde guardava várias berries. Havia uma variedade
de frutas ali, para todos os gostos. Ela estendeu uma toalha ao lado e colocou
as berries em cima.
— Estão todas boas. Pega aí a que
você achar melhor e pronto!
Ruby deu um resmungo contrariado,
mas foi até as berries. Sapphire deu um riso discreto, pensando em como no
início da jornada o garoto apenas se recusaria a comer frutas que, segundo ele,
não teriam sido adequadamente limpas. Ele podia não notar, mas estava fazendo
progresso também.
Quando o garoto chegou perto das
frutas e se curvou para pegar uma ele notou que algo se mexia atrás dos
arbustos próximos do barranco. Em um primeiro momento ele recuou e ficou
esperando para ver o que estava ali, mas não demorou muito para que a figura se
revelasse.
Uma criaturinha de aspecto suíno
apareceu diante do garoto. Sua pelagem era preta e seu corpo redondo como a
pérola rosa que ele equilibrava em sua cabeça. Não tinha patas traseiras, se
locomovendo em saltos impulsionados por sua cauda espiralada como uma mola.
— É um Spoink! — Sapphire disse em
tom de surpresa. — É a primeira vez que eu vejo um pessoalmente.
— Spoink, é? — Ruby confirmava a
espécie na sua Pokédex enquanto analisava outras características da criatura. —
Psíquico. E bonitinho também. Acho que vai ser ótimo pra usar nos contests.
O garoto levou a mão à sua cintura
com rapidez, de onde sacou uma Pokéball, indicando que estava falando sério
quanto a capturar o Spoink. Ele arremessou o dispositivo um pouco a frente,
revelando seu Treecko. O lagarto olhou em volta, não demorando a assimilar a
situação.
— Tarefa pra você, colega — disse o
garoto, eufórico. — Vamos trazer esse aí pra nossa equipe!
O Treecko de imediato se colocou em
posição de batalha, alertando o Spoink sobre suas intenções. O Pokémon psíquico
também subiu sua guarda, já sabendo que seria difícil de fugir dali sem
batalhar, visto que tinha uma desvantagem de velocidade.
— Olha só, o Treecko respondeu
rápido dessa vez — observou Sapphire. — Será que eles estão fazendo progresso?
— Progresso eles estão fazendo sim,
mas o Treecko sempre teve um pouco mais de boa vontade pra batalhas — Zinnia
respondeu, também observando com atenção a batalha que estava para começar. —
Mas fazendo um pouco mais as vontades dele vai fazer com que o Ruby consiga se
aproximar um pouco mais. Vamos ver.
— Ok Treecko, ele é um Pokémon
psíquico, então tome cuidado com possíveis truques para te enganar.
Concentração máxima! Vamos ver os resultados do nosso treino com a Vivi. Comece
com o Giga Drain!
Jeff avançou contra o Spoink,
usando seu impulso para acelerar o alcance de seu ataque. Seus olhos começaram
a brilhar em um tom cada vez mais vibrante de verde, ao passo que uma aura da
mesma cor era vista ao redor do Spoink, que sentia sua energia ser sugada,
enquanto a vitalidade do oponente aumentava na mesma proporção.
Spoink agiu rápido para não
permitir que aquele dano corrente continuasse por mais tempo. Ele se virou na
direção de onde vinha o ataque, focando sua visão em Jeff, e disparou contra o
lagarto um raio de energia de cor rosa. O Treecko, que focava na execução do
ataque, não teve tempo de trocar para a defesa, sendo acertado diretamente pelo
contra-ataque.
— O que foi isso? — Sapphire
exclamou ao se assustar com a potência do ataque.
— Isso foi um Psybeam. —
Ruby respondeu, sentindo a dificuldade daquele confronto. — Eu conheço bem esse
ataque, ele é muito popular em contests com apresentações de beleza. Treecko,
tome cuidado! Receber um ataque desse diretamente pode causar confusão!
Jeff conseguiu se levantar com
facilidade, apesar de ter sido pego com a guarda baixa. Ele espanou a poeira de
seu corpo com as mãos, usando aquilo até como um gesto provocativo para o
Spoink, mostrando que o ataque não havia funcionado tão bem.
— Essa foi quase — disse o Treecko.
— Muito bem, carinha. Continua assim e quem sabe você não me dá um susto.
— Ah, ainda bem que não se machucou
— disse o Spoink, parecendo estranhamente simpático. — Do jeito que você saiu
rolando eu não tinha certeza se você ia se levantar. Acho que dá pra bater mais
forte a partir de agora.
Jeff deu um sorriso de canto. Ele
conhecia bem aquele tipo de provocação, afinal, ele mesmo era especialista
naquilo.
— Boa resposta. Eu acho que vou
gostar de te atormentar.
Ruby tentava analisar o
comportamento de Spoink, mas tinha dificuldades em prever o que ele poderia
fazer. Ele não estava acostumado a fazer aquele tipo de reflexão enquanto se
preocupava em comandar uma batalha, mas era algo que Vivi havia dito pra ele tentar
fazer dali em diante. O garoto sentia sua cabeça começar a doer com aquele
esforço.
— Como eu faço o Treecko se
aproximar dele sem correr risco de ser pego em um ataque direto? Posso fazer
uso da velocidade dele pra isso, mas sempre tem o risco de algum outro
movimento bagunçar o status dele. Segundo a Pokédex, no nível em que esse
Spoink está agora, a chance de ele saber usar Confuse Ray é razoável... Pensa,
Ruby! O que dá pra fazer agora?
Os pensamentos do garoto foram
interrompidos quando Spoink efetuou um disparo de ondas psíquicas na direção de
Jeff. O Treecko conseguiu se esquivar com facilidade, mas o prejuízo ficou por
conta de Ruby, que teve seu raciocínio interrompido.
— Droga, isso é difícil demais! —
Ruby resmungou enquanto apertava os punhos. — Se eu tentar pensar demais o
Treecko vai acabar pagando a conta. Treecko, use o Pursuit!
Jeff avançou com rapidez em direção
ao Spoink, que tentou prever de onde viria o ataque e se esquivou. Entendendo
como ficaria o posicionamento do oponente, o lagarto do tipo planta mudou a
trajetória da sua corrida e foi parar atrás do adversário, acertando-o com um
golpe forte que o lançou alguns metros para o lado oposto.
Ruby respirou fundo, se permitindo
sentir um pouco de alívio. Apesar de não poder se distrair, os ataques estavam
funcionando, mesmo que improvisados. Se ele conseguisse tempo para pensar em
uma estratégia, ele poderia vencer.
O Spoink se levantou e ficou
aguardando o próximo movimento da dupla adversária. Ruby entendeu que aquilo
poderia ser um sinal de que ele estava com dificuldades de encontrar um caminho
para tomar a dianteira da batalha. O garoto sentiu sua confiança voltar,
tentando mais uma vez pensar em um plano para finalizar aquela batalha.
— Olha, faz tempo que eu não tenho
esse trabalho todo numa batalha — o Spoink arfava ao tentar falar. — Você é bom
de briga, bicho.
— Tu não viu nada ainda — Jeff se
colocava em posição de batalha mais uma vez. — Tô só começando.
— Vamos, Treecko — Ruby chamou a
atenção do seu parceiro, parecendo já ter um plano em mente. — Use o Leer
para fazê-lo baixar a guarda!
Por mais simples que aquele comando
parecesse, o fato de Spoink estar começando a sentir o desgaste, tanto físico
quanto mental, o tornava mais suscetível a efeitos daquele tipo de movimento.
Jeff lançou um olhar direto para o suíno, fazendo com que ele hesitasse.
Spoink, no entanto, se recuperou
depressa sabendo o risco de ficar naquele estado de vulnerabilidade por muito
tempo. Numa tentativa de atrasar os planos de Ruby, o Pokémon selvagem disparou
outro Psybeam na direção de Jeff.
— Desvie do ataque e use o Quick
Attack para se aproximar dele! — Ruby comandou, estendendo a mão em um
gesto que dizia para Jeff seguir em frente sem hesitar.
— Ele tá cada vez mais à
vontade, já consegue dominar as ações da batalha e controlar a situação a seu
favor — pensava Sapphire enquanto assistia à batalha.
Jeff correu em direção ao Spoink
após desviar do disparo psíquico. Ele fazia uso de sua velocidade formidável
para reduzir a distância antes que seu oponente fizesse mais algum ataque.
— Complete com Pursuit!
O Spoink já conhecia o ataque
depois de ter sido acertado da primeira vez, e naquele momento ele havia lido a
movimentação de Jeff, induzindo-o a fazer o mesmo trajeto para tentar ir parar
em suas costas. Ele então se virou para o Treecko assim que ele chegou no local
previsto.
Com o susto, Jeff atrasou na
execução do ataque, o que abriu uma janela de tempo para que o Spoink fizesse
sua resposta. A pérola em sua cabeça começou a emitir um forte brilho em tom
púrpura, disparando em seguida um raio da mesma cor.
Jeff foi atingido em cheio e
começou a se debater enquanto cambaleava desorientado, até que chegou próximo a
uma pedra e bateu sua cabeça com força nela, parecendo ter sido de propósito.
— Treecko! — Ruby tentou chamá-lo
alto para tentar fazer com que o lagarto despertasse. — Ele tinha mesmo o Confuse
Ray, que droga!
— Ih, babou — disse Zinnia,
observando o desfecho da batalha.
Ruby sabia que aquela situação era
capaz de virar o jogo a favor do Spoink. Naquele estado de confusão, Jeff só
causaria danos a si mesmo se tentasse atacar de forma impensada. Para piorar, o
ótimo poder de ataque do Treecko agora se voltava contra ele, já que isso
também impactava o dano dos ataques autoinfligidos.
— Você foi muito inocente de achar
que eu estava sem saída — disse o Spoink. — Eu lido com treinadores há muito
tempo por aqui. Meu passatempo favorito é fazer vocês se sentirem confiantes e
pegar todos desprevenidos. Por isso os outros Pokémons dessa rota me chamam de
“enganador”. Mas você pode me chamar de Oswin mesmo, já que você não tem
intimidade pra me chamar por apelidos.
O Spoink se divertia com o Treecko
desorientado. Ruby começava a ficar nervoso novamente, tentando encontrar algum
jeito de sair daquela situação. Sapphire e Zinnia observavam com atenção como
aquela batalha seguia. Ambas sabiam o que fazer para contornar aquele problema,
e sabiam que havia uma solução imediata ao alcance de Ruby, mas as duas
decidiram não falar. Elas sabiam que Ruby estava tentando evoluir sozinho, e
decidiram deixá-lo descobrir a solução por conta própria.
— Ok, não posso ficar nervoso
— Ruby fechou os olhos por um instante para começar a refletir. — A Vivi, a
Sapphire, a Zinnia e a Miriam sempre disseram a mesma coisa, que o importante é
manter a calma nesses momentos. Pensando bem, meu pai já dizia isso quando eu
era criança. Manter a calma é uma parte fundamental da batalha. Ficar nervoso
não vai ajudar o Treecko em nada, preciso observar os arredores pra ver o que
dá pra fazer em um momento como esse.
O garoto abriu os olhos devagar,
depois de respirar fundo. Teve a sensação de enxergar o ambiente com mais
clareza, como se antes o nervosismo fosse um véu enevoado. Começou a escanear o
local, lado a lado, na tentativa de encontrar qualquer coisa. E então seus
olhos estacionaram na toalha onde Sapphire havia colocado as berries alguns
minutos antes. Ruby ficou encarando as frutas por um tempo, como se as peças do
quebra-cabeça começassem a se encaixar em sua mente.
— Boa, Ruby. É isso mesmo — Zinnia
sussurrou satisfeita. Sapphire também deu um sorriso.
Ele se agachou e pegou uma das
frutas, pequena e rosada. Ela não era volumosa, apenas um pouco comprida, com a
extremidade mais pontuda. Uma Persim Berry, ideal para livrar Pokémons do
estado de confusão.
Ruby rapidamente pegou a fruta e
foi até o Treecko. O garoto agarrou o braço do seu parceiro e deu a fruta na
mão dele. Jeff olhou para o menino, ainda desnorteado, mas se esforçava para
ouvir o que ele estava dizendo.
— EsTa bErRy VaI tE aJuDaR! VoCê PrEcIsA
cOmEr IsSo! CoMA isSO! Treecko, coma isso!
Jeff comeu a fruta assim que
identificou a mensagem. Aos poucos sua dor de cabeça se dissipou, sua visão
ficou mais clara e seus pensamentos agora pareciam seus novamente. Ele olhou
para as próprias mãos, como quem havia acabado de tomar consciência de onde estava.
— Eita, brisa ruim da desgraça — o
Treecko então olhou para Oswin. — Foi você que fez isso?
— Isso mesmo. E agora toma cuidado,
essa era a última Persim que tinha aí no meio. Se eu te colocar em confusão de
novo, acabou pra você.
Jeff fez menção de ir até o Spoink
tentar resolver por conta própria, mas parou e esperou por Ruby. Ele era o
treinador, afinal. Então o lagarto ia seguir a batalha como ela deveria ser
seguida.
— Treecko, foi a última Persim
Berry. Não podemos cair nessa de novo — disse o garoto. — Mas não se preocupe,
agora a gente sabe que ele tem o Confuse Ray. Eu não vou deixar você ser
acertado por ele de novo.
Jeff assentiu com a cabeça e virou
seu foco de volta para a batalha. Ele estalou os dedos e o pescoço, indicando
que levaria aquele confronto a sério a partir dali.
— Droga, eu não tava querendo fazer
isso ainda. Não quero esse pirralho se achando como se isso aqui fosse coisa
dele, mas eu não tenho muita escolha. Pra não ser pego nessa confusão de novo
eu tenho que acabar com isso rápido.
O Treecko foi envolto por uma luz
branca ofuscante que tomou seu corpo por completo. Ruby cerrou os olhos para
tentar ver melhor o que estava acontecendo, mas o máximo que conseguia
identificar era a silhueta de Jeff se alongando, tanto seu tronco como seus
membros.
Quando o brilho cessou, uma figura bem
diferente estava em campo. Ruby sabia que aquele era seu parceiro, já tinha
presenciado outras evoluções, mas não deixou de se surpreender com a forma nova
que ainda não tinha visto. O pequeno Treecko agora tinha um corpo mais alto e
esguio, pernas mais fortes que lhe permitiam pegar mais impulso em seus
movimentos, além de uma crista formada por uma folha comprida que percorria do
topo de sua cabeça até a altura da cauda que imitava duas folhas. Três folhas
saíam de cada um de seus pulsos.
O garoto estava sem comentários.
Zinnia sorria de satisfação, enquanto Sapphire vibrava com a evolução que tinha
acabado de acontecer.
— Ruby, você conseguiu fazer seu
inicial evoluir! Ele agora é um Grovyle!
O réptil olhava fixamente para Oswin,
que agora tinha um semblante preocupado. O Spoink não sabia se seus ataques com
potencial de confusão conseguiriam atingir aquele lagarto a tempo, já que todo
o corpo dele parecia ser desenhado para garantir a ele impulso e velocidade.
— Agora você vai ver só — Jeff
olhava para as folhas afiadas em seus braços, balançando-as para testar o fio
de corte. — Uma pergunta. Você é religioso? Se for, já começa a rezar. Se não
for, então corre porquinho, que o negócio vai ficar feio pro teu lado.
O Grovyle então se virou pra Ruby.
— E você vê se trata de chamar a
garota pra uma revanche! Eu tenho contas a acertar com aquele frango frito
miserável!
Ruby apenas levantou os braços e
encolheu os ombros, mostrando que não tinha entendido nada do que seu parceiro
havia falado. Para ele, eram apenas grunhidos.
— Ô, moleque burro...
— Não vai pensando que vai tomar a
vantagem só porque evoluiu! — disse Oswin. — Eu vou acabar com essa palhaçada
agora!
O psíquico preparou um novo Psybeam
para tentar resolver a batalha logo, mas Jeff estava preparado para aquilo. Com
sua nova velocidade e percepção melhorada, ele conseguia ver o adversário
planejando o ataque com muito mais clareza.
— Foi mal, garoto, mas eu vou tomar
as decisões dessa vez — disse o Grovyle. — Tem uma coisa que eu quero testar.
Quando o ataque foi disparado, Jeff
apenas aguardou o momento exato em que o Spoink estaria distraído tentando
alinhar a trajetória do raio e se impulsionou para o lado e depois se atirou
para a frente com um Quick Attack, como ele e Ruby haviam tentado
anteriormente.
Oswin, acreditando ser a mesma
estratégia de antes, se virou para trás para tentar bloquear o Pursuit
com seu Confuse Ray, já que da outra vez tinha se provado um contra-ataque
muito eficaz. Mas ele se assustou ao ouvir a voz do Grovyle no lugar exato de
onde ele tinha desviado o olhar.
— Errou, garoto.
Jeff ergueu seus braços, e as
folhas em seus pulsos começaram a brilhar em um tom vívido de verde. Ele
desferiu dois golpes em sequência, alternando os braços em movimentos de corte
transversais. A força do ataque foi suficiente para derrubar o Spoink
desacordado. Era uma técnica recém aprendida, Leaf Blade.
Percebendo que a batalha estava
terminada, Ruby se apressou em pegar uma Pokéball de sua mochila e a atirou
contra o Pokémon nocauteado. Após um breve momento de apreensão, a Pokéball
parou de sacudir e se estabilizou. A captura estava concluída.
Ruby foi até o aparelho, o pegou e
ficou olhando pra ele.
— Caramba, esse aqui deu trabalho!
— disse o menino, rindo. — Ele vai ser bom demais de usar em contests de
batalha também.
O garoto então percebeu que o
Grovyle o encarava com uma expressão não muito agradável. Ele parecia saber do
que se tratava.
— Calma, você sempre vai ser a
primeira opção pra esses contests, mas é bom sempre ter algumas cartas a mais
na manga. Nunca se sabe. Aliás, se eu estiver cero, o contest de Fallarbor é de
batalhas em dupla, então...
— Muito bem, acho que já tivemos o
bastante por aqui. Já deu pra conhecer bem a trilha — Zinnia chamou a atenção dos
mais jovens. — Vamos pra Lavaridge? Eu quero descansar um pouco.
Com uma adição na equipe, Ruby sentia suas habilidades em batalha melhorarem aos poucos. Mas talvez o grande ganho naquele dia era a confiança do garoto, que crescia na medida em que ele apresentava melhoras. Agora ele poderia descansar um pouco em Lavaridge antes de começar a se planejar para o próximo contest.
O trio começou a descer a trilha de volta para a entrada da cidade. Dessa vez, o foco maior estava por conta de Sapphire, que tinha um importante desafio se aproximando. E ela sabia que não seria tão fácil quanto os boatos faziam parecer.
FIM DO CAPÍTULO

























