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Notas do Autor - Capítulo 41


Esse capítulo teve uma história bem engraçada. Talvez vocês me xinguem (o Dento com certeza deve ter me xingado dentro da cabeça dele, apesar de negar isso), mas eu tinha uma ideia totalmente diferente pra esse capítulo aqui.

Como vinha sendo indicado anteriormente na história, esse capítulo era pra ser deles passando o dia no rancho da família da Vivi, batalhando e tal. Mas simplesmente não tava saindo nem por um decreto kkkkkkkkk Daí resolvi deletar as quase 1000 palavras escritas naquele capítulo e comecei a pensar no que eu poderia fazer de interessante.

Foi então que eu lembrei de uma conversa que tive com o Canas lá em setembro, onde ele abriu minha mente com alguns pontos sobre toda essa questão da Zinnia sequer saber quem é a Miriam, porque o Ruby e a Sapphire nunca falam sobre ela, e isso era quase que um tabu entre eles. Mas vamos lá, a Miriam está lá no canto dela se esforçando pra tentar consertar as coisas. Cedo ou tarde o Ruby e a Sapphire iam ter que tocar nessa ferida também. E essas rotas mais longas que estão vindo agora são perfeitas para tocarmos nessas questões que ainda ficaram sem resolução na Omega Saga.

Pra finalizar, esse trecho da Flannery era a princípio a ideia que eu estava desenvolvendo para o Gym Leader's Life dela, mas achei que encaixaria melhor aqui pra dar logo o tom do que vai ser esse próximo ginásio. Mas não se preocupem, o especial dela não foi cancelado. Eu tenho uma outra ideia kkkkkkk

Eu sei que já estou quase 1 mês atrasado, mas feliz 2026 pra todo mundo! Começamos o ano trabalhando!

Até a próxima! õ/




Capítulo 41

 Os conflitos de cada um



Mauville já tinha ficado para trás. O destino do trio então era a cidade de Lavaridge, onde Sapphire disputaria o desafio do ginásio local na tentativa de conquistar sua quarta insígnia. Vez ou outra, a garota era desperta de seus momentos de distração por uma pontada no peito, assim que se lembrava que uma vitória a colocaria na metade do caminho para a Liga Pokémon daquele ano. Zinnia tentava mantê-la calma, e Ruby só conseguia observar sem ter muito a contribuir.


Vivi já havia ficado para trás. Após pararem para descansar no rancho da família da menina, Sapphire participou do desafio de tentar vencer todos os membros dos Winstrates em sequência. Ela conseguiu vencer Vivi e sua mãe, mas logo em seguida perdeu para o pai da garota, sequer tendo a chance de enfrentar a avó dela, considerada a mais forte entre os presentes. Vito, irmão mais velho de Vivi, não estava presente, possivelmente dando continuidade à sua própria jornada, já que pensava em disputar a Liga daquele ano também para tentar o título após o vice-campeonato do ano anterior, onde havia perdido a final para Steven.


Vivi também deu algumas dicas para Ruby sobre batalhas em contests, e passou uma série de exercícios práticos para melhorar a mobilidade dos Pokémons do menino, para que eles pudessem executar os seus ataques ao mesmo tempo em que reproduziam movimentos mais elegantes para somar pontos na apresentação. Fallarbor estava às portas também, e por isso o garoto tinha que acelerar seu passo se quisesse ficar pronto a tempo. Vivi, por sua vez, ficou com a família no rancho, já que ela ia para Slateport tentar o contest de lá, mas com a promessa de que venceria e alcançaria Ruby em Fallarbor, para que os dois pudessem rivalizar de novo, desta vez na modalidade que a menina afirmava ser sua especialidade.


A trilha ao redor trazia um ar leve aos viajantes. Mesmo com poucas árvores ao redor o tempo estava fresco. O sol era ameno e uma brisa corria pelas encostas das montanhas que rodeavam a rota, surpreendendo o grupo que esperava um calor mais forte pela proximidade com o deserto que se localizava ali perto. Era um ótimo dia para fazer algo ao ar livre.


— A gente precisava sair tão cedo da casa da Vivi? — Sapphire parecia contrariada, com as mãos atrás da cabeça enquanto caminhava com seus amigos. — A mãe dela cozinha mó bem, eu queria ter almoçado lá de novo.


— Sapphire, eles já foram muito gentis de deixar a gente passar a noite — disse Ruby. — Não vamos ficar abusando. Além do mais, se ficássemos para o almoço acabaríamos nos atrasando ainda mais. O Contest de Fallarbor é daqui a duas semanas, e ainda temos que passar em Lavaridge por causa do ginásio. Não temos tempo a perder.


— Tá bom, tá bom, não precisa ficar me dando sermão — a garota bufou, até que reparou que o terreno por onde caminhavam estava mudando. — Ué, de onde veio essa areia toda de repente?


Quando a menina se deu conta, Zinnia e Ruby haviam parado um pouco antes, e só então ela olhou para a frente e percebeu que eles estavam diante de uma faixa de areia tão longa que se estendia por uma distância que eles nem se atreviam a calcular. A única referência que tinham do quão grande aquela área era de verdade, era um paredão rochoso que percorria os limites daquele solo arenoso. A muralha de pedra era notadamente alta, mas de onde eles estavam ela era vista bem pequena.


— A gente não vai tentar atravessar isso aí, né? — Ruby questionou, preocupado. — Não temos água pra isso, o pouco que temos vai ser usado num instante, porque a gente vai desidratar rápido.


— Esse é o Deserto de Hoenn — disse Zinnia, tentando esclarecer a situação. — Eu nunca estive dentro dele, mas as pessoas da minha comunidade dizem que é realmente um caminho que testa até mesmo os treinadores mais fortes. Com certeza não vamos passar por aí.


— E como a gente chega em Lavaridge? — perguntou Sapphire.


— Não se preocupe, nós estamos no limite da área do deserto. Lavaridge fica exatamente a leste daqui, então só temos que virar à esquerda agora e seguir adiante. E Ruby, antes que pergunte, pode ficar tranquilo também. Perto de Lavaridge existe um outro caminho por onde podemos ir. Não vamos passar pelo deserto e é até mais rápido para chegarmos a Fallarbor.


— Graças à Arceus — o garoto pôs uma mão sobre o peito e suspirou.


— Se ele testa até os melhores treinadores, então eu deveria tentar passar — disse Sapphire. — Mas infelizmente Lavaridge é pro outro lado, então vai ter que ficar pra depois.


— Ah, claro — Ruby desdenhou. — Tudo que a gente precisa agora é você cozinhar os poucos neurônios que ainda te restam.


E nisso o grupo se deslocou na direção indicada por Zinnia. Após mais um período de caminhada, eles decidiram montar o acampamento para poder descansar. Como já haviam se afastado da entrada do deserto, o solo voltou ao padrão de antes e a temperatura que ameaçava um calor bem mais forte voltava à amenidade.


Sapphire tinha trazido sua equipe para mais uma sessão de treinamento. Ela queria aproveitar todo o tempo que pudesse antes de chegar a Lavaridge. O que quer que acontecesse no ginásio, ela pelo menos teria a certeza de que se esforçou o máximo que podia. Naquele momento ela tentava, mais uma vez, fazer o Psyduck responder aos seus comandos. Uma tarefa que até então vinha se mostrando árdua, mas ela não queria desistir.


— Vamos Psyduck, pelo menos um Water Pulse pra gente poder ver algum progresso — a treinadora tinha as mãos juntas, como quem implorava pela colaboração da criaturinha aquática. — Por favor!


O Psyduck inclinou a cabeça enquanto olhava para a menina. Se a cara dele não dizia nada que fizesse sentido naquele momento, a de Sapphire era de profunda desilusão como alguém que não esperava mais nada.


Mas, para a surpresa da garota, o pequeno pato se virou para o outro lado, mirou no tronco de uma árvore e disparou o exato golpe que havia sido pedido. Não foi um Water Pulse com toda a força, mas pelo menos teve impacto suficiente para tirar uma lasca do tronco.


Sapphire soltou uma exclamação, chamando a atenção de Ruby e Zinnia, que apenas descansavam aproveitando a brisa fresca que passava por ali.


— Zinnia! Ele me obedeceu! — Sapphire gritava e gesticulava eufórica. — O Psyduck me obedeceu!


— Será que não foi por acaso? — até mesmo a draconid estava desacreditada. — Tenta de novo. Vamos ver se ele obedece mais uma vez.


Sapphire concordou com a cabeça e se posicionou mais uma vez junta de seu parceiro. Ela se agachou próxima a ele e passou a orientação com calma.


— Tá vendo aquelas berries caídas no pé da árvore? Tente levantar algumas com o Confusion.


Ainda um pouco devagar, Psyduck fez o que foi pedido. Com um breve momento de foco, o pato usou sua energia telecinética para fazer com que as frutas levitassem.


— Estamos fazendo progresso, realmente — Zinnia constatou. — Acho que dá pra começar a puxar um pouco o treino dele. De repente dá tempo de colocar o Psyduck pra batalhar contra a líder de Lavaridge.


— A ideia é essa — Sapphire concordou. — Vou ver até onde consigo esticar a corda. Forçar demais também pode fazer a gente voltar à estaca zero.


— Caramba, o Psyduck realmente começou a atender os seus comandos — Ruby parecia tão surpreso quanto as meninas. — Eu não esperava que fosse acontecer tão cedo. Na verdade, eu até tinha dúvida se ia acontecer em algum momento.


— Foi graças aos conselhos da Zinnia — Sapphire então se virou para a mais velha. — Se não fosse por você eu nem sei como eu faria pra treinar o Psyduck.


Zinnia foi surpreendida pelo comentário de Sapphire. Não estava acostumada com aquele tipo de elogio repentino. Durante toda a sua infância, seus acertos eram sempre tratados como se fosse apenas mais uma obrigação de alguém que ocuparia a função a qual ela foi designada dentro das tradições dos draconids. Ela não sabia se era a primeira vez, mas não lembrava de nenhum outro momento em que havia recebido um comentário positivo.


— Ahn... Relaxa, isso não foi nada demais. São só algumas coisas que eu acabei pegando das pessoas do meu povo depois de anos convivendo com Pokémons e treinadores. Com o tempo essas coisas ficam bem fáceis de decorar.


— Não ficam não, Zinnia — disse Ruby. — Esse tipo de conhecimento é pouca gente que consegue reter. Meu pai é líder de ginásio, dos bons, e nem mesmo ele consegue se lembrar de tudo que aprendeu sobre criação Pokémon. Você consegue adaptar métodos de treinamento pra qualquer Pokémon usando as próprias individualidades deles. É realmente impressionante.


— Acho que nesse quesito ela supera até mesmo a Miriam — logo após sua fala, foi possível notar Sapphire tentando forçar para que seu sorriso não se dissipasse.


Zinnia não pôde deixar de notar o desconforto da menina ao falar aquele nome, e notou que até mesmo Ruby havia se encolhido entre os ombros. Era como se o silêncio repentino cortasse aquele momento de euforia.


— Eu já ouvi vocês comentarem sobre essa Miriam uma ou duas vezes — disse a mais velha. — É alguma amiga de vocês?


— Ela viajava com a gente até pouco tempo atrás, mas algumas coisas aconteceram e tivemos que nos separar — Sapphire respondeu com um tom pesaroso em sua voz.


— Eu lembro que quando vi vocês na Caverna de Granito lá em Dewford tinha mais uma pessoa junto. Era ela?


— Sim — Ruby respondeu, sem se estender muito. — Logo depois de irmos embora de Dewford a gente acabou descobrindo que ela não era quem dizia ser. Ela mentiu pra gente.


— Ruby! — Sapphire tentou repreender o garoto.


— Mas é verdade! — Ruby gesticulava com as mãos defendendo seu ponto. — Sapphire, não foram mentirinhas que uma criança conta pra outra! As coisas que ela escondeu de nós poderiam nos colocar em um perigo sério!


Sapphire deu um longo suspiro, sabendo que não poderia refutar Ruby. Por mais que o garoto estivesse certo, ela sabia que Miriam provavelmente havia feito o que fez tentando protegê-los, mas também se sentia incomodada pela garota nunca ter cogitado confiar neles dois para ajudá-la, assim como eles confiavam nela.


— Ela era estagiária da Polícia Internacional, e estava coletando informações sobre as atividades da Team Aqua e da Team Magma. Ela esteve em jornada com a gente durante todo esse tempo, e nunca nos contou. Em Slateport descobrimos tudo porque fomos encontrados pela chefe dela.


— Realmente, uma situação complicada. Mas se eu puder dar minha opinião, eu acho que ela ter tentado manter vocês fora disso foi a decisão mais sábia — Zinnia se encostou em uma árvore próxima. — Tipo, se alguma coisa acontecesse vocês teriam mais chances de escapar simplesmente por não saberem de nada. Os Magmas e os Aquas não são vilões de desenho ou de videogame. São duas seitas loucas. Vai saber o que eles podem fazer com quem apresenta alguma ameaça pra eles.


— Por que você tá defendendo a Miriam? Você nem a conhece — Ruby indagou de forma ríspida.


— Eu não estou defendendo ninguém, Ruby. Eu só disse que consigo entender o raciocínio dela nessa situação toda.


— Eu não consigo aceitar o que ela fez! Eu sei que a Sapphire ainda gosta dela, e realmente nós tivemos bons momentos juntos. Mas isso só torna as coisas piores! É como se ela fosse outra pessoa! E se ela é outra pessoa, e não a que a gente conheceu, então esses momentos bons foram todos uma mentira também? Até isso ela teve que tirar de nós sendo tão egoísta? Que droga!


Mais um breve momento de silêncio se fez ali. Sapphire pela primeira vez não se sentiu à vontade para retrucar Ruby, enquanto Zinnia o observava deixando que ele tivesse seu momento de desabafo. O garoto martelou a mesa com os dois punhos, enquanto se podia ouvir sua respiração acelerada como poucas vezes se viu. Zinnia deixou passar mais alguns segundos, tentando medir o momento certo para administrar a tensão dos dois jovens.


— Ok, parece que você já descontou a sua raiva. E aí? Adiantou alguma coisa? — a draconid perguntou com a voz calma.


— Ela podia ter colocado a gente em perigo.


— É realmente isso que você pensa? Ou é o que você quer pensar?


Ruby permanecia de costas, sem dizer mais nada. Sapphire olhava assustada, pois nunca viu o amigo daquele jeito. Zinnia continuava serena, pois sabia o que estava fazendo. Ela sabia pra onde estava direcionando a frustração do menino, que finalmente cedeu.


— Ela podia ter se colocado em perigo. E sozinha... Talvez ela não devesse, mas ela podia ter confiado na gente...


Sapphire então se aproximou de Ruby. Não houve nenhuma bronca, nenhuma troca de olhar. Ela apenas parou do lado dele, cada um olhando pra frente. Foi ela quem falou primeiro.


— Se a gente fosse mais forte ela poderia ter nos pedido ajuda. Acho que parte da culpa é nossa.


Ruby só apertou ainda mais os dedos na mesa, enquanto mordia os lábios. Sapphire suspirou fundo.


— Ei, vocês dois — Zinnia chamou a atenção da dupla. — Não é pra ficarem se culpando. Vocês não tinham nada a ver com isso. Ela protegeu vocês, e agora vocês ficam fazendo pouco caso disso? E pelo amor, que clima pesado é esse? Não é como se ela tivesse morrido ou coisa do tipo.


— Desculpa, é que a gente guardou isso por um bom tempo. Segurar essas coisas acaba distorcendo as ideias — Sapphire concordou, dando um sorriso sem graça.


Ruby finalmente se virou para as duas, mas logo respirou fundo e se sentou recostando-se na própria mesa.


— Eu não estou habituado a falar tanto desse tipo de coisa mais profunda. Deu até dor de cabeça.


— Uau, parabéns! — Zinnia então começou a rir. — Você conseguiu ficar com dor de cabeça antes do Psyduck. Isso é um baita de um feito!


Sapphire começou a rir junto com a draconid. Ruby em um primeiro momento olhou de relance com uma cara não muito amigável, mas logo cedeu e começou a rir também.


— Não enche, Zinnia! Não vão se acostumando com isso. Foi só um momento de fraqueza.


Zinnia se sentou ao lado de Ruby. O garoto ficou em dúvida sobre o que viria em seguida, mas a draconid não se importou com a desconfiança dele.


— Vocês se resolveram com vocês mesmos, isso é o mais difícil. Agora vocês estão prontos para se resolverem com ela quando seus caminhos se cruzarem de novo. Essas idas e vindas da vida acontecem a todo momento, mas o que vale são os laços que vão sendo construídos. Nunca deixem algo assim ir embora por causa de um ressentimento tão banal.


— Acho que no fim das contas a gente guardou mais ressentimento de nós mesmos do que dela — Sapphire comentou. — Agora que tá tudo mais claro eu penso se de repente não havia algum sinal que ela tava dando e a gente podia ter entendido.


— Provavelmente não — Ruby respondeu. — Ela devia ser treinada pra não deixar essas coisas escaparem. Mesmo a Miriam sendo uma pessoa emotiva, acho que ela tinha um limite próprio do que ela se permitia mostrar.


— Bom, seja como for eu vou voltar ao treinamento. A sessão de terapia da Zinnia foi boa, mas ainda estamos com o tempo curto até a minha batalha em Lavaridge.


Quando Sapphire se virou para o Psyduck para continuar a testar seus golpes foi que ela percebeu que ele continuava usando o Confusion, mas agora ele erguia pelo menos seis frutas de uma só vez. E parecia brincar com elas.


— Já? Ele tá indo muito rápido!


— Agora que destravamos o cérebro desse pequeno ele vai se desenvolver muito mais rápido — disse Zinnia com um sorriso de satisfação.


— Caramba, de repente eu não vou mais precisar subir nas árvores pra colher berries.


— Sapphire, você não vai transformar o coitado no seu empregado — disse Ruby em tom de desaprovação, tirando um riso da garota. — Mas nas árvores mais altas e com as quedas mais perigosas você até que pode fazer isso. Até porque eu sempre achei loucura sua subir em qualquer árvore que aparece na sua frente.


— Tá reclamando? Se não fosse por isso a gente não tinha se conhecido!


O garoto apenas deu de ombros. Ele não queria admitir, mas Sapphire tinha um bom argumento. No fundo, Ruby nem queria tentar contrariá-la. Ele concordava com a menina. E dessa forma o treinamento com o Psyduck se estendeu até o almoço. A partir dali uma nova caminhada em direção ao terreno acidentado na encosta do vulcão, que para a surpresa deles não seria o lugar mais quente de Lavaridge nos próximos dias.


• • •

O movimento em Lavaridge naquele dia era o habitual. Turistas de um lado a outro da rua principal, lotando as fachadas das lojinhas e formando uma fila extensa para entrar nas fontes termais. A pequena cidade conseguia se sustentar por conta própria devido às atividades turísticas em torno das fontes e da proximidade com o vulcão adormecido nas entranhas do Monte Chimney.


A única coisa que parecia fora do lugar naquele cenário era a placa de “fechado” pendurada na porta da frente do ginásio local. Dentro dele a líder Flannery recebia uma visita não muito agradável.


— Duas vitórias em dez batalhas. Oitenta por cento das batalhas perdidas, entregando facilmente a insígnia para termos uma Liga Pokémon lotada esse ano — Sidney analisava as estatísticas anotadas em um tablet. — Nesse ritmo vamos ser obrigados a fazer preliminares...


A supervisão da Elite era comum nos ginásios de Hoenn. Isso era feito de forma a procurar meios de dificultar o desafio de modo a evitar a superlotação de participantes, o que faria a Liga Pokémon ficar muito inchada e acabaria por prejudicar o calendário de competições previamente estabelecido.


— Também temos recebido reclamações a respeito do seu comportamento. Muitos desafiantes têm se queixado sobre você ser uma pessoa grosseira, mal-educada e até agressiva na forma de falar.


Olha só quem fala... — pensou a líder.


Flannery fazia força para não transformar seus pensamentos em palavras. Sabia que estava prestes a tomar uma bela bronca, e de todas as pessoas que podiam ter sido enviadas pela Liga para lhe dar sermão tinha que ser justamente o Sidney.


— Flannery, deixa eu te dizer uma coisa — o homem largou o tablet em uma mesa próxima e voltou o seu olhar para a garota. — Vocês, líderes de ginásio, existem para filtrar os competidores que vão disputar a Liga Pokémon. A Liga de Hoenn recebe centenas de candidatos por ano, mas nem todos têm habilidade suficiente para ingressar no torneio. Queremos apenas os melhores treinadores competindo para proporcionar ao público as batalhas do mais alto nível.


— Sim, eu estou me esforçando para garantir isso.


— ENTÃO POR QUE VOCÊ SÓ PERDE? — o Elite deu um soco na porta da sala, causando um barulho alto que assustou a garota. — Essa merda de ginásio parece que é feito de papel! Qualquer um entra aqui e vai embora com a insígnia como se estivesse numa colônia de férias!


Flannery permaneceu quieta. Não tinha como argumentar com Sidney naquele momento. Primeiro porque os dados não mentiam, pois sua taxa de sucesso era mesmo muito abaixo da média. E segundo porque isso só irritaria ainda mais o homem.


— Se qualquer treinador medíocre passa pra Liga temos que abrir mais vagas, fazer uma competição mais longa, com batalhas de baixo nível técnico. Isso faz os espectadores ficarem desinteressados, e se os espectadores perdem o interesse o que acontece? Os patrocinadores começam a pagar menos. Isso quando não vão embora! E com a queda nas receitas a gente não consegue manter a estrutura pros anos seguintes. Manter a Liga Pokémon funcionando é uma operação muito complexa e delicada. Se uma engrenagem sai do lugar, tudo desmorona! Não podemos deixar isso acontecer. Você me entendeu?


— Sim, senhor.


— Então procure melhorar como treinadora. Faça jus ao talento que seu avô e seu pai possuem. Você tem um mês para mostrar resultados melhores, ou seremos obrigados a tomar o ginásio de você e colocar um líder que tenha a capacidade de defendê-lo.


— Vocês não podem tirar o ginásio da gente! Ele está com a nossa família há décadas! — aquele foi o primeiro momento em que Flannery se alterou. Sidney havia tocado em um ponto muito caro para ela. Nada a ver com sua competência como treinadora ou sua atitude como pessoa, mas desta vez no legado de sua família.


— Se o ginásio é tão importante assim pra você e sua família, então faça o que for necessário para provar que você é digna de se chamar de líder. UM MÊS! É tempo suficiente para identificar e cobrir suas fraquezas como treinadora. E melhore essa sua atitude!


O Elite bateu a porta ao sair do ginásio, deixando Flannery para trás. A garota era tomada por uma expressão de desesperança. O medo de perder o ginásio a desconsertava. Sentia que cada segundo era uma eternidade a mais sendo julgada sob a sombra de seu avô, o antigo líder, e seu pai, outro renomado especialista no tipo fogo.


Flannery não conseguia se concentrar nos seus treinamentos. Tudo era motivo de dúvida, ela já não sabia se estava fazendo o certo mesmo quando praticava fundamentos básicos com sua equipe. Sentia o desdém da opinião pública e torcia para que fosse apenas coisa da sua cabeça. Isso tornava a sua evolução como treinadora ainda mais difícil, e a falta de confiança era cada vez mais determinante para suas derrotas, já que a cada batalha a pressão por resultados melhores aumentava.


Tudo que ela conseguiu fazer naquele momento foi pegar o telefone e fazer uma ligação. Um rapaz atendeu do outro lado da linha, já animado esperando por alguma nova besteira dita por sua velha amiga.


— Ei, faz tempo que você não liga! Como estão as coisas? Quando que a gente vai se ver pra colocar a conversa em dia?


A animação dele, no entanto, foi interrompida de surpresa pela voz embargada de Flannery, algo muito raro de se ouvir.


— Por favor, vem pra cá agora. Eu preciso da sua ajuda.


FIM DO CAPÍTULO 41

  


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