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Notas do Autor - Capítulo 41

Capítulo 41
Os conflitos de cada um

Mauville
já tinha ficado para trás. O destino do trio então era a cidade de Lavaridge,
onde Sapphire disputaria o desafio do ginásio local na tentativa de conquistar
sua quarta insígnia. Vez ou outra, a garota era desperta de seus momentos de
distração por uma pontada no peito, assim que se lembrava que uma vitória a
colocaria na metade do caminho para a Liga Pokémon daquele ano. Zinnia tentava
mantê-la calma, e Ruby só conseguia observar sem ter muito a contribuir.
Vivi
já havia ficado para trás. Após pararem para descansar no rancho da família da
menina, Sapphire participou do desafio de tentar vencer todos os membros dos
Winstrates em sequência. Ela conseguiu vencer Vivi e sua mãe, mas logo em
seguida perdeu para o pai da garota, sequer tendo a chance de enfrentar a avó
dela, considerada a mais forte entre os presentes. Vito, irmão mais velho de
Vivi, não estava presente, possivelmente dando continuidade à sua própria
jornada, já que pensava em disputar a Liga daquele ano também para tentar o
título após o vice-campeonato do ano anterior, onde havia perdido a final para
Steven.
Vivi
também deu algumas dicas para Ruby sobre batalhas em contests, e passou uma
série de exercícios práticos para melhorar a mobilidade dos Pokémons do menino,
para que eles pudessem executar os seus ataques ao mesmo tempo em que
reproduziam movimentos mais elegantes para somar pontos na apresentação.
Fallarbor estava às portas também, e por isso o garoto tinha que acelerar seu
passo se quisesse ficar pronto a tempo. Vivi, por sua vez, ficou com a família
no rancho, já que ela ia para Slateport tentar o contest de lá, mas com a
promessa de que venceria e alcançaria Ruby em Fallarbor, para que os dois
pudessem rivalizar de novo, desta vez na modalidade que a menina afirmava ser
sua especialidade.
A
trilha ao redor trazia um ar leve aos viajantes. Mesmo com poucas árvores ao
redor o tempo estava fresco. O sol era ameno e uma brisa corria pelas encostas
das montanhas que rodeavam a rota, surpreendendo o grupo que esperava um calor
mais forte pela proximidade com o deserto que se localizava ali perto. Era um
ótimo dia para fazer algo ao ar livre.
—
A gente precisava sair tão cedo da casa da Vivi? — Sapphire parecia
contrariada, com as mãos atrás da cabeça enquanto caminhava com seus amigos. —
A mãe dela cozinha mó bem, eu queria ter almoçado lá de novo.
—
Sapphire, eles já foram muito gentis de deixar a gente passar a noite — disse
Ruby. — Não vamos ficar abusando. Além do mais, se ficássemos para o almoço
acabaríamos nos atrasando ainda mais. O Contest de Fallarbor é daqui a duas
semanas, e ainda temos que passar em Lavaridge por causa do ginásio. Não temos
tempo a perder.
—
Tá bom, tá bom, não precisa ficar me dando sermão — a garota bufou, até que
reparou que o terreno por onde caminhavam estava mudando. — Ué, de onde veio
essa areia toda de repente?
Quando
a menina se deu conta, Zinnia e Ruby haviam parado um pouco antes, e só então
ela olhou para a frente e percebeu que eles estavam diante de uma faixa de
areia tão longa que se estendia por uma distância que eles nem se atreviam a
calcular. A única referência que tinham do quão grande aquela área era de
verdade, era um paredão rochoso que percorria os limites daquele solo arenoso.
A muralha de pedra era notadamente alta, mas de onde eles estavam ela era vista
bem pequena.
—
A gente não vai tentar atravessar isso aí, né? — Ruby questionou, preocupado. —
Não temos água pra isso, o pouco que temos vai ser usado num instante, porque a
gente vai desidratar rápido.
—
Esse é o Deserto de Hoenn — disse Zinnia, tentando esclarecer a situação. — Eu
nunca estive dentro dele, mas as pessoas da minha comunidade dizem que é
realmente um caminho que testa até mesmo os treinadores mais fortes. Com
certeza não vamos passar por aí.
—
E como a gente chega em Lavaridge? — perguntou Sapphire.
—
Não se preocupe, nós estamos no limite da área do deserto. Lavaridge fica
exatamente a leste daqui, então só temos que virar à esquerda agora e seguir
adiante. E Ruby, antes que pergunte, pode ficar tranquilo também. Perto de
Lavaridge existe um outro caminho por onde podemos ir. Não vamos passar pelo
deserto e é até mais rápido para chegarmos a Fallarbor.
—
Graças à Arceus — o garoto pôs uma mão sobre o peito e suspirou.
—
Se ele testa até os melhores treinadores, então eu deveria tentar passar —
disse Sapphire. — Mas infelizmente Lavaridge é pro outro lado, então vai ter
que ficar pra depois.
—
Ah, claro — Ruby desdenhou. — Tudo que a gente precisa agora é você cozinhar os
poucos neurônios que ainda te restam.
E
nisso o grupo se deslocou na direção indicada por Zinnia. Após mais um período
de caminhada, eles decidiram montar o acampamento para poder descansar. Como já
haviam se afastado da entrada do deserto, o solo voltou ao padrão de antes e a
temperatura que ameaçava um calor bem mais forte voltava à amenidade.
Sapphire
tinha trazido sua equipe para mais uma sessão de treinamento. Ela queria
aproveitar todo o tempo que pudesse antes de chegar a Lavaridge. O que quer que
acontecesse no ginásio, ela pelo menos teria a certeza de que se esforçou o
máximo que podia. Naquele momento ela tentava, mais uma vez, fazer o Psyduck
responder aos seus comandos. Uma tarefa que até então vinha se mostrando árdua,
mas ela não queria desistir.
—
Vamos Psyduck, pelo menos um Water Pulse pra gente poder ver algum
progresso — a treinadora tinha as mãos juntas, como quem implorava pela
colaboração da criaturinha aquática. — Por favor!
O
Psyduck inclinou a cabeça enquanto olhava para a menina. Se a cara dele não
dizia nada que fizesse sentido naquele momento, a de Sapphire era de profunda
desilusão como alguém que não esperava mais nada.
Mas,
para a surpresa da garota, o pequeno pato se virou para o outro lado, mirou no
tronco de uma árvore e disparou o exato golpe que havia sido pedido. Não foi um
Water Pulse com toda a força, mas pelo menos teve impacto suficiente
para tirar uma lasca do tronco.
Sapphire
soltou uma exclamação, chamando a atenção de Ruby e Zinnia, que apenas
descansavam aproveitando a brisa fresca que passava por ali.
—
Zinnia! Ele me obedeceu! — Sapphire gritava e gesticulava eufórica. — O Psyduck
me obedeceu!
—
Será que não foi por acaso? — até mesmo a draconid estava desacreditada. —
Tenta de novo. Vamos ver se ele obedece mais uma vez.
Sapphire
concordou com a cabeça e se posicionou mais uma vez junta de seu parceiro. Ela
se agachou próxima a ele e passou a orientação com calma.
—
Tá vendo aquelas berries caídas no pé da árvore? Tente levantar algumas com o Confusion.
Ainda
um pouco devagar, Psyduck fez o que foi pedido. Com um breve momento de foco, o
pato usou sua energia telecinética para fazer com que as frutas levitassem.
—
Estamos fazendo progresso, realmente — Zinnia constatou. — Acho que dá pra
começar a puxar um pouco o treino dele. De repente dá tempo de colocar o
Psyduck pra batalhar contra a líder de Lavaridge.
—
A ideia é essa — Sapphire concordou. — Vou ver até onde consigo esticar a
corda. Forçar demais também pode fazer a gente voltar à estaca zero.
—
Caramba, o Psyduck realmente começou a atender os seus comandos — Ruby parecia
tão surpreso quanto as meninas. — Eu não esperava que fosse acontecer tão cedo.
Na verdade, eu até tinha dúvida se ia acontecer em algum momento.
—
Foi graças aos conselhos da Zinnia — Sapphire então se virou para a mais velha.
— Se não fosse por você eu nem sei como eu faria pra treinar o Psyduck.
Zinnia
foi surpreendida pelo comentário de Sapphire. Não estava acostumada com aquele
tipo de elogio repentino. Durante toda a sua infância, seus acertos eram sempre
tratados como se fosse apenas mais uma obrigação de alguém que ocuparia a
função a qual ela foi designada dentro das tradições dos draconids. Ela não
sabia se era a primeira vez, mas não lembrava de nenhum outro momento em que
havia recebido um comentário positivo.
—
Ahn... Relaxa, isso não foi nada demais. São só algumas coisas que eu acabei
pegando das pessoas do meu povo depois de anos convivendo com Pokémons e
treinadores. Com o tempo essas coisas ficam bem fáceis de decorar.
—
Não ficam não, Zinnia — disse Ruby. — Esse tipo de conhecimento é pouca gente
que consegue reter. Meu pai é líder de ginásio, dos bons, e nem mesmo ele
consegue se lembrar de tudo que aprendeu sobre criação Pokémon. Você consegue
adaptar métodos de treinamento pra qualquer Pokémon usando as próprias
individualidades deles. É realmente impressionante.
—
Acho que nesse quesito ela supera até mesmo a Miriam — logo após sua fala, foi
possível notar Sapphire tentando forçar para que seu sorriso não se dissipasse.
Zinnia
não pôde deixar de notar o desconforto da menina ao falar aquele nome, e notou
que até mesmo Ruby havia se encolhido entre os ombros. Era como se o silêncio
repentino cortasse aquele momento de euforia.
—
Eu já ouvi vocês comentarem sobre essa Miriam uma ou duas vezes — disse a mais
velha. — É alguma amiga de vocês?
—
Ela viajava com a gente até pouco tempo atrás, mas algumas coisas aconteceram e
tivemos que nos separar — Sapphire respondeu com um tom pesaroso em sua voz.
—
Eu lembro que quando vi vocês na Caverna de Granito lá em Dewford tinha mais
uma pessoa junto. Era ela?
—
Sim — Ruby respondeu, sem se estender muito. — Logo depois de irmos embora de
Dewford a gente acabou descobrindo que ela não era quem dizia ser. Ela mentiu
pra gente.
—
Ruby! — Sapphire tentou repreender o garoto.
—
Mas é verdade! — Ruby gesticulava com as mãos defendendo seu ponto. — Sapphire,
não foram mentirinhas que uma criança conta pra outra! As coisas que ela
escondeu de nós poderiam nos colocar em um perigo sério!
Sapphire
deu um longo suspiro, sabendo que não poderia refutar Ruby. Por mais que o
garoto estivesse certo, ela sabia que Miriam provavelmente havia feito o que
fez tentando protegê-los, mas também se sentia incomodada pela garota nunca ter
cogitado confiar neles dois para ajudá-la, assim como eles confiavam nela.
—
Ela era estagiária da Polícia Internacional, e estava coletando informações
sobre as atividades da Team Aqua e da Team Magma. Ela esteve em jornada com a
gente durante todo esse tempo, e nunca nos contou. Em Slateport descobrimos
tudo porque fomos encontrados pela chefe dela.
—
Realmente, uma situação complicada. Mas se eu puder dar minha opinião, eu acho
que ela ter tentado manter vocês fora disso foi a decisão mais sábia — Zinnia
se encostou em uma árvore próxima. — Tipo, se alguma coisa acontecesse vocês
teriam mais chances de escapar simplesmente por não saberem de nada. Os Magmas
e os Aquas não são vilões de desenho ou de videogame. São duas seitas loucas.
Vai saber o que eles podem fazer com quem apresenta alguma ameaça pra eles.
—
Por que você tá defendendo a Miriam? Você nem a conhece — Ruby indagou de forma
ríspida.
—
Eu não estou defendendo ninguém, Ruby. Eu só disse que consigo entender o
raciocínio dela nessa situação toda.
—
Eu não consigo aceitar o que ela fez! Eu sei que a Sapphire ainda gosta dela, e
realmente nós tivemos bons momentos juntos. Mas isso só torna as coisas piores!
É como se ela fosse outra pessoa! E se ela é outra pessoa, e não a que a gente
conheceu, então esses momentos bons foram todos uma mentira também? Até isso
ela teve que tirar de nós sendo tão egoísta? Que droga!
Mais
um breve momento de silêncio se fez ali. Sapphire pela primeira vez não se
sentiu à vontade para retrucar Ruby, enquanto Zinnia o observava deixando que
ele tivesse seu momento de desabafo. O garoto martelou a mesa com os dois
punhos, enquanto se podia ouvir sua respiração acelerada como poucas vezes se
viu. Zinnia deixou passar mais alguns segundos, tentando medir o momento certo
para administrar a tensão dos dois jovens.
—
Ok, parece que você já descontou a sua raiva. E aí? Adiantou alguma coisa? — a
draconid perguntou com a voz calma.
—
Ela podia ter colocado a gente em perigo.
—
É realmente isso que você pensa? Ou é o que você quer pensar?
Ruby
permanecia de costas, sem dizer mais nada. Sapphire olhava assustada, pois
nunca viu o amigo daquele jeito. Zinnia continuava serena, pois sabia o que
estava fazendo. Ela sabia pra onde estava direcionando a frustração do menino,
que finalmente cedeu.
—
Ela podia ter se colocado em perigo. E sozinha... Talvez ela não
devesse, mas ela podia ter confiado na gente...
Sapphire
então se aproximou de Ruby. Não houve nenhuma bronca, nenhuma troca de olhar.
Ela apenas parou do lado dele, cada um olhando pra frente. Foi ela quem falou
primeiro.
—
Se a gente fosse mais forte ela poderia ter nos pedido ajuda. Acho que parte da
culpa é nossa.
Ruby
só apertou ainda mais os dedos na mesa, enquanto mordia os lábios. Sapphire
suspirou fundo.
—
Ei, vocês dois — Zinnia chamou a atenção da dupla. — Não é pra ficarem se
culpando. Vocês não tinham nada a ver com isso. Ela protegeu vocês, e agora
vocês ficam fazendo pouco caso disso? E pelo amor, que clima pesado é esse? Não
é como se ela tivesse morrido ou coisa do tipo.
—
Desculpa, é que a gente guardou isso por um bom tempo. Segurar essas coisas
acaba distorcendo as ideias — Sapphire concordou, dando um sorriso sem graça.
Ruby
finalmente se virou para as duas, mas logo respirou fundo e se sentou
recostando-se na própria mesa.
—
Eu não estou habituado a falar tanto desse tipo de coisa mais profunda. Deu até
dor de cabeça.
—
Uau, parabéns! — Zinnia então começou a rir. — Você conseguiu ficar com dor de
cabeça antes do Psyduck. Isso é um baita de um feito!
Sapphire
começou a rir junto com a draconid. Ruby em um primeiro momento olhou de
relance com uma cara não muito amigável, mas logo cedeu e começou a rir também.
—
Não enche, Zinnia! Não vão se acostumando com isso. Foi só um momento de
fraqueza.
Zinnia
se sentou ao lado de Ruby. O garoto ficou em dúvida sobre o que viria em
seguida, mas a draconid não se importou com a desconfiança dele.
—
Vocês se resolveram com vocês mesmos, isso é o mais difícil. Agora vocês estão
prontos para se resolverem com ela quando seus caminhos se cruzarem de novo.
Essas idas e vindas da vida acontecem a todo momento, mas o que vale são os
laços que vão sendo construídos. Nunca deixem algo assim ir embora por causa de
um ressentimento tão banal.
—
Acho que no fim das contas a gente guardou mais ressentimento de nós mesmos do
que dela — Sapphire comentou. — Agora que tá tudo mais claro eu penso se de
repente não havia algum sinal que ela tava dando e a gente podia ter entendido.
—
Provavelmente não — Ruby respondeu. — Ela devia ser treinada pra não deixar
essas coisas escaparem. Mesmo a Miriam sendo uma pessoa emotiva, acho que ela
tinha um limite próprio do que ela se permitia mostrar.
—
Bom, seja como for eu vou voltar ao treinamento. A sessão de terapia da Zinnia
foi boa, mas ainda estamos com o tempo curto até a minha batalha em Lavaridge.
Quando
Sapphire se virou para o Psyduck para continuar a testar seus golpes foi que
ela percebeu que ele continuava usando o Confusion, mas agora ele erguia
pelo menos seis frutas de uma só vez. E parecia brincar com elas.
—
Já? Ele tá indo muito rápido!
—
Agora que destravamos o cérebro desse pequeno ele vai se desenvolver muito mais
rápido — disse Zinnia com um sorriso de satisfação.
—
Caramba, de repente eu não vou mais precisar subir nas árvores pra colher
berries.
—
Sapphire, você não vai transformar o coitado no seu empregado — disse Ruby em
tom de desaprovação, tirando um riso da garota. — Mas nas árvores mais altas e
com as quedas mais perigosas você até que pode fazer isso. Até porque eu sempre
achei loucura sua subir em qualquer árvore que aparece na sua frente.
—
Tá reclamando? Se não fosse por isso a gente não tinha se conhecido!
O
garoto apenas deu de ombros. Ele não queria admitir, mas Sapphire tinha um bom
argumento. No fundo, Ruby nem queria tentar contrariá-la. Ele concordava com a
menina. E dessa forma o treinamento com o Psyduck se estendeu até o almoço. A
partir dali uma nova caminhada em direção ao terreno acidentado na encosta do
vulcão, que para a surpresa deles não seria o lugar mais quente de Lavaridge
nos próximos dias.
O
movimento em Lavaridge naquele dia era o habitual. Turistas de um lado a outro
da rua principal, lotando as fachadas das lojinhas e formando uma fila extensa
para entrar nas fontes termais. A pequena cidade conseguia se sustentar por
conta própria devido às atividades turísticas em torno das fontes e da
proximidade com o vulcão adormecido nas entranhas do Monte Chimney.
A
única coisa que parecia fora do lugar naquele cenário era a placa de “fechado”
pendurada na porta da frente do ginásio local. Dentro dele a líder Flannery
recebia uma visita não muito agradável.
—
Duas vitórias em dez batalhas. Oitenta por cento das batalhas perdidas,
entregando facilmente a insígnia para termos uma Liga Pokémon lotada esse ano —
Sidney analisava as estatísticas anotadas em um tablet. — Nesse ritmo vamos ser
obrigados a fazer preliminares...
A
supervisão da Elite era comum nos ginásios de Hoenn. Isso era feito de forma a
procurar meios de dificultar o desafio de modo a evitar a superlotação de
participantes, o que faria a Liga Pokémon ficar muito inchada e acabaria por
prejudicar o calendário de competições previamente estabelecido.
—
Também temos recebido reclamações a respeito do seu comportamento. Muitos
desafiantes têm se queixado sobre você ser uma pessoa grosseira, mal-educada e
até agressiva na forma de falar.
—
Olha só quem fala... — pensou a líder.
Flannery
fazia força para não transformar seus pensamentos em palavras. Sabia que estava
prestes a tomar uma bela bronca, e de todas as pessoas que podiam ter sido
enviadas pela Liga para lhe dar sermão tinha que ser justamente o Sidney.
—
Flannery, deixa eu te dizer uma coisa — o homem largou o tablet em uma mesa
próxima e voltou o seu olhar para a garota. — Vocês, líderes de ginásio,
existem para filtrar os competidores que vão disputar a Liga Pokémon. A Liga de
Hoenn recebe centenas de candidatos por ano, mas nem todos têm habilidade
suficiente para ingressar no torneio. Queremos apenas os melhores treinadores
competindo para proporcionar ao público as batalhas do mais alto nível.
—
Sim, eu estou me esforçando para garantir isso.
—
ENTÃO POR QUE VOCÊ SÓ PERDE? — o Elite deu um soco na porta da sala, causando
um barulho alto que assustou a garota. — Essa merda de ginásio parece que é
feito de papel! Qualquer um entra aqui e vai embora com a insígnia como se
estivesse numa colônia de férias!
Flannery
permaneceu quieta. Não tinha como argumentar com Sidney naquele momento.
Primeiro porque os dados não mentiam, pois sua taxa de sucesso era mesmo muito
abaixo da média. E segundo porque isso só irritaria ainda mais o homem.
—
Se qualquer treinador medíocre passa pra Liga temos que abrir mais vagas, fazer
uma competição mais longa, com batalhas de baixo nível técnico. Isso faz os
espectadores ficarem desinteressados, e se os espectadores perdem o interesse o
que acontece? Os patrocinadores começam a pagar menos. Isso quando não vão
embora! E com a queda nas receitas a gente não consegue manter a estrutura pros
anos seguintes. Manter a Liga Pokémon funcionando é uma operação muito complexa
e delicada. Se uma engrenagem sai do lugar, tudo desmorona! Não podemos deixar
isso acontecer. Você me entendeu?
—
Sim, senhor.
—
Então procure melhorar como treinadora. Faça jus ao talento que seu avô e seu
pai possuem. Você tem um mês para mostrar resultados melhores, ou seremos
obrigados a tomar o ginásio de você e colocar um líder que tenha a capacidade
de defendê-lo.
—
Vocês não podem tirar o ginásio da gente! Ele está com a nossa família há
décadas! — aquele foi o primeiro momento em que Flannery se alterou. Sidney
havia tocado em um ponto muito caro para ela. Nada a ver com sua competência
como treinadora ou sua atitude como pessoa, mas desta vez no legado de sua
família.
—
Se o ginásio é tão importante assim pra você e sua família, então faça o que
for necessário para provar que você é digna de se chamar de líder. UM MÊS! É
tempo suficiente para identificar e cobrir suas fraquezas como treinadora. E
melhore essa sua atitude!
O
Elite bateu a porta ao sair do ginásio, deixando Flannery para trás. A garota
era tomada por uma expressão de desesperança. O medo de perder o ginásio a
desconsertava. Sentia que cada segundo era uma eternidade a mais sendo julgada
sob a sombra de seu avô, o antigo líder, e seu pai, outro renomado especialista
no tipo fogo.
Flannery
não conseguia se concentrar nos seus treinamentos. Tudo era motivo de dúvida,
ela já não sabia se estava fazendo o certo mesmo quando praticava fundamentos
básicos com sua equipe. Sentia o desdém da opinião pública e torcia para que
fosse apenas coisa da sua cabeça. Isso tornava a sua evolução como treinadora
ainda mais difícil, e a falta de confiança era cada vez mais determinante para
suas derrotas, já que a cada batalha a pressão por resultados melhores
aumentava.
Tudo
que ela conseguiu fazer naquele momento foi pegar o telefone e fazer uma
ligação. Um rapaz atendeu do outro lado da linha, já animado esperando por
alguma nova besteira dita por sua velha amiga.
—
Ei, faz tempo que você não liga! Como estão as coisas? Quando que a gente vai
se ver pra colocar a conversa em dia?
A
animação dele, no entanto, foi interrompida de surpresa pela voz embargada de
Flannery, algo muito raro de se ouvir.
—
Por favor, vem pra cá agora. Eu preciso da sua ajuda.



















