AVENTURAS EM KANTO

Postado por : ShadZ Jan 31, 2025

 Retomar o que foi perdido


A batalha feroz que se seguia no ginásio de Rustboro estava próxima de seu desfecho. A Nidoqueen de Miriam conseguiu segurar os ataques de quase todo o time de Roxanne, mas havia sido derrotada pelo recém-evoluído Probopass da líder.


A desafiante se encontrava em uma encruzilhada. Suas opções restantes eram muito arriscadas. Venomoth se fosse acertado por um golpe do tipo pedra não resistiria, ainda mais por vir de um Pokémon do mesmo tipo. Zangoose não tinha nenhum golpe que pudesse ser efetivo, e Mudkip ainda estava abaixo do nível.


Ela decidiu por sacar a Pokéball de Shin. Apesar do risco elevado, ainda era sua melhor escolha naquele momento.


— Por favor, tome cuidado — ela sussurrou para a Pokéball antes de lançar seu companheiro a campo.


A mariposa se materializou na arena, com a enorme bússola o encarando para ver como seu novo adversário agiria. Mas Shin era igualmente paciente.


— Então você é o Hans? — o Venomoth perguntou. — Não é à toa que você conseguiu derrotar Maggie. Você é bom mesmo.


— Então já ouviu falar de mim? — o Probopass perguntou, curioso.


— Um velho amigo que batalhou contra vocês uns meses atrás nos contou sobre sua força. Sabemos que você é experiente. Mas eu sou bem paciente, não ache que vai tirar vantagem de uma impulsividade que eu não tenho, diferente da Maggie e do Dante.


— Então foi o Dante quem te contou sobre mim... — disse o Pokémon rocha relembrando sua batalha contra o time de Sapphire. — Estive com ele há algumas semanas. Ele agora é um Combusken e parece bem mais forte e maduro do que quando eu o conheci.


— Então ele evoluiu... É bom saber que eles estão ficando mais fortes, nós queremos batalhar contra eles na Liga. E pra isso o primeiro passo é te derrubar aqui e agora.


— Então venha, estou esperando. Você pode não ser impulsivo como os outros, mas não muda o fato de que é você quem precisa da insígnia.


Shin conseguia notar que o Probopass era lento. Mesmo assim tinha informações suficientes sobre Hans para saber que aquilo pouco importava, ou melhor, só era motivo para ser mais cauteloso do que o normal. Sua intuição dizia para manter distância. Miriam parecia pensar o mesmo, então ela logo deu o comando para que o Venomoth usasse o Psychic.


Mesmo tendo conseguido lançar Hans para longe e golpeá-lo com toda a força arremessando-o no chão, Shin não percebeu que seu adversário aguentou o ataque e ao mesmo tempo colocou seu plano em prática. Foi ao sentir pequenas vibrações vindas do chão que o inseto conseguiu se esquivar voando para o outro lado, enquanto rochas brotavam do solo no entorno de onde ele estava antes. Um segundo mais tarde e ele teria sido pego pelo Rock Tomb, o golpe assinatura do membro mais poderoso do time de Roxanne.


A líder de ginásio não teve nem tempo de aceitar que seu plano final falhou. O Venomoth fez um voo rasante ao redor de Hans, banhando-o com um manto de esporos que fez a criatura rochosa perder a consciência. Pego pelo Sleep Powder, não tinha mais nada a se fazer naquela altura. Mais um ataque com Psychic foi suficiente para finalmente romper aquela muralha que se colocava entre os desafiantes e sua primeira insígnia.


Quando o juiz da batalha finalizou o confronto, tanto Roxanne quanto Miriam retornaram seus parceiros. A líder caminhou até a mais nova já com a insígnia em mãos, e cumprimentando a desafiante com uma sutil reverência a entregou o objeto.


— Por você ter andado junto com a Sapphire naquela época eu acabei acreditando que você também era iniciante. Estranhei quando você disse que não precisava nivelar os times, mas agora entendo a razão. A força dos seus companheiros é assustadora.


— Eu já achava você uma excelente treinadora quando a vi enfrentar a Sapphire, mas eu realmente não estava esperando que fosse ser tão difícil assim. Não é de se admirar que muitos sequer conseguem se classificar pra Liga.


— Obrigada pelos elogios. Acredito que com essa capacidade que você tem, não terá problemas enfrentando os outros líderes.


Enquanto Miriam e Roxanne terminavam a conversa dentro da arena, uma outra pessoa acabava de chegar na porta do ginásio. O rapaz de cabelos pretos mostrou na portaria o atestado de aprovação que havia tido no exame de admissão.


— Muito bem, deixa eu conferir aqui no sistema... — a recepcionista do ginásio pesquisava nas planilhas os dados do desafiante. — Ok, acho que encontrei. Vince, é isso mesmo?


— Sim — disse o rapaz, em seu tom seco habitual, deixando a mulher desconfortável.


— Certo... Vou comunicar a sua chegada à senhorita Roxanne. Ela acabou de terminar um confronto. Provavelmente você vai precisar esperar alguns minutos para que ela possa encaminhar seu time para a recuperação, mas assim que possível ela irá atendê-lo para que possam prosseguir com o seu desafio.


Vince fez apenas um breve aceno com a cabeça, indicando que havia compreendido todas as informações. Ele agarrou a alça transversal de sua mochila e caminhou até a porta que dava para a arena.


Ao virar o corredor ele trombou com Miriam. O impacto forte entre os ombros dos dois treinadores foi o suficiente para tirar o garoto do sério.


— Presta atenção, porra! — a agressividade do seu tom de voz já subia. — Tá olhando pra onde?


Miriam sentiu uma veia no seu pescoço pulando. Ela tinha um ponto fraco: não lidava muito bem com grosseria. A garota, que até então estava sorridente com a conquista de sua insígnia, tão rápido fechou a cara e começou a encarar aquele garoto arrogante como se lhe desse uma sentença de morte.


— Tá pensando que é quem pra falar assim comigo, moleque? — sem se intimidar, ela andou de volta até Vince até que os dois ficassem frente a frente e com seus rostos próximos, olho a olho, numa competição para ver quem se sentia intimidado primeiro.


— Então vai vir pra cima mesmo? — o volume da voz do rapaz diminuiu, mas Miriam sabia que aquilo não era um sinal de que ele estava cedendo, e sim de que estava se segurando para não explodir. — A sua sorte é que minha batalha com a líder de ginásio está agendada para agora, senão eu ia te destruir aqui mesmo.


— Não seja por isso — disse a garota, mantendo o mesmo tom. — Termina aí a sua batalha que eu vou te esperar lá fora. E aí a gente vai ver quem vai ser destruído.


• • •


A batalha durou pouco mais de quarenta minutos. Vince saía pela porta da frente, ainda com a insígnia na mão e um sentimento de triunfo. Mas o garoto se surpreendeu ao ver que Miriam ainda o aguardava na entrada do ginásio. Ele pensava que a garota aproveitaria a oportunidade para fugir, mas lá estava ela, olhando-o fixamente como se estivesse focada em uma presa.


— Você tem até o final da tarde para recuperar seu time no Centro Pokémon. A gente se encontra aqui no início da noite.


— Não vai ser necessário — Vince largou a mochila no chão, próxima a ele, já sacando sua Pokéball. — Tenho um Pokémon que ainda não batalhou. Podemos fazer um contra um, já vai ser o suficiente pra você se arrepender de não ter sumido quando teve a chance.


— O único favor que eu te peço é que você faça pelo menos o mínimo pra me convencer de que você não é só conversa — Miriam sacou sua Pokéball enquanto dava um suspiro. — Tem certeza de que quer um contra um?


— Certeza — falou o rapaz, sacando sua Pokéball. — É só o que eu preciso pra te ensinar a não desafiar alguém com quem você não é capaz de lidar. Houndour, saia!


O canino preto tomou forma ao ser chamado por seu treinador, já preparado em posição de ataque. Miriam observou o Pokémon que estava em sua frente. Apenas com um breve olhar a garota já conseguiu deduzir que, apesar de estar na sua forma inicial, ele era bem treinado.


— Mudkip, vamos!


Ao sair de sua Pokéball, Niani se colocou de prontidão para a batalha. Era evidente que ela estava mais preparada do que das últimas vezes, o que sinalizava que o treinamento estava começando a dar frutos.


Vince, por sua vez, não parecia nem um pouco preocupado. Mesmo que Miriam e Mudkip tivessem a vantagem em decorrência da tipagem da pequena anfíbia, para o rapaz aquilo não era suficiente para desbalancear a batalha em desfavor dele.


— Inicie com Smog! — ao ser comandado, Houndour disparou uma nuvem de gases poluentes na direção de sua oponente.


Ao comando de Miriam, Mudkip desviou com certa dificuldade, conseguindo escapar do ataque de última hora. Vince não poupou esforços e, sem deixar que elas se recuperassem da primeira investida, comandou novamente na intenção de pressioná-las mantendo uma ofensiva constante.


Feint Attack!


O canino avançou contra a Mudkip, fazendo movimentos esquivos numa tentativa de confundi-la. A estratégia se mostrou bem-sucedida, pois em dado momento Houndour conseguiu manipular sua oponente para que mirasse em um possível caminho, quando na verdade ele a atacou por outro.


Pega com a guarda baixa, Niani foi arremessada para perto de sua treinadora, que não tinha uma expressão nada amigável.


— Droga, ele é muito bom... — murmurou a garota. — Cuidado, Mudkip! Ele tá vindo de novo!


— Ataque com Bite!


— Fique onde está e use o Water Gun diretamente nele!


O disparo foi certeiro, e a corrente de água bateu com força contra o peito de Houndour, fazendo-o recuar sentindo o dano causado pela pressão do golpe. Tendo afastado seu oponente por um instante, Mudkip conseguiu se levantar a postos para continuar a batalha.


Apesar do ataque ter sido bastante efetivo, Vince não pareceu se abalar. Para ele, aquela tinha sido uma jogada de sorte de Miriam, que no desespero procurou a maneira mais rápida de fugir daquela situação. Ele conseguia ditar o ritmo da batalha, e isso o fazia ter a consciência de que estava no controle.


— Mudkip, temos que aproveitar que finalmente conseguimos sair da pressão dele — Miriam passava as instruções para sua parceira. — Ele ataca impondo pressão para não nos dar tempo de raciocinar. Os Pokémons dele conseguem fazer isso com rapidez porque são bem treinados e possuem padrões e sequências de movimentos bem decoradas. Se a gente baixar a guarda de novo, a coisa vai ficar feia...


Niani assentia, mostrando que estava atenta à sua treinadora. Miriam sorriu satisfeita. A nova dieta que ela havia passado para a pequena Pokémon aquática, feita para estimular a atividade cerebral dela, estava surtindo efeito.


— Nossa vez de fazer pressão. Use o Mud-Slap!


Vince percebeu o tamanho do risco que Houndour corria ao ser atingido por aquele golpe. Além do canino ser frágil ao golpe, o efeito colateral que ele poderia causar era o que mais o preocupava. Para sua sorte, seu companheiro era ágil, não tendo problemas para executar o comando de evasiva, evitando o disparo de lama.


Water Gun! — Miriam tentava dar o troco à pressão que havia sofrido pouco antes.


O novo jato de água acertou Houndour no exato ponto para onde ele se esquivou, acertando-o com uma pressão enorme. O cão foi derrubado e arrastado pelo chão por pouco mais de dois metros, fazendo com que Vince pela primeira vez naquela batalha perdesse seu semblante mais calmo. Mas ele não iria ceder naquele momento. O garoto respirou fundo e não deu nenhum comando, apenas aguardando para ver o que Miriam faria.


Tackle, rápido! Antes que ele se levante!


E foi justo quando Mudkip chegou a certa distância que Vince tomou sua ação.


— Desvie agora! Vá para as costas dela!


— Merda, ele esperou pelo ataque! — Miriam deixou escapar seus pensamentos, incrédula.


Quando Houndour chegou ao ponto cego de Mudkip, Vince sorriu triunfante. Era a sua melhor oportunidade naquela batalha, mesmo considerando o tempo em que ele empurrou Miriam contra a parede. Aquela chance não poderia ser desperdiçada.


Fire Fang!


Houndour fincou suas presas na nuca de Niani, que deu um guincho breve e agudo devido à dor.


— Agora você vai ter o que merece — disse o Houndour para sua oponente, sem soltá-la da mordida.


Niani tentou sacudir o corpo, mas não conseguia se soltar do Houndour. Miriam estava atônita, beirando o desespero ao pensar no dano que poderia ter sido causado. Como se já não bastasse a mordida em si, que já tinha sido forte, ainda tinha o fato de ter deixado uma queimadura séria na região atingida. Um verdadeiro estrago.


— Mudkip, aguenta firme! — gritou a treinadora.


— Ainda... não! — a anfíbia resmungava enquanto tentava resistir.


Vince não entendeu quando a submissão parou de repente. Houndour largou a Mudkip e se afastou, como se tivesse sentido algo estranho. Ninguém compreendeu o que estava ocorrendo até que a pequena criatura aquática ficasse envolta por uma luz branca ofuscante. Do pouco que conseguia enxergar, Miriam apenas identificava a silhueta mudando de forma e crescendo em tamanho.


Sua companheira estava mais alta, com uma fisionomia mais forte, e agora era bípede. Niani havia acabado de evoluir.


Miriam encarava perplexa a nova forma de sua companheira. Havia começado a treiná-la há pouco tempo, e por isso nem percebeu o quanto ela tinha avançado. A treinadora acreditava que a Marshtomp estar treinando com companheiros de time mais fortes que ela tenha acelerado o processo.


Mud Shot... — Miriam tinha consigo uma PokéDex que possuía desde sua primeira jornada, ainda em Kanto, que havia atualizado para introduzir as espécies de Hoenn desde sua chegada. — Vamos tentar, então. Marshtomp, ataque com Mud Shot!


— Desvie, Houndour! Feint Attack!


— Ele vai aparecer atrás de você! Agarra ele!


Assim que o canino chegou ao ponto cego de Niani, a Marshtomp se virou rápido para segurá-lo com os braços. Miriam cerrou o punho numa vibração discreta, acreditando que a tática tinha sido um sucesso. Vince, no entanto, não perdeu a calma com a anulação do ataque de Houndour, e continuou a comandar seu ataque.


Fire Fang!


Houndour fincou suas presas flamejantes em um dos braços da Marshtomp, que apesar de ser resistente àquele tipo de golpe ainda soltou um grunhido baixo de dor. Mas, ainda assim, ela não largava seu oponente. Só o faria quando Miriam a ordenasse.


Water Gun!


O jato de água disparado contra Houndour, além da alta pressão, ainda o acertou a queima-roupa. Daquela distância e preso, não havia como desviar. Ele havia sido derrotado.


Vince sacou a Pokéball de Houndour e o retornou. Em seguida, saiu sem dizer nada. Miriam também não estava focada o bastante no garoto para aproveitar a chance de provocá-lo. A garota apenas correu na direção de sua parceira, a envolvendo em um abraço, e logo em seguida se soltando depois de ser repreendida pela companheira por não ter prestado atenção e tocado no local onde havia a queimadura.


— Ai, desculpa! Eu esqueci! — mesmo assim, Miriam colocou as mãos nos ombros da Marshtomp e a encarou com um sorriso radiante. — Mas você foi incrível! Nosso treinamento está começando a dar resultado! Desse jeito não vai demorar muito até que você consiga participar com a gente da Batalha da Fronteira, Niani!


Um breve silêncio se fez no local. As duas ficaram se encarando de perto, olho a olho, sem entender muito bem o que havia acontecido. Niani parecia ter levado um susto, enquanto Miriam a olhava com cara de paisagem.


— Por que eu te chamei assim? — indagou a garota. — Será que eu fiquei doida? E por que eu tenho a sensação de que esse é o seu nome? Marshtomp, seu nome é Niani?


A Marshtomp balançou a cabeça de forma positiva, confirmando a pergunta de sua treinadora. Miriam pareceu mais confusa ainda.


— E como eu soube disso?


— Porque você conseguiu ligar sua mente à dela.


Miriam se levantou em um pulo, assustada com a fala repentina de uma criança que a observava. Quando parou para observá-la, notou que se tratava de um garoto que estava sentado em um dos bancos da praça do ginásio. Ele não era alto, de modo que enquanto estava sentado seus pés sequer tocavam o chão. Ele encarava Miriam com um sorriso sereno, enquanto balançava as pernas.


— Como assim, “ligar a mente”?


O garoto pulou do banco e ficou de pé. Miriam continuou agachada, pois assim ela conseguia se manter na altura do menino. Ele continuou sua explicação.


— Quando um treinador e seu Pokémon criam um vínculo de confiança muito forte, é possível ambos compartilharem seus pensamentos. Como você ainda não tinha percebido nada do tipo, eu posso dizer que o estágio de interconexão de vocês duas é inicial. Você descobriu o nome dela dessa forma.


Miriam arregalou os olhos por um breve momento, parecendo surpresa com aquela revelação. Ela nunca imaginou que algo daquele tipo fosse possível. O menino continuava com a mesma expressão suave. Mas a mais velha fechou sua expressão, agora emburrada.


— Você tá me zoando, né? Olha, menino, eu não quero parecer grossa, mas eu preciso voltar ao Centro Pokémon. Niani tá exausta da batalha que tivemos agora e eu preciso levar ela pra se tratar... E eu disse o nome dela de novo.


— Uma pena, realmente — disse o garoto, com as mãos para trás, enquanto se balançava com as próprias pernas. — Você ia achar interessante que uma conhecida sua adquiriu essa capacidade há pouco tempo.


— Conhecida minha?


— Sim, essa habilidade é raríssima. Só treinadores com muito potencial a possuem. Tanto é que só existiam dois treinadores ainda vivos aqui em Hoenn com essa capacidade. A Roxanne, que você acabou de enfrentar, e o ex-Campeão Drake. No entanto, sua amiga Sapphire conseguiu fazer a interconexão com Dante, o Combusken dela, faz pouco menos de um mês.


Miriam sentiu seu coração quase subir a garganta. Ela voltou a olhar para o garoto, com uma expressão realmente assustada.


— Como você conhece a Sapphire e como sabe que a gente se conhece?


— Eu a vi pela primeira vez em Dewford. E vi que você estava junto dela e mais um garoto da mesma idade.


— E como sabe o nome dela?


— Do mesmo jeito que sei o seu, Miriam. Mas isso é segredo, ainda vai demorar até eu poder te contar.


Miriam não podia estar mais desconfiada. Se tinha uma coisa que trabalhar na Polícia Internacional a tinha ensinado, era a suspeitar de civis que conseguiam dados de outras pessoas com aquela facilidade. Mas sabia que não podia tomar nenhuma medida precipitada. O que estava ao seu alcance naquele momento era apenas vigiar aquela criança misteriosa.


— Já que sabe o meu nome, se importaria de me dizer o seu?


— Claro, seria muito rude de minha parte te negar esse pedido. Pode me chamar de Jiro.


A garota cerrou os olhos, já nem escondia mais a desconfiança. O menino permanecia com a mesma serenidade de quando havia se apresentado, inabalável.


— Nome antigo, hein... — disse a menina. — E bem arrumadinho. Você é de alguma família tradicional daqui?


— Um dia eu te conto, mas hoje ainda é cedo.


— Já vai embora?


— Sim, tenho mais coisas a fazer. Mas não precisa ficar nervosa com o fato de eu saber sobre você e a Sapphire. Eu não vou fazer mal a nenhuma de vocês. Não somos inimigos.


Quando Jiro já se virava para ir embora, Miriam o chamou mais uma vez.


— Espere! Tenho mais uma dúvida.


— Sim?


— Supondo que seja verdade todo esse lance de ligar nossas mentes, ainda tem uma contradição. Niani é uma companheira de equipe recente. Por que eu desenvolvi essa conexão com ela, enquanto minha Nidoqueen e meu Venomoth, que estão comigo há muito mais tempo e estiveram do meu lado quando eu mais precisei, ainda não possuem essa ligação comigo?


Jiro a encarou por um instante. O sorriso sereno do menino agora dava lugar a uma expressão curiosa, pois ele estava intrigado com a vontade de Miriam de saber mais sobre aquele assunto. O menino deu um suspiro, já mostrando para a treinadora que talvez a resposta que viria não fosse do agrado dela.


— Porque isso depende do quanto o treinador está aberto a entender o coração de seus Pokémons. Nidoqueen e Venomoth estiveram sempre ao seu lado. Mas você esteve ao lado deles?


Aquela pergunta acertou Miriam como um soco na boca do estômago. A garota por um momento tentou retrucar, mas sentiu que ia gaguejar e se manteve quieta.


— Miriam, me escute. O que te impediu de criar essa ligação com a Nidoqueen e o Venomoth foi você se fechando. Alguma coisa no seu passado que tenha mexido com a sua cabeça a fez perder a confiança em si própria, ou até mesmo a confiança neles. Não sei o que pode ter sido. Mas a verdade é que ultimamente você tem progredido, você está resolvendo as pendências do passado e retomando o que foi perdido. Por isso você conseguiu estabelecer esse laço com Niani primeiro. Você esteve mais aberta à ela.


Jiro então se virou para ir embora de vez. Já caminhando para a saída da praça, o garoto parou, e ainda de costas para Miriam fez sua última fala.


— Mas a boa notícia é que a primeira ligação é a mais difícil. Agora que você se conectou à Niani, a tendência é que com os outros seja mais fácil. Mas tudo depende de você.


— Entendi — Miriam então fez uma última pergunta. — E você sabe os nomes da Nidoqueen, do Venomoth e do Zangoose?


— Sei sim — disse o garoto. — Mas não vou te contar, até porque te atrapalharia. É quando você descobrir os nomes deles que você vai saber que suas mentes estão ligadas. Agora eu vou indo, mas vamos nos encontrar em breve. Até lá, continue fazendo o que você tem feito.


— E o que seria?


Jiro deu um último sorriso.


— Resolver o que você deixou em aberto. O que mais seria?


E assim o menino caminhou de volta às ruas da grande Rustboro, deixando Miriam a observá-lo curiosa, até que ele desaparecesse em meio à multidão.


• • •


Após deixar seus parceiros sob os cuidados da enfermaria, Miriam se dirigiu à cafeteria que funcionava no prédio para poder comer alguma coisa. Devido ao dia cheio, sua última refeição havia sido o café da manhã antes de sair para batalhar contra Roxanne, mas o outro imprevisto que teve logo em seguida acabou tomando seu tempo e atenção pelo resto do dia.


Faminta, a menina pegava de tudo um pouco para poder suprir todas as suas necessidades, desde as reais como os nutrientes até as mais banais, como seu desejo quase incontrolável de comer alguma fritura, uma sensação de recompensa que ela julgava merecer depois de suportar aquele dia pesado.


Levou a sua bandeja até uma das mesas vazias, que ficava próxima a um televisor suspenso na parede. De início, Miriam não deu muita bola ao que estava passando naquele momento, só viu que parecia ser algum evento ou competição por conta do aspecto de arena do local cercado por arquibancadas lotadas por um público eufórico. Se era algum torneio ou algo do tipo ela não queria saber. Aliás, não queria saber de batalhas por um bom tempo dali em diante.


Mas aos poucos a garota percebeu que os olhares de todos ali estavam voltados para a transmissão, e sem conseguir conter a curiosidade em saber o que estava deixando aquelas pessoas tão vidradas, ela naturalmente se convenceu a prestar atenção ao que estava ocorrendo. Até que percebeu que era um Contest.


Ela reconheceu de imediato a coordenadora que se apresentava naquele momento, pois era a mesma que havia visto em Rustboro, que saiu vencedora no primeiro Contest que Ruby havia disputado. E por falar em Ruby...


— Será que ele está competindo nesse aí? — Miriam sussurrou seus pensamentos enquanto pegava um sanduíche para dar uma mordida. — Esses dois fazem falta...


As apresentações transcorriam um coordenador de cada vez. Miriam notou que uma garota em particular, chamada Vivi Winstrate, tinha vários admiradores. Muito se comentava sobre ela ter estreado na temporada anterior e ter tido ótimos resultados, ainda que por muito pouco não tenha conseguido se classificar para o Grande Festival. Até por isso a treinadora logo entendeu que aquela menina se tratava de uma espécie de estrela em ascensão, e que isso se refletia na popularidade dela que fazia até mesmo a maioria dos presentes naquele refeitório tão longe do evento reagirem com euforia, entre suspiros e vibrações, ao vê-la em ação.


E foi pouco depois da apresentação de Vivi que o momento que Miriam tanto aguardava chegou. A garota se apoiou com os dois braços na mesa para se levantar com rapidez e assistir de pé a apresentação de Ruby.


— Esse garoto...


Miriam ouviu uma voz comentar sobre a aparição de Ruby no contest, e quanto se virou viu que se tratava de Vince, que estava sentado numa mesa próxima. Já desconfiada, a menina resolveu tirar a prova se aquilo era apenas coincidência.


— Você conhece ele?


Vince olhou de relance para Miriam, desconfiado com a repentina curiosidade da garota. Ainda que estivesse sem paciência para puxar conversa, também não se sentia à vontade para provocá-la de novo.


— Não, eu só lembro de ter visto ele quando estive em Mauville pouco tempo atrás. Isso porque eu dei uma surra no time da menina que anda com ele. Foi uma das batalhas mais entediantes que eu tive. Ela apareceu querendo bancar a heroína e eu acabei com aquele time meia boca dela. Fico triste por aqueles Pokémons terem uma treinadora que não dá nem pra chamar de medíocre...


A fala de Vince foi interrompida por um soco na mesa, logo a sua frente, que fez os pratos e utensílios que ali estavam darem um pequeno salto e fazer uma barulheira que chamou a atenção dos presentes. Quando o garoto se virou para cima, viu que aquele braço pertencia a Miriam, que o encarava com um olhar furioso.


— Cuidado com o que você fala deles dois. Você já sabe o que acontece quando tenta arrumar problema comigo, mas se der um pio sobre eles a próxima vez que eu tiver que te educar eu não vou me prender dentro das regras. Eu vou te machucar de verdade.


— Não é porque você me venceu uma vez que eu vou ter medo de você, garota. Tá se achando muito.


Querendo evitar conflito dentro do Centro Pokémon, Miriam apenas deu uma bufada e saiu de perto de Vince. Voltou a se sentar onde estava antes, pois o mais importante para ela era acompanhar a apresentação de Ruby. Ainda que acreditasse que tanto ele quanto Sapphire não gostariam de vê-la tão cedo, a menina ainda nutria certo afeto pelos dois. Sabia que era culpa dela a situação que se criou em Slateport, e por isso não os culpava. Apenas torcia para que o tempo cicatrizasse aquelas feridas.


Miriam foi a única a berrar no refeitório quando a vitória de Ruby foi decretada, atraindo alguns olhares desconfiados dos fãs de Vivi e Emily. Os olhos dela brilhavam ao ver que aquele garoto tímido e sem confiança estava começando a mostrar seu potencial. E ela tinha o ajudado a dar o primeiro passo. Vince só revirou os olhos, sem muita paciência para a empolgação da garota.


Já em seu quarto, ao anoitecer, Miriam organizava a sua bolsa com os suprimentos de viagem, a fim de deixá-la pronta para ir embora de Rustboro logo cedo. Quando a menina se deitou na cama, com os braços cruzados apoiando a cabeça, ficou encarando o teto por um breve momento. Sua cabeça mal tinha controle de seus pensamentos. Ainda pensava naquele contest que havia assistido poucas horas antes.


Se eu conheço bem aqueles dois, eles vão deixar pra sair de Verdanturf amanhã... — pensou.


Miriam se levantou de repente, pegando seu PokéNav que estava na mesinha ao lado da cama. A garota digitou rapidamente no aparelho ao abrir um navegador e acessou o site do Comitê do Grande Festival. Procurou pelos coordenadores cadastrados até chegar ao perfil de Ruby. Ao ver que o garoto tinha duas fitas, Miriam acessou a página do cronograma da temporada para ver o próximo contest de nível 2, e onde seria disputado.


— Fallarbor... Droga, acabei de vir de lá. Mas pelo menos ainda falta bastante tempo para ele acontecer. Talvez eu consiga dar um pulo em Petalburg, desafiar o ginásio de lá e voltar... Será que vai dar tempo?


Miriam se sentou novamente na cama e respirou fundo. Ela se perguntava se era razoável fazer aquilo que ela estava pensando, ou se estava sendo inconveniente. Mas lembrou das palavras de Jiro no encontro com ele mais cedo. “Resolver o que ficou em aberto” e “retomar o que foi perdido” eram as falas que martelavam na cabeça da menina. Ainda conseguia ouvi-las com a voz do garoto, como se ele estivesse ao seu lado. E então ela decidiu que deveria agir.


— Depois ficaria ruim ir pra Dewford. Enfrentar o ginásio de lá ou o de Petalburg, vou ter que escolher um dos dois... Enfrentar ambos ia me atrasar muito, eu não chegaria a tempo do contest em Fallarbor. Preciso voltar lá de qualquer forma porque tem um Cérebro da Fronteira perto.


Ela desligou seu PokéNav e ficou a encarar o chão pensando na melhor opção que tinha. Mas uma coisa era certa: ela estava decidida a voltar pra Fallarbor para se encontrar com Ruby e Sapphire.


— Eles podem pensar de mim o que quiserem, mas eu vou até eles falar o que sinto sobre essa situação toda. Eu só quero que as coisas voltem a ficar bem. E já sei pra onde ir.


• • •


Briney estava varrendo o chão da sua cabana, num raro momento em que o velho se propunha a limpar aquela bagunça característica do seu refúgio. Sua atenção só foi cortada quando ele ouviu batidas fortes e rápidas na porta. Seja quem fosse, estava com pressa.


O ex-marinheiro a princípio ficou desconfiado. As batidas desesperadas nem sempre eram um bom sinal, e com seus anos de experiência na Marinha ele aprendeu a desconfiar de todos e tudo. Foi abrindo a porta devagar para se certificar de que não era nenhuma pessoa suspeita, mas se surpreendeu ao ver quem era.


— Miriam? O que você tá fazendo aqui?


— Tenho uma missão que só você pode me ajudar a cumprir, Capitão — a garota então puxou uma boa quantidade de dinheiro de seu bolso. — Bota bastante gasolina nesse barco que eu preciso chegar em Dewford pra ontem!


FIM DO CAPÍTULO 36


  


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  1. Você não sabe o quanto de vezes que reli esse capítulo só para não perder detalhe nenhum. Eu gostei muito desse capítulo, desde a batalha da Miriam vs. Roxanne até o fim.
    Tenho muitas coisas a comentar sobre o capítulo. Gosto muito de ver as batalhas pela ótica dos Pokémon, o jeito que eles interagem em batalha e como você faz parecer natural. Daí cortamos para aquele Vince que é um amargurado e a Miriam querendo peitar ele e esperando fucking quarenta minutos só para varrer o chão com ele e mostrar a ele um pouco de humildade. A Miriam foi e botou ele no lugar dele com a Niani que era um Pokémon bastante underleveled e pouco treinado, isso sim foi do caralho, ela realmente mereceu a evolução aqui.
    Outra coisa que foi interessante perceber é que eu nunca reparei que os treinadores não sabiam os nomes dos próprios 'mons até a Miri ter se vinculado à Niani o que eu achei incrível. Mas isso me abriu ainda mais questionamentos, ainda mais com o Jiro que é um personagem do qual não me recordo muito e que parece entender os Pokémon e conhecer o verdadeiro nome deles, mas vou deixar esses questionamentos em aberto por que sei que você conseguirá respondê-los ao longo da história.
    Enfim, acho que quero muito ver o que acontecerá a seguir, seja com o Ruby e a Sapphire (que, por sinal está com o atestado de óbito para ser assinado) ou com a Miri a caminho de Dewford para varrer o Brawly no soco.

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    1. Esse capítulo foi uma bagunça organizada, se é que dá pra chamar assim, porque foi tanta coisa acontecendo que qualquer passo em falso e ficaria tudo uma zona kkkkkk Como a Miriam acaba tendo pouco destaque agora que ela está trilhando seu caminho fora do grupo principal, isso acaba acontecendo mesmo.

      E nossa querida já começou varrendo o ginásio da Roxanne sem a necessidade do level cap pra treinadores iniciantes. É uma participante da Batalha da Fronteira, afinal. Ela já está um degrau acima. A Niani na verdade até vinha sendo mais treinada. A Miriam tinha pressa em colocá-la em condições de competir na Fronteira também, mas não muda o fato de que ela está mesmo muito abaixo do nível de exigência de uma competição como essa. Mas além dos treinamentos, outros trabalhos relacionados à dieta e melhora de outras habilidades foram necessárias para colocá-la num estágio que a permitisse se desenvolver mais rápido. Então de qualquer forma a Miriam tem todo o mérito. E isso serviu para alinhar a relação das duas, a evolução foi uma consequência disso, assim como a Miriam descobrir o nome dela. Imagina quando ela tiver essa conexão com o resto do time, onde essa criatura não vai parar... Vai é sentar lá nas nuvens e tomar um café com o Rayquaza!

      Acho que nunca citei isso na história, então fica como um canon não oficial: até tem treinadores que dão nomes pros Pokémons, mas em teoria esses nomes acabam sendo diferentes dos reais por não existir essa conexão entre eles. Ou, em casos raros, o nome é o mesmo, mas é por pura coincidência kkkkkk Mas, tal qual nós que jogamos Pokémon desde sempre, a maioria não coloca nick neles, então isso é refletido aqui também kkkkkk O Jiro seria um bom personagem pra explicar isso. Quem sabe na próxima, já que ele deve voltar muito em breve? Aí vocês já poderão ter algumas pistas sobre ele. :v

      Atestado de óbito? Aqui tem orçamento pra isso não kkkkkkkk Ela vai ser é enterrada como indigente mesmo, talvez nem dê pra reconhecer a cara desfigurada depois que o Wallace trucidar ela. Mas prometo me esforçar pra ter pelo menos uma notinha de 3 linhas no obituário.

      Até a próxima! õ/

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