Postado por : Shadow Mar 16, 2018

Velho amigo

A leste de Rustboro estava localizada a Rota 116, uma estrada de terra no pé da montanha que abrigava o Túnel Rusturf, que recebia esse nome por ligar as cidades de Rustboro e Verdanturf.  Além da vista do grande morro a paisagem era cercada por farta vegetação, o que tornava a vista ainda mais incrível. O tempo era ótimo, um sol forte brilhava, mas o vento corria suave pelo caminho refrescando os viajantes que lá se aventuravam.


Sapphire descansava de sua batalha de ginásio enquanto Camila tentava ajudar Ruby a se entender com seu Pokémon. O menino liberou o Treecko, que tão logo saiu da Pokéball já se virou de costas para o seu treinador. No entanto ele acabou ficando de frente para Camila, que o observou por um momento e deu um sorriso tentando se aproximar dele.

— Que bonitinho! Oi pequenino, como vai? — ela estendeu a mão, mas não obteve resposta do lagarto.

O que essa mina tem na ideia? Ela é doida? — pensou Jeff olhando para ela sem entender nada.

— Os iniciais de Hoenn são uns amores — disse Camila. — Pelo menos o Torchic e o Treecko. Eu ainda não vi o de água.

Sapphire então se lembrou do Mudkip que seu pai tinha lhe dado. Ela havia prometido que encontraria um treinador confiável para cuidar dele. E que cuidaria dele até lá, coisa que não fez.

— Camila, eu tenho uma boa e uma má notícia.

— O que aconteceu? — perguntou a garota confusa.

— A boa notícia é que eu tenho o inicial de água comigo.

— Sério? Isso é fantástico! — Camila então vibrou de emoção, até se lembrar que nem tudo seria tão bom quanto ela imaginava. — Espera, e a ruim?

Sapphire abriu um sorriso sem graça, pois hesitava bastante para admitir seu completo descuido.

— Então... A má notícia é que eu esqueci que ele estava comigo. Tipo, desde que eu e o Ruby saímos da cidade onde recebemos nossos iniciais.

Ruby por um momento quis rir, mas logo percebeu que era tão culpado por aquela situação quanto Sapphire. Ela podia ser descuidada por natureza, mas ele é quem mantinha a ordem no grupo com seu senso de organização e compromisso. Não só isso, mas ter em posse um Pokémon que estava há dias sem receber cuidados e sequer comida era um problema muito sério.

Camila prontamente correu até onde estavam suas coisas, abriu sua mochila e de dentro dela sacou alguns itens com bastante pressa.

— Está esperando o que? Libere o Pokémon logo!

Sapphire jogou a Pokéball do Mudkip, e quando ele se materializou estava deitado no chão, imóvel e com as patas para cima. Não esboçava nenhuma reação. Os três jovens observavam a pequena criatura com um misto de preocupação e nojo, já assumindo que o pior havia acontecido.

— Então... — Ruby resolveu quebrar o silêncio. — Morreu?

Camila aproximou-se cuidadosamente do Mudkip, e tentou tocá-lo com um graveto.

— Waaaaaaaaaaah — o Pokémon repentinamente grunhiu.

— DIVINO ARCEUS QUE ME PROTEGE DO PERIGO! — a garota jogou o graveto para cima e correu para trás de Ruby.

— Acho que está vivo... — disse o garoto enquanto tentava soltar seus ombros das mãos de Camila.

Sapphire rapidamente providenciou água para a criaturinha. Camila revirou a sua mochila procurando por ração, e assim conseguiram alimentar o pequeno anfíbio antes que a situação se agravasse.

Além de Jeff, Dan e Olivia estavam fora das Pokéballs de seus treinadores. O Torchic permanecia isolado, e não dava muita ideia por mais que Olivia tentasse alguma aproximação.

— Relaxa, doçura — o Treecko a envolveu em um de seus braços. — Esse mané é meio biruta das ideias! Vem dar uma volta com o Jeff que eu garanto sucesso.

— Dan, me ajuda... 

Dan respirou fundo, já sem paciência, e resolveu dar fim àquele incômodo. 

— Olivia, não enche. E você — ele então voltou sua atenção para Jeff. — Deixa ela em paz.

Dan caminhou para outro lugar, largando os dois Pokémons de planta sem entender nada. 

— Vai entender, bicho temperamental — Jeff sussurrou.

Após estabilizar a situação de Mudkip, Camila também resolveu liberar os Pokémons que tinha consigo. Ruby e Sapphire se surpreenderam ao ver uma enorme Nidoqueen, que tinha junto consigo um Venomoth. Eram as formas finais de suas linhas evolutivas, o que confirmava que Camila era uma treinadora mais experiente. Os dois, no entanto, apenas se isolaram dos demais, ficando juntos em outro canto da área. 

— São um pouco fechados no começo, mas conforme forem conhecendo vocês melhor eles vão ficar mais à vontade — disse a treinadora enquanto terminava de guardar suas coisas.

Camila então caminhou até o Mudkip e o virou novamente com a barriga para cima. Ruby e Sapphire não entenderam a atitude estranha da menina, até que ela segurou as patas traseiras do Pokémon aquático. 

— Espera um minuto — disse Ruby já fazendo uma expressão de desgosto. — O que você pensa que está fazendo? 

— Já disse que tenho o objetivo de conciliar as carreiras de treinadora e criadora? Pois bem, estou fazendo meu trabalho. 

Camila abriu vagarosamente as patas do Pokémon, deixando seus dois companheiros de viagem perplexos com a cena. 

— Você é doente por acaso? — Sapphire indagou de forma desesperada. 

— Doente eu não sou não, mas olha só. Esse Mudkip é menina! 

— Que constrangimento! — Ruby bateu na própria testa.

— Relaxa, gente! Eu só queria saber o sexo dela. O que vocês pensaram que eu ia fazer?

— A gente pode mudar de assunto? — Sapphire implorava.

Art by: ZandraArt
Sapphire então ouviu algo se mexendo por trás dos arbustos. Imediatamente ela chamou Olivia para perto de si, e caminhou devagar para averiguar a fonte daquela movimentação. Afastou-se de Ruby e Camila, e quando chegou perto do lugar de onde vinha o som, deparou-se com uma criatura peculiar.

Era um pequeno ser quadrúpede, com bastante pelos. Sua coloração era marrom por todo o corpo exceto a ponta da cauda e em volta do pescoço, que possuíam uma coloração mais próxima a creme. Suas orelhas eram compridas e estavam erguidas, sinal de que a criatura estava tentando prestar atenção em algo.

— Quem diria que eu ia encontrar um Eevee logo aqui? — Sapphire sorriu e logo fez um sinal para sua Shroomish se preparar para entrar em combate. — Parece que hoje é o meu dia de sorte!

Sapphire então mostrou-se para o pequeno Pokémon, mas se surpreendeu ao ver que na mesma hora um garoto da sua faixa de idade apareceu do outro lado. Ele possuía um aspecto frágil, e não parecia ser grande coisa. Seus cabelos verdes eram um pouco bagunçados, e suas roupas eram bem fechadas, o que fazia a menina se perguntar como ele não sofria com o calor de Hoenn.

O menino não demorou muito a perceber que Sapphire tinha a intenção de pegar o Eevee para ela, e logo entrou em desespero.

— Por favor, me deixe explicar! — ele chamou sua atenção. — Eu sei que o Eevee é um Pokémon raro, e você está tentando capturar, mas eu estou perseguindo ele desde o começo da rota! Eu sou um treinador novato, e ainda estou tentando montar o meu time para enfrentar o meu primeiro ginásio...

Enquanto se encaravam os dois sequer notaram que o Eevee havia sumido de vista. Sapphire sequer sabia o que dizer naquela situação, pois nunca imaginou que um dia tivesse que lidar com algo parecido. Foi salva de ter que improvisar uma frase quando Ruby e Camila chegaram logo atrás.

— Sapphire, o que aconte... — Ruby interrompeu a própria fala ao se surpreender com o garoto a sua frente, e então sussurrou — Ah não...

— Ruby, que bom ver você! — o menino correu para cumprimentar o moreno. — Quem diria que eu ia encontrar você aqui? 

Camila e Sapphire observavam a cena curiosas, e olhavam para Ruby como quem esperava uma explicação. Sentindo que não tinha escolha, o garoto resolveu apresentá-las o seu conhecido. 

— Meninas, este é o Wally. Um amigo meu de lá de Johto. Mas ele já mora aqui em Hoenn há um bom tempo — ele virou-se para o menino, e resolveu ignorar o fato de que ele parecia ligeiramente desconfortável. — Wally, estas são Sapphire e Camila, duas treinadoras que conheci há pouco tempo e que estão viajando junto comigo.

As meninas o cumprimentaram, e Wally apenas acenou com a cabeça de forma tímida. Antes que o menino pudesse dizer algo, ele olhou a sua volta, dando por falta de algo.

— Onde foi parar aquele Eevee?

• • •

Drake estava em sua sala no prédio da Elite, verificando alguns documentos sem tirar os olhos do mesmo. O retrato na parede trazia de volta tempos antigos, onde ele ainda jovem posava ao lado de seus Pokémons segurando um troféu. Lembrava com satisfação daqueles tempos, e agora apenas contava os dias para se aposentar. Queria terminar a sua carreira por cima, mantendo seu renome como um dos treinadores mais temidos de Hoenn.

Despertou de seu transe ao ouvir batidas na porta. As pessoas que lá trabalhavam sabiam que o velho não gostava de ser incomodado, logo ele imaginou que poderia ser algo importante.

— Entre. 

Da porta surgiu Wallace, o que imediatamente fez Drake se levantar de onde estava sentado para prestar o devido cumprimento.

— Não precisa disso tudo, Drake — explicou Wallace. — Por que não me trata com menos formalidade? 

— Porque um tratamento tão íntimo não combina com o cargo que o senhor ocupa.

— Sinceramente, você gostava de ser tratado como um ser superior quando era o Campeão? 

Drake fez um breve silêncio. Parecia não ter como contra-argumentar Wallace. O homem então caminhou de volta ao local onde estava, sentou-se e colocou os pés cruzados acima da mesa. Abriu uma garrafa de licor e lá ficou. 

— Eu odiava essa porcaria — ele então abaixou a aba de seu chapéu, de forma que seus olhos não pudessem mais ser vistos. 

— Eu prefiro você assim — disse Wallace. — Apesar de eu não achar adequado beber no trabalho... 

— Bom, nada é perfeito.

Wallace apenas riu. Drake podia não ter os melhores modos, mas era um homem bastante competente, e sua lealdade à Elite era inquestionável. Mas o Campeão logo mudou sua expressão para uma mais séria.

— O que eu vim falar com você é um assunto um pouco delicado. É uma tarefa que eu preciso que você faça. 

— Não pode ser outro membro? — o velho questionou. 

— Acredito que isso é mais do seu interesse.

Drake decidiu deixar o desleixo de lado, e se acertou em sua cadeira para ouvir com mais atenção o que Wallace tinha a dizer. O mais jovem jogou para trás seus cabelos azulados e explicou a situação. 

— Recebi um contato dos draconids. A líder da tribo me informou que a Guardiã desapareceu, e que provavelmente isso está mais para uma fuga do que um sequestro.

— Eu não sei, mas isso pode se tornar um problema muito sério se não for resolvido logo. Eu sei que você tem um passado com os draconids, então por isso eu pensei que você estaria mais apto a realizar essa tarefa, que é buscar a Guardiã e levá-la de volta em segurança para sua tribo.

Drake massageava as têmporas de forma agressiva. Era visível a condição de estresse sob o qual havia se colocado. Apesar de já ter ouvido histórias de uma herdeira do posto de Guardião desobediente, não imaginava que a situação pudesse chegar a um ponto tão crítico.

— Com certeza não foi sequestro. Essa garota tem um parafuso a menos. 

— Vai atrás dela? — perguntou Wallace. 

— E que escolha eu tenho? Não posso deixar essa menina andando por aí. Ela deve ficar com os draconids, ou pode haver um desequilíbrio na ordem natural das coisas. Quando o garoto que venceu a Liga vem nos desafiar?

— Na sexta-feira. 

— Então diga aos draconids para aguardarem até lá. Assim que resolvermos esse problema eu vou iniciar as buscas.

• • •

O trio estava sentado no mesmo local de antes, mas agora acompanhados por Wally. O menino fazia diversas perguntas a Ruby, ao mesmo tempo que explicava o que mudou desde que chegou a Hoenn. Há muito tempo não se viam, e ele queria colocar a conversa em dia.

— Me diz uma coisa — Ruby agora mantinha um tom de preocupação. — Como sua família deixou você sair em uma jornada, e sozinho ainda por cima? Porque você sabe...

— Se está falando da minha asma, eu já consegui me tratar. Óbvio que ainda não tenho tanta saúde quanto outras pessoas por conta do tempo que levei me tratando, mas hoje eu estou livre de riscos.

Wally então tirou uma Pokéball de seu bolso e a acionou, revelando uma pequena criatura que ele trazia consigo. Era um Ralts, Pokémon nativo da região de Hoenn, porém encontrado em outros lugares. 

— Estive em Petalburg para te visitar quando soube que havia vindo pra cá, mas seu pai me disse que você já havia partido dois dias antes. Ele me ajudou a capturar este Ralts e fazer dele meu primeiro Pokémon, já que o laboratório de Littleroot estava sem nenhum que pudesse ser entregue a um treinador iniciante. 

— Ele parece ser interessante — Ruby analisava o pequeno Pokémon de cima a baixo, estudando cada detalhe. 

— Ele é bem calmo, mas tem algumas habilidades interessantes. É do tipo psíquico. 

— Mas você pegou a sua licença de treinador? — Sapphire questionou. — Sem ela você não pode reservar quartos de graça no Centro Pokémon, por exemplo. 

— Sim, como eu já tinha o Ralts comigo o tio Norman me levou até o laboratório para tirar a licença. Lá eles me falaram sobre você também. Disseram que tinha partido junto com o Ruby. 

— Está mais para o contrário — disse o coordenador expressando lamentação. — A ideia foi dela. 

— Mas você queria, do contrário não teria aceitado — Sapphire rebateu.

O garoto acenou positivamente com a cabeça, enquanto dava um sorriso sincero. Wally compreendia que seu amigo estava preocupado, embora ele jamais admitisse isso.

— Agora uma coisa que me deixou curiosa foi o fato de você estar perseguindo um Eevee — comentou Camila. — Até onde eu sabia eles não habitavam Hoenn. 

— O fluxo migratório de treinadores de várias regiões tem aumentado nos últimos anos — Sapphire explicava, tomando para si a atenção dos três. — Da mesma forma que muitos treinadores daqui saem para disputar as ligas de outras regiões, muitas pessoas de longe estão vindo competir na Liga de Hoenn. Devido a isso algumas espécies de outros lugares acabaram proliferando por aqui. Há dez anos realmente não existiam Eevees em Hoenn, hoje eles são bem comuns nessa rota. 

— Eu ouvi falar nisso — disse Wally. — De qualquer forma eu ainda não desisti dele. Só tenho o Ralts por enquanto, e preciso montar uma equipe forte para começar a coletar minhas insígnias.

Sapphire ao ouvir aquilo ficou animada. Já conseguia imaginar Wally como futuro adversário na Liga Pokémon.

— Quer dizer que vai competir na Liga então?

— Sim, estou em Rustboro para enfrentar o ginásio da Roxanne e conseguir minha primeira insígnia — disse o menino.

Sapphire sorriu disfarçadamente, caminhou até sua mochila e de lá tirou seu case de insígnias. Abriu o objeto e mostrou a Insígnia da Pedra que havia conquistado.

— Isso aqui é uma lembrancinha de quando fui ao ginásio ontem — a garota estufava o peito orgulhosa.

— Uau, então você já conseguiu derrotar a Roxanne? — Wally estava maravilhado, não tirava os olhos daquela insígnia brilhante. — Sapphire, você parece ser uma treinadora incrível.

— Ah, isso não foi nada!

— Essa garota precisa de um chá de humildade — Ruby resmungou, fazendo Camila rir.

A conversa se estendeu por mais alguns minutos, quando Wally se levantou e pegou suas coisas. 

— Preciso voltar a procurar aquele Eevee. Mas se vocês estiverem hospedados no Centro Pokémon nós podemos nos ver mais tarde. Boa sorte no treinamento de vocês.

Wally se despediu dos três viajantes e voltou para dentro da mata a procura do Pokémon que havia escapado. Sapphire voltou a se recostar no tronco de alguma árvore para aproveitar o seu dia de folga, enquanto Camila e Ruby começavam a acertar os problemas que o menino possuía para que ele pudesse iniciar seus treinamentos para o contest que aconteceria em poucos dias.

O garoto se colocou frente a frente com seu Treecko, que não parecia muito animado para interagir naquele momento. Ruby olhou para Camila, que acenou de forma positiva, e então voltou sua atenção para o pequeno réptil, estendendo a mão para ele.

— Sei que não começamos muito bem, e eu ainda não sei o motivo, mas estou disposto a conhecer você melhor para que possamos entender melhor um ao outro. O que me diz?

Jeff observou seu treinador por um breve momento, até que cedeu e apertou a mão dele com sua pata dianteira, indicando uma breve trégua.

— Ótimo, parece que temos um começo — afirmou Camila. — Me diz uma coisa, você só tem o Treecko mesmo?

— Sim, apenas ele.

— Então acho que está na hora de ampliar sua equipe.

Os dois começaram a procurar algum Pokémon que pudesse se encaixar na equipe de Ruby. Eles foram para dentro das árvores, tendo que encarar a grama cuja altura batia em suas cinturas. O garoto estava bastante desconfortável com aquela situação, pois temia que pudesse ser atacado por alguma criatura mais agressiva.

— E se tiver algum Pokémon venenoso esperando para dar o bote? 

— Não existem Pokémons venenosos nessa rota, seu fresco! — Sapphire berrou da beira da estrada. — Agora vai logo fazer o seu trabalho e completa esse time!

— Não foi ela que disse que não existiam Eevees aqui antes? E agora existem! — o garoto resmungava. — Eu não tenho plano de saúde, quero ver o que ela vai fazer pra poder pagar minha internação. 

— Fica calmo, Ruby — Camila tentava passar segurança ao amigo. — Eu sei como lidar com essa mata mais fechada. Não vou deixar nada de ruim acontecer, confia em mim.

Ainda contrariado Ruby deu a mão a Camila, que o puxou para dentro dos arbustos. Sutilmente a menina deixou que o amigo caminhasse na frente enquanto ela segurava um galho quebrado. Com um sorriso maligno a garota passou levemente a ponta do objeto entre as pernas do menino, que deu o berro mais alto que podia, se agarrando à primeira árvore que apareceu em sua frente. 

— CAMILA, ALGUMA COISA PASSOU ENTRE AS MINHAS PERNAS! — ele estava em pânico, agarrando a árvore com força como se fosse sua própria mãe.

A menina então começou a rir, e logo mostrou o objeto que segurava. Ruby ficou vermelho, tanto de vergonha como de raiva, arrancou o galho da mão da amiga e o quebrou com o joelho. 

— Muito engraçado! Vocês não amadurecem mesmo!

— Desculpa, não deu pra evitar! — disse a garota enquanto gargalhava com a cena.

— Você vai me ajudar ou não? 

— Ok, ok, não precisa de tanto estresse!

Poucos passos foram dados para a frente, até que Ruby parou de forma brusca e se virou para Camila esbravejando novamente.

— Eu já falei pra parar!

Camila com uma expressão confusa em seu rosto apenas levantou os braços, mostrando que não havia mais nada em suas mãos, no mesmo momento em que o garoto sentiu novamente algo se arrastando entre suas pernas.

Ao notar que a menina não tinha culpa de nada, Ruby correu desesperado de volta para a estrada, dando berros de socorro que assustaram Sapphire. Camila veio logo atrás, também preocupada com o que poderia haver ali.

— O que aconteceu? — Sapphire se levantou com o susto.

— Alguma coisa realmente passou pelas minhas pernas! — Ruby berrava enquanto se escondia atrás da amiga.

— O que aconteceu? — Camila saiu dos arbustos preocupada. — Ruby, se isso for alguma vingancinha sua eu vou te dar uma surra!

— Eu não estou brincando, droga! Passou algum bicho perto de mim, eu tenho certeza!

Logo atrás dos dois surgiu um pequeno Pokémon felino, de pelagem rosada e um sorriso travesso. A criatura correu para perto de Ruby e começou a se esfregar nas pernas do garoto, acariciando-o. 

— Nossa, que monstro — disse Sapphire com tom de ironia, enquanto Camila tentava segurar o riso. — Esse aí com certeza deve ser venenoso. Chamem as autoridades!

Ruby caminhou para o outro lado da estrada, mas o pequeno Pokémon o seguia. Não importa aonde fosse, não conseguia se livrar da criaturinha inconveniente. Já estava prestes a perder a paciência. 

— O que eu faço? 

— Aceite o seu destino, agora você é a mamãe desse Skitty — Sapphire se satisfazia a cada oportunidade de zombar do garoto.

— Skitty, é? — Ruby agora olhava o pequeno ser de cima, sendo encarado de volta. 

O garoto pegou o Pokémon e o ergueu sobre sua cabeça. Ficava olhando a cara travessa que sorria para ele, e logo sorriu de volta. 

— Até que você é uma fofura. Vai ser uma grande estrela de contests! 

— Vai ficar com ele? — indagou Sapphire. 

— Ela — Camila interrompeu a conversa, ajeitando os óculos. — É menina. 

— Camila, você já cogitou se internar em um hospício? — Ruby agora a olhava com cara de nojo, ignorando os argumentos dela de que aquilo era "ciência". — Sim, eu acho que vou ficar com ela.

O garoto paparicava bastante a pequena Skitty, causando surpresa nas meninas. Afinal, ainda não o tinham visto se dando tão bem com um Pokémon antes. Era provável que a vitória de Sapphire no ginásio de Rustboro tivesse causado algum impacto nele, o deixando motivado a melhorar também.

— Notou algo de diferente nele? — Sapphire perguntou. 

— Sim, e acho que podemos tirar proveito disso — Camila sorria ao analisar o afeto quase instantâneo do menino com sua nova companheira. — Podemos usar essa personalidade mais aberta da Skitty para criar uma ponte entre o Ruby e o Treecko.

— Acha que ela e o Treecko vão se dar bem? 

— Acredito que sim.

Começava a entardecer quando resolveram voltar para Rustboro. Ruby teve um primeiro dia de treinos voltado para construir uma relação inicial com seu time, especialmente no sentido de eliminar a desconfiança que havia entre ele e o Treecko. Camila o auxiliava, passando sua experiência como treinadora para que ele pudesse entender que tipo de abordagem funcionaria melhor em cada situação.

Ao chegar ao Centro Pokémon os três entregaram seus Pokémons aos cuidados da enfermaria, e subiram para os quartos que haviam reservado. Após um banho revigorante Ruby desceu até o refeitório do local, enquanto as meninas ainda se arrumavam. Já era noite quando chegou ao saguão. Wally estava entrando naquele exato momento.

— Boa noite, Ruby. 

— Boa noite — ele respondeu com um aceno. — Como foi o treinamento durante a tarde? 

— Foi muito proveitoso. Sinto que estou quase preparado para enfrentar o ginásio. Ainda vou ter que ficar na cidade mais uma semana, pois perdi a última prova de seleção. Mas pelo menos já consegui ampliar a minha equipe, e estamos começando a nos entender melhor. 

Wally sacou uma Pokéball dos bolsos e a mostrou para Ruby. Era o Eevee que ele havia passado o dia procurando. Tinha conseguido a captura já no final do dia, mas estava feliz por ter sido um bom treinamento de resistência para o menino e seu Ralts.

— Já tem em mente para qual evolução você vai treiná-lo?

— Ainda não. Prefiro que seja algo para eu e ele decidirmos juntos. Mas tenho certeza de que vamos chegar a um consenso. Até porque eu vou dar prioridade à vontade dele. Meu dever como treinador é adaptar o time para que todos os membros se sintam confortáveis para batalhar do jeito que gostam.

Aquelas palavras ficaram presas na cabeça de Ruby. Wally tinha razão. Talvez a melhor coisa que pudesse fazer era dar aos seus Pokémons a liberdade de se expressarem, e tentar desenvolver as estratégias de acordo com suas preferências. Era o que Camila vinha dizendo a ele há algum tempo, mas ainda não tinha assimilado essa necessidade. Se der ouvidos aos seus companheiros de equipe, pode ser que o oposto também comece a acontecer.

— Wally, graças a você eu acho que comecei a entender algumas coisas que estavam me causando dúvidas — Ruby colocou as mãos nos ombros do amigo, mostrando um brilho confiante em seus olhos. — Talvez agora eu tenha a solução para meu maior problema!

— Bom... De nada, eu acho...

O garoto desejou boa noite ao seu amigo e caminhou de volta para seu quarto. Lá chegando, pegou de dentro de sua mochila um caderno onde começou a fazer algumas anotações. Assim ficou até tarde da noite, quando caiu no sono sem ao menos preparar a cama para dormir.

E assim passou o resto da noite, abraçado ao caderno e com um sorriso triunfante no rosto, como quem agora tinha respostas que poderiam ditar o início de uma escalada que só poderia dar bons frutos no futuro. Ruby agora sabia bem o que fazer, e só precisava dali em diante encontrar a melhor maneira de fazer aqueles pensamentos se tornarem realidade.

Ele só precisava trabalhar para tornar a vitória possível. Estava começando a descobrir como pensar como um coordenador. Dali em diante seria aliar essas ideias a trabalho duro para obter sucesso. O contest que se aproximava já não era tão assustador quanto antes.

FIM DO CAPÍTULO 9

  

{ 10 comments... read them below or Comment }

  1. AAAAAAAAAAAAAA

    Gostei do Capitulo (como sempre)

    Não tenho mais nada para comentar, acho eu...
    Só avisando que já li (aviso inútil, mas melhor que não comentar nada) :v

    <3 obrigado pelo seu tempo gasto lendo este comentário chato

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    1. Não precisa se preocupar em fazer comentários imensos. Claro que eu curto receber esses, mas o mais importante é o pessoal lendo e dando o feedback para eu poder ver como a história está andando.

      Fico feliz que esteja gostando. Agora daremos uma pausa na história, mas assim que ela voltar você ficará sabendo lá pelo grupo. :)

      Até breve! õ7

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  2. "— Vai ficar com ele? — indagou Sapphire.

    — Ela — Camila interrompeu a conversa, ajeitando os óculos. — É menina.

    — Camila, você já cogitou se internar em um hospício? — Ruby agora a olhava com cara de nojo, ignorando os argumentos dela de que aquilo era "ciência"."

    A Camila é a melhor personagem da Aliança SIM! Rainha da Aliança!

    Meu, que capítulo maravilhoso! Tudo equilibradinho, a necessidade do treinamento, novas capturas, a apresentação de um rival... Tudo dosado, da maneira certa! Sem falar, claro, nas primeiras movimentações da Elite 4 de Hoenn, que é uma das mais maravilhosas dos jogos! Fico contente de que AeH tem prosseguido dessa maneira, sem pressa pra caminhar a história e trabalhando tão bem os personagens. Que você poste logo o 10, porque quero MUITO continuar me deliciando nessa jornada. O ruim de acompanhar semanalmente/quinzenalmente é a espera até o próximo update da jornada, ainda mais quando você vive ansioso! Kkkk

    Continue com o excelente trabalho!!!

    See ya!

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    1. A Camila é uma personagem amável, apesar das suas loucuras. Eu gosto muito quando os leitores mostram carinho por ela, porque realmente é uma personagem muito especial, mas que nem sempre recebeu a atenção que merecia — e eu digo isso de minha parte mesmo.

      Esse foi mais um capítulo para ligar dois pontos distintos do arco de Rustboro. Fechamos a batalha de ginásio, e agora damos início ao contest do Ruby. E uma boa maneira de fazer isso foi dando atenção à necessidade dele treinar, até porque ele ainda está muito atrás da Sapphire e da Camila, e o desafio dele se aproxima. É hora de correr atrás!

      Também estou ansioso para começar a escrever o capítulo 10, mas de segunda que vem não passa. Vou tentar ser paciente até lá.

      Valeu pela presença aqui, meu parceiro! A gente vai se falando.

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  3. Bem que você comentou que pensava que eu já tivesse lido esse capítulo, eu li só o comecinho da cena do Mudkip morrendo kkkkk Ficou muito comédia! Cara, é a primeira vez que vejo um Criador Pokémon que realmente ATUA como um criador. Foi no mínimo cômico imaginar a Camila examinando os Pokémon porque você também explora a visão deles, então imagina como seria se ela tivesse tentado com o Dan ou Jeff HAHA

    Wally sempre escolhendo as palavras certas. Quero ver se você vai torná-lo aquele oponente à altura da Sapphire para a Liga, porque ele é um dos poucos rivais que levei anos para me tocar que era um... rival kkkkk Mas vai ser bacana, ele tem um entrosamento mais forte com o Ruby do que a Sapphire, por isso é sempre interessante vê-lo dando as caras no grupo. Por sinal, uma Skitty apaixonada será uma excelente adição para o time kkk Gosto de capítulos que seguem esse ritmo mais tranquilo, suas descrições e momentos inusitados com um pouco de humor continuam ótimos. Agora força que esse Capítulo 10 precisa sair! :D

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    1. É verdade! Acho que foi por isso mesmo que eu tive essa impressão. A Camila faz tudo pela ciência! Mas de fato, se tivesse sido o Dan ou o Jeff nessa história as coisas iriam terminar de uma maneira bem mais... Como posso dizer? Emocionante?

      Trabalhar com o Wally sempre me pareceu complicado, mas eu com certeza vou tentar torná-lo um personagem mais presente na história. Tanto que tem aquele detalhe que você e o Dento sabem, mas o pessoal só vai descobrir no próximo capítulo!

      Skitty é o símbolo de fofura da terceira geração! Não tem como passar despercebida. Mas vamos ver se essa paixonite dela pelo Ruby não acaba atrapalhando os planos dele nos contests, não é mesmo?

      Capítulos tranquilos também me agradam, ainda mais depois da adrenalina da batalha no ginásio da Roxanne! Depois de tanta apreensão, achei que era válido um descanso pra Sapphire e um momento mais voltado para o Ruby.

      Pode deixar que esse 10 vai sair! Quero sentir de novo aquela sensação de completar as dezenas de capítulos!

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  4. Cara, já é a terceira vez que tento comentar,espero que não falhe.

    Tô gostando desse desenvolvimento, a entrada de Wally aqui trouxe bons ares e Ruby baixando a cristã para pedir ajuda a Camila foi ótimo de ver.

    Por enquanto está muito agradável de ver o desenvolvimento, e espero que fique cada vez melhor!

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    1. Eu entendo bem como é fazer um comentário inteiro pra depois dar erro no envio. Por isso eu sempre tomo a precaução de copiá-los antes de publicar. Pelo menos assim eu não passo raiva kkkkk

      Wally vai ser um personagem interessante nessa história. Vai ser um ótimo motivador tanto para o Ruby quanto para a Sapphire, já que eles também serão rivais na Liga.

      Ruby já começa a se preparar para o contest do próximo capítulo. Não sei se vai adiantar algo, porque ele começou a treinar muito tarde, mas uma hora ele ia ter que começar.

      Até a próxima!

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  5. Oi Shadow!

    Tenho que confessar que este foi um dos meus capítulos preferidos! Apesar de simples, sinto que houveram momentos muito importantes: tivemos a primeira captura de Ruby, o primeiro aparecimento de Wally, a Camila a ajudar Ruby e este a desenvolver um melhor relacionamento com os seus pokemon!

    Simplicidade. Acho que foi isso que mais gostei neste capítulo. Nada de grandes combates nem descrições muito detalhadas. Um grupo de amigos a conversar, trocar ideias, a ajudarem-se uns aos outros. That's bootiful :')

    Sinceramente, estou num mood em que se a fic fosse um livre ou jã tivessem disponíveis todos os capítulos até ao fim, devoraria num instante!

    Continue assim Shadow! :D

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    1. Foi um capítulo feito para ser uma ligação entre a batalha de ginásio da Sapphire e o contest do Ruby mesmo. Não queria que um evento acontecesse imediatamente após o outro, pois isso acabaria deixando a história muito corrida. Então aproveitei a brecha para incluir novos personagens, como o Wally e a Skitty do Ruby, que vocês vão conhecer melhor em breve.

      Não vai sair um livro de AEH, mas que dava pra fazer um contando meus anos trabalhando com essa história dava kkkkk Eu já comentei isso com outros membros do grupo, mas eu fico impressionado com essa sua habilidade de maratonar os capítulos das histórias! Você já fez isso em Johto anteriormente, depois em Kalos, e agora em Hoenn! Eu queria ter essa capacidade, ia tirar os atrasos das histórias que eu leio rapidinho kkkk

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