Capítulo 36
Retomar o que foi perdido

A batalha feroz que se seguia no
ginásio de Rustboro estava próxima de seu desfecho. A Nidoqueen de Miriam
conseguiu segurar os ataques de quase todo o time de Roxanne, mas havia sido
derrotada pelo recém-evoluído Probopass da líder.
A desafiante se encontrava em uma
encruzilhada. Suas opções restantes eram muito arriscadas. Venomoth se fosse
acertado por um golpe do tipo pedra não resistiria, ainda mais por vir de um
Pokémon do mesmo tipo. Zangoose não tinha nenhum golpe que pudesse ser efetivo,
e Mudkip ainda estava abaixo do nível.
Ela decidiu por sacar a Pokéball de
Shin. Apesar do risco elevado, ainda era sua melhor escolha naquele momento.
— Por favor, tome cuidado — ela
sussurrou para a Pokéball antes de lançar seu companheiro a campo.
A mariposa se materializou na
arena, com a enorme bússola o encarando para ver como seu novo adversário
agiria. Mas Shin era igualmente paciente.
— Então você é o Hans? — o Venomoth
perguntou. — Não é à toa que você conseguiu derrotar Maggie. Você é bom mesmo.
— Então já ouviu falar de mim? — o
Probopass perguntou, curioso.
— Um velho amigo que batalhou
contra vocês uns meses atrás nos contou sobre sua força. Sabemos que você é
experiente. Mas eu sou bem paciente, não ache que vai tirar vantagem de uma
impulsividade que eu não tenho, diferente da Maggie e do Dante.
— Então foi o Dante quem te contou
sobre mim... — disse o Pokémon rocha relembrando sua batalha contra o time de
Sapphire. — Estive com ele há algumas semanas. Ele agora é um Combusken e
parece bem mais forte e maduro do que quando eu o conheci.
— Então ele evoluiu... É bom saber
que eles estão ficando mais fortes, nós queremos batalhar contra eles na Liga.
E pra isso o primeiro passo é te derrubar aqui e agora.
— Então venha, estou esperando.
Você pode não ser impulsivo como os outros, mas não muda o fato de que é você
quem precisa da insígnia.
Shin conseguia notar que o
Probopass era lento. Mesmo assim tinha informações suficientes sobre Hans para
saber que aquilo pouco importava, ou melhor, só era motivo para ser mais
cauteloso do que o normal. Sua intuição dizia para manter distância. Miriam
parecia pensar o mesmo, então ela logo deu o comando para que o Venomoth usasse
o Psychic.
Mesmo tendo conseguido lançar Hans
para longe e golpeá-lo com toda a força arremessando-o no chão, Shin não
percebeu que seu adversário aguentou o ataque e ao mesmo tempo colocou seu
plano em prática. Foi ao sentir pequenas vibrações vindas do chão que o inseto
conseguiu se esquivar voando para o outro lado, enquanto rochas brotavam do
solo no entorno de onde ele estava antes. Um segundo mais tarde e ele teria
sido pego pelo Rock Tomb, o golpe assinatura do membro mais poderoso do
time de Roxanne.
A líder de ginásio não teve nem
tempo de aceitar que seu plano final falhou. O Venomoth fez um voo rasante ao
redor de Hans, banhando-o com um manto de esporos que fez a criatura rochosa
perder a consciência. Pego pelo Sleep Powder, não tinha mais nada a se
fazer naquela altura. Mais um ataque com Psychic foi suficiente para
finalmente romper aquela muralha que se colocava entre os desafiantes e sua
primeira insígnia.
Quando o juiz da batalha finalizou
o confronto, tanto Roxanne quanto Miriam retornaram seus parceiros. A líder
caminhou até a mais nova já com a insígnia em mãos, e cumprimentando a
desafiante com uma sutil reverência a entregou o objeto.
— Por você ter andado junto com a
Sapphire naquela época eu acabei acreditando que você também era iniciante.
Estranhei quando você disse que não precisava nivelar os times, mas agora
entendo a razão. A força dos seus companheiros é assustadora.
— Eu já achava você uma excelente
treinadora quando a vi enfrentar a Sapphire, mas eu realmente não estava
esperando que fosse ser tão difícil assim. Não é de se admirar que muitos
sequer conseguem se classificar pra Liga.
— Obrigada pelos elogios. Acredito
que com essa capacidade que você tem, não terá problemas enfrentando os outros
líderes.
Enquanto Miriam e Roxanne
terminavam a conversa dentro da arena, uma outra pessoa acabava de chegar na
porta do ginásio. O rapaz de cabelos pretos mostrou na portaria o atestado de
aprovação que havia tido no exame de admissão.
— Muito bem, deixa eu conferir aqui
no sistema... — a recepcionista do ginásio pesquisava nas planilhas os dados do
desafiante. — Ok, acho que encontrei. Vince, é isso mesmo?
— Sim — disse o rapaz, em seu tom
seco habitual, deixando a mulher desconfortável.
— Certo... Vou comunicar a sua
chegada à senhorita Roxanne. Ela acabou de terminar um confronto. Provavelmente
você vai precisar esperar alguns minutos para que ela possa encaminhar seu time
para a recuperação, mas assim que possível ela irá atendê-lo para que possam
prosseguir com o seu desafio.
Vince fez apenas um breve aceno com
a cabeça, indicando que havia compreendido todas as informações. Ele agarrou a
alça transversal de sua mochila e caminhou até a porta que dava para a arena.
Ao virar o corredor ele trombou com
Miriam. O impacto forte entre os ombros dos dois treinadores foi o suficiente
para tirar o garoto do sério.
— Presta atenção, porra! — a
agressividade do seu tom de voz já subia. — Tá olhando pra onde?
Miriam sentiu uma veia no seu
pescoço pulando. Ela tinha um ponto fraco: não lidava muito bem com grosseria.
A garota, que até então estava sorridente com a conquista de sua insígnia, tão
rápido fechou a cara e começou a encarar aquele garoto arrogante como se lhe
desse uma sentença de morte.
— Tá pensando que é quem pra falar
assim comigo, moleque? — sem se intimidar, ela andou de volta até Vince até que
os dois ficassem frente a frente e com seus rostos próximos, olho a olho, numa
competição para ver quem se sentia intimidado primeiro.
— Então vai vir pra cima mesmo? — o
volume da voz do rapaz diminuiu, mas Miriam sabia que aquilo não era um sinal
de que ele estava cedendo, e sim de que estava se segurando para não explodir.
— A sua sorte é que minha batalha com a líder de ginásio está agendada para
agora, senão eu ia te destruir aqui mesmo.
— Não seja por isso — disse a
garota, mantendo o mesmo tom. — Termina aí a sua batalha que eu vou te esperar
lá fora. E aí a gente vai ver quem vai ser destruído.
• • •
A batalha durou pouco mais de
quarenta minutos. Vince saía pela porta da frente, ainda com a insígnia na mão
e um sentimento de triunfo. Mas o garoto se surpreendeu ao ver que Miriam ainda
o aguardava na entrada do ginásio. Ele pensava que a garota aproveitaria a
oportunidade para fugir, mas lá estava ela, olhando-o fixamente como se
estivesse focada em uma presa.
— Você tem até o final da tarde
para recuperar seu time no Centro Pokémon. A gente se encontra aqui no início
da noite.
— Não vai ser necessário — Vince
largou a mochila no chão, próxima a ele, já sacando sua Pokéball. — Tenho um
Pokémon que ainda não batalhou. Podemos fazer um contra um, já vai ser o
suficiente pra você se arrepender de não ter sumido quando teve a chance.
— O único favor que eu te peço é
que você faça pelo menos o mínimo pra me convencer de que você não é só
conversa — Miriam sacou sua Pokéball enquanto dava um suspiro. — Tem certeza de
que quer um contra um?
— Certeza — falou o rapaz, sacando
sua Pokéball. — É só o que eu preciso pra te ensinar a não desafiar alguém com
quem você não é capaz de lidar. Houndour, saia!
O canino preto tomou forma ao ser
chamado por seu treinador, já preparado em posição de ataque. Miriam observou o
Pokémon que estava em sua frente. Apenas com um breve olhar a garota já
conseguiu deduzir que, apesar de estar na sua forma inicial, ele era bem
treinado.
— Mudkip, vamos!
Ao sair de sua Pokéball, Niani se
colocou de prontidão para a batalha. Era evidente que ela estava mais preparada
do que das últimas vezes, o que sinalizava que o treinamento estava começando a
dar frutos.
Vince, por sua vez, não parecia nem
um pouco preocupado. Mesmo que Miriam e Mudkip tivessem a vantagem em
decorrência da tipagem da pequena anfíbia, para o rapaz aquilo não era
suficiente para desbalancear a batalha em desfavor dele.
— Inicie com Smog! — ao ser
comandado, Houndour disparou uma nuvem de gases poluentes na direção de sua
oponente.
Ao comando de Miriam, Mudkip
desviou com certa dificuldade, conseguindo escapar do ataque de última hora.
Vince não poupou esforços e, sem deixar que elas se recuperassem da primeira
investida, comandou novamente na intenção de pressioná-las mantendo uma
ofensiva constante.
— Feint Attack!
O canino avançou contra a Mudkip,
fazendo movimentos esquivos numa tentativa de confundi-la. A estratégia se
mostrou bem-sucedida, pois em dado momento Houndour conseguiu manipular sua
oponente para que mirasse em um possível caminho, quando na verdade ele a
atacou por outro.
Pega com a guarda baixa, Niani foi
arremessada para perto de sua treinadora, que não tinha uma expressão nada
amigável.
— Droga, ele é muito bom... —
murmurou a garota. — Cuidado, Mudkip! Ele tá vindo de novo!
— Ataque com Bite!
— Fique onde está e use o Water
Gun diretamente nele!
O disparo foi certeiro, e a
corrente de água bateu com força contra o peito de Houndour, fazendo-o recuar
sentindo o dano causado pela pressão do golpe. Tendo afastado seu oponente por
um instante, Mudkip conseguiu se levantar a postos para continuar a batalha.
Apesar do ataque ter sido bastante
efetivo, Vince não pareceu se abalar. Para ele, aquela tinha sido uma jogada de
sorte de Miriam, que no desespero procurou a maneira mais rápida de fugir
daquela situação. Ele conseguia ditar o ritmo da batalha, e isso o fazia ter a
consciência de que estava no controle.
— Mudkip, temos que aproveitar que
finalmente conseguimos sair da pressão dele — Miriam passava as instruções para
sua parceira. — Ele ataca impondo pressão para não nos dar tempo de raciocinar.
Os Pokémons dele conseguem fazer isso com rapidez porque são bem treinados e
possuem padrões e sequências de movimentos bem decoradas. Se a gente baixar a
guarda de novo, a coisa vai ficar feia...
Niani assentia, mostrando que
estava atenta à sua treinadora. Miriam sorriu satisfeita. A nova dieta que ela
havia passado para a pequena Pokémon aquática, feita para estimular a atividade
cerebral dela, estava surtindo efeito.
— Nossa vez de fazer pressão. Use o
Mud-Slap!
Vince percebeu o tamanho do risco
que Houndour corria ao ser atingido por aquele golpe. Além do canino ser frágil
ao golpe, o efeito colateral que ele poderia causar era o que mais o preocupava.
Para sua sorte, seu companheiro era ágil, não tendo problemas para executar o
comando de evasiva, evitando o disparo de lama.
— Water Gun! — Miriam
tentava dar o troco à pressão que havia sofrido pouco antes.
O novo jato de água acertou
Houndour no exato ponto para onde ele se esquivou, acertando-o com uma pressão
enorme. O cão foi derrubado e arrastado pelo chão por pouco mais de dois
metros, fazendo com que Vince pela primeira vez naquela batalha perdesse seu
semblante mais calmo. Mas ele não iria ceder naquele momento. O garoto respirou
fundo e não deu nenhum comando, apenas aguardando para ver o que Miriam faria.
— Tackle, rápido! Antes que
ele se levante!
E foi justo quando Mudkip chegou a
certa distância que Vince tomou sua ação.
— Desvie agora! Vá para as costas
dela!
— Merda, ele esperou pelo ataque! —
Miriam deixou escapar seus pensamentos, incrédula.
Quando Houndour chegou ao ponto
cego de Mudkip, Vince sorriu triunfante. Era a sua melhor oportunidade naquela
batalha, mesmo considerando o tempo em que ele empurrou Miriam contra a parede.
Aquela chance não poderia ser desperdiçada.
— Fire Fang!
Houndour fincou suas presas na nuca
de Niani, que deu um guincho breve e agudo devido à dor.
— Agora você vai ter o que merece —
disse o Houndour para sua oponente, sem soltá-la da mordida.
Niani tentou sacudir o corpo, mas
não conseguia se soltar do Houndour. Miriam estava atônita, beirando o
desespero ao pensar no dano que poderia ter sido causado. Como se já não
bastasse a mordida em si, que já tinha sido forte, ainda tinha o fato de ter
deixado uma queimadura séria na região atingida. Um verdadeiro estrago.
— Mudkip, aguenta firme! — gritou a
treinadora.
— Ainda... não! — a anfíbia
resmungava enquanto tentava resistir.
Vince não entendeu quando a
submissão parou de repente. Houndour largou a Mudkip e se afastou, como se
tivesse sentido algo estranho. Ninguém compreendeu o que estava ocorrendo até
que a pequena criatura aquática ficasse envolta por uma luz branca ofuscante.
Do pouco que conseguia enxergar, Miriam apenas identificava a silhueta mudando
de forma e crescendo em tamanho.
Sua companheira estava mais alta,
com uma fisionomia mais forte, e agora era bípede. Niani havia acabado de
evoluir.
Miriam encarava perplexa a nova
forma de sua companheira. Havia começado a treiná-la há pouco tempo, e por isso
nem percebeu o quanto ela tinha avançado. A treinadora acreditava que a
Marshtomp estar treinando com companheiros de time mais fortes que ela tenha
acelerado o processo.
— Mud Shot... — Miriam tinha
consigo uma PokéDex que possuía desde sua primeira jornada, ainda em Kanto, que
havia atualizado para introduzir as espécies de Hoenn desde sua chegada. — Vamos
tentar, então. Marshtomp, ataque com Mud Shot!
— Desvie, Houndour! Feint Attack!
— Ele vai aparecer atrás de você!
Agarra ele!
Assim que o canino chegou ao ponto
cego de Niani, a Marshtomp se virou rápido para segurá-lo com os braços. Miriam
cerrou o punho numa vibração discreta, acreditando que a tática tinha sido um
sucesso. Vince, no entanto, não perdeu a calma com a anulação do ataque de
Houndour, e continuou a comandar seu ataque.
— Fire Fang!
Houndour fincou suas presas
flamejantes em um dos braços da Marshtomp, que apesar de ser resistente àquele
tipo de golpe ainda soltou um grunhido baixo de dor. Mas, ainda assim, ela não
largava seu oponente. Só o faria quando Miriam a ordenasse.
— Water Gun!
O jato de água disparado contra
Houndour, além da alta pressão, ainda o acertou a queima-roupa. Daquela
distância e preso, não havia como desviar. Ele havia sido derrotado.
Vince sacou a Pokéball de Houndour
e o retornou. Em seguida, saiu sem dizer nada. Miriam também não estava focada
o bastante no garoto para aproveitar a chance de provocá-lo. A garota apenas
correu na direção de sua parceira, a envolvendo em um abraço, e logo em seguida
se soltando depois de ser repreendida pela companheira por não ter prestado
atenção e tocado no local onde havia a queimadura.
— Ai, desculpa! Eu esqueci! — mesmo
assim, Miriam colocou as mãos nos ombros da Marshtomp e a encarou com um
sorriso radiante. — Mas você foi incrível! Nosso treinamento está começando a
dar resultado! Desse jeito não vai demorar muito até que você consiga
participar com a gente da Batalha da Fronteira, Niani!
Um breve silêncio se fez no local.
As duas ficaram se encarando de perto, olho a olho, sem entender muito bem o
que havia acontecido. Niani parecia ter levado um susto, enquanto Miriam a
olhava com cara de paisagem.
— Por que eu te chamei assim? —
indagou a garota. — Será que eu fiquei doida? E por que eu tenho a sensação de
que esse é o seu nome? Marshtomp, seu nome é Niani?
A Marshtomp balançou a cabeça de
forma positiva, confirmando a pergunta de sua treinadora. Miriam pareceu mais
confusa ainda.
— E como eu soube disso?
— Porque você conseguiu ligar sua
mente à dela.
Miriam se levantou em um pulo,
assustada com a fala repentina de uma criança que a observava. Quando parou
para observá-la, notou que se tratava de um garoto que estava sentado em um dos
bancos da praça do ginásio. Ele não era alto, de modo que enquanto estava
sentado seus pés sequer tocavam o chão. Ele encarava Miriam com um sorriso
sereno, enquanto balançava as pernas.
— Como assim, “ligar a mente”?
O garoto pulou do banco e ficou de
pé. Miriam continuou agachada, pois assim ela conseguia se manter na altura do
menino. Ele continuou sua explicação.
— Quando um treinador e seu Pokémon
criam um vínculo de confiança muito forte, é possível ambos compartilharem seus
pensamentos. Como você ainda não tinha percebido nada do tipo, eu posso dizer
que o estágio de interconexão de vocês duas é inicial. Você descobriu o nome
dela dessa forma.
Miriam arregalou os olhos por um
breve momento, parecendo surpresa com aquela revelação. Ela nunca imaginou que
algo daquele tipo fosse possível. O menino continuava com a mesma expressão
suave. Mas a mais velha fechou sua expressão, agora emburrada.
— Você tá me zoando, né? Olha,
menino, eu não quero parecer grossa, mas eu preciso voltar ao Centro Pokémon.
Niani tá exausta da batalha que tivemos agora e eu preciso levar ela pra se
tratar... E eu disse o nome dela de novo.
— Uma pena, realmente — disse o
garoto, com as mãos para trás, enquanto se balançava com as próprias pernas. —
Você ia achar interessante que uma conhecida sua adquiriu essa capacidade há
pouco tempo.
— Conhecida minha?
— Sim, essa habilidade é raríssima.
Só treinadores com muito potencial a possuem. Tanto é que só existiam dois
treinadores ainda vivos aqui em Hoenn com essa capacidade. A Roxanne, que você
acabou de enfrentar, e o ex-Campeão Drake. No entanto, sua amiga Sapphire
conseguiu fazer a interconexão com Dante, o Combusken dela, faz pouco menos de
um mês.
Miriam sentiu seu coração quase
subir a garganta. Ela voltou a olhar para o garoto, com uma expressão realmente
assustada.
— Como você conhece a Sapphire e
como sabe que a gente se conhece?
— Eu a vi pela primeira vez em
Dewford. E vi que você estava junto dela e mais um garoto da mesma idade.
— E como sabe o nome dela?
— Do mesmo jeito que sei o seu,
Miriam. Mas isso é segredo, ainda vai demorar até eu poder te contar.
Miriam não podia estar mais
desconfiada. Se tinha uma coisa que trabalhar na Polícia Internacional a tinha
ensinado, era a suspeitar de civis que conseguiam dados de outras pessoas com
aquela facilidade. Mas sabia que não podia tomar nenhuma medida precipitada. O
que estava ao seu alcance naquele momento era apenas vigiar aquela criança
misteriosa.
— Já que sabe o meu nome, se
importaria de me dizer o seu?
— Claro, seria muito rude de minha
parte te negar esse pedido. Pode me chamar de Jiro.
A garota cerrou os olhos, já nem
escondia mais a desconfiança. O menino permanecia com a mesma serenidade de
quando havia se apresentado, inabalável.
— Nome antigo, hein... — disse a
menina. — E bem arrumadinho. Você é de alguma família tradicional daqui?
— Um dia eu te conto, mas hoje
ainda é cedo.
— Já vai embora?
— Sim, tenho mais coisas a fazer.
Mas não precisa ficar nervosa com o fato de eu saber sobre você e a Sapphire.
Eu não vou fazer mal a nenhuma de vocês. Não somos inimigos.
Quando Jiro já se virava para ir
embora, Miriam o chamou mais uma vez.
— Espere! Tenho mais uma dúvida.
— Sim?
— Supondo que seja verdade todo
esse lance de ligar nossas mentes, ainda tem uma contradição. Niani é uma
companheira de equipe recente. Por que eu desenvolvi essa conexão com ela,
enquanto minha Nidoqueen e meu Venomoth, que estão comigo há muito mais tempo e
estiveram do meu lado quando eu mais precisei, ainda não possuem essa ligação
comigo?
Jiro a encarou por um instante. O
sorriso sereno do menino agora dava lugar a uma expressão curiosa, pois ele
estava intrigado com a vontade de Miriam de saber mais sobre aquele assunto. O
menino deu um suspiro, já mostrando para a treinadora que talvez a resposta que
viria não fosse do agrado dela.
— Porque isso depende do quanto o
treinador está aberto a entender o coração de seus Pokémons. Nidoqueen e
Venomoth estiveram sempre ao seu lado. Mas você esteve ao lado deles?
Aquela pergunta acertou Miriam como
um soco na boca do estômago. A garota por um momento tentou retrucar, mas
sentiu que ia gaguejar e se manteve quieta.
— Miriam, me escute. O que te
impediu de criar essa ligação com a Nidoqueen e o Venomoth foi você se
fechando. Alguma coisa no seu passado que tenha mexido com a sua cabeça a fez
perder a confiança em si própria, ou até mesmo a confiança neles. Não sei o que
pode ter sido. Mas a verdade é que ultimamente você tem progredido, você está
resolvendo as pendências do passado e retomando o que foi perdido. Por isso
você conseguiu estabelecer esse laço com Niani primeiro. Você esteve mais
aberta à ela.
Jiro então se virou para ir embora
de vez. Já caminhando para a saída da praça, o garoto parou, e ainda de costas
para Miriam fez sua última fala.
— Mas a boa notícia é que a
primeira ligação é a mais difícil. Agora que você se conectou à Niani, a
tendência é que com os outros seja mais fácil. Mas tudo depende de você.
— Entendi — Miriam então fez uma
última pergunta. — E você sabe os nomes da Nidoqueen, do Venomoth e do
Zangoose?
— Sei sim — disse o garoto. — Mas
não vou te contar, até porque te atrapalharia. É quando você descobrir os nomes
deles que você vai saber que suas mentes estão ligadas. Agora eu vou indo, mas
vamos nos encontrar em breve. Até lá, continue fazendo o que você tem feito.
— E o que seria?
Jiro deu um último sorriso.
— Resolver o que você deixou em
aberto. O que mais seria?
E assim o menino caminhou de volta às ruas da grande Rustboro, deixando Miriam a observá-lo curiosa, até que ele desaparecesse em meio à multidão.
• • •
Após deixar seus parceiros sob os
cuidados da enfermaria, Miriam se dirigiu à cafeteria que funcionava no prédio
para poder comer alguma coisa. Devido ao dia cheio, sua última refeição havia
sido o café da manhã antes de sair para batalhar contra Roxanne, mas o outro
imprevisto que teve logo em seguida acabou tomando seu tempo e atenção pelo
resto do dia.
Faminta, a menina pegava de tudo um
pouco para poder suprir todas as suas necessidades, desde as reais como os
nutrientes até as mais banais, como seu desejo quase incontrolável de comer
alguma fritura, uma sensação de recompensa que ela julgava merecer depois de
suportar aquele dia pesado.
Levou a sua bandeja até uma das
mesas vazias, que ficava próxima a um televisor suspenso na parede. De início,
Miriam não deu muita bola ao que estava passando naquele momento, só viu que
parecia ser algum evento ou competição por conta do aspecto de arena do local
cercado por arquibancadas lotadas por um público eufórico. Se era algum torneio
ou algo do tipo ela não queria saber. Aliás, não queria saber de batalhas por
um bom tempo dali em diante.
Mas aos poucos a garota percebeu
que os olhares de todos ali estavam voltados para a transmissão, e sem
conseguir conter a curiosidade em saber o que estava deixando aquelas pessoas
tão vidradas, ela naturalmente se convenceu a prestar atenção ao que estava
ocorrendo. Até que percebeu que era um Contest.
Ela reconheceu de imediato a
coordenadora que se apresentava naquele momento, pois era a mesma que havia
visto em Rustboro, que saiu vencedora no primeiro Contest que Ruby havia
disputado. E por falar em Ruby...
— Será que ele está competindo
nesse aí? — Miriam sussurrou seus pensamentos enquanto pegava um sanduíche para
dar uma mordida. — Esses dois fazem falta...
As apresentações transcorriam um
coordenador de cada vez. Miriam notou que uma garota em particular, chamada
Vivi Winstrate, tinha vários admiradores. Muito se comentava sobre ela ter
estreado na temporada anterior e ter tido ótimos resultados, ainda que por
muito pouco não tenha conseguido se classificar para o Grande Festival. Até por
isso a treinadora logo entendeu que aquela menina se tratava de uma espécie de
estrela em ascensão, e que isso se refletia na popularidade dela que fazia até
mesmo a maioria dos presentes naquele refeitório tão longe do evento reagirem
com euforia, entre suspiros e vibrações, ao vê-la em ação.
E foi pouco depois da apresentação
de Vivi que o momento que Miriam tanto aguardava chegou. A garota se apoiou com
os dois braços na mesa para se levantar com rapidez e assistir de pé a
apresentação de Ruby.
— Esse garoto...
Miriam ouviu uma voz comentar sobre
a aparição de Ruby no contest, e quanto se virou viu que se tratava de Vince,
que estava sentado numa mesa próxima. Já desconfiada, a menina resolveu tirar a
prova se aquilo era apenas coincidência.
— Você conhece ele?
Vince olhou de relance para Miriam,
desconfiado com a repentina curiosidade da garota. Ainda que estivesse sem
paciência para puxar conversa, também não se sentia à vontade para provocá-la
de novo.
— Não, eu só lembro de ter visto
ele quando estive em Mauville pouco tempo atrás. Isso porque eu dei uma surra
no time da menina que anda com ele. Foi uma das batalhas mais entediantes que
eu tive. Ela apareceu querendo bancar a heroína e eu acabei com aquele time
meia boca dela. Fico triste por aqueles Pokémons terem uma treinadora que não
dá nem pra chamar de medíocre...
A fala de Vince foi interrompida
por um soco na mesa, logo a sua frente, que fez os pratos e utensílios que ali
estavam darem um pequeno salto e fazer uma barulheira que chamou a atenção dos
presentes. Quando o garoto se virou para cima, viu que aquele braço pertencia a
Miriam, que o encarava com um olhar furioso.
— Cuidado com o que você fala deles
dois. Você já sabe o que acontece quando tenta arrumar problema comigo, mas se
der um pio sobre eles a próxima vez que eu tiver que te educar eu não vou me
prender dentro das regras. Eu vou te machucar de verdade.
— Não é porque você me venceu uma
vez que eu vou ter medo de você, garota. Tá se achando muito.
Querendo evitar conflito dentro do
Centro Pokémon, Miriam apenas deu uma bufada e saiu de perto de Vince. Voltou a
se sentar onde estava antes, pois o mais importante para ela era acompanhar a
apresentação de Ruby. Ainda que acreditasse que tanto ele quanto Sapphire não
gostariam de vê-la tão cedo, a menina ainda nutria certo afeto pelos dois.
Sabia que era culpa dela a situação que se criou em Slateport, e por isso não
os culpava. Apenas torcia para que o tempo cicatrizasse aquelas feridas.
Miriam foi a única a berrar no
refeitório quando a vitória de Ruby foi decretada, atraindo alguns olhares
desconfiados dos fãs de Vivi e Emily. Os olhos dela brilhavam ao ver que aquele
garoto tímido e sem confiança estava começando a mostrar seu potencial. E ela
tinha o ajudado a dar o primeiro passo. Vince só revirou os olhos, sem muita
paciência para a empolgação da garota.
Já em seu quarto, ao anoitecer,
Miriam organizava a sua bolsa com os suprimentos de viagem, a fim de deixá-la
pronta para ir embora de Rustboro logo cedo. Quando a menina se deitou na cama,
com os braços cruzados apoiando a cabeça, ficou encarando o teto por um breve
momento. Sua cabeça mal tinha controle de seus pensamentos. Ainda pensava
naquele contest que havia assistido poucas horas antes.
— Se eu conheço bem aqueles
dois, eles vão deixar pra sair de Verdanturf amanhã... — pensou.
Miriam se levantou de repente,
pegando seu PokéNav que estava na mesinha ao lado da cama. A garota digitou
rapidamente no aparelho ao abrir um navegador e acessou o site do Comitê do
Grande Festival. Procurou pelos coordenadores cadastrados até chegar ao perfil
de Ruby. Ao ver que o garoto tinha duas fitas, Miriam acessou a página do
cronograma da temporada para ver o próximo contest de nível 2, e onde seria
disputado.
— Fallarbor... Droga, acabei de vir
de lá. Mas pelo menos ainda falta bastante tempo para ele acontecer. Talvez eu
consiga dar um pulo em Petalburg, desafiar o ginásio de lá e voltar... Será que
vai dar tempo?
Miriam se sentou novamente na cama
e respirou fundo. Ela se perguntava se era razoável fazer aquilo que ela estava
pensando, ou se estava sendo inconveniente. Mas lembrou das palavras de Jiro no
encontro com ele mais cedo. “Resolver o que ficou em aberto” e “retomar o que
foi perdido” eram as falas que martelavam na cabeça da menina. Ainda conseguia
ouvi-las com a voz do garoto, como se ele estivesse ao seu lado. E então ela
decidiu que deveria agir.
— Depois ficaria ruim ir pra
Dewford. Enfrentar o ginásio de lá ou o de Petalburg, vou ter que escolher um
dos dois... Enfrentar ambos ia me atrasar muito, eu não chegaria a tempo do
contest em Fallarbor. Preciso voltar lá de qualquer forma porque tem um Cérebro
da Fronteira perto.
Ela desligou seu PokéNav e ficou a
encarar o chão pensando na melhor opção que tinha. Mas uma coisa era certa: ela
estava decidida a voltar pra Fallarbor para se encontrar com Ruby e Sapphire.
— Eles podem pensar de mim o que
quiserem, mas eu vou até eles falar o que sinto sobre essa situação toda. Eu só
quero que as coisas voltem a ficar bem. E já sei pra onde ir.
• • •
Briney estava varrendo o chão da
sua cabana, num raro momento em que o velho se propunha a limpar aquela bagunça
característica do seu refúgio. Sua atenção só foi cortada quando ele ouviu
batidas fortes e rápidas na porta. Seja quem fosse, estava com pressa.
O ex-marinheiro a princípio ficou
desconfiado. As batidas desesperadas nem sempre eram um bom sinal, e com seus
anos de experiência na Marinha ele aprendeu a desconfiar de todos e tudo. Foi
abrindo a porta devagar para se certificar de que não era nenhuma pessoa
suspeita, mas se surpreendeu ao ver quem era.
— Miriam? O que você tá fazendo
aqui?
— Tenho uma missão que só você pode
me ajudar a cumprir, Capitão — a garota então puxou uma boa quantidade de
dinheiro de seu bolso. — Bota bastante gasolina nesse barco que eu preciso
chegar em Dewford pra ontem!
FIM DO CAPÍTULO 36
Notas do Autor - Capítulo 35

Capítulo 35
Adaptar e superar
Era chegado o dia do Contest de
Verdanturf. A cidade estava abarrotada de gente, pois além das pessoas que já
estavam se hospedando por lá o evento ainda atraía alguns espectadores de
última hora que vinham das cidades próximas. Ruby tinha passado os últimos dois
dias treinando exaustivamente alguma apresentação em duplas que pudesse ser
proveitosa para conseguir a fita.
O fato de ter descoberto quase em
cima da hora que o modelo de apresentação seria diferente do que estava
esperando o fez mudar o planejamento e tentar uma resposta de emergência, mas
após alguns exaustivos dias o garoto havia conseguido elaborar uma exibição que
ele julgava ser suficiente para ter chances de sair vitorioso.
Sapphire e Zinnia o acompanharam
durante esse tempo, observando as tentativas do garoto de fazer as suas
apresentações darem certo, treinando repetições de movimentos e ensaiando o
passo a passo com seus Pokémons que ele havia escalado para participar. Wally,
que não ia competir, o auxiliava com ideias e críticas, tentando mostrar a Ruby
se ainda havia algum ponto a melhorar.
O grupo chegou cedo ao Contest Hall
para que Ruby pudesse se preparar sem pressa. O garoto seguiu para os camarins,
enquanto via seus amigos se distanciarem a caminho das arquibancadas. O local
já estava movimentado, pois Verdanturf era uma das etapas mais tradicionais das
temporadas de contests em Hoenn. Muita gente vinha de vários lugares da região
para assistir as apresentações ao vivo, e por conta disso as pessoas já
começavam a lotar a arena desde cedo na tentativa de não ter que disputar os
melhores lugares.
Após se separarem do coordenador, o
trio restante subiu os degraus da arena em busca de um lugar onde pudessem se
sentar juntos. Eles tentavam passar pelas fileiras de pessoas sentadas com todo
o cuidado para não esbarrar nos espectadores já acomodados, e após alguns
passos desajeitados conseguiram tomar seus lugares em um grupo de poltronas
vagas.
O tempo foi passando. Ainda havia
algum tempo antes do início, já que eles chegaram bem antes do horário previsto
para começar a competição, pois Ruby como competidor precisava estar lá com
antecedência para dar tempo de se arrumar para a apresentação.
Dentro do saguão onde ficavam os
participantes, Ruby se mantinha sentado em um sofá aguardando um dos camarins
ficar livre. O garoto estava pensativo, trabalhando em sua mente a
recapitulação de toda a apresentação que tinha conseguido ensaiar com sua equipe.
Mesmo tendo sido algo feito às pressas devido ao tempo curto, ele estava
convencido de que conseguiu elaborar algo interessante, e até com potencial de
dar certo.
Seus pensamentos só foram
interrompidos quando um sinal de alerta foi enviado pelo seu subconsciente,
sentindo a aproximação de alguém com quem ele não estava muito à vontade de
iniciar uma conversa. Emily parou em frente ao rapaz, com as mãos na cintura e
o peito estufado, já saboreando o que acreditava ser um triunfo, se não no
Contest em si, pelo menos na disputa pessoal entre os dois.
— Estou morrendo de ansiedade para
ver a sua apresentação, Ruby — disse a menina, tentando conter a sensação de
euforia que parecia querer saltar para fora da garganta. — Com certeza vai ser
encantadora, já estou me preparando pra chorar de alegria.
— Obrigado pela consideração, é
sempre bom receber palavras de incentivo dos meus fãs — o garoto rebateu a
ironia. — Vou fazer o máximo para corresponder as suas expectativas.
Emily soltou um breve riso contido,
disfarçando o tom de deboche.
— Eu tenho certeza que vai — e
assim a menina saiu andando para outro canto do saguão, enquanto Ruby a
observava com uma expressão farta.
Cerca de uma hora e meia se passou
desde então para que finalmente as luzes se apagassem, indicando a todos que o
Contest começaria naquele momento. Apenas o palco estava iluminado, recebendo a
apresentadora que tomou a fala para anunciar a abertura.
— Público presente, cidade de
Verdanturf e toda Hoenn que nos assiste de casa, hoje estamos de volta para
mais um contest da fase qualificatória do Grande Festival! — a narradora
mantinha uma voz firme e eufórica, tentando trazer para si o público que lá
estava. — Nos encontramos de novo para mais um dia de belas apresentações dos
nossos talentosos coordenadores. Para aqueles que estão chegando pela primeira
vez, meu nome é Harriet, e serei a apresentadora da competição de hoje.
Aplausos efusivos vinham das
arquibancadas lotadas. O público saudava o início da competição, que prometia
trazer apresentações muito mais técnicas e elaboradas do que os contests open
rank, como eram chamados aqueles que não exigiam um número mínimo de fitas
para participar. Harriet sorriu de canto ao notar a receptividade da plateia,
logo retomando a fala para que não ficassem muito mais tempo esperando.
— Antes de começarmos eu preciso
fazer dois anúncios. O primeiro é que Frederick, um de nossos queridos jurados,
não estará presente no contest de hoje. Temos uma equipe de avaliadores que
está crescendo a cada dia, provando o quanto a nossa organização leva os
eventos a sério e procura sempre trazer a melhor experiência para todos. Mas
não se preocupem, temos alguém que vai compor a banca hoje que temos certeza de
que fará um trabalho de igual excelência.
A apresentadora respirou fundo para
recuperar o fôlego. Ainda fazia calor em Verdanturf naquele dia, e isso com
certeza ajudava no desgaste de alguém que precisava usar a voz com aquela
frequência.
— Nossa banca de jurados hoje será
composta por Glacia, integrante da Elite da Liga de Hoenn — Harriet aguarda a
chuva de aplausos do público para receber a jurada antes de continuar. —
Acompanhando Glacia estará Lisia, top coordenadora e atual campeã do Grande
Festival, um dos maiores orgulhos de Hoenn.
As duas juradas caminharam até a
bancada enquanto eram recebidas por ovações intensas da arena. Ambas acenavam
ao público, Glacia com sua elegância costumeira e Lisia com aquela euforia e
carisma típicos de quem era o novo rosto que liderava o rol de celebridades da
região. Harriet esperou que as duas se sentassem em seus lugares para finalizar
os anúncios preliminares.
— Por fim, mas não menos
importante, temos uma presença muito especial para o lugar de Frederick hoje —
a mulher parecia agarrar o microfone com mais força, como se estivesse se
contendo para não perder o controle. — Certamente um dos maiores símbolos de
Hoenn, detentor de um currículo raríssimo de alguém que dominou a arte de ser
tanto treinador como coordenador. O único de nossa região a ter sido Campeão do
Grande Festival e da Liga Pokémon, tendo mantido ambos os postos
simultaneamente. O príncipe aquático de Sootopolis, Wallace!
Era possível sentir a arena tremer,
tamanha era a intensidade dos pulos e da gritaria do público que naquele
momento recebia um dos maiores ícones da região. Wallace adentrava o palco com
o porte de um membro da realeza, acenando ao público e se certificando de que
estava cumprimentando todas as direções onde havia arquibancadas. E tudo isso
sem perder a compostura ou seu sorriso marcado pela serenidade de quem era um
verdadeiro especialista.
— Não é possível! — Ruby estava
trêmulo na sala de espera ao ver a composição da banca de jurados tendo uma
lenda como Wallace como membro.
— Só pode ser brincadeira! — até
mesmo Sapphire nas arquibancadas estava chocada com a presença do ex-Campeão de
Hoenn.
— Sem mais delongas, vamos iniciar
as apresentações de hoje — Harriet anunciava com euforia a entrada da
competidora. — É com muito prazer que anuncio a primeira participante de hoje, Victoria
Winstrate!
Uma menina entrou no palco
recebendo aplausos dos espectadores. Ela aparentava ter a mesma idade de Ruby,
talvez um pouco mais velha. Uma característica que a destacava era um rabo de
cavalo volumoso que prendia seus cabelos castanhos. A menina sacou duas
Pokéballs de seu bolso, liberando um Shroomish e um Numel, causando surpresa em
algumas pessoas, que se perguntavam como ela faria para combinar tipos
antagônicos como aqueles dois.
— Muito bem, do jeito que
planejamos — a garota gesticulou com o dedo indicador, apontando para a dupla e
em seguida para cima.
Shroomish saltou na cabeça de
Numel, que já estava baixa, próxima ao chão, esperando aquele movimento. O
pescoço mais comprido do pequeno camelídeo era uma ferramenta importante para
que aquela apresentação tivesse sucesso. Quando Numel ergueu rápido sua cabeça,
o movimento fez com que Shroomish conseguisse um impulso extra para fazer um
salto na arena, quase chegando na altura dos holofotes.
— Bullet Seed! — exclamou a
garota, dando o sinal com um estalo de dedos.
O Pokémon cogumelo rodopiou no ar
enquanto disparava uma rajada de sementes em um ângulo mais alto, de forma que
elas não se afastassem muito do centro do palco, e ao mesmo tempo que pudessem
perder velocidade na trajetória de subida.
Enquanto Shroomish descia, Numel se
adiantou para sua posição. Vivi rapidamente fez o sinal para que a criatura de
fogo se preparasse para o ataque.
— Hora de aumentar a temperatura da
plateia, Flame Burst!
Numel disparou uma bola de fogo
para o centro da circunferência formada pelas sementes que começavam a cair.
Quando a chama chegou ao centro, ela explodiu em várias direções, acertando as
sementes e fazendo-as pegar fogo enquanto ganhavam um novo impulso para o alto.
— Vamos finalizar, Bullet Seed
novamente!
As chamas torraram as sementes que
foram lançadas antes, tornando-as secas e quebradiças. Quando as sementes da
segunda rajada colidiram com as primeiras, o impacto as fez estourar, fazendo
com que o palco fosse coberto por uma chuva de pequenos flocos de brasas
incandescentes, que se apagavam pouco antes de tocar o chão como as cinzas que
decretavam o fim da apresentação.
Ruby engoliu seco. Os contests de
Rank 1 estavam apenas um patamar acima dos contests de entrada, e mesmo assim a
diferença de nível nas apresentações era bem evidente. Vivi era talentosa o
bastante para deixá-lo para trás sem muito esforço. O garoto começava a ficar
nervoso, pensando se todos os competidores ali presentes teriam um nível igual
ou até superior ao demonstrado pela menina.
— Essa daí é forte candidata a
conquistar a fita — comentou Emily, de braços cruzados enquanto assistia à
avaliação final dos jurados.
O garoto nunca imaginou que algo
dito pela loira seria capaz de tranquilizá-lo de alguma forma, mas pelo menos
agora pensava que, dado o comentário da rival, a apresentação de Vivi estava
próxima ao teto de habilidade daquele nível.
A recepção dos jurados foi muito
positiva. O fato de o primeiro coordenador a se apresentar fazer uma
apresentação muito boa era motivo de preocupação para os demais competidores,
pois poderia influenciar os jurados jogando suas expectativas para o alto. Vivi
tinha a vantagem não só pela própria apresentação ter sido muito boa, mas
também pelo impacto que causara logo de imediato, a ponto de fazer mesmo Glacia
quebrar sua seriedade costumeira e esboçar um sorriso discreto.
Por outro lado, tanto Ruby quanto
Emily estavam aliviados de não terem sido logo os primeiros a se apresentar
após Vivi. Os coordenadores que vinham em seguida à apresentação de abertura, à
medida que faziam apresentações medianas, contribuíam para diminuir as
expectativas criadas nos jurados. Não era muito bom que eles ficassem de mau
humor com os competidores em geral, mas isso eles poderiam usar isso a seu
favor para reconquistá-los com um novo impacto positivo.
E nisso chegou a vez de Emily.
Harriet anunciou sua vez, trazendo a curiosidade do público que estava curioso
para ver uma estreante da temporada em seu primeiro contest da categoria R1.
Emily tomou posição no centro do
palco. Ruby notou que a postura da garota estava muito mais firme e centrada do
que no primeiro contest onde a tinha visto disputando, ainda em Rustboro. O
excesso de confiança de antes havia sumido, mas isso não significava que ela
estava insegura. Pelo contrário, ela passava agora um tom de seriedade como
quem queria deixar bem claro que havia entrado ali com a intenção de vencer.
Vivi, por sua vez, caminhou até onde Ruby estava, interessada no lugar deixado
pela competidora da vez.
— Oi, tudo bem? Eu ficar aqui
atrapalha a sua visão? — a menina perguntou. — Tá difícil de arranjar um bom
lugar pra ver as outras apresentações com o saguão lotado desse jeito.
— Não, claro que não — Ruby
respondeu, já mais confortável de ver que Vivi parecia ser simpática. — Daqui
eu consigo ver muito bem, pode ficar à vontade.
Emily sacou as Pokéballs de seus
parceiros, as aproximou de seu rosto e com os olhos fechados sussurrou suas
palavras finais antes de iniciar a apresentação.
— É com vocês agora.
Quando a dupla foi lançada o
público vibrou com a entrada de um Spoink e um Lombre em cena. Ruby ficou
surpreso ao conhecer dois novos membros da menina, pois esperava ver novamente
o Volbeat que havia garantido a ela a vitória no primeiro contest.
— Ela veio pra jogar de verdade — o
garoto comentou baixo.
— O que quer dizer? — Vivi indagou
curiosa.
— Psíquico, planta, água... — Ruby
analisava a dupla escolhida por Emily. — São três tipos famosos em contests,
pois possuem muitas técnicas com grande apelo visual. Dali pode sair qualquer
coisa.
— Agora que você falou realmente
faz sentido — a menina abriu um sorriso de empolgação. — Eu nunca tinha parado
pra pensar nisso. Vai ser interessante ver o que ela tem pra mostrar. Sinto que
vou aprender alguma coisa assistindo essa apresentação.
— Que dia perfeito... — Emily
sussurrava para não ser ouvida. — Foi realmente a hora certa para eu usar o
Lombre em uma apresentação. Vou encantar o Wallace mostrando a ele o que eu sei
fazer com um Pokémon aquático. Lombre, comece usando o Mist!
A neblina que se formou dentro do
pequeno estádio era densa. Alguns espectadores nas arquibancadas acabavam por
instinto esticando o pescoço para cima na esperança de enxergar melhor o que se
passava, mas a visibilidade era pouca.
— Agora Bubblebeam! Espalhe
as bolhas por todo o palco.
— Bolhas... — Glacia sussurrou na
mesa dos jurados. — De novo. Já foi usado várias vezes esse ano, inclusive nos
contests de entrada.
— Acalme-se, Glacia — interrompeu
Wallace, atento à apresentação. — Deixe-a terminar primeiro, e depois vamos
avaliar.
Conforme as bolas se dispersavam
pelo palco, Spoink se posicionou aguardando a sua vez de conduzir a
apresentação. Com o comando de Emily, o porquinho ergueu seus braços e se
tornou envolto por uma aura púrpura brilhante. Para quem assistia das arquibancadas,
era como se uma chama roxa tivesse surgido no meio da neblina, quando na
verdade era a técnica Psych Up, usada por Pokémons psíquicos para
melhorar de forma momentânea alguns de seus atributos em batalha, incluindo a
precisão na execução das técnicas.
Com mais um comando de sua
coordenadora, Spoink usou Confusion para guiar as bolhas pelo palco de
forma sincronizada. Elas podiam ser vistas pelos espectadores também, não só
pela aura azulada como pelo fato de o movimento rápido delas afetar a neblina,
fazendo-a se dispersar aos poucos e criando uma atmosfera mística por toda a
arena, potencializada pela baixa iluminação do local que acabava por realçar a
luminescência das técnicas psíquicas de Spoink.
A pedido da coordenadora, o Pokémon
psíquico guiou as bolhas pela arena, fazendo-as passear por entre a plateia, e
pouco a pouco elas eram depositadas nas mãos dos espectadores.
Uma grande ovação tomou conta do
Contest Hall. Até mesmo os jurados aplaudiam, ainda que Glacia o fizesse de
forma mais comedida. Ruby engoliu seco. Emily havia melhorado muito desde a
última vez que ele a havia visto. A ideia de perder novamente para a garota não
o agradava nem um pouco, mas ele estava confiante de que também faria uma boa
apresentação com o que havia conseguido naquele pouco tempo de preparação.
Mais três participantes se
apresentaram após Emily, mas nenhum deles se destacou tanto para causar algum
receio em Ruby. Quando o último deles sai do palco, Harriet assume a fala mais
uma vez e anuncia a apresentação do novato.
Ruby subiu ao palco, percebendo que
o público o recebia com certa curiosidade. Tal como Emily, o garoto chamava a
atenção dos espectadores, intrigados pelo que ele poderia fazer em seu primeiro
Contest naquele rank mais alto. Ainda que não fosse a intenção da plateia,
aquilo significava uma pressão extra para o menino.
Com suas duas Pokéballs em mãos, o
garoto trouxe para o palco Skitty e Clamperl. Os olhares curiosos dos
espectadores e dos jurados se dirigiam diretamente para a pequena ostra, que
chamava a atenção devido à sua coloração incomum. O garoto percebeu que até
mesmo Wallace focou a sua atenção no Pokémon aquático, o que não era algo tão
bom quanto ele imaginava que seria, afinal um especialista daquele calibre só
colocaria mais pressão sobre seus ombros.
Mas Ruby respirou fundo, e ao
cessar dos aplausos na arena o coordenador iniciou a sua apresentação sem
perder mais tempo. Era o momento de descobrir se ele era capaz de entregar algo
bom com tão pouco tempo de preparo. Era hora de ir pro tudo ou nada.
— Do jeito que praticamos, meninas!
Skitty, use o Attract mirando para cima e em seguida o Disarming
Voice na mesma direção!
As ondas sonoras emitidas pelo som
estridente causado por Skitty criaram um impacto suficiente para impulsionar a
combinação de corações rosas e vermelhos para o alto. O público parecia atento
à combinação de técnicas vendo-os flutuarem calmamente ao redor do palco,
ligados pelas próprias ondas sonoras, enquanto os jurados ainda acompanhavam
Ruby e sua dupla para ver como eles dariam prosseguimento à apresentação.
— Clamperl, agora! Water Gun
na direção do chão! Skitty, acompanhe o movimento!
A pequena ostra mirou para o chão e
disparou uma carga d’água que a impulsionou para o alto. Durante a execução do
golpe, Skitty rapidamente saltou para se posicionar acima da concha de sua
dupla, e as duas foram alçadas para o alto.
— Skitty, Tail Whip para
dispersar os corações! Clamperl, use o Whirpool para manter vocês duas
no alto!
Quando a dupla chegou ao ponto mais
alto do salto, Skitty rebateu os corações com sua cauda, fazendo com que eles
se espalhassem pelo palco. Quando começaram a cair, Clamperl foi ágil ao criar
um redemoinho no palco, pousando no topo da coluna d’água com a felina
retornando ao topo de sua concha.
O redemoinho ao centro, com os
pequenos corações flutuando em volta e a pose de Clamperl e Skitty em destaque
proporcionou uma finalização elegante, que arrancou aplausos fervorosos do
público. Ruby andou timidamente até o lado do redemoinho, para que não tirasse
o foco de suas companheiras de equipe, e se curvou fazendo uma singela
reverência em direção às arquibancadas.
Por um momento o garoto sentiu
certo nervosismo para voltar sua atenção à mesa dos jurados. Ele tinha dado
tudo de si para criar uma apresentação naquele tempo curto que teve para
corrigir sua estratégia, mas pelo menos a plateia ele tinha conseguido agradar.
Já se sentia satisfeito só por isso.
Na sala de espera a maioria dos
coordenadores cochichavam sobre como a exibição dele havia sido boa. Vivi tinha
um largo sorriso no rosto, eufórica com o que tinha acabado de ver. Emily, por
sua vez, tinha uma expressão de espanto, e até mesmo de nervosismo vendo que
Ruby tinha feito uma apresentação tão boa mesmo com todos os reveses.
Quando enfim precisou voltar sua
atenção aos jurados, notou que até mesmo eles aplaudiam. Glacia e Wallace
tinham expressões mais serenas, enquanto Lisia estava com um sorriso bem mais
aberto.
— Foi uma apresentação maravilhosa!
— A mais jovem do trio começou. — A forma como você conseguiu orquestrar os
movimentos e a execução das técnicas, respeitando o tempo tanto da Skitty
quanto da Clamperl, foi excelente!
— Eu tendo a concordar com a Lisia
— Glacia então tomou a palavra. — Vou ainda fazer um adendo, que talvez para
mim tenha sido o ponto máximo de sua apresentação. O resultado, a sua proposta
para o público hoje. Você saiu do esperado, sem muito brilho, sem muitas
explosões, ao invés disso focou na concepção da arte como algo mais tangível,
mais alcançável e duradouro. Como se esculpir algo já não fosse difícil, manter
isso com técnicas que podem se desfazer a qualquer momento é muito complexo.
Exige uma capacidade de coordenadores já muito avançados, é algo que eu não
esperava ver em uma disputa entre coordenadores que portam apenas uma fita.
Parabéns pela ousadia.
Após os aplausos a arena ficou em
silêncio, como fazia toda vez que Wallace ia dar sua opinião final. Ruby sentiu
o ar faltar por um breve momento. Sua apresentação estava prestes a ser
avaliada por um dos maiores ícones de todo o mundo. O jurado se levantou de sua
cadeira, ajeitando a sua capa e os adornos das suas roupas. Talvez o que mais
assustasse o garoto era a forma como o homem mantinha sua serenidade. Ele era
totalmente ilegível.
— Eu não vou comentar sobre as
técnicas da Clamperl, pois todos aqui sabem que eu sou um pouco suspeito para
falar sobre Pokémons aquáticos — disse o ídolo, arrancando algumas risadas do
público. — Vou fazer como a Lisia e a Glacia e focar em sua apresentação como
um todo. Ruby o seu nome, não é? Eu sempre acompanho os contests de abertura, e
nesse ano não foi diferente. Tive a oportunidade de ver seu desempenho em
Rustboro, dividindo o pódio com o Wally e a Emily que se apresentou aqui mais
cedo.
Ruby quase caiu para trás com a
revelação. Wally, que assistia das arquibancadas ao lado de Sapphire, Zinnia e
Wanda, engasgou com a pipoca que comia. Emily, por fim, estava no meio da sala
de espera, vermelha como uma tamato berry enquanto atraía os olhares dos outros
competidores.
— Lembro que à época o Frederick, a
quem estou substituindo hoje, sugeriu que você recuasse um pouco para dar mais
ênfase aos seus Pokémons, pois são eles que executam as apresentações que você
elabora. O que eu vi aqui hoje foi um jovem coordenador que entendeu o motivo
daquela crítica e fez disso o trampolim para uma evolução. Ironicamente, foi
dando um passo para trás no palco que você deu um passo adiante como
coordenador. E por ter dado esse destaque maior às essas adoráveis companheiras
suas é que a apresentação atingiu o ápice de sua elegância. Você sai daqui hoje
deixando uma lição para todos os coordenadores de que às vezes precisamos
deixar nosso orgulho de lado e entender que as críticas podem nos fazer crescer
se forem absorvidas com humildade e atenção. Hoje eu não tenho nenhuma crítica
a fazer sobre a sua apresentação, mas eventualmente elas vão aparecer, e se
você continuar tratando-as com essa mesma abordagem, seu futuro será brilhante.
Parabéns pela apresentação de hoje. Estou curioso para ver até onde você pode
chegar.
Os aplausos intensos ensurdeciam
qualquer um presente naquela arena. O público vibrava com a apresentação de
Ruby, como se estivessem deixando tudo de si agora que se sentiam livres para
celebrar aquele momento, quase como se isso dependesse de algum aval dos
jurados.
Ruby foi pego de surpresa. Ainda
que fosse seu terceiro contest, nunca esperaria por uma ovação daquele tamanho.
O garoto fez uma breve reverência para os espectadores, mais uma vez, e se
retirou para a sala de espera, onde aguardaria pelo resultado.
Os minutos se passaram. O público
estava apreensivo, mas ao mesmo tempo eufórico, enquanto o trio de jurados
debatia à mesa o veredito que dariam dali a pouco. Harriet tentava manter a
plateia entretida trazendo curiosidades sobre os contests e as grandes personalidades
que sempre figuravam no Grande Festival, e certa vez chamou os comerciais na
televisão para que os patrocinadores do evento pudessem ter seu espaço.
Quando a moça foi chamada à mesa
dos jurados, Glacia entregou um envelope para ela, que de pronto assentiu com a
cabeça e retornou ao centro da arena para anunciar que os resultados haviam
chegado.
— Muito bem, caros espectadores —
Harriet chamou a atenção para si ao microfone, fazendo com que as conversas na
arena cessassem mais uma vez. — Nossos jurados já debateram tudo que
precisavam. Aqui nas minhas mãos está a resposta deles! É com todo o prazer que
vamos conhecer agora o vencedor do Contest de Verdanturf!
Uma nova onda de aplausos foi
ouvida, mas esta foi mais breve. Naquela altura o público já estava ansioso
pelo resultado, e não fazia mais sentido nem mesmo para a organização do evento
segurar o suspense por mais tempo.
Harriet abriu o envelope, puxando
apenas a parte superior do bilhete, que mostrava quem ela deveria chamar para
ser a primeira pessoa a ocupar o pódio.
— O terceiro lugar deste Contest
fica com Emily, da cidade de Mauville!
Todos os competidores presentes na
sala de espera voltaram seus olhares para a garota, que tinha uma expressão
flagrante de frustração com o seu resultado. Ela apenas respirou fundo e foi
até o palco para ocupar o seu lugar no pódio. Ruby engoliu seco. Ainda que não
quisesse admitir, tinha achado a apresentação de Emily muito boa. Mas nem mesmo
ela foi suficiente para vencer aquele contest, então ele nem imaginava o que
poderia ter passado pelas mentes dos jurados para escolher o coordenador
vitorioso.
— Ocupando o segundo lugar, a nossa
queridíssima garota do campo! Vivi!
Mais um choque para Ruby, que agora
via as apresentações que mais acreditava ter a chance de vencer a competição
não alcançarem o primeiro lugar. Vivi deu um suspiro, demonstrando que também
esperava ter vencido aquela disputa, mas logo se recompôs e seguiu de volta ao
palco com um sorriso no rosto, acenando para o público em retribuição aos
aplausos.
O público agora aguardava em
silêncio o anúncio principal. Harriet tinha um sorriso travesso estampado em
seu rosto, fazendo um breve suspense para provocar o público que já dava alguns
sinais de ansiedade. Wally tinha seu olhar travado no palco, e até mesmo
Sapphire e Zinnia estavam atentas, esperando que o desfecho fosse positivo.
Ruby começava a transpirar na sala
de espera. Observou alguns dos outros coordenadores. Alguns apreensivos,
tremendo e engolindo seco. Outros, já acreditando que haviam perdido, estavam
menos nervosos, mas ainda assim curiosos para saber quem havia sido o preferido
da vez.
— Um dos grandes baratos de ser
apresentadora aqui em Hoenn é presenciar de perto porque essa região é tão
reconhecida por seus contests. Ano após ano somos privilegiados com novos
talentos que chegam pedindo passagem, mostrando muita personalidade e nos
inspirando com sua dedicação. Senhoras e senhores, o vencedor do Contest de
Verdanturf, que agora passará a figurar nos Contests de nível R2, é Ruby, da
cidade de Violet!
Os aplausos e gritos intensos da
plateia eram como música para os ouvidos do garoto, que em um susto quase
sentiu seus joelhos falharem. A palpitação frenética ameaçou deixá-lo sem ar, e
por um breve instante sentiu a vista embaçar. Ruby sacudiu a cabeça para se
recompor, e ainda com seus pensamentos embaralhados se dirigiu ao palco.
Ainda trêmulo, cumprimentou Harriet
e fez uma reverência em agradecimento aos espectadores presentes. E subiu ao
degrau mais alto do pódio pela segunda vez em sua carreira. Mas sentia que não
ia enjoar daquilo tão cedo.
Por um momento, conseguiu passar os
olhos pelas arquibancadas. Notava, pela primeira vez, pessoas que nunca havia
visto antes olhando para ele e sorrindo. Pessoas de todas as idades, desde
crianças com os olhos brilhando até adultos e idosos com expressões mais
comovidas. Aqueles rostos, olhares e sorrisos, que antes pareciam tão distantes
de serem alcançados, agora estavam bem ali, sendo entregues a ele.
— Parece que você está construindo
uma torcida, Ruby! — disse Harriet, animada. — E muito merecido pelo que você
nos mostrou aqui hoje. Aceite a Fita de Verdanturf, como prova da sua vitória
de hoje!
Um membro do staff do torneio
trouxe até o palco a fita em um estojo almofadado. Ruby pegou a fita com
cuidado quando foi autorizado, e a mostrou para a plateia, que o aplaudia
bastante.
Quando Ruby saiu do seu camarim,
Sapphire e Wally o aguardavam no corredor. Assim que notou a presença dos
amigos no local, ele foi recebido com a euforia habitual de Sapphire, enquanto
Wally se mantinha mais comedido.
— Parabéns pela vitória, Ruby —
disse Wally tocando no ombro do amigo. — Parece que vamos ficar mais um tempo
sem nos enfrentar, mas eu estou feliz que você esteja avançando tão rápido.
Mais três fitas e sua vaga no Grande Festival já estará garantida!
— Você teve que refazer seu
planejamento em pouquíssimo tempo, e mesmo assim conseguiu vencer. Você foi
bem, de verdade! — Sapphire complementou.
— Eu vou me esforçar para conseguir
minha primeira fita logo, e assim vou poder competir contra você de novo em breve!
— Obrigado, pessoal — disse o
menino, sentindo um enorme peso sair de seus ombros ao passo que a adrenalina
ia baixando. — E a Zinnia? Cadê ela?
— A Zinnia precisou sair do Contest
Hall pra ver alguma coisa, mas disse que encontra a gente mais tarde na casa do
Wally. Ela falou que era pra gente vir aqui ver como você estava, mas pediu pra
dizer que ela gostou muito da sua apresentação e que você foi muito bem apesar
do pouco tempo pra se preparar.
— E disse também que ela sentiu que
a sua ligação com seus Pokémons está melhorando — Wally parecia meio confuso
com aquela informação. — Seja lá o que isso significa...
Quando se preparavam para ir
embora, Ruby ouviu seu nome ser chamado. Olhou para o final do corredor e
percebeu que Lisia estava na porta do camarim dela. O garoto notou que havia
mais alguém dentro do cômodo, mas respirou fundo e caminhou até a jurada que o
aguardava com um sorriso no rosto. Sapphire e Wally o acompanharam.
— Li-Lisia! Tudo bem? — o menino
gaguejava e tremia, como se estivesse para enfrentar o maior desafio de sua
vida. A idolatria pela garota era tamanha que ele mal conseguia formular uma
frase.
— Ei, Ruby, que bom te ver de novo!
— a garota demonstrava a mesma simpatia de sempre. — Desde que o Ethan nos
apresentou eu decidi ficar de olho em você. E olha, eu estou impressionada com
o seu progresso! Além da sua apresentação ter sido maravilhosa, eu consegui
sentir que sua parceria com seus Pokémons tem crescido.
— Sério? — o garoto coçava a parte
de trás da cabeça, ainda sem graça. — Muito obrigado! Sobre a apresentação, eu fico
muito feliz de ter conseguido agradar vocês dessa vez, mas vou me esforçar pra
poder continuar te surpreendendo nas próximas.
— Lisia — Sapphire interrompeu a
conversa dos dois, erguendo o braço para chamar a atenção. — O Ruby só teve
três dias para praticar a apresentação porque ele não sabia que a apresentação
seria em duplas. Se a gente considerar que ele teve pouco tempo, então foi um
feito muito grande, não é?
Ruby gelou naquele momento. Wally
também ficou constrangido. Eles sabiam que Sapphire estava tentando ajudar o
amigo, mas aquele tipo de comentário sendo feito para uma jurada poderia ter
resultado em uma reação bem pior por parte de Lisia. Por sorte, a garota levou
a situação de forma bem humorada.
— Fala sério, Ruby! Você não deu um
mole desse — Lisia ria, se divertindo com a situação. — Olha, esses enganos
acontecem, mas cuidado para que isso não se repita. Não que eu tenha alguma
coisa a ver com isso, mas esse tipo de coisa te prejudica muito nas
apresentações, e se isso se torna recorrente você pode ter dificuldade de
conseguir patrocinadores ou ser bem agenciado por acharem que você não tem
compromisso. Nós temos vários canais onde você pode ter as informações dos seus
próximos contests, lá você tem acesso a tudo que precisa. Não deixa isso
acontecer de novo. Pelo seu próprio bem, ok? Você tem muito potencial, e eu não
gostaria de ver alguém tão promissor perdendo uma classificação para o Grande
Festival por causa de desatenção.
— Prometo que não vai mais ocorrer.
O meu resultado hoje foi suficiente pra eu aprender a lição.
— Muito bom! E mesmo assim, como a sua
amiga disse, é realmente impressionante que você tenha conseguido fazer uma
apresentação tão incrível mesmo com esse tempo de preparo tão curto — a jurada
deu um sorriso, colocando as mãos na cintura. — Mas vamos ao que interessa. Eu
te chamei aqui pra te apresentar uma pessoa que também se interessou por você.
Ruby foi pego de surpresa naquele
momento. De início, ele pensou que Lisia poderia apresentá-lo a algum agente ou
patrocinador que pudesse ajudar o garoto a alavancar a sua imagem na mídia, mas
logo se lembrou que esse tipo de intermediação era uma prática proibida aos
jurados de contests por questões éticas. Ele então ficou curioso, até que a
mais velha chamou a pessoa que estava dentro do camarim.
— Tio, vem aqui falar com ele!
“Tio”, uma palavra que deixou Ruby
um pouco confuso. O tio de Lisia? Quem poderia ser? O garoto se pegou tentando
adivinhar, mas logo o tempo se esgotou quando a pessoa em questão apareceu pela
porta, arrancando qualquer resquício de ar de dentro dos três mais novos.
Wally ficou de boca aberta.
Sapphire quase caiu para trás. E Ruby, por sua vez, ficou paralisado, sem
conseguir reagir diante daquela presença. A aparição imponente, elegante e ao
mesmo tempo esmagadora só despertou o trio mais jovem de seu transe quando a
voz melódica os cumprimentou com sua serenidade característica.
— Olá a todos — o homem então se
virou para o coordenador. — Especialmente a você, Ruby. Muito prazer, minha
sobrinha Lisia já tinha me contado sobre você antes deste contest.
Wallace estendeu a mão para Ruby.
Graças ao seu estado de alerta constante e ao seu subconsciente que funcionava
de forma automática para evitar colocar o garoto em situações de
constrangimento ele conseguiu responder o cumprimento do ex-Campeão.
— Eu não acredito que estou tendo a
oportunidade de te conhecer — o garoto tentava conter sua voz, prestes a
embargar. — De verdade mesmo.
— E eu fico igualmente feliz de ver
novos talentos surgindo. Tenho certeza de que vocês vão conseguir manter a
tradição de Hoenn de apresentar ótimos coordenadores ao mundo. Lisia já tinha
me mostrado o seu desempenho em Slateport e eu gostei muito — Wallace então se
virou para Wally. — E o mesmo vale para você. A batalha entre vocês dois foi
esplêndida! Continuem se dedicando assim que eu tenho certeza de que vocês
ainda vão nos mostrar coisas incríveis!
— Assino embaixo — disse Lisia.
A única que permanecia ali sem
ainda ter sido abordada pelo astro era Sapphire, mas não durou muito até que
Wallace voltasse sua atenção para ela.
— E você é a Sapphire, certo? — o
homem perguntou, deixando a garota inquieta. — Eu e a Lisia estivemos com o
Ethan há pouco tempo e ele comentou sobre você também. Se tudo o que ele disse
for verdade, então eu mal posso esperar para ver uma batalha sua.
Sapphire não conseguia nem pensar
numa resposta adequada. Ela já estava surpresa o bastante por estar presente no
mesmo lugar que o ex-Campeão, e naquele momento ele estava falando com a
garota. Ela foi tomada por um surto de ansiedade, sentia seu corpo inteiro
tremendo, e ao tentar abrir a boca a voz falhava.
A menina respirou fundo, tentando
se recompor, mas era em vão. Em meio àquele nervosismo, a pressão vinda dela
própria que tentava se obrigar a falar algo rápido para não deixar Wallace
esperando, foi o que causou a resposta mais aleatória e sem noção que a garota
poderia dar, se enchendo de uma falsa coragem tão absurda que nem mesmo ela
acreditou no que havia dito.
— Se-se quer ver uma... B-batalha
minha, a gente pode batalhar agora!
O silêncio tomou conta do corredor.
Wallace e Lisia pareciam ainda não ter assimilado o que acabara de ocorrer,
enquanto Ruby estava pálido e Wally assustado. Até mesmo Sapphire sentiu uma
hesitação breve, ainda que tentasse manter a compostura depois de perceber a
besteira que tinha feito.
— Ela acabou de desafiar o Wallace
pra uma batalha? — Wally perguntou cochichando no ouvido de Ruby.
— Wally, a Sapphire quando nasceu
não levou palmada, ela foi arremessada na parede — o coordenador respondeu. —
Ela tem uns três parafusos a menos.
O constrangimento foi quebrado com
o próprio Wallace, que respondeu àquela situação com um riso bem discreto.
Sapphire por um instante se perguntava se ele estava encarando aquela situação
como uma piada, mas a resposta do ex-Campeão foi bem melhor do que ela
esperava.
— Perdão por ter achado graça da
situação, é que realmente eu não estava esperando por isso — disse o homem
levando a mão ao peito em um gesto de cortesia. — Faz tempo que não recebo um
desafio assim desse jeito. Mas infelizmente eu não estou em condições de
aceitar, ainda que eu não faça mais parte da Elite 4.
Wallace, no entanto, olhou fixo
para Sapphire por mais alguns instantes. Ele tinha uma expressão enigmática em
seu rosto, com um sorriso que dava um tom de curiosidade. Era como se ele
estivesse gravando bem o rosto daquela treinadora na sua memória.
— Façamos o seguinte — disse ele. —
Estou tirando um tempo de férias depois de ter saído da Liga. Não pretendo
fazer mais nada até o fim da temporada além de ser jurado em alguns contests e
no Grande Festival. Por isso na maior parte do tempo eu estarei em minha casa
em Sootopolis. Você certamente terá que ir até lá em algum momento para
desafiar o ginásio. Quando chegar é só me procurar. As pessoas da cidade sabem
onde eu moro. E aí eu vou poder ver o quanto você progrediu. Certo?
— Certo... — Sapphire respondeu, já
no modo automático.
— Então estamos combinados. Treine
bastante até lá. Eu posso não estar competindo no momento, mas estou muito
longe de estar parado. Agora vou pedir licença para terminar de organizar
minhas coisas, pois preciso partir.
Wallace finalizou a conversa com
mais um gesto cortês.
— Foi um prazer conhecer vocês
pessoalmente. Até breve.
O homem então voltou para dentro do
camarim. Lisia deu uma piscada para os mais jovens, fazendo um sinal de “V” na
frente dos olhos.
— Até qualquer dia, gente! Ruby,
continue praticando. Wally, conquiste logo sua primeira fita. Quero ver os dois
brilhando lá no Grande Festival. Bye bye!
Assim que os três ficaram sozinhos
no corredor, o centro das atenções não poderia ser outro, senão Sapphire. A
menina tentava disfarçar o constrangimento, mas seu rosto vermelho entregava
tudo.
— Desafiar o Wallace, quem diria! —
Ruby tinha as mãos na cintura, com um sorriso triunfante. — De todas as ideias
suicidas que você já teve, essa está entre as piores. Mas vou ser sincero, eu
pagaria pra ver.
— Ruby, deixa disso! — Wally chamou
a atenção do amigo. — Eu admiro a sua coragem, Sapphire. Eu jamais teria
conseguido desafiar o Wallace como você fez aqui e agora. Realmente, para
melhorarmos precisamos desafiar quem é mais forte que nós. Acho que vou tomar
isso como um conselho.
— Meninos, vamos mudar de assunto?
— a garota implorava, tapando o rosto com a mão para não ser vista naquele
estado.
Após aquele encontro inesperado, o
trio voltou para a casa da família de Wally, onde passaria mais uma noite antes
de seguir jornada rumo à cidade de Lavaridge. Pouco tempo depois, Zinnia também
reapareceu, mas desconversou quando perguntada sobre o que tinha ido resolver.
Ruby agora era um coordenador
possuidor de duas fitas, dando mais um grande passo para sua qualificação para
o Grande Festival. Um contest que mostrou muito mais sobre o que aquele menino
era capaz além de seu próprio talento para coordenar. Fallarbor seria seu
próximo desafio, onde esperava enfim superar a primeira metade de sua escalada.
Mas o garoto deixaria para se preocupar com isso depois. Naquele momento, só
queria deitar a cabeça no travesseiro e aproveitar aquele raro momento onde se
sentia no topo do mundo.
























