- Voltar à Home »
- Capítulos »
- Capítulo 40
Por trás da máscara
![]() |
Art by: Auko |
Mauville estava tão movimentada
quanto da primeira vez que o trio passou por lá. Até porque não se esperava
menos de uma cidade situada no coração de Hoenn, com saídas em direção aos
quatro cantos da região. Sapphire era quem estava na frente, parando logo na
entrada e respirando fundo para sentir de novo o ar da cidade após algumas
horas caminhando debaixo do sol quente. Ruby e Vivi estavam atrás, ambos
conversando sobre contests e técnicas usadas em apresentações. Zinnia vinha no
meio, em silêncio, apenas observando as características da cidade.
Quando pararam perto do ginásio
Ruby puxou um mapa, procurando entender melhor a posição em que estavam, e
quanto tempo poderiam levar até chegar ao próximo objetivo.
— Vivi, daqui até o rancho da sua
família deve levar quanto tempo?
— Olha... — a garota iniciou a
resposta, mas ficou um tempo pensando, provavelmente calculando o a média de
tempo que levara em suas experiências. — Geralmente de seis a oito horas.
— Ainda é bastante chão. Melhor
passarmos a noite aqui na cidade, e amanhã vamos embora bem cedo — sugeriu o
garoto.
— Por mim tudo bem — disse
Sapphire. — Tem alguns lugares na cidade que não deu tempo de conhecer da outra
vez.
— Contanto que você não torre as
nossas economias no cassino, pode fazer o que quiser — Ruby comentou baixo,
enquanto ainda olhava o mapa.
— Mesmo se eu quisesse, eles iam me
impedir de entrar — a menina respondeu emburrada. — Mas eu tô ofendida por você
achar que eu sou o tipo de pessoa que ia perder a linha em um cassino.
— Que seja. Bom, todo mundo de
acordo?
Zinnia e Vivi assentiram, dando uma
resposta positiva à sugestão de Ruby. Tão logo a decisão foi firmada, os quatro
se dirigiram ao Centro Pokémon para fazer as suas reservas. Após se acomodarem
nos dormitórios, todos resolveram sair para agir suas próprias coisas.
Sapphire foi até uma das praças
procurar por treinadores para praticar um pouco. Zinnia queria experimentar
tudo que pudesse nas famosas sorveterias da cidade. Vivi, por sua vez, foi até
uma galeria comercial focada em treinadores, pois ouvira falar que lá havia
sido inaugurada uma lojinha com artigos para coordenadores.
Ruby foi o único a fazer algo que
não era apenas para ele. Com Sapphire e Zinnia sendo duas distraídas por
natureza, sobrava para ele a tarefa de sempre abastecer os suprimentos básicos
no PokéMart de cada cidade.
Assim foi feito. Após pegar todos
os itens necessários para continuar a viagem e pagar a conta no caixa com as
economias do grupo, o garoto estava de volta às ruas da cidade, podendo enfim
pensar em algum lugar aonde pudesse ir para fazer algo para si próprio.
Depois de pensar um pouco, Ruby
decidiu ir até um pequeno café de esquina situado perto do Centro Pokémon,
inspirado nos que se espalhavam por toda a parte em Kalos. Porém, apesar do
ambiente aconchegante, o café era pequeno, o que o fazia lotar mais fácil.
Quando o garoto atravessou a porta,
notou que o lugar estava abarrotado de gente, quase não dava para andar perto
do balcão de atendimento. Depois de disputar lugar com várias pessoas, quase
sempre sendo empurrado para trás, Ruby conseguiu fazer seu pedido. Assim que
caminhou com seu capuccino para fora daquele espaço apertado, o garoto sentiu a
sorte sorrir para ele pela primeira vez desde que tinha adentrado o
estabelecimento. Uma das mesas havia acabado de ficar livre.
Sem perder tempo, o menino avançou
em direção ao local, mas assim que se sentou percebeu que outra pessoa havia
feito o mesmo, mas na outra cadeira. Ele arqueou uma das sobrancelhas e dirigiu
o olhar em direção à figura que dividia a mesa com ele, já pensando numa forma
de dar um fora naquela pessoa inconveniente. Mas as palavras não saíram.
Ruby não sabia dizer o que naquela
garota o intrigava tanto. Por alguma razão, ele sabia que não eram os cabelos
tingidos de rosa em um corte chanel, por mais que tivesse que admitir que eram
chamativos. Talvez fosse o mesmo olhar intrigado que ela lhe dirigia.
— Ah, me desculpe. Eu não vi que
você também vinha na direção dessa mesa — a garota tinha uma voz suave, mas sem
parecer submissa. Era quase como se ela estivesse testando até onde seu charme
colocaria o garoto contra a parede. — Bem, o café está lotado. Se importaria se
dividíssemos?
— Ahn... — Ruby não conseguia
esconder que se sentiria desconfortável na presença de alguém que não conhecia,
mas também não a deixaria sem lugar para se sentar. — Claro que não. Pode ficar
à vontade.
A moça então relaxou em sua
cadeira, a afastando da mesa para dar espaço suficiente para que ela cruzasse
as pernas. E justo esse espaço maior possibilitou que Ruby reparasse em como a
maneira que ela se vestia poderia dizer pelo menos um pouco sobre a sua
personalidade.
Suas roupas eram leves, condizentes
com aquele dia quente. Apenas uma calça jeans e uma blusa branca de mangas
curtas. Mas ao mesmo tempo, alguns traços provocativos, além dos cabelos
coloridos, como um brinco posto em apenas uma das orelhas, usando a assimetria
como um toque de irreverência, e um decote que Ruby se esforçava ao extremo
para não olhar, por achar muito exagerado.
Percebendo a situação, a garota
pigarreou, despertando o garoto do transe em que se encontrava. Continuar a
conversa talvez o tiraria daquele estado de desconforto.
— Você não é aquele menino que
venceu o contest de Verdanturf no último fim de semana?
— S-sim, eu mesmo — aquela era a
primeira vez que Ruby era reconhecido como coordenador, e por isso não sabia
muito bem como reagir ao fato de que estava começando a se tornar um rosto
conhecido do público.
— Impressionante — a garota disse
com um tom mais devagar na sua voz, ao mesmo tempo em que digitava algo em seu
PokéNav, o que fez Ruby se questionar se aquele interesse era forçado. — Qual é
o seu nome mesmo?
— Ruby...
— Ok, Ruby. Eu me chamo Courtney. Quantos
anos você tem?
— Hã, dezesseis. Eu tenho dezesseis
— Ruby mal conseguia conter o nervosismo, dada a presença forte daquela garota,
de modo que seus impulsos eram mais rápidos que seu raciocínio. — E você? Ah,
desculpa! Eu não devia ter perguntado!
Courtney riu com o jeito
atrapalhado de Ruby. O menino não sabia dizer se ela se divertia com aquilo por
achá-lo um idiota ou de uma forma mais inocente.
— Relaxa, meu bem! Eu não me
importo com essas coisas. Eu tenho dezessete.
— Dezessete? — o garoto exclamou em
surpresa. — Você é mais nova do que eu pensava.
— Como é? — a garota arqueou a
sobrancelha, mas ao mesmo com um tom descontraído em sua face. — Tá dizendo que
eu pareço velha?
— NÃO! Pelo amor de Arceus, não é
isso. É só que...
Ruby começou a corar assim que
percebeu o que estava prestes a dizer. Courtney ficou curiosa com o que ele ia
acabar dizendo, e começou a tentar forçar a explicação.
— É só que...
— Eu não sei como dizer isso de uma
maneira não constrangedora — o garoto entrelaçava os dedos das mãos rapidamente
enquanto desviava o olhar para o teto ou qualquer outro lugar que não fosse a
cara de Courtney. — Seu corpo já é bem mais desenvolvido do que a maioria das
pessoas da sua idade.
Courtney ficou surpresa com o
comentário do garoto. Ruby paralisou em frente à garota com uma cara de
paisagem como se a alma tivesse deixado o corpo há muito tempo. Quando a mais
velha assimilou a situação, ela apenas deu um gole no chá, e após colocar a
xícara de volta à mesa, entrelaçou as mãos as usando de apoio para o rosto, que
ficou mais próximo do menino.
— Olha só, então você também repara
nessas coisas — ela disse com um sorriso travesso. — No fim das contas você não
é tão inocente quanto parece, garotinho.
— Eu não falei com essa intenção...
— Então por que ficou tão nervoso?
— o mesmo sorriso continuava estampado no rosto de Courtney. — Você não tem
muita experiência com garotas, não é?
— Podemos mudar de assunto?
— Como queira — disse a moça,
colocando uma pequena quantidade de adoçante no seu café e mexendo com uma
colher, mas sem deixar sumir seu sorriso descontraído. — Bem, está de passagem
aqui em Mauville? Onde vai ser seu próximo contest?
— Em Fallarbor. Mas antes vou para
Lavaridge porque uma amiga que está viajando comigo vai enfrentar o ginásio de
lá. Nós paramos aqui para estocar os suprimentos e passar a noite.
Ao ouvir um suspiro vindo de
Courtney, Ruby notou de relance que a garota tinha um sorriso diferente de
antes. O tom descontraído, quase debochado, dela agora dava lugar a uma
sensação estranha. Era como se aquele sorriso fosse uma máscara.
Ela que, por sua vez, encarava a
xícara de café enquanto tinha aquela expressão vaga, subiu seu olhar para a
janela do estabelecimento, encarando na direção da rua, mas era claro que o
lugar para onde ela olhava era mais distante, bem além das paredes das
construções do outro lado da rua.
— Entendo. É bom poder correr atrás
de algo. Ter esse tempo é um privilégio.
Sem saber como lidar com aquela
mudança repentina de clima, Ruby recorreu à sua melhor estratégia, que era se
fazer de desentendido.
— Do que você está falando? — o
garoto indagou. — Você tem só um ano a mais que eu. Você também tem esse tempo.
Quer ser uma treinadora ou coordenadora também? Por que não vai atrás?
Courtney ficou surpresa ao receber
aquela contestação. Pela primeira vez foi Ruby que a deixou sem resposta. Ela
agora não olhava para lugar algum, parecia tentar desembaralhar seus
pensamentos, enquanto o garoto apenas aguardava a conclusão daquele
questionamento.
Poucos segundos se passaram até que
Courtney concluísse que tentar achar uma resposta seria um esforço em vão. Ela
deu mais um sorriso discreto e voltou a mexer a colher na xícara, sem sequer
perceber que não havia colocado nada dessa vez que pudesse misturar ao café.
— Você é uma pessoa boa, sabia?
Ruby virou o olhar para o outro
lado quase que de imediato. Receber elogios não era seu ponto forte.
— Também não é pra tanto — disse o
menino, tentando disfarçar seu desconforto. — Eu só não vejo razão pra alguém
não seguir os próprios objetivos.
— É complicado. Muito complicado,
pra dizer a verdade.
Ruby sentia certa curiosidade ao
ver a mudança repentina de humor de Courtney. Aquela máscara de garota
provocativa parecia ter caído. Mesmo assim, não conseguia ler o interior dela
por completo. Ainda havia algo que ele não conseguia decifrar, mas não sabia o
que era. Só sabia que aquilo lhe causava uma sensação estranha, quase como um
alerta dizendo que ele deveria se afastar. Mesmo assim ele não poderia ser
indelicado com alguém que acabara de conhecer e nunca fizera mal algum a ele.
Percebendo que terminou seu capuccino,
Ruby se levantou da mesa, se dirigindo à garota que o acompanhou naquele breve
momento.
— Eu tenho que ir. Mas foi um
prazer, Courtney.
— Ah, claro. O prazer foi todo meu.
— Espero que pense no que eu disse.
Quem decide o rumo da sua vida é você, e mais ninguém. E você parece ser uma
pessoa bem decidida e firme. Eu acho que você consegue alcançar o que quiser se
tiver essa postura.
E assim ele caminhou para fora do
café, tomando seu rumo naquelas ruas movimentadas e deixando Courtney ainda na
mesa, reflexiva com aquela lição que não esperava receber de um garoto mais
novo que ela.
Sem mais reações, ela apenas
retomou o gesto habitual de mexer seu café, ainda que, mais uma vez, não tenha
colocado nada para misturar.
• • •
Enquanto caminhava de volta para o
Centro Pokémon, Ruby passou por uma praça e percebeu que Sapphire estava no
local. Mesmo depois de todo aquele tempo, a menina ainda batalhava com outros
treinadores que ali estavam. Ela tinha uma expressão visível de cansaço, mas ao
mesmo tempo parecia estar aproveitando ao máximo aquele momento.
Ruby se sentou em um banco próximo
para acompanhar a batalha, que a partir dali não durou muito até seu desfecho
com uma vitória para a menina. Após retornar Shroomish, ela viu que seu amigo
estava logo ao lado e caminhou até ele com um largo sorriso no rosto.
— Acho que fiz umas seis ou sete
batalhas. Acredita que eu ganhei todas? — disse ela enquanto abria uma garrafa
d’água dada por Ruby. — Fechei o dia a cem por cento!
— Nesse ritmo que você está eu
ficaria preocupado no lugar da líder do ginásio de Lavaridge — Ruby respondeu.
— Mas acho que você foi além do necessário. Seis batalhas é muito. Talvez você
aguente, mas seus Pokémons com certeza se desgastam mais do que você, porque
são eles que estão ali no confronto. Tente não puxar muito o limite deles, por
segurança.
— Eu sei, eu sei. É que a gente
acabou se empolgando. Mas saber que eles aguentaram tanto me deixa até
aliviada. Sinto que a gente consegue intensificar um pouco mais os treinos pra
que eles se desenvolvam mais rápido.
— Sim, mas um passo de cada vez,
como você e a Zinnia disseram pra mim — o garoto então pega as sacolas de
compras e se levanta do banco. — Enfim, vamos voltar? A essa altura, a Zinnia e
a Vivi já devem ter chegado também.
Sapphire sorriu para o menino,
mantendo suas mãos atrás. Os dois logo começaram a caminhar de volta para o
Centro Pokémon, onde poderiam dar aquele dia por encerrado.
— Vamos — disse a menina. — Mas
deixa eu tomar banho primeiro hoje? Acho que eu tô precisando mais do que você.
— Você com certeza está precisando
mais do que eu — Ruby então sentiu um soco leve no seu ombro, acompanhado de
uma risada de Sapphire.
— Idiota!
• • •
Courtney se encarava no espelho do vestiário
em que se encontrava. As roupas leves que usava mais cedo agora davam lugar ao
uniforme carregado de peças da organização onde trabalhava.
A garota se encarava no espelho com
expressão de dúvida. Aquela conversa com Ruby ainda estava rodando em sua
cabeça. Especialmente o que ele havia dito ao final daquele encontro.
— Por que eu não vou atrás? — ela
parafraseou o garoto. — Honestamente... Eu não sei.
Ela então colocou uma das mãos
sobre o peito, e abriu um sorriso discreto, mas pela primeira vez naquele dia
um sorriso um pouco mais autêntico do que os que ela estava acostumada a
mostrar.
— Mas descobri algo do qual eu
quero ir atrás. Agora com certeza.
Ao sair do vestiário, ela caminhou
pelos corredores da sede da organização. Qualquer membro que passasse pelo seu
caminho a cumprimentava assim que a via. Muitos deles com um semblante até
ansioso ou preocupado, para não dizer com medo.
Após uma caminhada breve, Courtney
parou em frente a uma porta automática. Quando ela se abriu, ela adentrou a
sala onde se encontravam duas figuras. Uma delas, um dos homens ali presentes
se dirigiu a ela com um tom de desprezo.
— Você está atrasada. Por onde
andou?
— Cuidando da minha vida, Tabitha.
Às vezes você deveria tentar cuidar da sua também.
Ela então se virou para a outra
figura, esta aparentando mais paciente. Ou talvez fosse apenas uma serenidade
de fachada. Sua expressão séria por trás daqueles óculos era ilegível.
— Peço desculpas por fazê-lo
esperar, mestre Maxie. Quais são os próximos passos?
FIM DO CAPÍTULO 40
E assim chegamos ao pequenito mas grande encontro que vai marcar tudo para o Ruby daqui para a frente. Excelente capítulo!
ReplyDeleteAté que demorou pra ter esse encontro, não é? Mas ele finalmente está aí kkkkkkkk
Delete