Capítulo 24

Fraqueza exposta


Depois de uma rápida travessia pela pista de ciclismo que cruzava a Rota 110, Ruby e Sapphire já conseguiam ver o topo de alguns prédios no horizonte. Mauville dava seus primeiros sinais de proximidade para os aventureiros enquanto as bikes corriam de encontro à brisa fresca que dava aos dois um ânimo a mais para continuar pedalando mesmo debaixo daquele céu ensolarado, isento de nuvens.

Ser um treinador ou coordenador licenciado em Hoenn tinha suas vantagens como, por exemplo, desfrutar de descontos em vários serviços, como compras na rede de lojas PokéMart e prioridade na reserva de quartos no Centro Pokémon ou em coisas mais simples, como o aluguel das bicicletas que estavam usando naquele momento.

Assim que chegaram ao ponto de saída a dupla já desceu das bicicletas e foram empurrando-as até a porta. Assim que saíram da recepção já deram de cara com a entrada da cidade de Mauville, local onde Sapphire desafiaria o líder de ginásio local pela sua terceira insígnia.

— Depois de fazermos a reserva no Centro Pokémon, nós podemos procurar alguma coisa pra fazer. Sei lá, talvez tomar um sorvete — disse Sapphire.

— Sério? Achei que você já ia largar tudo no quarto e ir correndo pra algum lugar no meio do mato pra treinar pro seu desafio no ginásio — Ruby tinha um leve tom de deboche, sabendo o quanto a amiga andava trabalhando duro nos últimos dias.

— Ah, qual é! Uma hora ou outra a gente precisa de descanso. E eu estava parada sem fazer nada desde que saímos de Dewford. Minha passagem por Slateport foi nula no sentido de progredir no desafio dos ginásios, então só restava compensar essa “folga” treinando pesado.

— Relaxa, eu só estava brincando. Você tem se esforçado demais ultimamente e eu também não tive descanso por causa do contest. Eu também acho que a gente deveria se divertir um pouco antes de você enfrentar o ginásio.

Depois de uma rápida passagem no Centro Pokémon, onde Sapphire deixou seu Taillow para uma avaliação, já que o mesmo já se encontrava na sua fase final de recuperação, a menina e Ruby saíram à procura de um bom lugar para comerem alguma coisa.

Escolheram uma sorveteria, como combinado logo que chegaram à cidade. O estabelecimento tinha uma pequena varanda onde ficavam algumas mesas, com um guarda-sol para protegê-los naquele dia quente. Lá mesmo eles se sentaram enquanto degustavam a sobremesa.

— Seu Torchic já tem nível para evoluir — comentou Ruby. — Por que ainda não aconteceu?

— Sei lá. Acho que o Pokémon tem que se sentir bem pra isso. E o Torchic ainda não vai muito com a minha cara, ele batalha e vence mais pelo próprio orgulho. Então não quero forçar a barra, vou deixar que ele evolua por conta própria.

— Entendo. Mas você já tem duas insígnias. As batalhas vão começar a ficar mais pesadas agora, o nível vai subindo a cada líder que você derrota. Todos os seus Pokémons estão no primeiro estágio, isso pode acabar te atrapalhando no futuro.

Ruby tinha razão, por mais que Sapphire não quisesse ouvir aquilo. A menina treinava forte com seu time diariamente para poder contornar aquele problema, mas na verdade sabia que cedo ou tarde um Pokémon evoluído seria necessário. Só não queria privá-los de sua liberdade de escolha.

— Eu sei que uma hora eles vão acabar evoluindo. Meu método é esse, deixar que eles saibam quando é a hora. Tenho certeza que no momento certo vai acontecer.

A conversa entre os dois foi interrompida por conta de uma confusão que se formava do lado de fora da sorveteria. Ao saírem às pressas para ver o que acontecia, Sapphire e Ruby perceberam que uma batalha ao ar livre ocorria entre um garoto da mesma idade que eles e um outro um pouco mais novo.

O mais velho tinha cabelos escuros e uma expressão rancorosa no rosto, e usava um Houndour, um Pokémon incomum em Hoenn. O garoto que batalhava contra ele, por sua vez, tinha um Minun que parecia estar seriamente machucado.

— Minun, não vamos nos dar por vencidos — disse o treinador do roedor elétrico.

— Eu já avisei que vocês têm que saber a hora de desistir — disse o rapaz. — Feint Attack!

O golpe foi forte. Minun caiu de forma definitiva, encerrando a batalha. O garoto mais novo tremia em preocupação ao ver o estado de seu Pokémon, sem saber o que fazer. Só queria pegá-lo e sair correndo em direção ao Centro Pokémon. Quando fez a menção, porém, de ir até ele para pegá-lo a voz do mais velho pôde ser ouvida por toda aquela parte da rua.

Fire Fang.

Houndour avançou em direção ao Minun desacordado com suas presas em chamas, pronto para dar um golpe definitivo, mas o mesmo foi interceptado por um Torchic que usou um Sand Attack para atordoá-lo. Sapphire apareceu correndo na frente de Minun e seu treinador com a intenção de acobertá-los para que saíssem dali em segurança.

— Pega ele e vai pro Centro Pokémon imediatamente! Quanto mais cedo você for melhor! — a garota então se virou para o treinador que estava agora a sua frente a encarando com um pesado olhar de desagrado. — O que você pensa que está fazendo? Essa batalha já terminou!

— É mesmo? — o garoto rebateu em tom de provocação. — Eu não me lembro do pirralho ter admitido a derrota, então achei que ele ia continuar. Ele mesmo estava falando coisas como "não vamos nos dar por vencidos", ou algo do tipo.

Sapphire sentiu o sangue ferver naquele momento. A garota não conseguia aceitar que um treinador usasse seus Pokémons para ferir os outros. Ela cerrou os punhos, se contendo para não agredi-lo ali mesmo, mas fez o que era esperado de sua posição como treinadora. Faria justiça da forma correta.

O garoto percebeu que ela gesticulou para que Torchic se colocasse em posição de alerta. Sua expressão imediata foi de impaciência. Ele não tinha vontade nenhuma de continuar batalhando, só queria sair dali o quanto antes.

— É sério isso? Você vai me desafiar para uma batalha? — o rapaz esfregou o rosto em descontentamento. — Escuta, garota, eu não tenho disposição pra lidar com gente que brinca de ser treinador. Vamos fazer o seguinte. Eu vou relevar o fato de você ter interrompido minha outra batalha contra aquela criança idiota e vou deixar você seguir com sua rotina. Só não vem testar minha paciência.

— É óbvio que é sério! Você acha que vai sair impune depois do que tentou fazer com aquele garoto?

— Já que é assim, então tenta me dar uma lição. Vou deixar que você comece.

— Não precisa nem dizer! Torchic, use o Peck!

— Houndour, Smog!

Uma densa nuvem de gás tóxico foi disparada na direção do Torchic, que foi forçado a parar o ataque e recuar para não ser pego pelo ataque e sofrer algum risco de contaminação.

— Complete com o Faint Attack!

De trás do véu de poluição Houndour surgiu acertando um ataque furtivo que deixou Dan sem condições de se defender ou esquivar. A diferença de níveis era clara, o canino era muito mais forte que a pequena ave, e a força de seus ataques causava muito mais dano do que se estivessem no mesmo nível. O Torchic tombou para trás, já demonstrando sinais de que não aguentaria aquela batalha por muito tempo.

Houndour prendeu Torchic no chão com suas patas dianteiras. Sapphire estava em choque, nunca havia sido pressionada daquele jeito, nem mesmo em uma batalha contra líderes de ginásio. Ela simplesmente não encontrava maneiras de responder àquela sucessão de ataques.

— Torchic, use o Scratch para tirar ele de cima de você!

Mesmo com suas patas livres o ataque não alcançava a cabeça de Houndour, que era quem ele estava tentando atacar. O garoto já não estava com tanta paciência, e resolveu acabar logo com aquilo.

Dark Pulse.

A proximidade entre os dois fez com que o ataque fosse certeiro e bem mais perigoso. A explosão de energia sombria entre os dois levantou uma nuvem de poeira, dificultando a todos os presentes que se pudesse ver logo de imediato o que havia acontecido. Mas não durou muito tempo até a visibilidade ser restabelecida. Quando a poeira se dissipou, Torchic estava nocauteado e seriamente ferido, enquanto Houndour permanecia no mesmo estado de quando havia começado a batalha.

— Torchic! — gritou Sapphire, desesperada e já cedendo a ficar de joelhos no meio da rua onde os dois batalhavam.

— Eu estou farto de perder meu tempo com crianças — disse o rapaz com a voz em tom de fúria. — Vocês são medíocres, achando que são alguém porque conseguem vencer batalhas brandas disfarçadas de desafios e colecionar medalhinhas coloridas. Achou que fosse me derrotar porque confiou demais no seu Pokémon de baixo nível. Você e aquele pivete do Minun são iguais, dois merdas que se dizem treinadores.

Sapphire estava sem reação, seus braços trêmulos eram o que tentavam sustentá-la para que não caísse ao chão, mesmo que já estivesse de joelhos. Sua voz não saía, o nó em sua garganta não deixava.

— O que você achou que tinha a seu favor para ganhar de mim? — o garoto continuou. — Amizade? Acreditar em si mesma? Perseverança? O que vence batalhas é poder, é força! É isso que eu busco enquanto vocês, um rebanho de imbecis, insiste em continuar nesse conto de fadas que são as jornadas e o desafio da Liga Pokémon.

A garota enfim conseguiu se levantar, respirou fundo e dirigiu um olhar severo para o seu adversário, se é que ainda podia chamá-lo assim. Já começava a enxergá-lo como um inimigo.

— Acha que tudo se resume a poder? De que serve o poder se você só vai usá-lo para reprimir aqueles que são mais fracos? Você realmente vê alguma justificativa nisso?

— Eu vejo toda a justificativa nisso. Nossa sociedade se gaba de ser civilizada. Somos apenas travestidos de seres racionais, mas nosso instinto predatório é latente. Estamos apenas à espera de algum pretexto para nos libertarmos das amarras que a sociedade a nossa volta nos impõe e poder voltar a alimentar nossos desejos e instintos. Ou você caça ou é caçado. Eu e minha equipe nos cansamos de ser caça, e decidimos nos tornar caçadores. E um dia vamos caçar os degenerados que um dia ousaram nos caçar.

— Isso é a coisa mais absurda que já ouvi — Ruby sussurrou enquanto amparava Sapphire.

— Espero que você entenda que as coisas são assim na vida real, garota. Que isso sirva de lição para te mostrar que tudo que você tem feito até agora imaginando que era um objetivo de vida não passa de uma brincadeira infantil. Espero não ser mais importunado por escória como vocês me pedindo para batalhar. Já perdi tempo demais correspondendo aos anseios de gente que não merece o meu tempo.

O treinador ergueu um dos braços, sinalizando para seu Houndour que um novo ataque seria executado. O canino se postou pronto para avançar em Sapphire e Dan, aguardando apenas o comando que veio logo em seguida:

Fire Fang nos dois!

Mais uma vez Houndour foi bloqueado antes que o pior acontecesse, dessa vez por um Manectric que investiu na hora exata interceptando o ataque e afastando o Pokémon de fogo.

Quem o comandava era um homem já com certa idade, calvo de cabelos e barba grisalhos. Ele vinha andando firme e com um olhar sério na direção dos treinadores, com as pessoas em volta abrindo passagem ao vê-lo se aproximar.

— Ouvi dizer que tem um pessoal barulhento perturbando as pessoas por aqui — disse o velho, ignorando o burburinho das pessoas em volta.

— E quem é você pra se achar no direito de interferir na batalha? — o rapaz retrucou com agressividade. — Se quiser terminar como ela então entra na fila!

— Quem eu sou? Que bom que você perguntou. Eu sou Wattson, líder do ginásio dessa cidade. É bom você parar de bancar o rebelde, ou eu vou ter que te dar uma lição.

O garoto ao ouvir aquilo começou a gargalhar alto, e não parecia conseguir controlar o riso, estava realmente achando graça naquilo tudo. Foi então que ele se virou para Sapphire.

— Olha aí, seu super-herói chegou! Pede pra ele te ajudar. Vai treinar lá enfrentando ele pra ver se seu time fica um pouco menos vergonhoso!

O garoto se virou para Wattson com um semblante de puro deboche.

— Foi mal aí, velho! Eu poderia limpar o chão com a sua cara facilmente, mas já perdi tempo demais dando uma dose de realidade pra essa criançada. Tenho afazeres mais importantes. Vá cuidar da sua vida!

Antes que o garoto fosse embora, Sapphire o chamou uma última vez. Já sem paciência, ele se virou para escutá-la.

— Qual o seu nome?

O garoto fez uma expressão de incredulidade. Não estava esperando por uma pergunta daquela. Segurou o riso por muito pouco e respirou fundo.

— Você por acaso acha que isso é algum episódio de anime ou algo do tipo? E se eu disser meu nome, você vai dizer o que em seguida? “Vince, um dia eu vou te derrotar”! Francamente, você não acha que já passou vergonha demais pra um dia só?

Enfim o garoto foi embora. As pessoas que observavam o conflito começaram a dispersar aos poucos. Sapphire e Ruby não tiveram muito tempo para se lamentar naquela hora. Eles precisavam levar Torchic com urgência para o Centro Pokémon. Antes de saírem às pressas, Wattson segurou no ombro da garota.

— Eu vou com você. Vamos deixar seu Torchic sob os cuidados do Centro Pokémon e lá depois você me conta os detalhes do que aconteceu aqui.

Mais tarde naquele dia, Wattson estava sentado à mesa do refeitório do Centro Pokémon, com Sapphire e Ruby do outro lado. Eles escolheram a mesa mais afastada, aproveitando que o local não estava tão cheio, para que não fossem ouvidos.

— Desculpa tomar o tempo de vocês dois. Mas eu queria que vocês me respondessem qualquer coisa que sabem sobre esse garoto com quem vocês batalharam hoje cedo.

Sapphire permaneceu calada e cabisbaixa. Não conseguia manter a cabeça vazia para poder conversar sobre aquilo. Foi Ruby então quem tomou as rédeas da conversa.

— Nós estávamos por perto quando esse cara tentou atacar covardemente um treinador e Pokémon que ele havia acabado de derrotar. Sapphire interveio antes que ele conseguisse, os dois começaram a batalhar e se não fosse por você ter chegado a tempo a mesma coisa teria acontecido com ela.

— Fora isso vocês não têm nenhuma pista de onde ele pode ter vindo, não é? — o líder de ginásio cruzou os braços e fez uma expressão de lamento. — Entendo. Eu estou observando tudo de diferente que eu vejo acontecendo por aí. Nos últimos dias eu tenho sentido algo estranho com essa cidade, como se algo fosse acontecer. Sou nascido e criado aqui, estou com setenta e um anos e nunca me senti desse jeito. Tem algo errado acontecendo.

O homem se levantou para ir embora, mas antes de sair dirigiu a palavra a Sapphire uma última vez.

— Eu desejo uma boa recuperação ao seu Torchic. Eu vi que aquele garoto comentou sobre você ser uma desafiante da Liga, então quando estiver com a cabeça mais tranquila pode ir lá me procurar que eu vou aceitar seu desafio diretamente. Em respeito ao que você passou hoje, eu não vou te dar nenhum teste prévio como os outros líderes costumam fazer. Até lá eu recomendo que você tenha um bom descanso e deixe seu Pokémon com a equipe médica daqui, que eu te dou a certeza de ser uma das melhores de toda Hoenn.

Assim que Wattson foi embora Ruby e Sapphire saíram do refeitório para subir as escadas para o quarto que haviam reservado. No caminho até lá apenas silêncio. Ruby sempre foi do tipo que não gostava de barulho excessivo, por isso às vezes se irritava um pouco com o jeito cheio de energia de Sapphire. Mas aquele silêncio o torturava.

Ele sentia que parte da culpa era sua, já que não fez nada para tentar ao menos revidar o que aquele treinador havia feito com a amiga. E nem conseguiria. Se Sapphire não teve condições de vencer aquela batalha, o que o ele poderia fazer?

Os dois entraram no quarto. Sapphire já começava a caminhar em direção ao banheiro quando Ruby a segurou pelo braço. O menino se assustou ao perceber a atitude impulsiva, e imaginava que a garota acabaria brigando com ele como ela costumava fazer quando se sentia constrangida. No entanto, não se teve resposta. Ela apenas voltou seu olhar devagar para o garoto, uma expressão vaga de quem não tinha mais ânimo.

O silêncio se estendeu por mais alguns segundos. Ruby não sabia como dizer a ela o que estava sentindo naquele momento. A sensação de impotência também era dele, os dois estavam abatidos, mas de formas diferentes. Sapphire pelo choque de realidade, e Ruby por vê-la daquele jeito.

— O que houve? — ela perguntou. — Eu só vou tomar um banho e descansar um pouco, não tô com muita vontade de fazer nada agora.

— Eu sei que não posso te obrigar a ficar alegre depois do que aconteceu mais cedo, mas eu não gosto de te ver assim — o garoto começou a falar, ainda um pouco travado por conta de odiar se abrir para qualquer pessoa. — Mas eu quero que saiba que você é uma ótima treinadora. É normal ter coisas a aprender ainda, você começou sua primeira jornada há pouco tempo e mesmo assim já tem duas insígnias e realizou batalhas incríveis!

Sapphire se assustou com aquele sermão repentino. Ruby era uma pessoa fechada, muitas vezes ranzinza, cujos sentimentos eram difíceis de identificar. Não sabia onde ele queria chegar com tudo aquilo.

— Eu também sinto um pouco de culpa por não ter conseguido fazer alguma coisa — ele continuou. — E por isso eu prometo que vou treinar mais. Nós vamos treinar mais, quero dizer. Você ainda vai perder outras batalhas no futuro, isso é certo para todos, mas vai ficar forte para nunca mais ser derrotada dessa forma. E eu vou ficar forte também, porque se um dia você precisar eu poderei entrar na briga junto.

O sorriso dele era sincero, e de certa forma até reconfortante. Nem parecia mais o garoto mimado e resmungão que se recusava a comer berries recém-colhidas nas árvores da estrada. Sapphire retribuiu o apoio do amigo com um sorriso, ainda que tímido, mas que foi complementado por um abraço apertado. Se ela se sentia frágil naquele momento, deixaria que seu melhor amigo fosse sua armadura, pelo menos daquela vez.

— Obrigada, Ruby — a menina agradeceu, ainda um pouco sem graça, quando os dois se soltaram. — Acho que se não fosse por você, e até pela Miriam no tempo em que ela ficou com a gente, eu poderia ter desistido antes de enfrentar a Roxanne.

— Eu digo o mesmo. Se você não tivesse caído no quintal da minha casa eu poderia te ver como uma visita qualquer, e não teria a vontade de sair de casa. Minha vida tem sido um tédio nos últimos anos, e achei que quando eu e minha família chegássemos a Hoenn ia continuar tudo igual. Não vou mentir que fiquei intrigado com sua aparição bizarra.

Os dois riram por um momento. Aos poucos o peso nas costas de cada um parecia sumir devagar, mas com alívio.

— A gente pode ver algum outro lugar na cidade pra visitar. É cedo ainda, não sei se você conseguiria dormir agora por mais que tentasse.

— Eu já tô melhor, mas tem uma coisa que eu ainda preciso fazer.

— O Torchic?

— É...

Tendo descansado do dia que se passou, Sapphire desceu até a ala hospitalar para visitar Torchic. Com a autorização da enfermeira ela entrou em uma sala onde alguns Pokémons estavam, alguns acompanhados de seus treinadores, outros descansando.

Seu parceiro estava em uma maca no canto da sala. Já parecia estar muito bem, passaria a noite em observação apenas para que houvesse a certeza de que poderia receber alta na manhã seguinte. A expressão da pequena ave não foi das melhores ao ver Sapphire, se virando com rapidez para a parede ao lado.

— Eu sei que você me odeia. Eu só nunca entendi o motivo. Sempre me esforcei pra ser uma boa treinadora, sempre tratei vocês da melhor forma que eu podia. Mas agora eu comecei a perceber que talvez não seja o suficiente.

Torchic voltou a observá-la, mas sem expressar nenhuma reação. O olhar continuava seco, cansado, mas pelo menos ele tentaria ouvir o que sua treinadora tinha a dizer.

— Eu acho que nunca parei pra pensar no lado de vocês. Te coloquei em risco hoje porque queria aquela vitória e não calculei a diferença entre a força dos adversários e a nossa. Mas agora sei que só uma parte de mim queria a vitória pra fazer justiça. Com o passar da batalha o desejo de vencer passou a ser voltado pro meu próprio ego, e você se machucou seriamente por causa disso.

Sapphire usou o braço para esfregar os olhos e ao mesmo tempo tapar o rosto para que Torchic não visse outras lágrimas escorrerem.

— Droga, eu odeio não conseguir me controlar.

A expressão de seu Pokémon ficou um pouco mais serena. A treinadora respirou fundo e se levantou de sua cadeira, já prestes a sair para permitir que seu companheiro tivesse uma noite de descanso.

— Eu só quero que você me ajude no ginásio de Wattson. Depois disso eu vou deixar que você decida. Se você não gosta de me ter como treinadora eu não quero te forçar a seguir viagem comigo ou gostar de mim. Mas uma coisa eu garanto — ela fixou seus olhos azuis no pequeno. — Se você me der uma chance e continuar junto comigo eu nunca mais vou permitir que algo assim aconteça de novo. Nem com você e nem com os outros.

Sapphire deixou a sala. Dan continuou encarando a porta que havia acabado de se fechar. Quando viu que ninguém o observava o Torchic esboçou um sorriso de canto, bem discreto.

— Essa humana idiota...

• • •

Roxanne havia acabado de finalizar uma batalha de ginásio. Seu desafiante, derrotado, foi embora pisando com força no chão enquanto a líder só o observava com um olhar de desinteresse.

Pouco tempo depois Steven entrou às pressas e se dirigiu até o local onde a mulher costumava ficar, o velho altar onde havia estátuas de Pokémons ancestrais. A julgar pela expressão de ansiedade no rosto do rapaz, Roxanne já imaginava que novidades tinham chegado.

— Pelo visto você descobriu alguma coisa — disse a mulher.

— Coloque um substituto temporário aqui no ginásio. Estamos indo para Mauville depois de amanhã!

Roxanne se surpreendeu com aquele comunicado repentino.

— O que houve?

— Tenho que resolver outras coisas agora, mas quando estivermos a caminho eu te explico. Mas desde já eu digo que devemos ir até lá, ou as coisas podem acabar ficando feias.

FIM DO CAPÍTULO 24

  


Niani


Niani é a Mudkip que Sapphire entregou a Miriam durante a estadia do trio em Rustboro. É bastante ingênua e distraída, podendo ser um alvo fácil para pessoas e Pokémons mal intencionados. Por sorte recebe a proteção de sua treinadora e seus companheiros de equipe Maggie e Shin, que por já serem mais experientes possuem facilidade em identificar uma situação perigosa para ela.

Foi praticamente esquecida por Sapphire durante um bom tempo, tendo corrido o risco até mesmo de morrer por ter ficado semanas largada dentro de uma Pokéball. Por sorte Miriam, que possui conhecimentos básicos em Criação Pokémon, rapidamente identificou a urgência do problema e tomou as providências necessárias para mantê-la viva.

Primeira aparição:


Curiosidades:

• Niani deriva de Niniane, um dos nomes de Nimue, sacerdotisa das águas nas lendas arturianas. O autor, porém, decidiu simplificar o nome para torná-lo mais fácil de memorizar por parte dos leitores;

• É a inicial de AEH que teve sua personalidade exibida mais tarde, porém a mesma foi desenvolvida juntamente com a de Dante e Jeff;

• O nome da Mudkip a princípio seria Lucy, mas após lembrar que este também é nome de uma dos Cérebros da Fronteira o autor trocou a fim de evitar confusões;


Notas do Autor - Capítulo 23


Finalmente Miriam conquista seu segundo símbolo da fronteira! Eu estava ansioso pela batalha contra a Greta! E ainda consegui de quebra arrumar um espacinho para vocês verem a Niani batalhando pela primeira vez. O que acharam? Pra uma estreante o desempenho dela foi bom, apesar de ter perdido?

O empate foi algo que nem eu esperava. Mas simplesmente aconteceu. Era o resultado mais justo na minha visão, pois fazer a Nidoqueen vencer de forma heroica simplesmente apagaria todo o esforço e competência da Greta. E eu já sentia que tinha que fazer algo mais difícil, porque aquela batalha contra o Noland praticamente não existiu.

Agora é hora de irmos a Mauville, a última cidade e último arco da Omega Saga! Chegaremos ao fim dessa primeira temporada, e mal posso esperar para concluir os capítulos restantes.

BORA!


Capítulo 23

A razão por trás do ímpeto


Miriam checava o mapa uma última vez para não errar o caminho até o próximo local da Batalha da Fronteira. A garota se encontrava em uma bifurcação na rota, e não estava com o mínimo de vontade de se perder de novo. A pequena Mudkip estava repousando sobre sua cabeça. Nos últimos dias a treinadora resolveu mantê-la fora da Pokéball por mais tempo para que pudessem ganhar mais afinidade. Parecia estar funcionando, pois a anfíbia era dócil e bem fácil de lidar.

Com mais alguns poucos metros andados lá estava a Arena da Batalha, um dojo no meio da floresta, construído com uma arquitetura bem antiga, da época em que os grandes guerreiros de Ransei travavam batalhas para expandir seus Impérios. Não havia guardas na entrada, apenas uma trilha de cascalhos margeada de ambos os lados por um jardim zen sombreado por grandes bonsais. Um lugar que poderia ter sido cenário de um filme, e que outras pessoas não acreditariam ser de verdade.

Miriam sentiu uma ligeira sensação de paz ao entrar naquele lugar, a brisa até mesmo parecia mais fresca do pórtico torii para dentro. Ao chegar na escada que dava acesso à varanda da construção, Miriam notou um aviso que pedia para que os visitantes e desafiantes retirassem seus calçados antes de entrar no local, e assim o fez.

Na parte de dentro um vasto tatami se estendia aos quatro cantos do salão, com uma parte mais elevada para quem estivesse lá apenas para assistir as batalhas. Nessa área em específico duas mulheres trajadas em roupas de treino ministravam uma aula de artes marciais para algumas pessoas que repetiam os mesmos movimentos que as duas faziam.

Uma delas era Greta, Cérebro da Fronteira que Miriam já tinha visto pessoalmente em Slateport, que foi quem percebeu a entrada da menina e caminhou até ela enquanto a outra, de cabelos e olhos rosados, continuou a passar as lições.

Greta era bem baixa, mas sua expressão era a de quem tinha bastante energia. Miriam não sabia ao certo o que esperar daquela pessoa, mas o sorriso em seu rosto indicava animação em ver mais alguém adentrar aquele dojo.

— Veio um pouco atrasada! A aula da Maylene já começou, mas ainda dá tempo de pegar bastante coisa — a garota apontou para uma porta em um dos cantos do salão. — O vestiário feminino é naquela porta.

Miriam ficou encarando a loira com uma expressão confusa. Só então a anfitriã percebeu que não se tratava de alguém que viera para a aula.

— Se você não veio para a aula, então...

— Eu achei que aqui fosse um dos locais da Batalha da Fronteira — disse a treinadora, um pouco sem jeito.

— OH, MAS É CLARO! — a loira disse bem alto em tom de animação, assustando Miriam. — Foi mal! Eu não recebo desafiantes aqui já faz um tempo! Eu me chamo Greta — ela então fez uma pose extravagante de luta — e sou conhecida como a Magnata da Arena!

Miriam e sua Mudkip trocaram olhares sem entender nada do que se passava ali. Como uma instalação da Batalha da Fronteira estava sendo usada para outra atividade que não fosse as batalhas?

— EU SOU UMA GUERREIRA COM O ESPÍRITO DE UM INCINEROAR FLAMEJANTE ME FRITANDO POR DENTRO! SE QUISER IR EMBORA AGORA APROVEITE, DEPOIS QUE ACEITAR LUTAR COMIGO NÃO TERÁ MAIS VOLTA!

— Talvez se não fosse pela parte do “fritando por dentro” teria sido uma boa apresentação — Miriam exibia um sorriso sarcástico enquanto falava.

— Ah, é? — Greta arqueou uma das sobrancelhas. — Você fala como se fosse especialista em apresentações. Quem é você mesmo?

Miriam começou a abafar uma risada contida. Em seguida estendeu um dos braços na direção de greta, quase tapando o próprio rosto com a outra mão enquanto fazia uma pose heroica e dramática ao mesmo tempo.

— Se não me conhece ainda, vai me conhecer depois que eu sair daqui com o seu Símbolo da Fronteira e sua dignidade. Trema perante o seu revés de ter que enfrentar aquela que irá suceder Surge como a maior treinadora que Vermilion já mostrou ao mundo. RÁPIDA COMO UM RAICHU FURIOSO, EU, MIRIAM, TE DESAFIO PARA UMA BATALHA ATÉ A MORTE!

Greta ficou calada observando sua desafiante. Miriam exibiu um sorriso triunfante, praticamente com a certeza de que havia vencido o primeiro confronto.

— Surpresa com minha habilidade de ser incrível?

— Não, só te achei doida mesmo — respondeu a lutadora, deixando Miriam emburrada. — Mas gostei de você. Espero que todo esse seu falatório não seja só fachada. Eu aceito seu desafio, e vamos batalhar assim que a aula terminar, já que esse dojo também é o nosso campo de batalha.

• • •

— Já faz um bom tempo desde que nos encontramos para falar sobre esse assunto.

Steven remexia a colher de açúcar em uma xícara de café que havia acabado de ser servida. Roxanne estava sentada ao outro lado da mesa, aguardando o que o Campeão tinha a dizer em seguida.

— Perdão por não ter dado continuidade antes à nossa missão. Essa entrada na Elite me tomou muito tempo. Precisei desses meses para poder me adaptar e conciliar a vida nova com as atividades que eu já tinha antes.

— Não tem problema. Enquanto isso eu pude cuidar da maior parte das pendências que eu tinha. Mas como vão as investigações? Alguma novidade?

Steven olhou tudo a sua volta. A sua sala no prédio da Corporação Devon estava vazia, tendo apenas ele mesmo e Roxanne lá dentro. Do lado de fora, no corredor, não escutava passos ou vozes, dando a entender que também não havia movimento ou alguma presença que pudesse comprometer a privacidade daquela reunião.

— Eles vão começar a se mexer — disse o Campeão, tomando todo o cuidado para não falar alto. — A Team Magma parece ter uma rivalidade com a Team Aqua. Após o ataque da segunda facção ao Museu Oceânico de Slateport na semana passada, os Magmas parecem ter tido algum tipo de prejuízo estratégico. Agora eles estão desesperados para tomar alguma ação rápida.

— Entendo — Roxanne colocou a mão no queixo em um gesto de reflexão. — Aparentemente a Team Aqua obteve sucesso nesse ataque em Slateport. Mas é difícil dizer, pois apenas vandalizar o museu não parece ter rendido frutos.

— Você está pensando o mesmo que eu, Roxanne?

— Você me fez essa pergunta da última vez que estivemos aqui. Mas acho que dessa vez também estou sim — a acadêmica riu de leve enquanto bebia um pouco do café. — Imagino que eles tenham criado uma distração no museu para limpar o caminho para um objetivo que eles tinham na cidade. Mas o que seria?

Ambos ficaram em silêncio enquanto tentavam encontrar alguma pista que pudesse dar a eles a resposta. Steven era quem mais se preocupava com aquela situação. Não podia permitir que logo em seu mandato como Campeão de Hoenn aquelas facções fizessem o que bem desejassem. Durante a liderança de Drake e Wallace nenhum relato de desordem por parte das organizações foi levantado, e não era agora que eles seriam permitidos a executar seus planos.

— Eu vou ver se consigo contato com a Polícia Internacional. Eles estão encarregados das investigações em Slateport, e a chefe do Departamento de Inteligência é um Cérebro da Fronteira — Steven começava a folhear uma agenda de contatos que tinha guardada na gaveta de sua escrivaninha.

— Anabel — Roxanne concluiu. — Mas será que ela estaria disposta a aceitar a nossa ajuda?

— Não creio que será problema. Para combater organizações que atuam com Pokémons um reforço vindo da Elite e de líderes de ginásio seria muito bem vindo para eles.

— Quando você diz “Elite e líderes de ginásio” faz parecer um exército inteiro indo resolver o problema. Mas de treinadores mesmo somos apenas nós dois.

— Por enquanto. Mas eu sei que em breve teremos ajuda.

• • •

A aula de Maylene havia terminado. O dojo estava quase vazio, apenas algumas pessoas ficaram para ver a renomada mestra em Pokémons lutadores, Greta, em ação. Miriam continuava afagando sua Mudkip. A Cérebro da Fronteira percebeu.

— Mudkip é seu inicial então? Conheço um cara que pegou um também. E tem um Typhlosion ainda por cima. Já faz uns anos que ele compete com a gente.

Miriam logo percebeu que a pessoa a quem Greta se referia poderia ser Ethan, pois não lembrava de ter visto mais ninguém com um Typhlosion em Hoenn. Porém, preferiu não comentar que o conhecia.

— Na verdade eu já vim pra Hoenn com outros Pokémons. Não daria pra enfrentar a Batalha da Fronteira sem um time mais avançado. Essa Mudkip eu ganhei depois que vim pra cá, mas ela ainda não está totalmente treinada para uma batalha de alto nível.

— Bem, eu acho que tenho uma solução. Eu também recebi um Pokémon novo há pouco tempo, foi a própria Maylene quem me deu. Pelo mesmo motivo que você eu não o utilizei em alguma batalha. Que tal usarmos os dois, assim podemos dar a eles uma experiência em batalha real.

— Mas não pode ocorrer deles enfrentarem um Pokémon de nível mais alto?

Greta parou por um instante para raciocinar sobre o assunto. Não demorou muito até que a garota tivesse a resposta para aquele problema.

— Façamos o seguinte. Serão batalhas independentes, uma melhor de três. Dessa forma, quem vencer duas rodadas será a vencedora. Caso haja empate nas duas primeiras, uma terceira rodada com outros Pokémons será realizada como desempate. Assim poupamos nossos Pokémons novos de batalhar contra adversários de nível alto. O que me diz?

Miriam parecia animada em poder utilizar a Mudkip em um confronto. As duas vinham treinando duro há um tempo, mas tiveram poucas oportunidades de batalhar. A Batalha da Fronteira não era como os ginásios de uma Liga Pokémon, onde os treinadores enfrentavam os líderes usando times condizentes com seu próprio nível. Apenas algumas batalhas contra novatos em rotas foram feitas. Mudkip estava invicta, muito mais pela experiência de sua treinadora do que a dela própria. Estava na hora de dar à anfíbia um desafio de verdade.

— Eu topo — disse Miriam com um sorriso, enquanto a Mudkip demonstrava euforia em seu colo.

— Era isso que eu queria ouvir! — Greta vibrou. — Maylene, faz as honras de ser a juíza de batalha?

— Com todo o prazer. Vai ser ótimo ver uma batalha oficial da Fronteira antes de voltar pra Sinnoh.

As duas treinadoras se posicionaram em seus lados da arena de batalha. Greta já estava com a sua Pokéball em mãos. Miriam já tinha a Mudkip posicionada em campo, apenas aguardando para ver quem seria o adversário. Greta fez questão de lançar seu primeiro parceiro na arena para dar início àquele confronto.

— Ter um Pokémon lutador de Sinnoh no meu time vai ser ótimo pra confundir os desafiantes. Riolu, é contigo!

A criaturinha canina foi liberada no campo de batalha. Ele mesmo parecia surpreso em ser convocado para uma batalha oficial, mas se manteve paciente aguardando a entrada da Mudkip, que já estava fora de sua Pokéball e teve apenas que se deslocar para seu lado da arena, logo a frente de Miriam.

Maylene se dirigiu à linha que dividia o campo ao meio. Com uma bandeira em cada mão, a líder ergueu os braços para sinalizar que as treinadoras deveriam se manter alertas a partir daquele ponto.

— Esta é uma partida oficial da Batalha da Fronteira. A Magnata da Arena Greta recebe a desafiante Miriam em uma batalha melhor de três, onde cada Pokémon só participará de um único round, independente de sair vitorioso ou derrotado. A primeira a garantir a vitória em dois rounds será considerada a vencedora. Eu, Maylene, líder do ginásio da cidade de Veilstone, afiliada oficialmente à Liga Pokémon de Sinnoh, serei juíza e testemunha oficial da realização desta batalha — a lutadora então desceu os dois braços com rapidez, levando as bandeiras para baixo. — COMECEM!

O Riolu se posicionou em guarda, alerta para qualquer movimento de Mudkip. Ele era bem jovem, mas já agia com muita maturidade em batalha. Era evidente que seu treinamento com Greta havia sido de alto nível.

A Mudkip, no entanto, não se intimidou com a postura imponente de seu adversário. A pequena Pokémon aquática tinha uma expressão suave, como se ela sequer tivesse compreendido que aquele era um momento importante. Parecia até mesmo distraída com qualquer coisa que não fosse aquele confronto.

— Ei — o Riolu tentou chamar a atenção. — Se concentra! Estamos no meio de uma batalha.

— Esse lugar é bonito — A Mudkip mais parecia estar falando sozinha, ignorando por completo o Riolu, enquanto olhava para o teto com um sorriso disperso, até que percebeu a presença do seu oponente. — Oi, eu sou a Niani!

— Quê? — o Riolu começou a se deixar levar pelo nervosismo, pois não esperava uma adversária querendo apenas interagir e não sabia como reagir a isso. — É... Eu sou Olin. Por que você está se apresentando? Viemos aqui para batalhar, e não interagir!

— Ah, é verdade! A gente tem que batalhar. Certo, certo — a Mudkip fez uma longa pausa. — Por que mesmo?

Greta e Miriam encaravam a cena, a Cérebro da Fronteira confusa e a desafiante constrangida.

— Err... Tudo ok com sua Mudkip?

— Sim, sim, ela só é meio lerda mesmo — Miriam cobria o rosto com uma das mãos. — Mudkip, meu amorzinho, faz um favor pra mamãe e foca na batalha, sim?

Mudkip levou alguns segundos olhando para sua mestra, e se virou devagar para o Riolu.

— Acho que a gente vai ter que batalhar mesmo.

— Jura? — o lutador já começava a perder a paciência. — Se prepara, porque eu não vou pegar leve!

Olin pegou impulso e saltou em direção à Niani já desferindo um Force Palm para tomar a dianteira da batalha. A anfíbia se esquivou por muito pouco, o que já demonstrava que em um confronto de velocidade o Riolu levaria a melhor, talvez até com certa facilidade.

— Não dê espaço para ele se movimentar, pressione com Water Gun! — o comando de Miriam foi rápido, pois ela sabia que neutralizar o ponto de vantagem do oponente era a chave para conseguir vencer a batalha.

O jato d’água foi potente, surpreendendo Greta e Olin que não esperavam um ataque com tanta pressão vindo daquela pequena Mudkip ingênua. A mestra daquele dojo já começava a perceber os primeiros sinais de que sua desafiante era mais experiente do que aparentava. Só isso explicaria um Pokémon que começou seu treinamento há pouco tempo ter um ataque tão bem executado.

O Riolu foi atingido pelo tiro certeiro e lançado para trás. O dano não foi tanto, apenas a força do impacto o derrubou e o mesmo não teve nenhum esforço em se levantar. Voltou a subir a guarda, desta vez com os olhos fixados em Niani para não ser surpreendido de novo.

— Parece que você não é tão inofensiva assim — Olin deu um sorriso demonstrando empolgação. — Vamos ver como você se defende disso!

Pegando impulso do próprio chão, o canino disparou em direção a Niani em grande velocidade. Quando a Mudkip percebeu o ataque, Olin já estava muito próximo, acertando nela um golpe de corpo que a fez cair para trás. Apesar de não ter ido tão longe o impacto foi forte, e tanto Miriam quanto Niani sabiam que se não fosse pelo atributo defensivo da Pokémon aquática ela estaria em apuros.

— Mudkip, Mud Slap!

O tiro de lama foi disparado em direção a Riolu, mas o comando de evasiva de Greta foi executado no tempo certo. A lutadora então ordenou mais um forte Quick Attack do qual Niani não foi capaz de evitar. Miriam àquela altura já entendia a diferença de força entre os dois monstrinhos.

— Ele não mostra os pontos fracos, é realmente bem treinado... — a garota sussurrava tentando bolar um plano, mas o seu entrosamento ainda baixo com sua parceira dificultava as coisas. — Use o Water Gun novamente!

Mais um forte jato foi disparado, mas dessa vez Riolu não se esquivou. Em vez de fugir Olin se manteve firme para aguentar o ataque sem ser derrubado, o que aconteceu. Greta mostrou um sorriso de canto, já prevendo seu triunfo.

— Agora use o Counter!

Olin disparou para cima de Niani. Ao se aproximar, preparou um golpe jogando sua pata para trás e a lançando com toda força na Mudkip. O dano que ela havia conseguido infligir no oponente voltou dobrado, fazendo com que aquele primeiro confronto tivesse seu desfecho.

— Mudkip fora de combate, Riolu vence e o primeiro round vai para Greta! — Maylene anunciou.

Miriam começava a demonstrar os primeiros sinais de preocupação. A falta de entrosamento que ela ainda possuía com Mudkip não se aplicava à Greta e seu Riolu, por mais que o nível entre os dois Pokémons fosse semelhante. À sua frente não estava apenas um Cérebro da Fronteira, mas também uma treinadora experiente e habilidosa que soube dominar com maestria os métodos de treinamento para o tipo lutador.

Assim como sua desafiante, Greta retornou seu Pokémon para já começar o segundo round. A mestra só precisava de mais uma vitória para garantir o triunfo naquela batalha. Mesmo assim não se deixava levar pela vantagem construída. Sua experiência não permitia que a razão ficasse em segundo plano, mesmo com sua personalidade espontânea.

— Ainda está faltando algo entre você e sua Mudkip, Miriam. Mas apesar disso ela tem um grande potencial. Acredito que se vocês duas trabalharem duro ela será muito forte no futuro. Colocar ela pra treinar com seus companheiros de equipe mais fortes pode ajudar bastante a acelerar o desenvolvimento dela. Foi assim que o Riolu ficou forte tão rápido.

— Obrigada pela dica, eu vou fazer isso — Miriam sacou sua segunda Pokéball. — Mas vou avisando que as coisas daqui pra frente vão ficar mais equilibradas. Esses dois aqui estão comigo há muito tempo. Venomoth, sua vez!

Foi a vez de Shin tomar seu lugar no campo de batalha. A mariposa estava já aguardando a entrada de seu adversário, porém mantendo sua serenidade costumeira. Greta mostrou um sorriso, como quem havia acabado de ler as intenções de sua adversária.

— Inseto e venenoso, provavelmente com algum golpe psíquico. Ela já colocou em campo o Pokémon mais forte que ela poderia usar contra mim, para tentar garantir o empate e levar pro tudo ou nada — a lutadora sussurrou.

A Magnata da Arena não perdeu tempo em revelar seu segundo parceiro. Um enorme Machamp se colocou de frente para Shin, já com seus quatro braços mantendo guarda para iniciar a batalha. O tamanho do lutador era capaz de intimidar até mesmo Pokémons de grande porte. Mesmo assim, Shin se mantinha sereno, aguardando apenas que Miriam começasse a comunicar as estratégias.

Após o sinal positivo de Maylene o segundo round teve início. Machamp não esperou e já tentou acertar um Vital Throw logo de cara. Miriam começava a perceber que Greta gostava de tomar a iniciativa nas batalhas, atacando sempre primeiro. Sob o comando de Miriam, Shin contra-atacou levantando uma barreira de esporos com o Poison Powder.

Machamp, no entanto, passou tão rápido pela cortina venenosa que sequer sofreu algum efeito, acertando o Venomoth com bastante agressividade, tendo Shin sido salvo pela sua tipagem altamente resistente contra golpes do tipo lutador.

— Aguenta firme, Venomoth! — Miriam já tratou de aproveitar a proximidade de seu oponente para comandar o próximo ataque. A velocidade agora atuava a favor de seu Pokémon. — Use o Aerial Ace!

Sem ter para onde esquivar, Machamp só teve tempo de tentar se proteger fechando a guarda para minimizar o dano crítico que receberia daquele ataque. Venomoth passou tão rápido que só podia ser visualizado como um borrão lilás pelas pessoas que estavam presentes no dojo. Mesmo com a postura defensiva de quem aguardava aquele golpe, Machamp não foi capaz de manter o próprio equilíbrio e caiu para trás fazendo o local tremer de leve com o impacto de seu corpo no tatami.

— Machamp, tudo bem aí? — Greta perguntou preocupada, suspirando aliviada ao receber um sinal positivo do Pokémon.

Miriam notou que estava começando a ganhar o controle da batalha ao ver Greta demonstrando seus primeiros sinais de insegurança, ainda que fossem discretos. A garota sentia o momentum começando a mudar para o seu lado, mas também sabia que era necessário ser mais agressiva para garantir logo o round, antes que Greta recuperasse o controle.

— Machamp, ataque com o Cross Chop!

— Contra-ataque com Psychic!

Machamp já começava a correr até Venomoth quando foi imobilizado no meio da arena sendo envolto por uma aura púrpura. O lutador então foi arremessado para fora do dojo, rompendo até mesmo parte da parede de madeira revestida com papel da construção de arquitetura oriental.

Até mesmo Maylene demorou a dar o veredito daquele round, impressionada com a cena que havia acabado de presenciar. Não era tão comum ver um Pokémon como Machamp, conhecido pela sua força e tamanho, sair voando do campo de batalha daquele jeito.

— Uau — disse a líder de ginásio, ainda sem saber como reagir. — É... Ok, Venomoth derrota Machamp e a desafiante Miriam vence o segundo round. A batalha está empatada!

— Como eu suspeitava, a questão entre você e sua Mudkip era mesmo falta de entrosamento — disse Greta ao voltar para a arena após ter ido até o lado de fora retornar Machamp para a Pokéball. — Eu tive mesmo a impressão de que você é dura na queda, mas admito que eu me surpreendi com esse seu Venomoth. Parabéns.

— Agradeço o reconhecimento — a desafiante já pegava sua última Pokéball para a batalha. — Mas eu tô tendo que dar duro aqui hoje. A Batalha da Fronteira é mesmo impressionante.

— Fico feliz em ouvir isso — Greta sacou o último Pokémon que usaria naquela batalha. — Pronta para resolver isso de uma vez por todas?

— Vamos!

Em poucos segundos a impressão que se tinha é que o dojo já não era tão espaçoso quanto antes. Nidoqueen e Hariyama tomaram o campo de batalha para o confronto derradeiro daquela disputa. Os dois trocavam olhares sérios, sabiam que eram chamados para decidir o resultado. Era o desfecho definitivo que estava por vir, e a partir dali qualquer equívoco custaria muito mais caro.

— Dessa vez eu vou começar o round — Miriam tinha um olhar determinado, queria resolver aquela batalha de uma vez por todas. — Nidoqueen, use o Body Slam!

— Hariyama, intercepte com o Fake Out!

Sem sequer tentar se defender da investida de sua oponente, Hariyama desferiu um ataque direto com a palma dianteira no peito de Maggie. A Nidoqueen recuou ao ser interceptada, não conseguindo concluir o seu ataque.

Belly Drum! — Greta continuava dando os comandos.

Hariyama começou a se golpear na altura do estômago. Miriam e Maggie já sabiam o que estava por vir. Elas já tinham visto essa técnica ser usada algumas vezes em batalhas de alto nível, e não estava disposta a ter que lidar com aquele problema por muito tempo.

— Use o Superpower!

Maggie começou a flexionar seus músculos enquanto Hariyama ainda terminava de usar o Belly Drum. Quando a Nidoqueen começou a ser envolta por uma aura azulada foi que a mesma avançou em direção ao lutador e acertou um forte ataque em seu queixo.

O impacto fez o Hariyama, mesmo com todo o seu peso, subir alguns centímetros do chão e cair de costas. Miriam sabia o sacrifício requerido por aquele ataque. Nidoqueen perderia força de ataque e defesa, o que dificultaria ainda mais a luta contra um oponente com seu poderio ofensivo maximizado. Mas era a cartada que ela tinha, e resolveu lançá-la visando terminar a batalha por ali mesmo.

Mas não foi o que aconteceu. Hariyama, ainda que com bastante dificuldade, se levantou ofegante. O ataque foi capaz de atordoá-lo, mas ainda estava de pé. Miriam e Maggie sentiram como se estivessem tentando derrubar uma muralha com marretadas, e mesmo com toda a força que tinham haviam conseguido nada mais que uma mera rachadura.

— Hariyama, não me assusta desse jeito, cara — disse Greta, rindo de nervosismo. — Essa foi por muito pouco, Miriam. Eu tenho que reconhecer você como uma das melhores adversárias que eu já tive. Nunca vi ninguém levantar esse grandalhão do chão como vocês fizeram agora. Foi incrível, de verdade. Mas você usou seu trunfo muito cedo. Sabe a situação em que vocês duas se colocaram agora, não foi?

— Como se a gente fosse desistir só por isso. Nidoqueen está vulnerável a um oponente que pode derrubar uma montanha agora. Mas o seu Hariyama também está caindo aos pedaços. Essa batalha vai ser de quem acertar primeiro o próximo golpe.

Greta se surpreendeu com a resposta dada pela desafiante. Mesmo sabendo que estava em desvantagem, Miriam não se renderia. Ela estava disposta a honrar a si própria e sua equipe, e levaria aquela luta até o fim não importando o desfecho. A Magnata da Arena deu um sorriso muito visível ao ouvir aquilo, e logo se encheu de empolgação. Se sua adversária estava disposta a terminar a batalha em grande estilo, era dever da anfitriã corresponder àquele anseio.

— Hariyama, Reversal!

— Nidoqueen, Body Slam!

A colisão foi tamanha que fez todas as paredes do dojo trepidarem. Algumas pessoas em volta que assistiam a batalha quase perderam o equilíbrio e o chão de madeira abaixo do tatami agora era uma grande cratera onde jaziam dois Pokémons inconscientes, sem que houvesse qualquer pista de qual deles pudesse ter caído primeiro.

Os espectadores estavam chocados. Maylene sem palavras. Greta parecia estar em outro planeta. Miriam estava à beira de um ataque de pânico, não poderia nem imaginar ser declarada derrotada depois de todo o esforço que ela e seus companheiros empregaram naquela batalha.

— A batalha terminou. Como não foi possível identificar o primeiro Pokémon a ser nocauteado eu, Maylene, juíza e testemunha dessa batalha oficial, declaro empate!

Aplausos eufóricos tomaram conta do local. Uma intensa batalha havia se encerrado ali, e seu resultado era ainda mais inesperado. Era raro ver um empate ocorrer daquele jeito, o que só tornava a experiência de quem assistiu de perto ainda mais inacreditável.

Miriam recolheu Nidoqueen para a Pokéball, agradecendo o esforço da sua parceira e aquela que foi seu Pokémon inicial. A garota estava chateada, era visível que ela não se conformava em não ter vencido. No entanto, para sua surpresa, Greta veio em sua direção e a cumprimentou com um grande sorriso.

— Foi fantástico! Isso que eu chamo de batalha! — disse a lutadora enquanto apertava a mão de sua desafiante.


A loira retirou de um dos bolsos de seu kimono o símbolo da fronteira que correspondia ao seu desafio. Quando esticou a mão que o continha para Miriam a garota soltou uma exclamação.


— Mas eu não venci você! Não posso ficar com o símbolo — dizia enquanto tentava afastar a mão de Greta de perto de si, sem sucesso.

— Quem decide se o desafiante é merecedor desse símbolo da fronteira sou eu! — dizia a Cérebro da Fronteira. — E existem coisas mais importantes que a vitória em certos casos. Este é chamado de Símbolo da Coragem, e ao se manter firme em uma situação difícil e buscar o empate em uma batalha que já estava praticamente perdida me convenceu de que você tem o que é necessário para ser declarada vitoriosa aqui. Muitos treinadores teriam desistido no momento em que meu Hariyama se levantou após aquele Superpower, e você não fez isso. Você tem muita coragem, e é isso que eu admiro em um grande treinador. Parabéns, o símbolo da fronteira é seu!

Miriam, ainda que de forma tímida, cedeu e pegou o símbolo da fronteira das mãos de Greta. A garota tinha um sorriso de alívio estampado no rosto. Naquela altura já não era mais possível esconder o que sentia. Mas esse sorriso se transformou em constrangimento quando ela viu como havia ficado o dojo a sua volta.

— Ahn... Foi mal pela bagunça.

— Relaxa, o patrocinador vai pagar a reforma. Eles já estão acostumados — Greta ria enquanto dava tapinhas nas costas da garota.


Miriam conquistou seu segundo símbolo da fronteira. Agora só restavam mais cinco Cérebros para superar, entre eles Anabel. A garota, que já ia se encaminhando para a estrada após um bom descanso para recuperar sua equipe, tentava não se preocupar muito com o reencontro com a ex-chefe. Decidiu viver um dia de cada vez e apenas curtir o momento daquela mais nova vitória para seu histórico.

FIM DO CAPÍTULO 23

  


Notas do Autor - Capítulo 22


Já era hora do menino Rubens começar a fazer as coisas andarem pra frente! Comparado à Sapphire e Miriam ele estava muito atrás. Mas aos poucos a gente vai acertando as coisas e colocando ele na linha kkkkkkkkkkkkkkk

Contests são muito difíceis pra mim, vou confessar. Mas fazendo os de Slateport serem em batalhas foi uma boa oportunidade que encontrei de ganhar tempo para pensar em boas apresentações e ao mesmo tempo dar uma avançada nas coisas da parte desse relacionamento entre ele e o Jeff. Este foi o último contest da Omega Saga, mas em compensação na Alpha Saga já devemos ter dois contests bem próximos um do outro, que seriam Fallarbor e Verdanturf. Vou precisar me virar pra fazer as ideias brotarem. Talvez eu acabe pedindo ajuda ao Lord e ao Dento de novo kkkkkkk

Bom, com isso Slateport está finalizada! Agora que venha o arco de Mauville, para encerrar essa primeira temporada de Aventuras em Hoenn! E vocês achando que eu não ia chegar lá de novo, né? kkkkkkk

Valeu, galera! õ/


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