Notas do Autor - Capítulo 32

Capítulo 32
O Patinho Feio do Day-Care
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| Art by: Urswurs |
O grupo
continuava sua travessia pela Rota 117 em direção a Verdanturf. Já estavam
praticamente na metade do caminho, em um dia onde Ruby havia feito bons
progressos com sua equipe para o contest que se aproximava, especialmente com
Clamperl, membro mais recente do time. O garoto estava confiante de que com as
técnicas do Pokémon molusco ele poderia criar combinações interessantes para
atrair a atenção dos jurados e conquistar sua segunda fita. Zinnia o
aconselhava sobre como interagir com seus companheiros de equipe, e Sapphire
era quem mais estava fazendo as coisas por conta própria, enfrentando alguns
treinadores e Pokémons selvagens para se manter afiada para quando chegassem a
Lavaridge.
— Você
precisa dar tempo ao tempo — a mais velha orientava o coordenador, que ainda
tinha certo receio com um de seus parceiros de equipe. — Tentar forçar uma
aproximação com o Treecko agora não vai ser positivo. O que você tem que fazer
é focar em treinar os seus outros Pokémons e ir interagindo aos poucos com ele.
— Mas eu
deixo o Treecko bem à vontade, e não fizemos quase nenhum progresso.
— Você o
rejeita, é bem diferente. Você tem medo de lidar com o temperamento ranzinza do
Treecko, e por isso o mantém afastado. Dê atenção a ele, sem forçar amizade.
Pergunte coisas simples, como se ele está bem, se precisa de alguma coisa, se
quer mais comida e se quer treinar com você e os outros. São pequenos gestos
que vão demonstrando de pouco em pouco que você quer que ele seja parte do
grupo. Com o tempo ele vai acabar cedendo. E é aí que você pode começar a
tentar criar mais intimidade.
— Eu e
Dante demoramos muito pra nos entender — Sapphire entrou na conversa. — Foi
depois que eu compreendi que estava tentando fazer tudo do meu jeito que nós
começamos a melhorar a relação entre nós dois. Seria bom você tentar entender
como seu Treecko se sente, e como ele quer fazer as coisas.
— Bom,
tudo que eu sei é que ele não gosta muito das apresentações artísticas. Ele
prefere batalhas mesmo. Tanto é que em Slateport ele foi muito bem, e parecia
bem à vontade no palco.
— Então
por que não coloca ele pra batalhar mais? Eu preciso praticar mais pra poder
enfrentar o Ginásio de Lavaridge. Vocês dois podiam ser nossos parceiros de
treino.
— É uma
boa ideia que a Sapphire deu agora — concordou a draconid. — Batalhar é uma boa
maneira de criar um vínculo com seus companheiros.
— Você é
bem mais experiente do que eu, a gente vai acabar sendo esmagado!
— Não
exagera Ruby. É só um treino — disse Zinnia. — E se for o caso eu te dou umas
orientações pra você poder se sair bem. Vamos procurar um lugar pra poder começar
o treino.
Achar o
melhor lugar era difícil. A Rota 117 era uma das estradas intermunicipais mais
bonitas de Hoenn. A estrada de terra era margeada por fileiras de árvores altas
e em alguns pontos o gramado era mais alto. Dois pequenos lagos, um de cada
lado da rota, fazia com que o caminho parecesse uma ponte construída pela
própria natureza, deixando o local mais fresco. Por isso não era incomum ver
algumas pessoas usando o local para correr e caminhar, servindo até como área
de treino para atletas.
Sapphire
encontrou uma clareira povoada por duas árvores frutíferas, mas para a decepção
do grupo o local já estava ocupado por duas meninas que também já faziam sua
pausa pro almoço. O que elas faziam ali trajando uniformes de escola era um
mistério que ficaria na cabeça dos três. Já o trecho final da rota indicava aos
viajantes que a cidade de Verdanturf se aproximava devido aos canteiros de
flores construídos perto da entrada da cidade.
Tão logo
o trio encontrou o local, Sapphire e Ruby começaram os preparativos para o
treinamento após uma breve pausa para respirar melhor. Zinnia já se colocava
entre os dois, projetando um campo de batalha improvisado e em seguida se
colocando do lado de fora na reta da linha que dividia a arena em duas.
— Bom,
vai ser aquele treino simples. Um contra um, as regras vocês já sabem — Zinnia
alongava os braços, se preparando para arbitrar a batalha.
Sapphire
lançou Dante ao campo de batalha. O Combusken saiu de sua Pokéball já alerta
para iniciar a sessão de treinos. Ruby, ainda hesitante, sacou a Pokéball onde
seu Treecko estava e o liberou do outro lado da arena improvisada.
O
pequeno lagarto olhou a sua volta, percebendo o cenário se desenhando para uma
batalha. Ele logo se animou para poder mostrar seu verdadeiro potencial mal
aproveitado, mas ficou estático ao ver a forma evoluída de um Pokémon do tipo
fogo bem na sua frente. Ele então olhou para trás e encarou Ruby, que ficou
incomodado.
— Você é
idiota por acaso? Tá querendo me matar, seu pivete de merda?
Ruby
percebeu que Treecko soltava alguns grunhidos baixos e indecifráveis, mas algo
dizia ao garoto que seu parceiro não estava satisfeito. Zinnia foi quem o
despertou de seus pensamentos.
— Não é
hora de ter dúvidas! Seu foco tem que ser em vencer a batalha!
— O que
foi Jeff? Não me diga que está nervoso por ter que me enfrentar! Pode ficar
tranquilo, é só um treino. Prometo que vou tentar não te machucar muito — Dan
parecia se divertir com o desconforto do lagarto.
— Cala a
sua boca! — o Treecko rebateu apontando pro seu desafeto. — Você pode ter
crescido um pouco, mas continua sendo um frango metido a besta!
Os dois
se encaravam de forma que conseguiam entender que estavam na mesma frequência.
Tanto Dan quanto Jeff estavam ansiosos por aquela sessão de treino onde um
poderia ir com tudo pra cima do outro. Apesar das provocações, cada um dos dois
nutria certo respeito pelo outro como os dois membros mais antigos daquele
grupo.
Já no
lado dos treinadores, Zinnia e Sapphire tentavam encorajar Ruby a batalhar sem
se colocar muito sob pressão. O garoto ainda tinha um pouco de medo de se
envolver naqueles combates, mas nas poucas vezes em que foi exigido ele havia
se saído bem. Para as meninas, ele devia investir em melhorar nesse ponto, até
porque outros contests focados em batalhas poderiam acontecer no futuro, ou até
mesmo havia o risco de aparecer novas situações que o obrigasse a se defender
como em Slateport.
— Não se
pressione muito, é só um treino — disse Zinnia. — A hora de errar e aprender é
agora.
— Tenta
ficar mais leve e sentir a maneira como a batalha flui. Você vai conseguir
enxergar melhor o que tá acontecendo e vai poder deduzir os próximos passos —
Sapphire completou. — Vamos, você começa. Já dê uma ordem pro Treecko pensando
nas possibilidades de contra-ataque que eu tenho, e em como você pode anular
cada uma.
— Isso é
impossível! A menos que eu leia a sua mente eu não tenho como saber o que você
vai estar pensando.
— Você
não precisa ler a mente de ninguém, Ruby — disse a draconid. — Ela está falando
sobre conhecer os pontos fortes do seu oponente. É como um jogo de xadrez.
Observe ela e o Dante em ação, veja de quais atributos eles podem tentar tirar
mais vantagem.
— Vai
logo, começa!
Ruby não
conseguia ficar calmo, mas sabia que não tinha saída. Ele parecia ser o único a
não se sentir confortável naquela situação. Até mesmo o Treecko estava gostando
da ideia de batalhar, então ele se sentia responsável por fazer aquele
sacrifício para tentar melhorar sua relação com o companheiro de equipe. Então
ele respirou fundo e decidiu enfim tomar a iniciativa.
— Vamos
Treecko, comece atacando com Pound!
—
Contra-ataque diretamente com Flame Charge!
Dante
pegou impulso do chão e disparou com o corpo envolto em chamas para atacar o
oponente de forma direta. Jeff, que já tinha se projetado na direção do
Combusken não podia mais desviar e foi atingido em cheio. Seu ataque, muito
mais fraco, foi anulado com facilidade pela diferença de força entre os dois.
— Desde
quando seu Combusken sabe essa técnica? Eu não vi vocês usando em momento
algum!
— Ele
aprendeu faz poucos dias, mas ainda estamos praticando pra ele pegar o jeito —
Sapphire sorria triunfante. — Vem pra cima, eu sei que vocês dois têm mais do
que apenas isso!
Ruby
observava seu Treecko se levantar com dificuldade. Já era incrível ver que seu
companheiro tomou todo aquele dano de um ataque contra o qual tem desvantagem e
ainda assim não foi derrotado de primeira.
O
lagarto aos poucos foi se recompondo, até que conseguiu se assegurar de que
conseguiria se manter de pé para batalhar por mais tempo.
—
Treecko, nós temos que reconhecer que estamos em desvantagem, em praticamente
todos os quesitos. O Dante é mais forte, mais rápido e tem a vantagem de tipo
nessa batalha.
Jeff olhou
para seu treinador com uma expressão contrariada. Não gostava de ser criticado,
mas logo que o garoto voltou a falar ele percebeu que não era bem aquilo que
ele imaginava que estava por vir.
— Você
estar nessa desvantagem é culpa minha, pois nunca treinamos pra isso. E da
mesma forma que você está em desvantagem contra o seu adversário eu estou em
desvantagem contra a Sapphire. Eu sempre tive meu pai como alguém a se espelhar
em quesito de batalhas, mas nunca parei pra realmente aprender algo sobre isso.
Sempre achei que teorias eram o suficiente, então li muito sobre estratégias e
métodos de treinamento achando que só isso bastava. Sapphire nunca estudou
nada, e apenas com a experiência prática ela já desenvolveu um autocontrole e
uma visão tática que eu nunca sonharia em ter fazendo as coisas do jeito que
faço.
O garoto
respirou fundo. Em seu subconsciente ele tentava ganhar tempo com aquelas
palavras enquanto tentava encontrar uma solução para aquele problema.
— Mas eu
não sou nenhuma dessas crianças que brincam de treinador no pátio da escola com
Rattatas e Pidgeys recém capturados. Eu tenho conhecimento, só preciso me
acostumar a colocá-los em prática. Não vamos deixar eles saírem cantando
vitória tão cedo. A gente tem muita coisa boa pra mostrar também!
Jeff
ainda não havia visto Ruby se portar daquela maneira. Mesmo conhecendo seus
limites e sabendo dos seus defeitos, o garoto também conseguia demonstrar
confiança naquilo que ele tinha como qualidade. Olhando de relance para seu
treinador, o lagarto fez um aceno discreto com a cabeça, mas que foi percebido
pelo menino. Era o sinal que Ruby precisava para saber que aquela batalha seria
diferente do que estava esperando.
— Parece
que vamos ver um bom trabalho em equipe entre vocês dois, finalmente — disse
Sapphire. A menina tinha um sorriso eufórico, sabendo que teria um bom desafio
pela frente. — Mas não espere que eu e o Dante vamos ficar comovidos com a nova
amizade entre vocês. Agora mesmo é que a gente sabe que não vai dar pra pegar
leve. Vocês vão ter que aguentar o tranco!
— Manda
tudo que vocês têm, caso contrário podem acabar tendo uma surpresa desagradável
— Ruby rebateu a provocação. — Treecko, inicie com o Quick Attack!
Jeff se
impulsionou do ponto onde estava para correr na direção de Dante, mas seu
movimento não era em linha reta, o que fazia com que o Combusken tivesse mais
dificuldade para tentar prever onde seria o ponto de onde sairia o ataque. A
movimentação irregular do lagarto, em movimentos em ziguezague, tinha como
objetivo confundir seu adversário.
Mas Dan
era bem mais experiente, e conseguia se manter calmo o bastante para agir
apenas ao detectar uma mudança no padrão de movimento do Treecko. Quando isso
ocorreu, através de um impulso extra quando ele já estava quase no alcance de
seu alvo. Com um comando de Sapphire, o Combusken se esquivou com um salto por
cima do oponente, deixando-o passar em linha reta e pousando em seu ponto cego.
— Agora,
Ember!
Sem ter
como reagir a tempo de se desviar Jeff foi atingido pela rajada de brasas,
recebendo um dano considerável.
—
Previsível demais — disse Dan com um sorriso debochado.
Jeff se
segurou para não cair na provocação do rival. Respirou fundo para amenizar o
dano das brasas, se virou para Dan e o olhou fixamente enquanto aguardava a
ordem de Ruby.
— Pound!
— Não
deixa ele tomar a iniciativa! Sand-Attack! — Sapphire gritou.
— Ele
vai tentar cegar você! — alertou Ruby. — Cancele o ataque e desvie!
A
tentativa de esquivar o ataque foi bem sucedida, mas a experiência de Sapphire
e Dante era bem maior, o que os possibilitou prever a troca dos adversários
para a defensiva. Sem que Jeff pudesse se recompor do pouso após saltar para
desviar da areia, o Combusken aumentou a pressão sobre ele e o levou ao chão
com um golpe forte.
Jeff
sentia o ar faltar já que Dan pisava forte em seu peito para mantê-lo
imobilizado. A batalha parecia estar resolvida.
Mas antes
que Dante pudesse finalizar seu oponente, o grupo foi interrompido por uma moça
que os abordou com uma expressão angustiada. Ela estava ofegante, sinal de que
havia chegado até eles depois de correr bastante. Entre uma arfada e outra, ela
balbuciava o que parecia ser um pedido de ajuda.
— Por
favor... Preciso que venham... Depressa! — disse, ainda tentando repor o
oxigênio enquanto se apoiava com as mãos nos joelhos.
Ruby e
Zinnia trocaram olhares confusos, mas diferente deles Sapphire tomou a frente
para acudir a mulher.
— O que
aconteceu? — indagou a menina numa tentativa de forçar urgência para que a
pessoa lhes explicasse o que estava acontecendo sem muitos rodeios.
— Um dos
Pokémons que eu cuido subiu em uma árvore e agora não consegue descer. Eu
também não consigo subir lá porque meus joelhos não são muito bons. Algum de
vocês conseguiria ir até lá buscá-la?
— Como é
o temperamento desse Pokémon? — Zinnia questionou. — Se ele for agressivo vai
ser mais complicado de estranhos como nós nos aproximarmos.
— Não se
preocupem com isso. Ela é amigável, apenas um pouco hiperativa. Não vai
machucar nenhum de vocês.
A mulher
guiou o trio até o local onde seria feito o resgate. Era uma árvore bem alta, e
em um dos galhos estava uma Skitty. De início todos estranharam que apenas a
moça estava preocupada, pois a criaturinha felina tinha uma expressão
descontraída em seu rosto, como se estivesse bem à vontade ali em cima.
— E aí?
Quem vai? — Zinnia perguntou, já dando um tom de que não seria ela.
— Não
olha pra mim, se vocês não vão subir aí eu muito menos — Ruby também recusou
prontamente.
— Isso
aí pra mim vai ser moleza — Sapphire tomou a frente com um ar triunfante. — Se
afastem!
A garota
dobrou os joelhos e apoiou os braços no chão, se posicionando como se fosse
competir em uma corrida de atletismo. Ruby, Zinnia e a moça mal tiveram tempo
de reagir quando a menina disparou na direção da árvore e com dois passos
largos pegou impulso de subida no tronco da árvore apenas com os pés. Em um
breve instante ela já estava lá em cima.
— Como
você fez isso? — Ruby perguntou surpreso.
—
Segredo — disse Sapphire com um tom debochado e já se virando para a Skitty. —
Ei, para de preocupar sua dona e vamos descer, tá bem?
A garota
agarrou a felina e desceu do galho, conseguindo amortecer a queda como se
tivesse pulado apenas um pequeno degrau. Entregou a criatura no colo da moça,
que a agradeceu aliviada.
—
Salvando uma Skitty de cima da árvore... Parece até aqueles bombeiros da
televisão — comentou Zinnia.
— Bem,
eu tenho lá meu talento pra essas coisas — Sapphire ria cruzando os braços
atrás da cabeça, demonstrando estar bastante relaxada.
— Eu nem
sei como agradecer vocês — disse a moça enquanto se aproximava com Skitty em
seu colo. — Falando nisso, deixa eu me apresentar. Meu nome é Lydia. Eu ajudo
meu irmão a administrar uma Creche Pokémon logo ali no começo da estrada pra
quem sai de Mauville. Se vocês estiverem vindo de lá devem ter notado um
pequeno rancho na beira da estrada.
— Ah,
então era isso aquele casarão de campo que eu vi — disse Ruby, parecendo
reconhecer o local.
— Creche
Pokémon? Como assim? O que é isso? — Sapphire não fazia a mínima ideia do que
Lydia estava falando, até que o próprio Ruby esclareceu a dúvida.
— Uma
Creche Pokémon é um local onde treinadores podem deixar seus Pokémons
temporariamente. São muito usadas quando não podemos levar algum Pokémon com a
gente para algum lugar específico ou quando queremos acasalar dois Pokémons
para poder ter um filhote. A diferença desses lugares para o sistema de
armazenamento é que no sistema eles continuam sendo mantidos nas Pokéballs,
sendo trazidos para fora apenas para se alimentarem, enquanto nas creches eles
possuem uma rotina de treinos básicos para que os Pokémons se mantenham em
atividade durante o período em que os treinadores estão ausentes. Claro que o
desenvolvimento é um pouco mais lento do que se estivessem treinando
diretamente com seus treinadores, mas dependendo da situação pode compensar
bastante.
—
Exatamente, garotinho! — disse Lydia dando um estalo com os dedos. — Você
conhece bastante sobre as creches!
— Quando
eu morava em Johto uma vez a minha turma de escola fez uma excursão onde
conhecemos uma creche perto de Goldenrod. É uma das mais famosas de lá.
— Ah,
claro! Eu sei qual é. A creche que tem em Goldenrod é uma das mais conhecidas
no ramo, e ela tem um padrão de qualidade que é referência. Mas eu garanto que
a nossa é tão boa quanto! Se não estiverem fazendo nada podem vir conhecer as
nossas instalações. E acabei de ter uma ideia! Como agradecimento por terem me
ajudado a recuperar a Skitty, considerem-se convidados para almoçar com a
gente!
Tendo
passado a manhã inteira sem comer desde o café da manhã, era difícil para o
grupo recusar um convite como aquele. Não só teriam uma refeição de graça como
também conseguiriam guardar alguns mantimentos por mais tempo, o que ajudaria
nas economias.
Lydia os
guiou até as instalações da creche. Como Ruby havia notado, era um rancho com
território vasto, com os campos e pastos sumindo no horizonte — Lydia dizia que
o território ia até o pé da montanha. Ao entrarem na casa eles logo foram
recebidos por um rapaz que se parecia muito com a moça. Os mesmos cabelos
azulados e os traços os fizeram logo perceber que ambos eram gêmeos.
— Este é
meu irmão Isaac. Eu faço os trabalhos mais voltados para cuidar dos Pokémons.
Ele sempre foi o mais inteligente lá em casa, então é quem cuida da parte
administrativa.
— Apesar
de que hoje estou trabalhando na criação também, porque é domingo e os outros
funcionários estão de folga — disse o rapaz, em seguida dando um aceno para os
convidados. — Prazer.
A mesa
era simples, mas tinha comida o bastante para os cinco se servirem à vontade.
Os Pokémons também comiam uma ração especial feita pela creche, e pareciam
estar gostando muito. Entre os treinadores e os gêmeos, a refeição era
acompanhada de uma conversa mais descontraída.
— Três
insígnias é realmente impressionante — disse Isaac enquanto via Sapphire exibir
suas conquistas. — Quando eu tentei sair em jornada só consegui uma. Eu nunca
tive muito jeito pra treinar meus Pokémons, sendo bem sincero.
— E você
conseguia batalhar muito bem — disse Lydia. — Treinar um time deve ser
realmente difícil.
Sapphire
ficava um pouco sem graça ouvindo aquilo. Para ela chegar àquele nível foi algo
tão natural, e ela sentia que havia tanto caminho a percorrer, que nem ao menos
tinha noção do quanto já tinha progredido. Ser um treinador de alto nível não
era mesmo algo que qualquer pessoa poderia alcançar. Isso a fazia se perguntar
em seu interior até onde conseguiria ir, ou se pelo menos chegaria a disputar a
Liga.
Zinnia
por outro lado sorria de forma discreta ao ver a reação de Sapphire. A draconid
parecia saber as dúvidas que rondavam a cabeça da menina naquele momento, e
sabia que grande parte da evolução dela se dava pelo fato de que ela aprendeu a
reconhecer seus próprios limites.
Isaac
permaneceu reflexivo por um breve momento, até que um estalo se fez em sua
mente. Quando foi desperto de seus próprios pensamentos, o rapaz se virou para
a irmã.
— Ei
Lydia, uma treinadora como a Sapphire que já tem três insígnias pode ser capaz
de dar um jeito nele.
— Nele... — a moça tentava se lembrar de
quem o irmão estava falando, mas não demorou muito para conseguir. — Ah! Você
quer dizer o...
— Isso
mesmo! Acho que a experiência dela vai ser o suficiente pra resolver esse
problema.
—
Desculpa interromper vocês dois, mas quem é ele?
— Sapphire se via confusa.
Os
gêmeos se viraram para ela sorrindo com confiança, o que assustou ainda mais a
garota. Parecia que outra tarefa cairia no colo dela, e pela forma como eles
falavam seria algo mais complicado dessa vez.
— Bom,
aqui e em outras creches acontece algumas vezes de treinadores deixarem os
Pokémons deles aqui e não voltarem para buscar — explicou Isaac. — Muitas vezes
o treinador não quer mais manter o Pokémon, mas tem medo de largá-lo na
natureza por achar que eles não estando mais habituados à vida selvagem não vão
conseguir se virar sozinhos.
— Alguns
pensam que isso não é ilegal, mas ainda é considerado abandono. E prejudica
nossos serviços, já que teremos que prover uma maior quantidade de suprimentos
pra manter aquele Pokémon vivo, abrigado e saudável do que o que foi planejado
previamente — Lydia complementou, sem esconder um tom de frustração na voz.
— Na
maioria das vezes conseguimos reencaminhar esses Pokémons para outros
treinadores que passam por aqui, mas agora estamos com um carinha mais
complicado — Isaac então notou um tom de relutância nos visitantes. — Não se
preocupem, quando digo que ele é complicado não significa que é bravo ou algo
do tipo. Ele apenas... Está em uma “frequência diferente”...
— A
maioria dos treinadores que tentou adotá-lo desistiu logo de cara. Mas você
parece ser muito habilidosa, Sapphire. Por que não faz uma tentativa com ele?
Sapphire
a princípio ficou em dúvida. Não tinha como saber se conseguiria se dar bem com
um Pokémon que não conhecia. Era bem diferente de quando fazia contato com um
Pokémon selvagem, onde logo de cara ela conseguia definir o perfil dele e
decidir se queria capturá-lo ou não. Agora o que estaria a aguardando era uma
completa incógnita.
A menina
voltou seu olhar para Ruby, procurando algum tipo de resposta, mas viu que o
amigo estava tão confuso quanto ela. Virou para o outro lado onde estava
Zinnia, esta parecendo mais tranquila.
— Todo
Pokémon tem seu valor — disse a mais velha, escorada na cadeira. — Tentar não
dói. De repente a gente descobre o que há com ele.
Após
terminar o almoço todos se dirigiram até a área externa onde os Pokémons
deixados sob os cuidados da creche ficavam. Mesmo para os menos detalhistas era
possível perceber que a estrutura do local era boa, com bastante espaço para
que as criaturas ficassem à vontade mesmo quando estivesse cheio, os
recipientes de comida e água eram bem limpos, e o território era dividido para
que eles pudessem ter o maior número possível de áreas simulando diferentes
habitats, permitindo que a creche pudesse receber vários tipos de clientes.
O grupo
foi guiado até uma área cortada por um córrego raso. Era possível ver alguns
Pokémons comuns de se ver naquele tipo de habitat, como Lotads e Surskits, mas
quem chamava mais atenção era um pequeno pato de penugem amarelada sentado em
cima de uma pedra. Ele tinha um olhar fixado para uma direção específica, mas
quem quer que tentasse olhar para o mesmo local acabaria não vendo nada.
— Esse
aí é o famoso — disse Lydia.
— Um
Psyduck? Não sabia que tinha essa espécie aqui em Hoenn — Ruby questionou.
— Na
verdade eles não são nativos daqui mesmo, mas há uns anos abriram um Safari
perto de Lilycove, e aproveitaram para colocar lá algumas espécies de outras
regiões como um atrativo pra atrair treinadores pra lá — Isaac explicava. —
Psyduck é uma dessas espécies, mas esse aí provavelmente já é nascido aqui em
Hoenn, então dá pra considerá-lo como um conterrâneo nosso.
— Ele
parece meio... Lerdo — Sapphire não sabia exatamente o que fazer com aquele
Pokémon.
— Bom,
você não gostaria de tentar treiná-lo? Talvez ele tenha um potencial que a
gente não é capaz de enxergar. Pode ser que conviver com um treinador que sabe
como desenvolver as habilidades dele seja positivo.
— Bom,
pelo que a gente ficou sabendo o ginásio de Lavaridge é especializado em
Pokémons de fogo — disse Ruby. — Pode ser uma boa ideia você ficar com o
Psyduck.
— É
verdade, mas será que vai dar tempo de treinar ele até lá? — Sapphire ainda se
questionava. — Eu sei que ainda temos muito tempo até chegar lá, que tem a
passagem por Verdanturf e tudo mais, mas o problema é que ele parece ter um
ritmo mais lento.
— Se não
der pra prepará-lo pro ginásio de Lavaridge, paciência — disse Zinnia. —
Continua o treinamento tendo o ginásio seguinte como foco.
— E
então? Topa? — Lydia já estava com a Pokéball pertencente ao Psyduck em suas
mãos, pronta para entregá-la a Sapphire.
Ainda
relutante, a treinadora concordou com a proposta. Um membro novo no time era
sempre bem-vindo, e se conseguisse treiná-lo bem poderia se beneficiar de uma
equipe mais forte e versátil. Mas acima de tudo sentia que não podia deixar
aquele Psyduck ali, onde continuaria sendo um Pokémon abandonado. Ao menos com a
garota ele poderia começar a sentir que alguém o desejava.
Ou era
essa a ideia que vagava na mente da menina. O pequeno Psyduck permanecia alheio
a tudo em seu entorno. Sapphire respirou fundo e o trouxe para dentro da
Pokéball. Ela sabia que teria muito trabalho pela frente.
FIM DO CAPÍTULO
Notas do Autor - Capítulo 31

Olá a todos!
A Alpha Saga segue a todo vapor! E como já era planejado, aqui começamos a trabalhar de vez uma das ideias principais que a história vem trazendo desde o início. Vocês se perguntaram bastante ao longo da jornada a razão pela qual o POV dos Pokémons era misturado com o dos personagens humanos, sem nenhum indicativo de que eles estavam sendo trocados. Será que eles se comunicam? Será que é uma realidade paralela? Vai ter guilda?
Lá no arco de Mauville foi plantada a primeira semente pra trazer as respostas, e agora começamos a trabalhar definitivamente a ideia. Essa breve explicação da Zinnia já nos dá um indicativo de para onde esse universo pode avançar, e o que poderemos ver no futuro. Estamos apenas no início, mas nem mesmo eu sei dizer pra vocês onde as coisas vão se desenrolar de verdade. Então não é maldade minha, a mesma curiosidade de alguns de vocês também é a minha.
Não há muito o que dizer desse capítulo hoje, ele foi mais uma pequena mostra de que as pontas soltas vão ser trabalhadas aos poucos.
Por fim, vai ter novidade em breve pra vocês aqui no blog. Estou trabalhando algumas coisas interessantes com uma equipe que vai me auxiliar em outras áreas de especialidade. Negócio profissional mesmo kkkkkkkkk
Até lá vamos curtindo esses capítulos iniciais da temporada.
Até a próxima! õ/
Capítulo 31
Elo de confiança

Zinnia
mexia com um graveto fazendo alguns desenhos no chão, enquanto Ruby e Sapphire
observavam com atenção as explicações da mais velha. A draconid fez um desenho
espiral com o que parecia ser uma chama logo acima. Em seguida, desenhou outra
figura semelhante logo ao lado e as ligou com uma seta de mão dupla.
—
Imaginem que estas sejam as almas de Sapphire e Dante. Quando a confiança mútua
entre ambos atinge certo nível é que finalmente aparece essa seta, indicando
que as suas almas e consciências estão ligadas. Por isso você de repente
descobriu o nome dele.
— Mas
algo não bate nessa história — Sapphire ainda parecia confusa. — Eu e Dante não
nos dávamos bem até então, e do nada na batalha contra Wattson eu tive essa informação
de lampejo na minha mente. Foi como se sempre estivesse lá.
— Você
passou por um aperto pouco tempo antes, naquela batalha contra o Vince, lembra?
— disse Ruby. — Dante saiu bem mal dessa batalha, e depois vocês conversaram no
Centro Pokémon.
— Isso
pode ter sido o ponto de partida para que você despertasse essa capacidade — a
draconid retomou a fala. — De alguma forma você conseguiu convencer seu Pokémon
de que poderia confiar em você mais uma vez. Alguma coisa ele sentiu quando
vocês conversaram ali.
Sapphire
tinha uma lembrança muito viva daquela noite. De como cedeu ao seu próprio
orgulho e precisou admitir que esteve errada todo aquele tempo. De ter apostado
a presença de Dante em seu time caso perdesse a batalha pra Wattson. De como se
sentiu culpada por ter colocado seus Pokémons em risco em uma batalha que não
tinha como vencer contra um oponente mais forte e mais perigoso.
Seu
remorso e os pensamentos ruins sendo remoídos só se dissiparam quando sentiu o
Combusken cutucando seu braço. Ao olhar pra ele, Sapphire o viu acenar com a
cabeça, como se quisesse dizer que estava tudo bem. A menina sorriu para seu
parceiro e viu que estava se deixando levar por uma culpa a qual ninguém lhe
atribuía.
—
Sapphire, você ainda está em um estágio bem inicial dessa habilidade. Conforme
você vai trabalhando nisso, as possibilidades se abrem.
— O que
mais eu conseguiria fazer?
— Não dá
pra dizer tudo, é uma infinidade de coisas que você pode alcançar aperfeiçoando
esse dom. Mas é possível até que você consiga se comunicar com eles de uma
forma muito mais clara do que esses simples lampejos que você tem no momento.
Zinnia
retirou do bolso uma pedra peculiar. Ela possuía algumas pequenas crateras. Se
assemelhando muito a um meteoro, mas não ocupava nem metade da palma da mão da
menina. Ela estava amarrada a uma corda fina.
—
Pendure isso no seu pescoço. Esta pedra recebeu um encantamento dos anciãos
draconids, e por isso é capaz de facilitar a abertura da sua alma. Dessa forma
podemos acelerar um pouco o desenvolvimento da sua capacidade de se comunicar
com seus Pokémons.
Sapphire
pegou a pedra e fez o que Zinnia orientou. A princípio a menina desconfiou da
veracidade daquilo pelo fato de não ter sentido nada, mas preferiu não expor
sua descrença. Zinnia desenhou um círculo maior com o graveto e pediu para que
a garota e o Combusken se sentassem dentro dele.
Com os
dois frente a frente a draconid colocou outra pedra semelhante à que havia
entregue a Sapphire no centro do círculo, começando em seguida a recitar uma espécie
de mantra em um dialeto antigo. Ruby observava de fora, curioso com toda aquela
cerimônia.
— Muito
bem — disse a mais velha ao terminar o mantra. — Olhem bem nos olhos um do
outro agora.
Assim
que Sapphire e Dante se olharam Zinnia se afastou do círculo, dando alguns
passos para trás a fim de que sua presença não interferisse no processo. A
pequena pedra no centro do círculo começou a emitir leves vibrações, se
deslocando um pouco de onde estava, o que impressionou os dois treinadores mais
novos.
— Sapphire,
você consegue compreender algo vindo de seu Pokémon?
Ruby
direcionou seu olhar para Sapphire, ansioso pela resposta que a menina poderia
dar. Mas para quebrar a sua expectativa, ela nada sentiu.
— Nada
além do normal. Somente o nome dele, mas sinto que há outras informações
circulando na minha mente agora. Só que todas elas estão vagas e turvas, como
se houvesse uma nuvem na frente delas.
—
Entendo. Não se preocupe, isso é normal. Provavelmente se deve ao fato de que
sua habilidade despertou há pouco tempo, e ainda está em um estágio
embrionário. Quando despertamos esses tipos de habilidade, é como se eles
estivessem lacrados em várias camadas. Temos que remover um lacre de cada vez.
Tudo que precisamos fazer é encontrar algo que sirva de gatilho para romper
essa barreira que está te impedindo de usar mais do seu potencial.
— Eu sei
que passei por isso com o Dante duas vezes. Uma na batalha contra o Wattson, e
outra lá em Nova Mauville lutando contra a Team Aqua.
— Hm,
momentos de adrenalina — Zinnia pensou alto. — Mas além disso, o que essas duas
situações têm em comum? Talvez aí esteja a chave para você desenvolver mais
essa habilidade.
— Eu
também não consigo perceber o que é.
—
Talvez... — Ruby tomou a palavra. — A semelhança é que eram dois momentos onde
você não podia falhar. Eram batalhas que você precisava vencer a qualquer
custo.
— Medo
de fracassar? — Zinnia tentava deduzir. — Não, não tem como ser algo tão
simples. Tem algo mais envolvido nisso que não temos pista ainda. Ou talvez não
estamos prestando atenção. De toda forma vamos prosseguir com a viagem, acho
que enquanto não tivermos mais detalhes sobre isso é inútil continuar tentando
esse treinamento. Conforme você vai enfrentando mais desafios vamos ter a
chance de ver essa sua habilidade sendo usada mais vezes. Daí talvez a gente
possa começar a ter uma ideia de como ela está funcionando.
Sapphire
escutava com atenção as palavras de Zinnia. Apesar de ter seus momentos de
irreverência, a draconid se mostrava bastante sábia e conhecedora de muitas
coisas que iam muito além dos detalhes mais comuns no que dizia respeito a ser
um treinador. Ruby também ouvia a mulher, esperando que ao obter aquele
conhecimento ele também poderia despertar uma proximidade maior com seus
companheiros de equipe.
Depois
de uma pausa para o almoço o grupo decidiu que era hora de prosseguir com a
viagem. Verdanturf estava próxima, bem como a data do contest em que Ruby
tentaria sua segunda fita. Se mantivessem aquele ritmo chegariam já no próximo
dia.
A
caminhada era leve e descontraída. Aos poucos a dupla começava a se acostumar
com a presença de Zinnia. Ambos começavam a se recordar do quanto era agradável
ter uma pessoa a mais viajando junto, e a personalidade mais aberta da draconid
só ajudava a quebrar o gelo ainda mais rápido.
— Por
que resolveu deixar os draconids pra trás? — Sapphire indagou.
— Desde
pequena eu fui ensinada a valorizar a cultura do meu povo. Me foram contadas as
histórias antigas, os feitos de nossos antepassados, aprendi a dominar as artes
ritualísticas e as técnicas de treinamento de dragões. Fui preparada para
herdar a posição de Guardiã do Conhecimento, que me dá a responsabilidade de
transmitir nosso legado para o mundo.
— Parece
ser uma posição de muito prestígio no seu clã — disse Ruby.
— E é,
mas por outro lado eu acabaria ficando presa lá pro resto da minha vida. É
irônico que eu tenha o dever de levar nossa história ao mundo, mas não possa ir
até os lugares para fazer isso. Que além do mais eu nem quero. Eu quero ser uma
pessoa livre pra fazer o que quiser. E estar presa às obrigações do meu clã é
totalmente contrário ao que eu pretendo para a minha vida.
— Mas o
seu clã vai ficar bem com a sua posição lá estando vaga?
— Vão
sim, não se preocupe. Isso é apenas uma posição simbólica ligada à religião
deles. Não é como se o mundo fosse acabar só por eu ter rejeitado.
Zinnia
parou de andar de repente, o que chamou a atenção de Sapphire e Ruby. A mulher
olhou o entorno da estrada de terra onde estavam, e logo fez uma expressão
triunfante de quem encontrou o que procurava. Ela caminhou até a margem da
estrada até algumas árvores frutíferas.
— Podem
dar um descanso. Vou colher algumas dessas berries para estocar. Já consigo
pensar no que podemos fazer pra comer à noite!
E assim
foi feito. Os dois mais novos se sentaram embaixo de uma árvore onde fazia
sombra, enquanto Zinnia continuava sua busca por suprimentos.
— Ela é
legal — disse Sapphire.
— É
verdade. Ela tem algumas coisas estranhas com toda essa coisa de misticismo que
envolve os draconids, mas não chega a ser algo preocupante. De algum modo eu me
sinto seguro perto dela.
— É
claro que a gente vai se sentir seguro com a Zinnia aqui! Ela é uma treinadora
absurdamente forte! Você viu o Salamence que ela tinha naquela batalha na usina
de Nova Mauville?
— Ela
bateu de frente com aquela Shelly da Team Aqua. Com certeza não é uma
treinadora qualquer que está viajando com a gente, não é? Acho que devíamos
prestar mais atenção no que ela tem a nos ensinar.
— Será
que vai ser muito difícil desenvolver minha conexão com o Dante? E até mesmo
conseguir criá-la com os outros do time?
Ruby deu
um sorriso. Ele mudou sua posição para se sentar ao lado de Sapphire, também se
encostando ao tronco.
— Com
certeza vai ser mais fácil do que uma situação como a minha, que tenho que
começar do zero e não faço nem ideia de como fazer isso. É como a Zinnia disse,
a chave está na confiança que vocês vão estabelecer. Acredito que os outros
membros da sua equipe vão ceder mais fácil, pois vocês já tinham uma boa
relação, e agora devem sentir mais confiança ainda percebendo que você e Dante
já chegaram a esse nível.
Zinnia
chegou perto dos dois carregando várias frutas distintas. A mais velha tinha um
sorriso triunfante estampado em seu rosto, demonstrando que o resultado da
busca foi tão bom quanto esperava.
— Temos
berries suficientes para ter uma boa janta e para preparar alguns medicamentos
muito bons. Não vamos ter com o que nos preocupar até chegarmos a Verdanturf, e
isso considerando que vamos trabalhar muito duro até lá.
—
Zinnia, me diga uma coisa — Sapphire se dirigiu à draconid. — Todos vocês ficam
presos ao clã ou existem draconids vivendo em outros lugares e na nossa
sociedade?
—
Existem draconids em vários lugares, talvez com nomes diferentes. Ruby, você
disse que é de Johto, correto? — quando Zinnia fez a pergunta o garoto
confirmou com um aceno de cabeça. — Então já ouviu falar dos Dragon Tamers de
Blackthorn?
— Sim,
eles são conhecidos, e até mesmo um pouco temidos por Johto.
— Os
Dragon Tamers aceitam pessoas de fora que queiram se tornar treinadores de
dragões, mas sua liderança é hereditária desde sua fundação. E o fundador foi
um draconid que foi viver em Johto.
— Quer
dizer que Lance e Clair são descendentes de draconids?
—
Exatamente. Além deles existem descendentes de draconids em outras regiões. E
sim, Sapphire, há draconids e descendentes vivendo por toda Hoenn. Eles não
necessariamente precisam viver com o nosso clã. É diferente comigo e minha
família, pois nós somos da família que lidera o Alto Conselho do clã, mas eu
quero quebrar esse ciclo para que eu e meus descendentes sejamos livres desse fardo.
—
Incrível, quer dizer que podemos já ter tido contato com algumas dessas pessoas
e nem sabíamos — disse Ruby.
— Existe
algum draconid famoso? — questionou Sapphire.
— Mesmo
depois de eu ter te contado que não é qualquer pessoa que pode treinar um
dragão você ainda não suspeitou de ninguém? — indagou a draconid, com um
sorriso descontraído.
Sapphire
se pôs a pensar em sobre quem Zinnia poderia estar falando. Quando começou a
pensar na última dica dada pela mulher foi que a menina arregalou os olhos e
fez uma expressão de surpresa.
— Drake?
— Bingo!
— respondeu a draconid.
— Drake
é um draconid? Aquele Drake?
— Ele
mesmo. Drake é um draconid legítimo e foi pupilo da Alta Anciã do clã, que é a
minha avó.
Sapphire
estava pasma. Ela não acreditava que acabou de descobrir a origem de um de seus
maiores ídolos, que era um homem misterioso e reservado, sempre intrigando os
fãs da Liga Pokémon devido ao esforço em vão que a imprensa fazia para saber
algo sobre sua vida pessoal.
— Quem é
esse Drake, Sapphire?
— O
maior treinador que já existiu em Hoenn. Ele defendeu o título de Campeão
durante quinze anos, permanecendo invicto por todo esse período. E mesmo assim,
ainda hoje ele compõe a Elite. Ele é uma lenda viva!
— Você
gosta dele?
— Sempre
assisti as batalhas do Drake quando eu era pequena. Por muito tempo eu quis ser
treinadora por causa dele. Depois deixei esse sonho de lado porque queria ser
uma pesquisadora junto com meu pai, e de repente aqui estou de novo.
— Bem,
continue com seu progresso que um dia vai ter a chance de conhecer e batalhar
com ele.
— É o
que eu pretendo — Sapphire assentiu com a cabeça. — Ou melhor, é o que eu vou
fazer!
Ruby
observava Sapphire contando sobre sua admiração por Drake e se lembrava de como
sempre acompanhou Lisia e sua irmã mais velha, Eliza. O garoto era tomado pelas
lembranças de infância, se sentindo contagiado pela euforia da amiga.
— Você
vai ter bastante tempo pra treinar até o próximo ginásio. Mas não se esqueça
que a vez é minha, e eu vou conquistar minha segunda fita nesse Contest de
Verdanturf.
Sapphire
sorriu para o companheiro de viagem, concordando com ele.
— Eu não
espero nada menos de você. Se entramos nessa jornada juntos, temos que
conquistar nossos objetivos juntos!
Zinnia
observava os dois treinadores transbordando a confiança e êxtase que só a
juventude podia proporcionar a alguém. Mesmo assim ela preferiu não comentar
nada com os dois.
— Eles são bem animados, Aster — a draconid apenas cochichou para sua Whismur, que repousava pendurada em seu ombro.
• • •
Anabel,
Steven e Roxanne se mantinham sentados a uma mesa. A investigadora e Cérebro da
Fronteira mexia em algumas pastas de arquivos espalhadas a sua frente, enquanto
os outros dois apenas observavam.
— Muita
coisa está faltando ainda — disse a chefe da polícia, massageando as têmporas.
— Tantas informações vagas ou incompletas só dificultam nosso rastreio dos
Aquas e Magmas.
— Além
de saberem apagar os rastros, eles possuem treinadores poderosos — disse
Roxanne. — Se não fosse por Ruby e Sapphire, e depois aquela mulher draconid,
eu teria sido derrotada por Shelly, e o Wattson pela tal da Courtney.
Anabel
parou por um instante ao ouvir a líder do ginásio de Rustboro. Aqueles nomes
eram familiares para ela. A mulher se levantou e foi até um arquivo, tirando
duas pastas das gavetas. Dali de dentro, retirou as fichas dos novatos citados
pela especialista em Pokémons de pedra.
— Ruby e
Sapphire... É verdade, eles estavam lá também. Roxanne, havia mais alguma
pessoa com eles? Uma outra menina?
— Agora
que você comentou, realmente tinha uma menina acompanhando os dois quando a
Sapphire me desafiou no ginásio. Mas eu não a vi em Mauville. Talvez tenham se
separado. Por que a pergunta? E esses arquivos sobre eles? Fizeram algo de
errado?
— Ah,
não! Não precisa se preocupar com isso. É uma longa história, mas já te adianto
que não há nada errado com eles. Só que como se envolveram com aqueles
criminosos mais de uma vez eu gosto de manter os dados deles pra procurar
formas de protegê-los mais. Se eles batem de frente com essas organizações mais
de uma vez, podem acabar ficando visados e tendo suas vidas colocadas em risco.
Eu não quero que nenhum menor de idade seja vítima dessas duas facções, apenas
isso.
— Eu não
consegui pará-los em Nova Mauville — Steven apertava os punhos apoiados à mesa.
— Acho que preciso ser mais incisivo para poder corresponder ao meu cargo de
Campeão.
— Não se
preocupe, Steven. Primeiro que o Campeão não tem responsabilidade em ajudar as
autoridades e os órgãos de segurança. E além disso tanto a Team Aqua quanto a
Team Magma são difíceis de lidar para nós também.
Roxanne
colocou a mão sobre o ombro do rapaz, sorrindo para ele.
— Você
enfrentou dois executivos de alto escalão deles — disse a líder. — Pode não ter
conseguido levá-los à prisão, mas garantiu que o gerador central da usina não
fosse roubado. Você concluiu o objetivo principal, então não tem porque ficar
se culpando. Com paciência nós ainda vamos pegar todos eles.
O
Campeão sorriu para a mulher, se sentindo mais confortável com as palavras
ditas por ela. Steven muitas vezes se deixava levar por dúvidas, uma vez que
havia acabado de assumir o cargo de Campeão de Hoenn. Para ele, era importante
manter a imagem de alguém em quem as pessoas podiam confiar.
— Obrigado,
Roxanne. Nós vamos conseguir acabar com as pretensões deles, cedo ou tarde.
Anabel, vocês podem contar com a gente sempre que precisarem. Vamos empregar
nossas forças para impedir a Team Aqua e a Team Magma sempre que for
necessário.
—
Agradeço imensamente a disponibilidade de vocês — disse a investigadora. — É
certo que serão de grande ajuda para nosso trabalho. Se descobrirmos qualquer
coisa sobre essas duas organizações nós os manteremos informados.
A dupla
se levantou da mesa. Anabel cumprimentou ambos com apertos de mão, e então os
viu deixando a sua sala pela porta que levava ao corredor principal da sede da
Polícia Internacional na região.
Quando se viu sozinha na sala, a mulher voltou a olhar os arquivos de Sapphire e Ruby, e puxou uma terceira pasta revelando os dados de Miriam, sua ex-estagiária que agora estava em algum lugar daquela vasta região. A mulher deu um suspiro enquanto lia as informações de sua antiga pupila. Naquele momento a única companhia que tinha era de sua xícara de café, a qual usava para se manter focada em toda aquela papelada.
— Por onde você anda, Miriam?
FIM DO CAPÍTULO 31























