Capítulo 7
Teste de admissão

Ruby e
Sapphire sentiam seus ouvidos doer com o barulho incessante das buzinas dos
carros que congestionavam o trânsito do centro da cidade. Para Miriam, aquele
choque de realidade era menor, pois sua cidade natal, apesar de ser de médio
porte, era movimentada em função do porto que a tornava uma importante
rota comercial. Aquele era quase um mundo diferente para os viajantes. Jamais
haviam se deparado com uma cidade tão imensa, mas ao mesmo tempo que estavam
espantados seus olhares eram de quem estava maravilhado com a cena.
Rustboro
era a capital e maior cidade de Hoenn, mas certamente não tomava o termo
"selva de concreto" para si. As ruas eram ornamentadas, as
construções exuberantes e bem elaboradas com um estilo arquitetônico que só se
via por ali, as pessoas saindo das lojas contentes, com inúmeras sacolas de
compras nas mãos. Além de tudo isso, praças com monumentos históricos, teatros
e anfiteatros, bibliotecas, museus e a imponente Academia Pokémon, uma escola
de treinadores das mais renomadas do mundo. A cidade explodia cultura para
qualquer lado que se olhasse, e imediatamente injetava na mente dos dois novatos a sensação de querer ficar lá para sempre.
—
Vocês precisam ver é como isso aqui fica à noite! — disse um senhor de idade
enquanto passava pelo trio, o que os deixou imaginando como idosos tinham mais
facilidade para puxar assunto com qualquer pessoa.
— Ele
provavelmente percebeu que não somos daqui... — observou Ruby, fazendo Sapphire
cair na risada.
— Acho
que ficou muito na cara mesmo. Estamos aqui como um bando de patetas só olhando
pra todos os lados sem fazer nada.
— E
então... — interrompeu Miriam. — Não é melhor a gente ir fazer o check-in no Centro
Pokémon?
O trio
caminhou até o local, onde fizeram as reservas de quartos para que tivessem
hospedagem durante toda a estadia na cidade. Miriam aproveitou para realizar
sua inscrição como competidora da Batalha da Fronteira, recebendo um guia
melhor elaborado, com as informações a respeito das localizações de cada instalação,
juntamente de uma espécie de cartão eletrônico para ser usado como um
identificador da participante.
Passado
algum tempo, por volta de uma hora, os três já tinham se estabelecido no quarto
reservado, e por isso ficaram mais à vontade para voltar às ruas de Rustboro.
Com mais calma podiam observar a beleza da cidade, ou pelo menos aquela área
central onde se encontravam naquele momento. Sapphire então decidiu desdobrar
um pedaço de papel que estava guardado em um de seus bolsos. Era um pequeno
mapa da cidade que havia conseguido no Centro Pokémon, e poderia usá-lo para
localizar o ginásio com mais facilidade. Queria logo marcar o seu primeiro
desafio.
E
assim ela seguiu pelas ruas, com Ruby e Miriam andando logo atrás. Depois de
alguns quarteirões chegou ao seu destino. Uma construção bem maior que as casas
ao redor, porém com altura menor que os edifícios espalhados pela cidade. Sua fachada se assemelhava a um museu, e de fato funcionava como
tal, segundo informações que Sapphire lia no mapa que usava.

Sem
hesitar, ela caminhou até a entrada do local, que era protegida por um porteiro
e alguns seguranças que rondavam o pátio principal. O porteiro carregava
consigo uma expressão cansada, enquanto lia um jornal sem sequer perceber a
aproximação dos visitantes.
— Oi,
com licença... — Sapphire se colocou na ponta dos pés e acenou o braço
levantado para ser percebida pelo homem, que estava no alto de uma guarita.
— Não
estamos recebendo visitas hoje — disse o porteiro, em tom seco.
—
Estou aqui para desafiar o líder do ginásio. Sou uma treinadora.
O
porteiro então abaixou o jornal para, enfim, fazer contato visual com os três.
Ao olhar a cara de Sapphire ele arqueou uma das sobrancelhas, e com um tom de
sarcasmo tratou de dar fim às pretensões da menina.
— Que
bonitinha. Você por acaso já realizou o teste de admissão?
—
Teste de admissão?
— Sim,
menininha. Roxanne só recebe desafiantes que passam em um processo seletivo
realizado duas vezes por mês na Academia Pokémon. É um teste de conhecimentos
básicos para treinadores que seleciona aqueles que têm o mínimo de preparo para
enfrentar um líder de ginásio. Sabe como é, não podemos deixar qualquer um
entrar aqui para batalhar. Quando era permitido, às vezes tinha criança saindo daqui chorando...
Sapphire
engoliu seco ao ouvir a última frase. Ouvia muitas histórias de jovens
treinadores sendo liquidados ao enfrentar o ginásio de Rustboro, mas sempre
imaginou que fossem boatos. Logo em seguida pensou que o porteiro estava querendo intimidá-la, e tentou relaxar. Porém, logo a enorme porta da frente
se abriu, revelando uma mulher de cabelos castanhos que caminhava em direção à
rua. Seus traços eram de uma moça jovem, e seu olhar demonstrava que era uma
pessoa séria, assim como as roupas que vestia, que eram parecidas com as de uma
professora. Ela parou por um momento para falar com o porteiro.
—
Estou indo.
—
Claro, senhorita — cumprimentou o porteiro. — Tenha um ótimo dia. Espero vê-la
novamente em breve.
A
mulher já se preparava para virar as costas, porém notou a presença dos três
jovens no local, e se deixou levar pela curiosidade.
—
Vocês seriam desafiantes para o ginásio?
— Na
verdade apenas eu — respondeu Sapphire, que logo apontou para o porteiro. — Mas
ele me disse que é necessário prestar um exame de admissão antes.
— Sim,
é verdade. Você deve ir até a recepção da Academia Pokémon, que fica a três
quarteirões daqui, e lá fazer a inscrição para prestar a avaliação. Estou indo
para lá agora, inclusive, para finalizar a preparação da próxima prova.
O
silêncio permaneceu no local. Os três ficaram surpresos com a coincidência de
estarem de frente para uma das responsáveis por formular o exame que Sapphire teria
que prestar.
— Só
um momento — Ruby decidiu quebrar o silêncio. — Você então trabalha diretamente
para o ginásio, e não só para o museu? Você tem contato com a tal líder Roxanne
que esse homem citou?
A
mulher não conseguiu conter um leve riso. Ela olhou para cada um dos três,
ainda sorrindo, e respondeu prontamente.
— Sim,
eu tenho. Se quiserem eu posso levá-los até a Academia para fazerem a
inscrição. Podem pegar uma carona comigo.
Sendo
assim os quatro entraram em um belo carro preto, que possuía um motorista
particular ao volante. A mulher se sentou no banco da frente, deixando os três
convidados juntos na parte de trás do veículo. Assim que todos colocaram os
cintos de segurança, o carro partiu a caminho da Academia. Enquanto as ruas se
passavam no curto trajeto, Sapphire então resolveu matar sua curiosidade.
— Com
licença — disse se dirigindo à mulher. — Que tipo de líder é a Roxanne?
A moça
então parou por um momento, procurando palavras que pudessem descrever a futura
rival da menina.
— O
que posso dizer sobre a Roxanne é que ela é o tipo de pessoa que leva muito a
sério tudo o que faz, e só permite passar por seus desafios aqueles que ela
realmente tem a certeza de que aprenderam o que é importante. Seja como
professora ou como líder de ginásio. Ela tende a admirar os desafiantes fortes,
e também sabe reconhecer um treinador com potencial. Me diga, qual o seu nome?
— Me
chamo Sapphire, e venho da cidade de Littleroot.
A
mulher pareceu surpresa ao ouvir aquilo. Ela então virou-se para Sapphire com
um olhar curioso.
— Você
por acaso é filha do Professor Birch?
— Sim,
eu sou — a menina riu levemente, enquanto coçava a parte de trás da cabeça. —
Mas não posso afirmar que puxei esse lado intelectual dele. Eu gosto mais do ar
livre do que ficar trancada em casa com livros. Mas consegui aprender algumas
coisas ajudando meu pai com algumas pesquisas de campo.
—
Entendo — a mulher agora esboçava um sorriso evidente. — Nesse caso, existe uma
grande chance da Roxanne acabar gostando de você.
Após
alguns minutos o carro parou em frente à Academia. Era uma construção bem
diferente dos padrões de Rustboro. As paredes de concreto com formas clássicas
esculpidas agora davam espaço à modernidade, tudo com um toque contemporâneo. A
mulher parecia se divertir com as expressões de espanto de Sapphire, Ruby e
Miriam, que mal podiam acreditar que um prédio daqueles fora construído no
tempo em que viviam.

—
Chegamos. Esta é a Academia Pokémon de Rustboro, que tem como foco auxiliar a
formação de grandes treinadores, criadores e pesquisadores Pokémon — dizia ao
sair do carro junto com os três acompanhantes. — Sapphire, você poderá realizar
a inscrição na recepção mesmo. Haverá uma pessoa para atendê-la com relação ao
exame.
—
Certo, vou agora mesmo.
— E
vocês dois? — agora a mulher virou-se para Miriam e Ruby. — Não pretendem fazer
o exame também?
—
Estamos apenas acompanhando a Sapphire. Eu sou coordenador — disse Ruby.
— E eu
sou uma treinadora, mas não pretendo disputar a Liga esse ano — complementou
Miriam. — Vim para Hoenn por causa da Batalha da Fronteira.
—
Entendo. Mesmo assim eu sugiro que façam a prova, só para testar seus
conhecimentos mesmo. Vocês podem acabar aprendendo coisas importantes para o
futuro.
Miriam e Ruby trocaram olhares rapidamente, e depois pareceram concordar com a ideia.
—
Nesse caso acho que vamos fazer a prova sim. Obrigado pela sugestão — disse
Ruby sorrindo.
—
Certo. Bom, eu tenho que ir agora. Estou indo para uma reunião. A prova será
daqui a dois dias, mas como se trata de conhecimentos básicos vocês não deverão
ter muito trabalho para se preparar. Desejo-lhes boa sorte, especialmente para
você, Sapphire. Estarei no aguardo para ver suas habilidades quando for
desafiar o ginásio.
A mulher enfim entrou no local, enquanto o trio permaneceu no pátio
principal encarando o prédio. Dos três, Sapphire era a quem parecia estar mais
distante. Sua mente trabalhava a todo vapor com os mais variados pensamentos do
que poderia acontecer a partir do momento em que ela cruzasse a porta de entrada.
Era chegada a hora, logo a frente estava seu primeiro desafio para ingressar de
vez na vida que ela mesma escolheu. Não podia voltar atrás.
A
menina cerrou os punhos, e após uma respiração profunda começou a caminhar até
a Academia. Ao passar pela entrada, acompanhada de Ruby e Miriam, Sapphire
andou até o balcão de recepção do lugar. O funcionário que os atendeu foi
buscar os formulários para que eles preenchessem com as informações necessárias
para a inscrição do exame. Ao final do processo, eles receberam um documento de
comprovação, para ser exibido no exame, que seria realizado em dois dias a
partir daquele momento, provando que eles eram candidatos.
Os
três então saíram do prédio da Academia, e caminharam de volta à rua. Cada um
guardou seu comprovante em suas respectivas mochilas, para que não houvesse o
risco dos mesmos se perderem no caminho de volta ao Centro Pokémon.
— Acho
que deveríamos estudar para nos prepararmos, não é? — Miriam sugeriu.
— Sim!
— Sapphire respondeu prontamente. — Eu não posso falhar nesse exame de jeito nenhum!
• • •
Birch
estava sentado em uma das mesas de seu laboratório, lendo um dos relatórios
daquela semana entregues por um de seus assistentes. Ele já estava desligado do
mundo exterior, quando foi despertado pelo som de batidas na porta. Ao abrir,
surpreendeu-se ao dar de cara com Norman, que estava de passagem por
Littleroot.
—
Posso entrar? — perguntou o líder.
—
Claro, à vontade! — Birch respondeu enquanto abria a porta para que o amigo
pudesse passar.
—
Resolvi aproveitar para ver um velho amigo. Como estão as coisas aqui no
laboratório?
—
Estão bem mais tranquilas depois que a Sapphire partiu, mas ela realmente faz
falta — disse o pesquisador rindo. — Ela era muito útil com as pesquisas de
campo, e pude avançar em várias teses por conta dela.
Norman
caminhou até o sofá que ficava de frente para onde Birch estava sentado, e lá
se acomodou. Parecia estar um pouco cansado, mas nada que um dia de folga não
pudesse resolver.
— A
minha casa também está um pouco estranha sem o Ruby. Às vezes consigo ouvir a
voz dele me dizendo que algo lá está desorganizado. Essas crianças não nos
deixam em paz nem quando estão longe. Onde será que eles estão agora?
— Dado
o tempo que eles partiram, é possível que já estejam próximos a Rustboro, mas
não tenho certeza. Tudo depende se o ritmo deles é mais rápido ou devagar.
A
conversa parou por um momento, com os dois olhando fixamente para a parede.
Estavam pensando no que o futuro poderia reservar para seus filhos, até que
Norman quebrou o silêncio.
— Acha
que eles podem chegar longe? — perguntou.
—
Potencial eles têm, mas tudo vai depender da dedicação e do compromisso deles.
Por mais talentosos que possam ser, eles não podem passar a vida toda achando
que estão em um jogo de videogame ou algo do tipo. Mas eu acredito que eles já
possuam essa mentalidade.
—
Mudando de assunto, o que acha de passar lá em casa na sexta da semana que vem?
— disse Norman. — Vamos assistir juntos o desafio do novo campeão da Liga
contra a Elite.
— Já
que me convidou eu aceito. Estou precisando dar um descanso, tenho trabalhado sem
parar nas últimas semanas. Ainda tenho que orientar alguns treinadores novos
que estão chegando para buscar o primeiro Pokémon.
— Fique
tranquilo, lá em casa você vai relaxar. Vou comprar algumas cervejas e
deixá-las guardadas então.
— Por
favor, eu ia justamente pedir isso — Birch caiu na risada, em seguida tirando
dinheiro do bolso e entregando a Norman. — Aqui está a minha parte. Se você vai
me receber na sua casa, então me deixa pelo menos pagar metade.
Norman
aceitou o dinheiro, mesmo estando sem jeito, e logo tratou de se despedir do
pesquisador.
— Bem,
eu preciso voltar para Petalburg. Não posso largar o ginásio por muito tempo, e
também não quero atrapalhar o seu trabalho. Te espero na sexta então. Leve
Cecilia. Helena tem trabalhado demais nos projetos dela, então é bom ter alguém pra distraí-la um pouco de vez em quando. Tenho certeza de que ela vai adorar a visita.
— Pode
deixar — disse Birch ainda sentado, enquanto acenava para o amigo que partia.
Após a
saída de Norman, Birch ficou sentado por mais um tempo refletindo.
— O
desafio da Elite... Aquele garoto que venceu a última Liga é incrível. Será que
algum dia a Sapphire vai chegar tão longe?
• • •
Após
dois dias se preparando para o exame Sapphire, Miriam e Ruby chegam à Academia
Pokémon. Era chegada a hora de colocar seus conhecimentos a prova,
especialmente a primeira, que estava lá por precisar passar naquele teste para
ter o direito de enfrentar Roxanne.
Quando
todos os candidatos estavam na sala esperando a prova começar, um dos instrutores
chamou a atenção de todos para que pudesse explicar alguns detalhes do
processo.
—
Inicialmente eu gostaria de dar as boas vindas a todos os candidatos, e desde
já os parabenizo pela iniciativa de tentar enfrentar o ginásio de Rustboro. O
exame terá três horas de duração, e todas as questões são de múltipla escolha.
O tema do exame, como já informado, é um conjunto de conhecimentos básicos
essenciais para um treinador. Não podemos permitir que alguém vá disputar a
Liga Pokémon sem saber a maioria dessas informações. Não preciso avisar a vocês
que colas têm como consequência a eliminação imediata do candidato. Serão
aprovados aqueles com nota igual ou superior a 7,0 de um total de 10,0 — ele
então olhou para a porta da sala, e percebeu a presença de uma pessoa. — É só
isso que tenho a dizer. Porém, antes de iniciarmos, vocês receberão algumas
palavras da líder do ginásio de Rustboro, Roxanne.
Da
porta surgiu ninguém menos que a mulher que havia dado carona para Sapphire,
Ruby e Miriam no dia em que estiveram no ginásio, deixando os três pasmos com a
situação. Ela notou a expressão do trio, sorriu e então caminhou até o local
onde estavam os instrutores, se colocando a frente deles e voltada para os
candidatos.
— Como
líder do ginásio de Rustboro, gostaria de agradecer a todos os presentes por
vir tentar o exame de admissão para desafiar o ginásio. É um ato, acima de
tudo, de coragem e autoconfiança que todo treinador precisa ter, principalmente
quando se tem um objetivo tão ambicioso quanto buscar uma vaga na Liga Pokémon.
Tenho certeza que todos aqui se prepararam bastante, e estarei aguardando os
aprovados para marcarmos a data das batalhas. Boa sorte a todos.
Roxanne
então saiu da sala, e a partir dali os instrutores começaram a distribuir as
provas para que o exame tivesse início. Assim que o relógio da sala apontou o
horário combinado para o início do exame o sinal foi dado para que os
candidatos virassem suas provas e enfim começassem o teste. O barulho das
provas sendo folheadas e algumas pontas de caneta já sendo arrastadas pelas
folhas de papel já podia ser ouvido. No entanto, todos os presentes permaneciam
em silêncio, o que ajudava a aumentar a tensão no local.
Ao
término do tempo limite, as provas foram sendo recolhidas pelos instrutores. Os
candidatos permaneciam na sala, agora mais soltos, podendo ficar de pé para
esticar as pernas e conversando entre si para tentar disfarçar a apreensão.
Passaram-se
quase duas horas após o fim do exame. A impressão era a de que já estavam por uma eternidade
naquele local. Todos aguardavam com ansiedade o resultado do exame de aptidão,
e era impossível prever o que aconteceria. Por mais confiantes ou pessimistas que
os candidatos pudessem estar, tudo ali não passava de puro achismo. Não dava
para ter certeza de nada, e não existiam resultados improváveis, sejam
positivos ou negativos.
O
instrutor então volta à sala onde o exame foi aplicado. Dentre os candidatos a
desafiar o ginásio, várias expressões diferentes podiam ser vistas. Algumas
confiantes, outras já pareciam ter desistido daquela tentativa. Apesar de não
possuírem a mesma intenção, Ruby parecia tranquilo com o andamento da prova,
enquanto Miriam estava um pouco mais nervosa.
—
Aqueles que tiraram a nota acima de 7,0 estão aptos a enfrentar o ginásio de
Rustboro. Estes podem se dirigir à secretaria para retirar seus certificados,
que deverão ser mostrados no local e dia da batalha. Quanto aos
desclassificados, podem tentar novamente daqui a duas semanas. Até lá estudem
bastante. A biblioteca da cidade está à disposição de vocês, e lá encontrarão
material de estudo suficiente para se prepararem para o próximo exame.
Agradecemos a participação de todos, e agora entregaremos seus resultados.
O
homem passava de mesa em mesa entregando os resultados aos candidatos, que um a
um iam exibindo sorrisos ou olhares de reprovação. Assim que recebeu seu exame,
Sapphire não deixou de esconder um sorriso vitorioso, e matou a curiosidade de
seus amigos exibindo um belo 9,0. Miriam então foi encoberta pela sombra do
instrutor e gelou na mesma hora, porém foi surpreendida ao ver um 7,0 marcado
em seu resultado.
— Eu
passei? — indagou, enquanto coçava os olhos a fim de certificar-se de que não
estava sendo enganada por eles. — EU PASSEI, NÃO ACREDITO!
—
Acalme-se, Miriam... — ia dizendo Sapphire, antes de ser interrompida pela
garota.
— Dra.
Miriam pra você! Eu sou uma pessoa altamente instruída. Meu nível acadêmico é
reconhecido!
Faltava
apenas Ruby. O garoto sorria orgulhoso, dando sinais de que confiava plenamente
em suas capacidades. Desde pequeno devorava os incontáveis livros que seu pai
possuía em casa. Conhecia os mais avançados termos técnicos e sabia tudo sobre
treinamento e criação Pokémon. Ou melhor, quase tudo.
Ao se
deparar com sua nota sua expressão vitoriosa desabou em uma fração de segundos.
—
CINCO? — berrou o garoto, chamando a atenção dos presentes na sala. Ele logo se
levantou e dirigiu sua palavra ao instrutor. — Com licença, eu acho que houve
um erro no meu resultado!
O
instrutor pegou o exame das mãos de Ruby e começou a revisar a correção
realizada pela Academia. Após alguns instantes o rapaz devolveu o exame ao
garoto.
—
Sinto muito, mas a correção está correta. Este foi o seu resultado final. Se
quiser tentar novamente, sugiro que estude mais um pouco.
"Estude
mais um pouco". As últimas palavras do instrutor ecoavam na mente de Ruby.
Aquele havia sido o golpe de misericórdia no orgulho do garoto, de forma que
ele precisou ser carregado para fora da sala por Miriam e Sapphire. Pouco tempo
depois eles estavam sentados em um banco em uma das praças da cidade. Ruby
ficava encarando a pequena fonte central jorrar água para cima de dentro de uma
estátua de dois Barboachs entrelaçados. A expressão desiludida do garoto era
visível, uma vez que não estava acostumado a fracassos, especialmente quando se
tratava de seu nível de conhecimento sobre determinado assunto.
— Ei,
relaxa — disse Sapphire enquanto tocava o ombro de seu amigo, em uma tentativa
de confortá-lo. — Nós sabemos que você é inteligente, e conhece bastante sobre
Pokémons.
—
Então pode me explicar por que eu fui reprovado? — normalmente a fala seria
pronunciada de forma mais ríspida, mas o desânimo de Ruby era tamanho que ele
sequer conseguia alterar o tom de sua voz para um que não fosse o de total
desinteresse naquela conversa.
— É
porque você passou muito tempo lendo e pouco praticando — interveio Miriam,
atraindo a atenção do garoto. — Você precisa conviver mais com seus Pokémons,
batalhar lado a lado com eles, interagir com eles. Falando sério, eu nem sei
quais são os Pokémons que você tem, mesmo tendo te conhecido já há alguns dias.
Ruby
sabia que Miriam tinha razão. Era um detalhe tão básico, tão óbvio, que ele não
conseguia nem mesmo se perdoar por tê-lo deixado passar despercebido daquela
maneira. Inclusive porque seu pai repetia essas mesmas palavras até a exaustão
quando ia ensiná-lo algo novo. Mas só de pensar naquele Treecko mal-humorado
Ruby já começava a entender que ele deixou esse detalhe escapar de propósito.
— No
meu caso isso é um pouco mais complicado do que parece — resmungou o garoto.
— Não
entendi — Miriam fez uma expressão confusa.
—
Miriam, eu acho que sei o que está acontecendo — Sapphire interveio. — Ruby, se
o problema está na personalidade do seu Treecko, então você precisa se adaptar
a ele. Tente dar a ele um pouco mais de liberdade, como eu fiz com o Torchic.
Talvez isso ajude.
— Não
sei, às vezes eu tenho a sensação de que ele vai sair da Pokéball à noite e me
matar. Ele realmente não gosta de mim.
—
Queria que ele já viesse te amando? — perguntou Miriam. — Nem com outras
pessoas as coisas funcionam desse jeito. Você precisa conquistar a confiança
dele. Mostre que você o escuta, e com o tempo as razões do comportamento do seu
Treecko vão aparecer.
— Como
posso fazer isso?
— Eu
vou te ajudar batalhando com você, pois assim eu posso analisar o Treecko. Mas
não agora. Daqui até o dia da batalha contra a Roxanne eu estarei ajudando a
Sapphire a se preparar. Mas logo que ela terminar a batalha nós vamos dar um
jeito na sua relação com o seu Pokémon.
Ruby
abriu um sorriso tímido. Ele não sabia como seria esse teste, tampouco como o
seu Treecko reagiria a isso. Mas Miriam era mais experiente que ele, e de certa
forma passava mais segurança ao dizer que ia ajudá-lo.
— Tudo
bem então, temos um acordo.
Os
três chegaram ao Centro Pokémon ao final do dia para poder descansar. Assim que
alcançaram a recepção, Sapphire foi notificada de que sua batalha contra
Roxanne havia sido marcada para acontecer em quatro dias. Seria um período importante
para se preparar para o desafio, então ela tratou logo de subir para o quarto e
recuperar as energias. Ruby chegou a sugerir que fossem a um dos cafés da
cidade para relaxarem, mas a garota parecia levar a sério o que estava por vir.
E deveria.
— Não
vale a pena focar somente nos ginásios, você tem que sair e relaxar um pouco —
disse Ruby, mostrando certa preocupação.
—
Preciso me concentrar agora, senão eu não vou conseguir treinar bem —
Sapphire respondeu enquanto se sentava na cama do quarto reservado e tirava a
bolsa onde carregava seus itens. — Prometo que quando eu resolver o meu desafio
no ginásio nós vamos sair para nos divertir um pouco.
Quem
permanecia mais quieta naquele momento era Miriam, o que era algo raro. Ela
estava sentada em uma cadeira, lendo alguns papéis usando a luz de um abajur, e
parecia estar bastante concentrada.
— E
você, o que está fazendo? — Sapphire ficou curiosa. — Não é normal você estar
tão quieta assim.
— Eu
estava vendo os locais da Batalha da Fronteira. São sete edifícios ao todo. Um
deles é perto daqui...
Miriam apoiou as mãos na escrivaninha para se levantar mais rápido.
Então ela se virou para Sapphire.
—
Parece que os próximos dias de treinamento não serão só pra você — Miriam agora
tinha um sorriso que demonstrava excitação, mas também um pouco de nervosismo.
— E eu não vou poder pegar leve.
— E
quem disse que eu queria que você pegasse leve? — Sapphire se animou com a
situação, pois se Miriam ia batalhar sério então era sinal de que o treinamento
seria produtivo.
Ruby
mantinha um sorriso disfarçado ao ver as duas companheiras entusiasmadas, mas
logo voltou à sua expressão de preocupação. Se perguntava se algum dia ele
conseguiria carregar a mesma determinação e confiança de suas amigas, e sentia
que se não fizesse alguma coisa ele rapidamente ficaria para trás. Não queria
ser apenas um coordenador normal. Queria se tornar o protagonista de sua
própria história. E sabia que para alcançar isso precisaria trabalhar muito
duro.
O
tempo passava, e os primeiros desafios do trio de viajantes se aproximavam. Era
hora de cada um esquecer um pouco o ar deslumbrante do início da jornada, e
passar a focar em seus objetivos. Dali em diante eles estariam de frente para
os obstáculos que determinariam se eles são capazes de continuar.
Notas do Autor - Capítulo 6

Caramba, eu me dei conta de que estava há muito tempo sem postar nada quando o leitor Dark Zoroark me deu parabéns por completar 1 ano e 5 dias desde o último capítulo. Mas o importante é que eu me animei novamente com a história, e se tudo der certo não teremos mais hiatos desse tipo. Como compensação eu já dou a garantia de capítulos para as próximas duas semanas (dias 16 e 23), e ao que tudo indica teremos também para o dia 02/03, o que fecharia 4 semanas seguidas (sério, eu não alcanço uma marca dessa desde a Hoenn antiga).
Capítulo 7 e especial do Gym Leader's Life (aquele mesmo de Sinnoh, explicarei os detalhes nas notas do primeiro capítulo) já prontos e revisados (Tsuki como sempre salvando a pátria), e o capítulo 8 se encaminhando para as últimas linhas — espero terminá-lo hoje ou amanhã. Já comecei a escrever o 9 também, e tenho ainda alguns posts de conteúdo para serem lançados a medida que os capítulos forem caminhando (estes não serão lançados agora, porque dependem dos capítulos futuros, então colocá-los antecipadamente poderia dar alguns spoilers).
Sobre o capítulo, ele já estava pronto desde setembro para ser sincero, mas eu não queria postá-lo isoladamente e depois largar vocês por um longo período sem nada novamente, então eu decidi concluir outros capítulos enquanto vou escrevendo novos. Assim, caso algum imprevisto aconteça, a gente tem uma quantidade de conteúdo de segurança, assim vocês leitores não saem mais prejudicados do que já foram. Peço desculpas mesmo.
Eu estava receoso durante a semana, achando que o capítulo estava pequeno. Até porque não tinha como ele ficar muito grande. Era um capítulo de ligação mesmo, que serviu para juntar a Miriam com a nossa dupla de protagonistas que se juntaram lá no segundo capítulo ainda, e também para introduzir um novo membro na equipe da Sapphire — prestem atenção nesse Shroomish, porque esse personagem vai ter uma importante atuação no ginásio em Rustboro!
Voltando ao assunto, eu achei o capítulo um pouco pequeno, mas com o feedback positivo que recebi no primeiro dia eu já fico mais tranquilo. De qualquer forma, prometo que o 7 e o 8 estão maiores. Sério, o 7 eu quebrei o recorde de palavras escritas em um capítulo, e se tudo continuar nesse ritmo o 8 vai quebrar o recorde do próprio capítulo 7. Estou bastante empolgado com minha produtividade.
Como puderam perceber, voltei a usar o nick antigo. Vocês já devem estar passando raiva de cada hora me chamar por um nick diferente... Mas sei lá, agora que estou no caminho da produtividade eu me sinto revivendo aqueles tempos da Hoenn antiga, onde eu conseguia postar semanalmente, e acredito que a maioria até prefira me chamar de Shadow, até pelo tempo enorme que usei esse apelido. Mas fica a critério de vocês qual dos dois nicks vão utilizar. Responderei em ambos os casos.
Acho que é isso. As notas desse capítulo até que ficaram extensas. Me pergunto se alguém vai ter paciência pra ler tudo kkkkkkk
Obrigado pela atenção e pelo apoio de sempre, e até a próxima semana! õ/
Capítulo 6
O Bosque Petalburg

Miriam passava com dificuldade entre os arbustos da mata fechada do Bosque de
Petalburg. O contato com as plantas empoeirava as suas roupas, além dos arranhões causados por galhos e espinhos. Já esteve em situação parecida quando tinha
que caminhar pela Floresta de Viridian, mas ainda assim não deixava de ser
irritante. Aos poucos já perdia a paciência.
O
bosque dividia em duas a rota 104, responsável por ligar diretamente a cidade
de Petalburg, que dava nome à mata, à Rustboro, capital e maior metrópole da
região de Hoenn. Era nada menos que uma muralha de árvores que ficavam tão
próximas umas das outras que a luz do sol mal tocava o chão dentro do
território. Uma floresta densa, e com caminhos confusos que fariam qualquer
treinador inexperiente se perder.
A
menina caminhava a passos largos. Queria sair dali o mais rápido possível.
Apesar de já não ser mais uma iniciante, não queria se dar o luxo de vagar por
muito tempo naquele lugar, correndo o risco de se perder em uma área
desconhecida, e que poderia abrigar alguns perigos como plantas venenosas e
Pokémons selvagens de comportamento mais hostil.
— Que
droga! Desse jeito não vou chegar ao outro lado nunca! — resmungava enquanto
revirava um mapa da região. — E essa porcaria não me mostra nenhuma trilha ou
saída próxima! Eu vim enfrentar a Batalha da Fronteira e vou morrer antes de
chegar à primeira arena! Daqui a 3 meses as autoridades vão encontrar um corpo
em decomposição, e a autópsia vai mostrar que pertencia a uma garota burra e sem senso de direção!
Visivelmente
estressada, ela volta sua visão para cima, tentando olhar por entre as copas
das árvores.
— OH,
MÃE NATUREZA, ESPÍRITOS DA FLORESTA, CELEBI, QUEM QUER QUE SEJA! ME MATEM LOGO
PRA ME LIVRAR DESSE PURGATÓRIO VERDE!
Continuava
andando, parecia completamente sem rumo e sem saber o que fazer. O tempo
parecia passar cada vez mais devagar, como se ela ficasse presa naquele
momento, sem nenhuma perspectiva de mudar a situação. Foi então que escutou os
arbustos se mexendo atrás de si, e então se virou para verificar o que estava a
espreita. Viu então que era um pequeno Zigzagoon que corria assustado.
Miriam pensou por alguns instantes, até que resolveu averiguar o que estava acontecendo
na direção oposta.
— Se
eu continuar aqui, não vou conseguir encontrar a saída do bosque. Pode ser que
lá eu consiga alguma pista de como encontrar a saída...
Assim
que tirou as folhagens de frente de sua visão percebeu que um confronto estava
ocorrendo logo em sua frente. Uma menina comandava um pequeno Torchic contra um
Shroomish. Ela tinha dificuldade para se alinhar ao seu parceiro, mas tentava
de todas as formas possíveis colocar suas estratégias em prática. A resistência
partia justamente da pequena criatura de fogo, que parecia não querer batalhar
ou seguir as ordens, e isso tornava difícil uma batalha onde ele tinha a vantagem sobre o tipo de seu adversário.
Miriam então se posicionou atrás de uma árvore para não atrapalhar a treinadora e
ficou observando com atenção o desfecho daquele confronto. Ela finalmente tinha
a oportunidade de descobrir como era o estilo de batalha utilizado em Hoenn.
• • •
Um
rapaz observava a cidade de Rustboro pela janela de uma das salas da
Corporação Devon. Apesar de ser jovem, ele já era considerado uma figura importante
na multinacional. Ainda que ser o filho do presidente e fundador tenha facilitado sua escalada, seu repertório de habilidades e projetos era suficiente para que sua capacidade não fosse questionada. Seus cabelos eram de cor azulada, coincidindo com a dos seus
olhos estáticos, que pareciam admirar a gigante paisagem de concreto, mas que
hora ou outra se perdiam em pensamentos dos mais variados tipos.
Acima
da mesa uma carta escrita a mão, com letras quase desenhadas e um papel
elegante. Parecia um convite de casamento, mas na verdade era apenas uma carta
comum enviada por alguém próximo. Toda vez que o jovem observava a carta um
sorriso sereno se abria em seu rosto, mas por um momento seus devaneios foram
interrompidos por uma batida na porta do escritório.
—
Senhor Stone, ela chegou — disse a recepcionista do andar, após abrir a porta
e colocar apenas sua cabeça para dentro da sala. — Posso mandá-la entrar?
— Sim Alice,
por favor.
Pela
porta passou uma mulher de aparentemente trinta anos de idade, vestida de
maneira elegante e com um olhar sereno. Sua expressão era séria, mas não de uma
maneira intimidadora. Pelo contrário, era o tipo de pessoa que, apesar da pouca
idade, passava uma sensação de sabedoria imensa.
— Cada
vez mais me impressiono com sua pontualidade, Roxanne. Nem um minuto a mais,
nem um minuto a menos.
—
Acredito que pontualidade não deveria ser vista como uma virtude, Steven, mas sim como
uma prática comum. Bem, antes de começarmos eu gostaria de parabenizá-lo pela
conquista da Liga Pokémon. Vejo que se esforçou muito, e não é mais aquele
garoto imaturo que eu enfrentei há exatamente um ano.
—
Obrigado. Muito dessa conquista eu devo ao que aprendi com você e os outros
líderes.
— E
então? Quando você vai enfrentar a Elite?
— Não
faço ideia. Ainda estou aguardando o convite deles. Mas tudo indica que será em
breve, visto que os ginásios já estão abrindo para receber os desafiantes da
nova temporada.
— Nem
me fale — Roxanne soltou um suspiro. — Fico imaginando que tipo de talentos eu
poderei presenciar este ano.
—
Tenho certeza que você vai encontrar algum desafiante promissor cedo ou tarde.
Então, por que não se senta?
Assim que
a moça se sentou em uma das cadeiras, Steven prontamente serviu um pouco do
café que havia na sala. O rapaz era realmente bem receptivo, e apesar do
sucesso prematuro não deixava de ter uma personalidade modesta. Roxanne
compreendia muito bem aquilo, já que vinha de uma família sem muitos
luxos e conseguiu conquistar seu espaço com o próprio esforço.
— Por
que me chamou aqui?
Steven
então se sentou recostado em sua cadeira e com os braços cruzados. Sua
expressão agora era de alguém intrigado, o que despertou a curiosidade de
Roxanne. Não era qualquer coisa que conseguia deixar o jovem executivo tão
pensativo.
— Você
certamente está ciente do tremor que foi sentido nos arredores do Monte
Chimney, estou certo?
— Sim,
e devo dizer que foi muito estranho. O Departamento de Geologia da cidade não
detectou nenhuma movimentação nas placas tectônicas que abrisse precedentes
para um terremoto ou mesmo para uma erupção vulcânica.
— Está
pensando o mesmo que eu?
Roxanne
bebeu um gole do café e calmamente colocou a xícara sobre a pequena mesa de
canto que estava próxima.
—
Alguém está metendo o nariz onde não deve.
—
Exatamente. Por isso estou formando uma força-tarefa de especialistas para
fazer uma rápida investigação no Monte Chimney. Desde geólogos a sismólogos, eu
estou reunindo pessoas de conhecimentos notáveis, e por isso estou convidando
você a liderar essa expedição.
A
mulher se assustou com o convite inesperado, ainda mais pelo fato de que o
próprio Steven poderia exercer aquela tarefa facilmente. Os dois praticamente
se igualavam em intelecto, e por isso na visão de Roxanne ela não seria
necessária. Prevendo os questionamentos de sua convidada, o rapaz se
prontificou a explicar a situação.
— Como
eu disse antes, estou na iminência de receber a chamada da Elite para o desafio
final, e ao mesmo tempo estou atolado de serviços por conta de um projeto em
desenvolvimento aqui na empresa, o qual estou chefiando. Acredito que você tem
um faro muito melhor para coletar informações, e consegue identificar detalhes
que eu não seria capaz.
Roxanne
queria aceitar o convite, mas assim como Steven ela possuía suas
responsabilidades. Ela tentava visualizar seu calendário para encontrar alguma
brecha, mas aparentemente os próximos dias seriam bem cheios.
— Não
posso largar a Academia. No momento lido com mais de uma turma, e isso sem
contar que amanhã estou reabrindo o ginásio e já tenho um desafiante com hora
marcada. Vai ser complicado.
—
Realmente acabei não pensando no seu lado. Peço desculpas.
— Acho
que ainda devo levar um mês até conseguir abrir espaço na minha rotina.
— Para
mim é mais que o suficiente. A equipe está em fase de organização. No momento
estou escolhendo os membros ainda, e só depois pretendo traçar os planos de
pesquisa para que possamos continuar com os estudos. Não se sinta pressionada,
este é apenas um convite. A decisão é sua.
Era
difícil dizer não para alguém com uma aura tão serena. Roxanne observava o seu
café fazendo pequenas ondas com o movimento da xícara, e aos poucos se deixava
ser convencida por Steven. De certa forma já era uma vontade dela, visto que
sua fixação por estudos era implacável. Mas sabia de suas responsabilidades, e
por isso quando ouviu de seu conhecido que nada daquilo iria impactar seu dever
como professora ou líder de ginásio ela se sentiu muito mais confiante para
aceitar a oferta.
— Tudo
bem, nesse caso eu aceito o convite. Nessas próximas semanas será um pouco
complicado para eu dar atenção às informações que você vai me mandar, mas farei
o possível para conciliar tudo.
— Fico
muito feliz em ouvir isso, Roxanne — Steven se levantou de sua cadeira e
prontamente cumprimentou a líder com um aperto de mão. — Sua ajuda realmente
será preciosa nesses estudos.
A
líder então se despediu, e Steven se sentou de novo. Satisfeito, colocou para
si próprio mais uma xícara de café, e
com calma começou a olhar a papelada da empresa. Ao abrir a gaveta para pegar
uma caneta, notou que havia correspondência dentro dela. Revirando as cartas pouco
a pouco, se interessou logo por uma escrita em um papel preto e com letras
brancas. O selo estampado na mesma com o símbolo da Liga Pokémon não era nada discreto, tendo sido o suficiente para que o rapaz entendesse sobre o que a carta se tratava, antes mesmo de verificar seu
conteúdo.
—
Então já está na hora...
• • •
A
Pokéball que antes oscilava de um lado para o outro finalmente havia cessado,
sinal de que a tentativa foi bem sucedida. Sapphire caminhou até o dispositivo
e o pegou do chão, mostrando um sorriso de satisfação com a sua primeira
captura. Ruby observava curioso a cena, imaginando que tipo de reação poderia
esperar daquele Shroomish quando saísse pela primeira vez. Tinha suas dúvidas
se mostraria obediência, ainda mais depois da batalha que havia acabado de
acontecer.
— Não
acha que esse bicho pode acabar nos atacando quando sair da Pokéball?
— Uma
hora vai ter que acontecer, e quanto mais cedo melhor — respondeu a menina. —
Mas o importante mesmo é que já tenho mais um membro para a minha equipe, e
como ouvi dizer que o ginásio de Rustboro se especializa no tipo pedra, um tipo
planta será muito bem vindo.
— Sim,
mas não pense que apenas a vantagem de tipos vai garantir a sua vitória contra
um líder de ginásio — disse uma garota que repentinamente apareceu de trás das
árvores. — Eles quase sempre possuem mecanismos para lidar com essas
desvantagens, então se você não se cuidar vai acabar sendo derrotada do mesmo
jeito.
Sapphire
e Ruby trocaram olhares rapidamente, sem compreender o motivo pelo qual uma
desconhecida chegou puxando conversa com eles no meio do bosque. Então, sem querer
parecerem rudes, eles resolveram dar ideia à ela.
— Você
é uma treinadora também? — Sapphire perguntou.
— Sim,
mas não tenho intenção de competir na Liga. Estou aqui por causa da Batalha da
Fronteira. Meu nome é Miriam, e vim de Vermilion, região de Kanto.
Sapphire
disfarçadamente olhou para Ruby, e cochichou no ouvido do amigo.
— Aí,
é gringa igual a você... — disse, com um sorriso debochado.
— Cala
a boca — Ruby resmungou de volta.
Mal
terminaram de se falar e Miriam já tomou as rédeas da conversa novamente.
—
Gostei de vocês! Vou acompanhar os dois.
—
Assim, do nada? — questionou Ruby, meio desconfiado.
— Não.
Na verdade estou perdida há horas aqui no bosque, e preciso de alguém que me
tire daqui — Miriam estava ajoelhada segurando as mãos de Ruby em pose de quem
implorava por ajuda. — Você é o meu salvador? Mostre-me o caminho, mestre!
Ruby
então chegou perto de Sapphire e cochichou no ouvido dela.
— É
doida de pedra, igual a você...
—
Agora é a minha vez de te mandar calar a boca?
Os
três então passaram a andar juntos, o que trazia alívio a Miriam, que
finalmente encontraria a saída daquele bosque confuso. Ela misturava os mais
variados assuntos, simplesmente não parava de falar. Sapphire e Ruby não
conseguiam dizer nada com ela atropelando as próprias palavras, mas por
incrível que pareça não se sentiam irritados com aquilo.
— Ela
é bem comunicativa, não é mesmo? — indagou Sapphire, tendo logo em seguida uma
resposta do garoto.
— As
pessoas em Kanto costumam ser bem animadas. Deve ser coisa das cidades grandes.
Em Johto as pessoas são mais calmas, já que é uma região praticamente toda
rural.
Aos
poucos a barreira de árvores começava a se abrir, e os antes raros raios de sol
já começavam a aparecer com mais frequência, iluminando o caminho e ao mesmo
tempo indicando a saída do bosque. Sapphire comemorava sua primeira captura como
uma criança que acabou de ganhar um presente de Natal, enquanto Miriam só
agradecia por poder ver a luz do dia novamente. Ruby apenas ria com as reações
das duas garotas, tentando entender como uma podia ter tanta energia e por que
a outra fazia tanto drama.
Finalmente
chegaram ao outro lado da Rota 104, e da saída do bosque já era possível ver
alguns arranha-céus se erguendo no horizonte. Era um sinal de que o destino dos
três estava próximo. Se apertassem mais um pouco os passos, poderiam chegar a
Rustboro antes do anoitecer. Porém Sapphire não tinha pressa nenhuma em chegar
logo. Ela então propôs que o trio acampasse junto na estrada naquela noite e Miriam aceitou a sugestão, para completo desespero de Ruby.
Aproveitaram
o que restava de luz do dia para procurar por árvores frutíferas, de onde
tiraram algumas berries para não passarem fome durante a noite. Ao escurecer, a
rota era tomada por uma brisa fresca, típica das noites de verão tão comuns em
Hoenn. O luar iluminava a superfície do grande lago ali presente, e na ponte
que ligava a estrada de terra ao outro lado era possível ver pessoas sentadas
vislumbrando a vista, desde outros viajantes até casais de namorados, outra prova
de que a cidade já não estava mais tão distante.
Resolveram
acender uma fogueira. Não por causa de frio, já que era uma noite agradável,
mas sim para sentarem-se ao redor dela e conversarem até que o sono chegasse.
Miriam contava suas experiências como treinadora quando ainda estava em Kanto,
mostrando que ela já era um pouco mais experiente do que aparentava, e os três
compartilhavam seus sonhos para o futuro. A morena então se levantou, chamando
a atenção de Ruby e Sapphire, e fez um pedido.
— Se
não for incômodo, eu gostaria de acompanhar vocês daqui pra frente. Sinto que
vou ver muitas coisas interessantes se seguirmos viagem juntos.
— Por
mim tudo bem — respondeu Ruby. — Mas será que não vai atrapalhar o seu caminho?
Você disse mais cedo que veio para enfrentar a Batalha da Fronteira, e as
instalações deles têm locais muito particulares. Pode acabar não batendo com o
nosso caminho.
— Eu
dou meu jeito. Se eu consegui sair viva daquele bosque maldito, é porque eu tenho
a sorte ao meu lado!
— Na
verdade fomos nós que tiramos você de lá, esqueceu? — disse Sapphire, segurando
o riso.
—
Exatamente! Vocês dois são meus amuletos da sorte! — Miriam agarrou cada um com
um braço e os trouxe para junto de si. — Por isso não vou largar de vocês até
que me transformem na Rainha do Universo! Eu vou governar essa bagaça toda!
— Eu
tento imaginar que tipo de universo seria, mas sinceramente tenho medo... —
sussurrou Ruby.
Ao fim
de toda aquela conversa, os jovens viajantes apagaram a fogueira e então se
puseram a dormir. O dia seguinte reservaria para todos eles uma nova
experiência. Rustboro, a grande metrópole e capital da região de Hoenn, os
aguardava. E com ela o primeiro grande desafio de Sapphire.




















